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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DA ÁSIA 



D E 

JOÃO DE BARROS 

DOS FEITOS, QUE OS PoRTUGUEZES FIZERAM 

NO DESCUBRIMENTO ? E CONQUISTA DOS 

MARES , E TERRAS DO ÕíUENTE. 

DÉCADA PRIMEIRA 

PARTE SEGUNDA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica. 
anno mdcclxxvh. 

Com Licença da Real Mesa Cenforia , e Privilegio Real. 





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/ 

> 



ÍNDICE 

DOS CAPÍTULOS , QUE SE CONTÉM 
NESTA PARTE II. 

DA DÉCADA I. 

LIVRO VI. 

CAP. I. Como EIRey D. Manuel, de- 
pois que Fedralvares Cabral veio 
da índia y por razão dejle defcubri- 
mento , e conquijla delia , tomou o titu- 
lo , que ora tem a Coroa dejle Reyno de 
Portugal , e a razão , e caufa deile. Pag. i. 

CÁP. II. Como o Almirante D. Vafco da 
Gama partio dejle Reyno o anno de qui- 
nhentos e dons com hum a grande frota : 
e o que pajjbu nejle caminho té chegar 
a Moçambique. 21. 

CAP. III. Como partido o Almirante de 
Moçambique 3 foi ter d Cidade Quiloa y 
onde fe vi o com o Rey delia , e o fez tri- 
butário , e dahi fe partio pêra a Índia , 
onde , ante de chegar a Cananor , tomou 
a não Merij do Solda o do Cairo. 29. 

CAP. IV. Como o Almirante fe recolheo pa- 
ra Cananor , e das viflas que houve en- 

m tre elle , e EIRcy : e depois fobre o af- 
fentar o preço das efpe ciarias ?, fe partio 
para Cochij de f avindo de lie ^ e o que fo- 
bre iffo fuccedeo. 39. 
* ii CAP. 



Índice 

CAP. V. Como o Almirante fe par tio via 
de Calecut : e o que fez chegando a elle , 
e dahi fe parti o caminho de Cochij , fi- 
cando em maior quebra com o Çamorij 
do que eflava dantes. 47. 

CAP. VI. Como EIRey de Cananor por meio 
de Payo Rodrigues tornou a conceder as 
coufas que o Almirante lhe requeria , o 
qual recado lhe levou Vicente Sodré a 
Cochij , onde elle já eflava : e das coufas 
que emfua chegada pajfou com EIRey de 
Cochij. 55-. 

CAP. VII. Como o Almirante , per hum ar- 
tificio de engano , que hum Brâmane te- 
ve com elle , foi ter ao porto de Calecut , 
onde pajfou grande rifco de lhe queima- 
rem a ndo j e o que fobre ijfb fez : pnf- 
fado o qual trabalho , partio pêra efie 
Reyno ^ onde chegou a fah amento. 65 . 

LIVRO VIL 

CAP. I. Como o Çamorij Rey de Cale- 
cut pornoffa caufa fez guerra a EI- 
Rey de Cochij^ e oquefuccedeo della.Yag.77. 
CAP. II. Como EIRey J). Manuel o anno 
de quinhentos e três mandou d índia no- 
ve nãos repartidas em três capitanias y 
de que erait Capitães mores Ajfonfo de 
Alboquerque > Francifco de Alboquerque > 

e Ain* 



dos Capítulos 

e António de Saldanha : e como Vicente 
Sodré fe perdeo , e de agur a? crufas y 
que os Alboquerques fizeram for refituir 
a ElRey de Cochij , que tinha perdido na 
guerra , que lhe fez* o Çamorij. 8f. 

CAP. HL Como a Rainha de Coulao man- 
dou pedir aos Capitães que fojjem duas 
nãos tomar carga aofeu porto : e da paz 
que o Çamorij fez com elles , a qual lo- 
go quebrou ? e tornou á guerra , por a 
qual caufa Duarte Pacheco ficou com a 
fua náo , e duas caravelas em guarda de 
Cochij : e do que os outros Capitães paf- 
fáram vindo para efte Reyno. o 8. 

CAP. IV. Do que António de Saldanha , e 
dous Capitães , obrigados a fua bandei- 
ra , pajjdram depois que partiram d efte 
Reyno o anno paffado de quinhentos e três , 
depois da partida dos Alboquerques té 
chegarem d Índia. 103. 

CAP. V. Como o Çamorij veio com grande 
poder de gente , e apparato de guerra 
per terra , e per mar fohre ElRey de 
Cochij : e das vistorias 5 que os noffos 
delle houveram. 116. 

CAP. VI. De algumas viRorias , que os 
noffos houveram do Çamorij : e das in- 
duflrias , e ardis de guerra , que os Brâ- 
manes , e Mouros do feu arraial lhe in- 
ventaram pêra o confolar das perdas 9 



N D I G E 



que houve , e perigos per que paffou. 123. 

CAP. VIL De algumas coufas , que o Ca- 
morij Rey de Calecut ordenou , e commet- 
teo contra os noffòs , e EIRey de Cochij , 
na guerra , que tinha com elle : e do que 
Duarte Pacheco nijfo fez* 131. 

CAP. VIII. Como o Çamorij de Calecut, 
com humas máquinas de cajlellos em bar- 
cos , e elle per terra veio commetter os 
nojjos : e dejlas , e de outras vezes , que 
commetteo querer pajjar o rio , ficou tão 
desbaratado , que Jè recolheo pêra feu 
Rey no. 141. 

CAP. IX. Como EIRey por as novas , que 
teve da índia per o Almirante D. Vaj- 
co da Gama , o anno feguinte de quinhen- 
tos e quatro , mandou huma grande Ar- 
mada , de que foi por Capitão mor Lo- 
po Soares : e do que paffou da partida 
de Lisboa té chegar a Cochij. 148. 

CAP. X. Como Lopo Soares a requerimen- 
to d' EIRey de Cochij deo em Cranganor , 
e o deftruio : e da ajuda que mandou a 
EIRey de Tanor , e as ca ufas porque. 156. 

CAP. XI. Como Lopo Soares , depois de fei- 
ta fua carga de efpeciaria , e efpedido 
d/ElRey de Cochij , de caminho deo em 
hum lugar d"* EIRey de Calecut chamado 
Panane , onde pelejou com alguns feus 
Capitães 5 que ejlavam em guarda de 

dez- 



dos Capítulos 

âezefete náos , as quaes queimou ; e aca- 
bado efe feito , partio pêra efe Reyno , 
onde chegou a falv amento. 163. 

LIVRO VIII. 

CAP. I. Do modo 5 que fe navegavam 
as efpeciarias té virem a eftas par- 
tes da Europa ante que défcubrijfemos , 
e conquifajfemos a índia per efe nojfo 
mar Oceano : e das embaixadas , que os 
Mouros , e Príncipes daquellas partes 
vtanddram ao Soldao do Cairo , pedindo- 
lhe ajuda contra nós. Pag. 174. 

CAP. II, Como o Soldao do Cairo efcreveo 
ao Papa per hum Religiofo da Cafa de 
Sanãa Çatharina de Monte Sinay , aquei- 
xandofe das nojfas Armadas da índia ; 
e como o Papa mandou o próprio Religio- 
fo a ejie Reyno ^ e do quefe lhe refpondeo. 182. 

CAP. III. Como nejle anno de quinhentos e 
finco mandou EIRey huma groffa Armada 
d índia , de que foi por Capitão mór Dom 
Francifco de Almeida , que depois foi in- 
titulado por Vifo-Rey delia. 191. 

CAP. IV. Em que fe defcreve a parte da 
cojla de Africa , em que ejiá Jituada a 
Cidade Quiloa 5 d qual terra os Arábios 
propriamente chamam Zanguebar , e 
Ptholomeu Ethiopia fobre Egypto. 204. 

CAP, 



Índice 

CAP. V. Como D. Francifco de Almeida 
fahio em terra , e tomou a Cidade de 
Ou i loa , fugindo EIRey pêra a terra fir- 
me. 216. 

CAP. VI. Como a Cidade Ouiloa fe fun- 
dou , e os Reys que teve té fer tomada 
per nós: e como D. Francifco de Almei- 
da nwamente fezRey delia a Mahamed 
Anconif 223. 

CAP. VII. Como acabada a fortaleza de 
Ouiloa , e provido Capitão , e os Officiaes 
delia , D. Francifco fe partio pêra a Ci- 
dade Mombaça > a qual determinou de 
tomar pelo que ncíla paffòu. 235*. 

CAP. VI Ií. Como D. Francifco de Almei- 
da tomou a Cidade Mombaça , e a quei- 
mou. 244, 

CÁP. IX. De algumas coifas , que D. Fran- 
cifco de Almeida fez , em quanto fe tra- 
balhava na obra da fortaleza de Anche- 
~diva : e os recados , que alli teve d? EI- 
Rey de Onor per feus Embaixadores : e 
ajji de alguns Mouros vizinhos d forta- 
leza procurando fua amizade. 255. 

CAP. X. Como partido D. Francifco de 
Anchediva , deo em Onor , onde queimou 
as nãos do porto : e do que pajjou com 
Timoja. > 268. 



LI- 



dos Capítulos 

livro IX. 

CAP. I. Em que fe defcreve toda a cof- 
ia marítima do Oriente y com as dij- 
tancias que ha entre as mais notáveis 
Cidades , e povoações per modo de rotei- 
ro , fegundo os navegantes. Pag. 284. 

CAP. II. De alguns Reys , e Príncipes das 
partes Orientaes , Mouros , e Gentios y 
com que tivemos communicaçao , ajji per 
via de conquijia , como de commercio. 3 1 3. 

CAP. III. Como a terra da Provinda Ma- 
labar fe repartio em Rey nos , e E/lados : 
e o fundamento do EJiado do Çamorij , e 
de algumas coufas dos Naires ? e gente 
Malabar. 322. 

CAP. IV. Como o Vifo-Rey fe vi o com El- 
Rey de Cananor , e efpedido delle , che- 
gou a Cochij , onde lhe deram nova que 
António de Sd Feitor de Coulao era mor- 
to pelos Mouros , fobre o qual cafo man- 
dou logo lá D. Lourenço. 339. 

CAP. V. Como o Vifo-Rey fe vi o com El- 
Rey de Cochij em hum aéío folemne , em 
que lhe entregou certas coufas : e como 
acabada a carga das nãos as efpedio pê- 
ra ejle Rey no. 35T. 

CAP. VI. Como EIRey D. Manuel mandou 
Per o da Nhaya d mina de Çofala : e do 

que 



Índice 

que paffou no caminho tê chegar ao por- 
to delia , onde fez huma fortaleza. 360. 

LIVRO X. 

CAP. I. Em que fie defcreve a região do 
Reyno de Çofala . e das minas d* ou- 
ro , e coufas que nella ha : e ajfi os cof- 
lumes da gente , e do feu Príncipe Bo- 
nomotápa. Pag. 372. 

CAP. II. Como os Mouros de Quilo a foram 
povoar em Çofala : e o que Fero da Nhaya 
paffou no fazer da fortaleza tê efpedir os 
Capitães > que haviam de pajjar d índia : 
e cio que acontece o a elles , e a feu filho 
Francifco da Nhaya. , 3^8. 

CAP. III. Como Pêro da Nhaya foi cercado 
per os Cafres da terra , donde fe caufoU 
ir elle matar ElRey : e do que mais paf- 
fou tê fier alevantado hum feu filho , que 
poz a terra em paz. ^6. 

CAP. IV. Como o Camorij Rey de Calecut 
fez huma groffa Armada , a qual D. Lou- 
renço filho ão Vifo-Rey desbaratou. 405*. 

CAP. V. Como o Vifo-Rxy mandou feu fi- 
lho D. Lourenço defcubrir as Ilhas de 
Maldiva 5 e Ilha Ceilão : e o que fez ne fi- 
ta viagem tê tornar a Cochij. 423. 

CAP. VI. Da viagem , que fez Cyde Bar* 
budo com Pêro Quarefima : e como por 

cau- 



dos Capítulos 

eaufa das novas ^ que elle levou aoVifo- 
Rey , que Vero da Nhaya era falecido 
em Çofala 5 e divisões , que havia em 
Quiloa , por fer morto EIRey Mahamed , 
elle Vifo-Rey mandou a Nuno Vaz Pe- 
reira a prover neflas coufas ? e a fervir 
de Capitão em Çofala : e das mais cou- 
fas ? que fuc cederam em Quiloa 7 té que 
de todo a leixdmos. 430. 



D& 






DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO VI. 

Desfeitos, que os Portuguezes fizeram 
no defeubrimento , e conquifta dos 
mares , e terras do Oriente , em que 
fe contém o que fez o Almirante 
D. Vafco da Gama , com trama Ar- 
mada , que o anno de quinhentos e 
dous partio defte Reyno pêra a índia. 



CAPITULO L 

Como ElRey D. Manuel, depois que Pe- 
ar alvares Cabral veio da Índia , por razão 
âefle defeubrimento , e conquijla delia , to- 
mou o titulo , que ora tem a Coroa dejle Rey- 
no de Portugal , e a razão , e caufa de lie, 

Ntes que João da Nova vief- 
fe defta viagem , que fez á ín- 
dia, (legundo nefte preceden- 
te livro fica , ) per quem ElRey 
D. Manuel íòube como fora 
a , e noffas coufas eram acce- 
iL A ptas 




recebido nell 
TonuL P. 



^ ÁSIA de João de Barros 

ptas acerca do Gentio , e Mouros daquellas 
partes , já deite Reyno no Março paíTado 
de quinhentos e dous era partido D. Vafco 
da Gama com huma frota de vinte velas a 
efta conquifta. Antes da partida do qual te- 
ve EIRey muitos confeliios , porque como 
a ília ida aífi poderofamente fe caufou por 
razão dos trabalhos do mar , e perigos da 
terra , que Pedral vares Cabral paliou, e por 
outras coufas que vio , e experimentou na 
communicação , que teve com os Príncipes 
daquellas partes , fizeram todas eftas cou- 
fas muita dúvida no parecer de peífoas no- 
táveis deite Reyno > fe feria proveitofo a 
elle huma conquifta tão remota , e de tan- 
tos perigos , peró que algumas deitas peílbas , 
quando EIRey teve confelho na primeira 
ida de D. Vafco da Gama , approváram ef- 
te defcubrimento , que elle hia fazer, e de- 
pois a ida de Pedralvares. Porque neítas pri- 
meiras viagens não moítrou o negocio tan- 
to de íi , como com a vinda delles , poito 
que a fua informação ainda foi mui confu- 
fa , pêra o que nas feguintes Armadas fe fou- 
be da grandeza daquella conquifta. Porém 
fomente com as coufas , que Pedralvares 
paífou 5 faziam efta differença , dizendo , que 
huma coufa era tratar fe feria bemdefcubrir 
terra não fabida , parecendo-lhc fer habita- 
da de Gentio tao pacifico , e obediente , co-- 

mo 



> 



Década I. Liv. VI. Cap. I. 5 

mo eram de Guiné , e de toda Ethlopiá, 
com que tínhamos communicaçao j que fem 
armas , ou outro algum apercebimento de 
guerra , per commutação de coufas de pou- 
co valor havíamos muito ouro 3 efpeciaria 
e outras de tanto preço : e outra coufa era 
confultar fe feria conveniente , e proveitoío 
a efte Reyno , por razão do commercio das 
coufas da índia, 'emprender querellas haver 
per força d'arma& Porque , fegundo a expe- 
riência moftrava , e os Mouros defendiam , 
que as não houveífemos da mão do Gentio da 
terra , mais havia de valer acerca delles gran- 
de numero de náos , e muita gente d^armas, 
que outra mercadoria alguma. E ainda a 
muitos i vendo fomente na carta de marear 
huma tão grande cofta de terra pintada , e 
tantas voltas de rumos , que parecia rodea- 
rem as noífas náos duas vezes o Mundo fa- 
bido , por entrar no caminho d'ouro novo ^ 
que queríamos deícubrir , fazia nelles efta 
pintura huma tão efpantofa imaginação , que 
lhes aífombrava o juízo. E fe eíla pintura 
fazia nojo a vifta , ao modo que faz ver Ích 
bre os hombros de Hercules o Mundo , aue 
lhe os Poetas puzeram , que quaíí a noífa 
natureza femove com aífe&os a fe condoer 
dos hombros daquella imagem pintada , co- 
mo fe não condoeria hum prudente homem 
em fua confideraçao ver efte Pveyno, (de 
A ii que 



4 ÁSIA de JoÃo de Bakros 

que elle era membro , ) tomar fobre os hom- 
bros de fua obrigação hum Mundo , não pin- 
tado , mas verdadeiro , que ás vezes o po- 
dia fazer acurvar com o grão pezo da terra > 
do mar , do vento , e ardor do Sol , que em 
íi continha : e o que era mais grave , e pe- 
zado que eítes elementos 3 a variedade de 
tantas gentes , como nelle habitavam. Porque 
ainda que a experiência tinha moftrado quão 
grandes trabalhos eram os daquclle cami- 
nho , pois de treze náos d' Armada de Pc- 
dralvares , as quatro levaram carga de ho- 
mens pêra mantimento dos peixes daquelles 
mares incógnitos que navegaram , as quaes 
em hum inftante foram mettidas no profun- 
do do mar, ifto fúria foi dos elementos , 
que tem feus ímpetos a tempo; ecomo são 
eífedtos da natureza que he regulada , leve- 
mente fe evitam os taes perigos , quando 
os homens tem prudência pêra faber eleger 
o curfo dos temporaes. Peró communicar, 
converfar, e contratar com gente da índia, 
cujas idolatrias, abufos , vícios, opiniões, 
e fedias , hum Apoftolo de Chrifto Jefus per 
clle enviado , como foi S. Thomé , temeo , 
€ receou ir a ella , fomente a lhe dar do&ri- 
na de paz , e falvação pêra luas almas ; co- 
mo fe podia efperar que a noíía do&rina , 
ainda que Catholica foífe , por fer com mão 
armada , e não per boca de Apoílolos , mas 

de 



Década L Liv. VI. Cap. I. 5* 

de homens íubjeétos mais a feus particulares 
proveitos , que á falvaçao daquelle povo Gen- 
tio , podia fazer nelles imprefsão , principal- 
mente acerca dos Mouros , que por razão 
deita doftrina Evangélica eram noíTos capi- 
tães imigos ; os quaes eram já tantos entre 
aauelle Gentio , aííi dos naturaes da terra ? 
a que elles chamam Naiteas , como eítran- 
geiros , que não contando os de toda a coita 
da índia , fomente começando da Cidade 
Goa, que eftará quaíl no meio delia té.Co- 
chij , que ferão pouco mais , ou menos cen- 
to e vinte léguas per coita , (fegundo fe di- 
zia , e depois fe íbube em verdade*) havia 
mais Mouros que em toda acoita de Afri- 
ca , que temos defronte entre a noífa Cida- 
de Cepta > e Alexandria. A maior parte dos 
quaes , principalmente os eítrangeiros , como 
tinham ufurpado do Gentio d ? aquellas par- 
tes todo o navegar das efpeciarias , e co- 
miam efte fruto delias , eram feitos tão ab- 
folutos fenhores de toda a riqueza dos por- 
tos de mar , que alguns delles em fubítancia 
de fazenda eram tão poderofos , que mais 
levemente podiam fazer huma guerra, q 
comportar as defpezas delia per muito tem- 
po , do que o podem fazer osReys deBe- 
íez , Tremecem , Ourão , Argel , Bugia , e 
Tunes , que he a flor de todolos Príncipes , 
-que tem a coita de Africa que vizinhamos* 

E 



6 ASIÀ de JoÂo de Barros 

E como com a nofla entrada na índia efles 
Mouros tão poderoíos perdiam o trato das 
efpeciarias 5 e commercio , que lhes dava eíte 
grão poder; todos conjuraram cm nofla deí- 
truição 5 e pêra ifíb convocavam as adjudas 
do Gentio da terra y como fizeram per mão 
do grande Çamorij de Calecut. Outros ho- 
mens do mefmo confelho d'ElRey D. Ma- 
nuel , e peíToas mui notáveis do Reyno , 
também faziam eftas coníiderações , e tentea- 
vam eftas couías que apontamos ; porém con- 
tra ellas punham outros bens , que prevale- 
ciam fobre eftes temores , os quaes eram a de- 
minciaçao do Evangelho , ainda que não fof- 
fe per boca dos Apoílolos , nem per o me- 
do com que elles o denunciavam , porque 
então afli conveio pêra gloria de Chriílo no 
principio da congregação da fua Igreja ; mas 
o prefente per qualquer modo , e peflba Ca- 
tholica que fofle , muito havia de acerefeen- 
tar no eílado da Igreja Romana a nofla en- 
trada na índia. E quanto ás contradicções 
que tínhamos nos Mouros , e Çamorij por 
parte delles , também tinhamos dous Reys 
pola nofla. mui amigos , e leacs , como eram 
EIRey de Cochij , e Cananor , e affi o Rey- 
no de Coulão } os quaes defejavam tanto no£ 
fa amizade , que começavam entre fi conten- 
der a quem nos daria carga de efpeciaria , 
e nos teria por amigos , por verem logo na- 

quel- 



Década I. Liv. VI. Cap. L f 

queíla primeira ida de Pedralvares Cabral 
quão provekofo lhes era o noíío commercio , 
aífi no que recebiam , como no que davam. 
E mais , como a fubftancia da guerra hc o 
dinheiro , e efte adjunta náos 3 artilheria > 
homens , e toda outra munição delias , era 
tamanho o proveito que fe havia da mão 
daquelles dous Rcys noffos amigos , por 
elles ferem fenhores da flor delia , que def- 
te grande proveito fe podiam fupprir as ne- 
ceffidades da guerra, (quando os Mouros a 
quizeífem comnofco , ) e mais faria efte Rey- 
no de Portugal mui rico. Porque foi tama- 
nho o ganho das mercadorias , que foram 
naquella Armada de Pedralvares , que em 
muitas couías com hum fe fez de proveito 
no retorno 3 finco 5 dez , vinte 3 e trinta atéíín- 
coenta j per experiência das quaes coufas fi- 
cavam todalas outras razões fubditas a efte 
bem de proveito , que fempre prevaleceo em 
todo coníelho. Porém as primeiras 5 nem as 
fegundas razões , que aílima apontámos , que 
procediam do parecer 3 e juizo dos homens 
principaes do Reyno , não tinham no coração 
d'E!Rey D. Manuel tanta parte pêra o mo- 
ver a efte deícubrimento 5 e conquifta , quan- 
ta tiveram as infpirações de Deos , que o. 
demoviam pêra efFedlo delia. E ainda pare- 
ce que o mefmo Deos permittia as razões , 
e dúvidas movidas > pêra com mais cuida- 
do , 



8 ÁSIA de JoXo de Barros 

do , e providencia fe proverem as coufas pê- 
ra efte defcubrimento , e conquifta. Final- 
mente EIRey fe determinou , que pois Nof- 
fo Senhor lhe abrira efte caminho nunca 
defcuberto , no qual feus anteceífores tanto 
trabalharam per continuação de fetenta e tan- 
tos annos , elle o havia de profeguir ; e mais 
vendo fer já maior o fruto delle naquella 
primeira ida de Pedralvares , do que eram 
os trabalhos paliados , e temores do que ef- 
tava por vir. Quanto mais que as grandes 
coufas , (e principalmente efta , de que toda 
a Europa fe efpaníou , ) não fe podiam con- 
feguir fenão per muitos , e mui vários ca- 
fos , e perigos , dos quaes exemplos o Mun- 
do eftav a cheio, por fer coufa mui racional , 
que os grandes edifícios pêra ferem perpé- 
tuos , e firmes , fobre profundos alicerces de 
trabalho fe fundam. A qual determinação , 
que foi logo como Pedralvares veio , obri- 
gou também a EIRey fazer outra obra de 
muita prudência , e de tal animo , como con- 
vém aos Príncipes , que fe prezam de leixar 
nome de feitos gíoriofos. Nenhum dos quaes 
fe pode comparar áquelles , em que a Co- 
roa do feu Reyno he augmentada , não per 
accrefcentamento de rendas delle, nem per 
fumptuofidade de grandes , c magníficos edi- 
fícios , ou qualquer outra útil , e proveitofa 
obra, mas per accrefcentamento de algum 

no- 



Década I. Liv. VI. Cap. I. 9 

novo titulo a feu Eítado. Porque como acer- 
ca dos homens , a que Deos não concede e£- 
ta dignidade real , poílo que adquiram mui- 
ta fubítancia de fazenda, e com ella fe fa- 
çam poderofos em edificar, plantar, e obras 
mecânicas , que procedem mais da cópia do 
dinheiro , que da grandeza do animo , e for- 
ças do engenho ; e em íiia vida , e depois 
da morte , nenhuma obra 5 por grande que fe- 
ja, lhes dá mais louvor , que mudar o nome, 
com que nafcêram, com alguma denotação 
de honra, fegundo olleyno onde vive: af- 
íi acerca dos Reys , por muitas coufas que fa- 
çam , de qualquer género que fejam , nenhu- 
mas lhes dá maior norne que aquella, pela 
qual accrefcentáram á íua Coroa algum jufto , 
e illuftre titulo. E he eíle delejo de crefcer 
em nome tão natural aos homens de claro 
entendimento , que té adquirir , e ajuntar 
dinheiro, ofimdelle hepera efte crefcer em 
nome ; poílo que os meios ás vezes o fazem 
diminuir , e de todo perder , porque poucas 
fe adjunta o muito fem infâmia. Porém co- 
mo de coufa fufpeitofa fazem os homens e£ 
ra diífcrença do dinheiro , na vida he mui 
accepto , porque fabem que a elle obedecem 
todalas coufas ; e que não ha monte , por 
alto que feja , a que hum afno carregado 
d ? ouro não fubá , como dizia Filippe pai 
de Alexandre. Mas quando vem á hora^da 

mor- 



i o ÁSIA de João de Barros 

-morte , onde eftc dinheiro já não ferve ? não 
querem os homens que na chronica de fua 
vida , que he a campa de fua fepultura , 
fe faça menção delle , (pofto que a capella , 
em que ella eftá , com elle fe fizcííe , e o 
morgado applicado a ella delle fe coníli- 
tuiffe.) Somente querem que naqueiíe fum- 
mario de todalas honras fe ponha , e fe ef- 
creva algum bom nome de honra 5 fe o ti- 
veram na vida , por faberem per fentença 
daquelle fapientiílimo Salamão , que mais 
vai o bom nome , que todalas riquezas da 
terra. E que iílo aífi feja acerca do geral dos 
homens , entre elies, e osReys ha cila dif- 
ferença. Os homens como são fubditos 3 pê- 
ra terem nome baila qualquer obra 5 com 
que aprazem a feu Rey , porque cila com- 
placência lhes pode dar o que elíes eílimam 
pêra fua fepultura. Però osReys como não 
tem fuperior ? de quem poífam receber algum 
novo , e illuílre nome pêra a campa de fua 
fepultura ; que he a chronica do difeurfo de 
fua vida 5 lançam mão não de obras com- 
íttuas , e poíTiveis a todo homem poderofo 
em dinheiro , mas de feitos excellentes , que 
lhes podem dar títulos , não em nome , mas 
em acerefeentamento dtalgum jufto , e novo 
citado, que per fi ganharam. Aííi que faltan- 
do propriamente , os homens como são fub- 
ditos , e não Soberanos , toda a honra que 

ac- 



Década I. Liv. VI. Cap. L ii 

acquirem he nellcs nome ; e nos Reys , quan- 
to conquiftarem lie nelles titulo. Pois vendo 
EIRey D. Manuel efta univeríal regra do 
Mundo , e que feus Anteceflbres fempre tra- 
balharam per conquifta dos infiéis , mais que 
per outro injufto titulo , accreícentar o de lua 
Coroa , e EIRey D. João feu Primo como 
de caminho , por razão da empreza , que efte 
Reyno tomou em deícubrir a índia, tinha 
tomado por titulo Senhor de Guiné ; con- 
tinuando com elle , accrefcentou eftes três , 
Senhor âa Navegação , Conquifta , e Com- 
mercio da. Ethiopia , Arábia , Perfia , e In- 
ata. O qual titulo não tomou íem cauía , ou 
acafo , mas com muita aução , juílica , e pru- 
dência ; porque com a vinda de D. Vafco 
da Gama , e principalmente de Pedralvares 
Cabral em effedto per elles tomou. poííe de 
tudo o que tinham defcuberto , e pelos Sun> 
mos Pontífices lhe era concedido , e dado. 
A qual doação fe fundou nas muitas , e gran- 
des defpezas , que nefte Reyno eram feitas 5 
e no fangue, e vidas de tanta gente Portu« 
guez , como neíle defcubrimento per ferro 3 
per agua , doenças , e outros mil géneros 
de trabalhos , e perigos pereceram. E por- 
que pode fer que algumas peííòas não en- 
tenderão efte titulo, que EIRey tomou, an- 
tes que femais proceda, faremos huma de- 
claração , dizendo , que coufa he titulo , e 

que 



iz ÁSIA de João de Barros 

que direito comprehende em íl efte delRey. 
Efte nome Titulo, acerca dos Ju riflas, tem 
diveríòs íignificados , por ler hum nome 
commum , que lhe ferve de género , debai- 
xo do qual eftam muitas efpecies de coufas , 
porque ás vezes fignifica preeminência de 
honra , a que chamam Dignidade , como he 
a do Duque , Marquez , Conde , &c. e outras 
vezes fignifica Senhorio de propriedade , don- 
de as mefmas efcrituras , que cada hum tem 
de ília fazenda, fe chamam Títulos. Porém 
fallando propriamente , e a noíTb propoíi- 
to , Titulo não he outra coufa , fenão hum 
final j e denotação do direito, ejuftiça, que 
cada hum tem no que poíTue , ora feja por 
razão de dignidade , ora por caufa de pro- 
priedade. O ufo dos quaes Títulos , acerca 
dos Reys , he hum ; e toda outra pelfoa , 
que vive íubdita a elles , tem niíío outro 
modo : cá o titulo dos Reys não requere 
mais efcritura do ditado com que fe elles 
intitulam ; que fuás próprias Cartas , quando 
no principio delias fe nomeam , e os ho- 
mens pêra fe lhes guardar o Titulo de fua 
Dignidade , ( fe a tem , ) hão de ter efcri- 
tura dos Reys , de cuja mão receberam a 
tal honra ; e fe forem propriedades , apre- 
fentaráõ efcritura donde as houveram. Aííí 
que, fallando propriamente, ao Titulo da hon- 
ra podemos-lhe chamar Dignidade , eaoTi- 

tu- 



Década I. Liv. VI. Cap. I. 13 

íulo da propriedade Senhorio , per efte fe- 
guinte exemplo. Efte nome Rey tem dous 
refpectos : quando fe refere á dignidade 
Real, denota jurifdicção fobre todos que vi- 
vem no feu Reyno ; e referido ao Reyno , 
e não aos vaífallos , denota Senhorio , como 
cada hum o tem íbbre as propriedades de 
lua fazenda , as quaes pode dar 5 vender, &c. 
o que elíe não pode fazer dos vaílallos , fal- 
lando conforme a Direito, Aíli que quanto 
a eíle nome Rey , fe havemos de guardar 
a etymologia do verbo , donde elle proce- 
de , que he de reger , propriamente diremos 
Rey dos Portuguezes , Rey dos Caftelha- 
nos , e Senhor de Portugal , Senhor de Caf- 
tella > e porque per efte nome Rey elíes fe 
intitulam do melhor fubjeéto , que he da 
jurifdicção dos homens, chamam-fe Rcys, 
e não Senhores , ou diremos que o fazem , 
porque nomeando-fe por Reys da terra , en- 
tende-fe que o são dos homens que vivem 
nella. Ifto fejadito quanto á declaração def- 
te titulo de Rey , e Senhor, Conforme ao 
qual direito , e propriedade de nome , El- 
Rey D. João o Segundo , (como atrás fica , ) 
fe intitulou por Senhor, e não Rey de Gui- 
né , porque íbbre os povos da terra não ti- 
nha jurifdicção, e porém teve Senhorio del- 
ia. Cá ninguém lha defendeo , nem entre os 
Negros havia demarcação de eftados , e pu- 
de- 



14 ÁSIA de João de Barros 

dera-fe efta terra conceder ao primeiro oc- 
cupante , quanto mais a elle , que tinha a doa- 
ção dos Summos Pontífices , que são Senho- 
res univerfaes pêra diftribuir pelos Fieis da 
Catholica Igreja as terras que eftam em po- 
der daquelles , que não são fubditos ao jugo 
delia. Per o qual modo , e aução EIRey 
D. Manuel também fe chamou Senhor da 
Conquifta , Navegação , e Commercio da 
Ethiopia , Arábia , Perlia , e índia , porque , 
(como já repetimos per vezes , ) os Summos 
Pontífices tinham concedido a efte Reyno 
tudo o que deicubriíTem do Cabo Bojador , 
té a Oriental Plaga , em que fe compre- 
hendia toda a índia , Ilhas , mares , portos , 
pefearias , &c. fegundo mais compridamen- 
té fe contém nas próprias doações. E co- 
mo elle nefte defeubrimento , que mandou 
fazer per D. Vafco da Gama , e Pedralva- 
res Cabral , defeubrio três coufas , as quaes 
nunca nenhum Rey, nem Principe de toda a 
Europa cuidou , nem tentou deícubrir j def- 
tas três , que eram as eíTenciaes de todo 
Oriente, quiz tomar titulo. Defeubrio Nave- 
gação de mares incógnitos, per os quaes fe 
navega deitas partes de Portugal pêra aquei- 
las Orientaes da índia : tomou poíTe deíle 
caminho da navegação per o titulo delia : 
defeubrio terras habitadas de Gentio idóla- 
tra y e Mouros heréticos , pêra fe poderem 

con- 



Década I. Liv. VI. Cap. I. 15- 

conquiítar, e tomar das mãos delles , como 
de injuílos pofluid ores , pois negam a gloria 
que devem a feuCreador, e Remiaor, in- 
titulou-fe por Senhor delias : deícubrio o 
commercio das efpeciarias , as quaes eram 
tratadas , e navegadas per aquelles povos in- 
fiéis , per o mefmo modo ; pois era Senhor 
do caminho , e da conquiíta da terra , tam- 
bém lhe convinha o Senhorio do Commer- 
cio delia. Pêra os quaes títulos não houve 
miíler mais efcritura que a primeira doação 
Apoíloiica, e trazellos elle em feu ditado, 
quanto mais que ao preiente já são confir- 
mados per o Direito de TJfucapionis , ( co- 
mo dizem os Jurifías 5 ) de mais de íincoen- 
ta e tantos annos de pofíe ? fegundo fe ve- 
rá no proceíío deita nofla hiftoria per elle 
modo. Quanto á Navegação , foi fempre tão 
grande a potencia de noílas Armadas na- 
quellas partes Orientaes , que por fermos 
com ellas fenhores dos feus mares , quem 
quer navegar 3 ora feja Gentio ., ora Mouro > 
pêra fegura 5 e pacificamente o poder fazer , 
pede hum falvo conduclo aos noflbs Capi- 
tães que lá andam , ao qual elles commum- 
mente chamam Cartaz ; e fe eíle infiel he 
achado , não fendo dos lugares onde temos 
fortalezas , ou que eítam em noífa amizade y 
com juíto titulo o podemos tomar de boa 
guerra. Porque ainda que per direito com- 

mum 



16 ASIÀ de JoÁo de Barros 

mum os mares são communs > e patentes aos 
navegantes , e também per o meímo direi- 
to fomos obrigados darfervidão ás proprie- 
dades j que cada hum tem confrontadas 
comnofco , ou pêra que lhe convenha ir 5 
por não* ter outra via pública , efta lei ha 
lugar fomente em toda a Europa, acerca do 
povo Chriftao ; que como por Fé , e Bap- 
tifmo eftá mettido no grémio da Igreja Ro- 
mana , aífi no governo de fuá policia fe re- 
ge pelo Direito Romano. Não que os Reys > 
e Príncipes Chriftáos fcjam fubditoâ a efte 
direito imperial , principalmente efte noífo 
Reyno de Portugal , e outros , que são im- 
mediatos ao Papa per obediência 3 enao por 
ferem feudatarios , mas acceptam eftas leis 
em quanto são juftas , e conformes á razão , 
que he madre do Direito. Peró acerca dos 
Mouros , c Gentios , que eftam fora da Lei 
de Chrifto Jefas , que he a verdadeira que 
todo homem he obrigado ter , e guardar , 
fobpena de fer condemnado a fogo eterno , 
quem no principal , que he alma , eftá conde- 
mnado , a parte que elía anima não pode fer 
privilegiada nos benefícios das noífas leis , 
pois não são membros da Congregação Evan- 
gélica , pofto que fejam próximos por ra- 
cionaes , e eftam , em quanto vivem > em po- 
tencia , e caminho pêra poderem entrar nel- 
la. E ainda conformando-nos com o mefmo 

Di- 



Década I. Liv. VI. Cap. I. 17 

Direito commum , não fallando neíles Mou- 
ros , e Gentios , que tem perdida efta au- 
çao por não receberem noífaFé, mas qual- 
quer membro deila não pode pêra aquel- 
]as partes Orientaes pedir fervidão , porque 
ante da noíla entrada na índia, com a qual 
tomámos pofíe deíia , não havia algum qua 
lá tiveffe propriedade herdada , ou conquií- 
tada; eonde não ha auçao precedente, não 
ha fer vidão prefente , ou futura. Porque co- 
mo todo adio , pêra fe continuar per muito 
tempo , requere principio natural ; aífi as au- 
côes pêra ferem juftas , dependem de hum 
principio de precedente juítiçâ , que no Di- 
reito Commum he hum centro univerfai , a 
que hão de concorrer todolos adlos dos ho- 
mens 3 que vivem fegundo a Lei de Deos. 
Quanto ao titulo da Conquiíla , hoje per el- 
la são mettidos na Coroa deite Reyno ef- 
tes Reynos , Çofala , Quiloa , Mombaça , 
Ormuz , Goa , Malaca , Maluco com toda- 
las- Ilhas do feu eftado , ~e os Senhorios da 
Cidade Dio , e Baçaim , com todas fuás 
terras , que são do Reyno de Cambaya , e 
adiante Chaul , Baticalá , em todalas quaes 
partes temos noffas fortalezas com Offi- 
ciaes , e Miniftros do governo da terra. Pê- 
ro ao prefente temos leixado Quiloa , e 
Mombaça , por ferem partes mui doentias , 
cuílofas , e fem fruélo ? como leixámos a 
Tom.L P.il. B Ilha 



i8 ÁSIA de JoÁo de Barros 

Ilha Çocotorá 3 e Anchcdiva por não ferem 
neceflarias. E aííi temos também outras mui- 
tas terras , poílo que não fejam intituladas 
em Reynos , cujos portos efíam á noíTa obe- 
diência , e recebem nolías náos com reve- 
rencia , como liias fuperioras. Do titulo do 
Commercio , como clle requere duas vonta- 
des contrahcntcs em liurna couía , o qual 
aélo preíuppõe paz , amizade, e obediên- 
cia ; o teítemunho que temos da pofíe del- 
le , são auantas mios cada anuo vem carre- 
gadas daquellas partes a cite Reyno com 
muita efpeciaria , e todo género de couías , 
que íc ncllas produzem, e fazem- ifto he , 
fallando / em geral , que cm particular defte 
commercio temos uío per três modos. O 
primeiro he , quando fe faz nas terras , e fe- 
nhorios affima nomeados , que houvemos 
per conquifta , contratamos com os povos 
da terra, comovaflallo comvaífallo de hum 
Senhor , cujos direitos das entradas , e fa- 
Iiidas são da Coroa deite Reyno. O fegun- 
do modo he , termos contractos perpétuos 
com os Reys , e Senhores da terra de a 
certo preço nos darem fuás mercadorias , e 
receberem as noílas , aífi como eílá aífenta- 
do com os Reys de Cananor , de Challe , 
de Cochij 5 de Couião , e Ceilão , os quaes 
são fenhores da ílor de toda a efpeciaria , 
que há na índia. E porém eíle modo de 

con- 



Década I. Liv. VI. Cap. I. 19 

contractar he fomente acerca das efpeciarias l 
que elles dam aos Officiaes d'ElRey , que 
alli reíidem em fuás Feitorias pêra carga 
das náos , que vem a efte Reyno ; e toda- 
las outras coufas , que não são efpeciaria y 
eílas taes são livres , e commuas pêra todo 
Portuguez , e natural da terra poder tratar ; 
o preço das quaes coufas eftá na vontade 
dos contrahentes , fem fer atado , nem taxa- 
do a huma juíla valia. O terceiro modo , 
lie navegarem noíFas náos , e navios per to- 
das aquellas partes , e conformando-nos com 
o ufo da terra , conírahemos com os natu- 
raes delia per commutação de huma coufa 
per outra ao feu preço , e ao noífo. E pof- 
to que eftcs três titulos , Conquifta , Nave- 
gação 5 e Commercío fejam a&os em tem- 
po não terminados , e finitos , e em lugar 
tão grandes, que comprehendem tudo o que 
jaz do Cabo Bojador té o fim da terra 
Oriental , &c. e nefte anno de quinhentos 
e hum , EIRey D. Mauuel fe intitulou del- 
les , não podia tomar outros mais próprios 
á juftiça. , e aução que tinha naquella Orien- 
tal propriedade , ao prefente falvos eiks 
bem fe pode a Coroa deite Reyno intitu- 
lar deftes Reynos , que tem conquiftado : 
Na Ethiopia de Çofala , Quiíoa , e Mom- 
baça ; e na Arábia , e Períla do grande Rey- 
no Ormuz 3 cujo eílado com muitas Villas 5 
B ii e Lu- 



2o ÁSIA de João de Barros 

e Lugares eííá neítas duas partes de terra. 
E na índia dos Reynos de Goa , Malaca ? 
e Maluco , com todolos mais fenhorios , 
que neítas quatro Províncias tem navegado , 
e conquiftado \ e aíli na Província de Sanfta 
Cruz occidental a eítas , a qual ao prefente 
EIRey D. João o Terceiro Noííb Senhor 
repartio em doze capitanias dadas de juro , 
e herdade ás peflbas que as tem , como par- 
ticularmente eferevemos em a noíTa parte in- 
titulada Santía Cruz. Os feitos da qual, 
por eu ter huma deitas capitanias , me tem 
cuítado muita fubítancia de fazenda , por ra- 
zão de huma Armada , que em praçaria de 
Aires da Cunha , e Fernão Dalvares d' An- 
drade Thefoureiro mor defte Reyno , todos 
fizemos pêra aquellas partes o anno de qui- 
nhentos trinta e finco. A qual Armada foi 
de novecentos homens , em que entravam 
cento e treze de cavallo , coufa que pêra 
tão longe nunca fahio defte Reyno , da qual 
era Capitão mor o mefmo Aires da Cunha ; 
e por iflb o principio da milícia deita ter- 
ra , ainda que íèja o ultimo de noftbs tra- 
balhos , na memoria eu o tenho mui vivo 3 
por quão morto me leixou o grande culto 
deita Armada > fem fru&o algum. 



CA- 



f 



Década L Livro VI. 21' 

CAPITULO II. 

Como o Almirante D. Vafco da Gama par- 
tio âefte Reyno o anno de quinhentos e 
ãous com huma grande frota : e o 
que paffòu nejle caminho té che- 
gar a Moçambique. 

POr as caufas , que atrás apontámos , com 
que fe EIRey D. Manuel determinou 
proleguir o defcubrimento , e conquiita da 
índia , e tomar os titulos delia , quiz neíle 
anno de quinhentos e dous mandar vinte ve- 
las ; íinco delias haviam de ficar d'Armada 
na índia em favor de duas Feitorias , huma 
emCananor, outra emCochij, que haviam 
de eítar em terra com Officiaes a ellas orde- 
nados , por caufa da amizade , e commercio , 
que eítes dous Reys defejavam ter com elle , 
como lhe enviaram dizer per feus Embai- 
xadores , que Pedralvares Cabral trouxe. E 
além deitas linco velas ficarem pêra favor 
deitas duas Feitorias , também no verão al- 
guns mezes haviam de ir guardar a boca 
do eítreito do mar Roxo 5 pêra defender 
que não entraflem , e fahiífem per elle as 
náos dos Mouros de Meca , que eram aquel- 
les , que maior ódio nos tinham , e que 
mais impediam nofla entrada na índia, por 
eaufa de trazerem entre as mãos o maneio 

das 



22 ÁSIA de JoÃo de Baríios 

das efpeciarias , que vinham a eítas partes 
da Europa per via do Cairo , e Alexandria. 
A capitania mor das quaes velas deo EIRey 
a Vicente Sodré tio de D. Vafco da Gama , 
irmão de fua mai ; e os outros Capitães ,. 
que haviam de andar com elle, eram Braz 
Sodré feu irmão , e Álvaro de Taíde natu- 
ral do Algarve, e Fernão Rodrigues Badar- 
ças d 5 alcunha i filho de Ruy Fernandes d'Al- 
mada, e António Fernandes, o qual poílo 
que logo daqui não fofle em navio , em 
Moçambique lhe havia de fer dada huma 
caravela , que fe alli havia de armar , da 
qual a madeira hia daqui lavrada , como fe 
fez. E por razão que efta Armada havia 
de ficar na índia pêra eíte fundamento que 
EIRey fazia , quiz que parlifle diante das 
outras quinze velas , que aquelie 'anno tam- 
bém hiam. Pedralvares Cabral , a quem 
EIRey tinha dada a capitania mor de toda 
efta Armada, quando vio eíle apartamento 
de velas , e ainda o Regimento , que EIRey 
dava a Vicente Sodré, em modo que quaíl 
o fazia izento delle , não ficou contente. E 
como elle era homem de muitos primores 
acerca de pontos de honra , teve fobre eíle 
negocio alguns requerimentos , a que EIRey 
lhe não fatisfez. Finalmente elle não foi , e 
a Armada toda deo EIRey a D. Vafco da 
Gama , çom o qual juntamente partio Vi- 

cen- 



Década I. Liv. VL Cap. II. 23 

cente Sodré , que levava a fuccefsão delle ; 
e porque ao tempo da lua partida outras fin- 
co velas não eram de todo preftes j ficaram , 
e partiram o primeiro dia d' Abril , a capi- 
tania mor das quaes levou Eftevao da Ga- 
ma , fiiho d' Aires da Gama , e primo com 
irmão delle D. Vafco da Gama. E os Ca- 
pitães , que hiam debaixo de fuá bandeira , 
eram Lopo Mendes de Vaíconcellos filho 
de Luiz Mendes de Vaíconcellos , Thomaz 
de Carmona, Lopo Dias criado de D. Ál- 
varo irmão do Duque de Bragança , e João 
deBonagracia Italiano. E os Capitães, que 
partiram a dez de Fevereiro juntamente com 
D. Vafco da Gama , eram D. Luiz Couti- 
nho , filho de D. Gonçalo Coutinho , d'al- 
cunha Ramiro o fegundo Conde de Ma- 
rialva : Francifco da Cunha das Ilhas ter- 
ceiras , João Lopes Pereílrello , PedraíFonfo 
d' Aguiar filho de Diogo Affonfo d 5 Aguiar: 
Gil Matofo , Ruy de Caftanheda , Gil Fer- 
nandes , Diogo Fernandes Corrêa , que hia 
por Feitor pêra ficar em Cochij , e António 
do Campo. E fomente eíle , de todas eftas 
vinte velas , aquelle anno não foi á índia , 
do qual ao diante faremos relação. E antes 
de partir efta frota , eftando EIRey em Lis- 
boa , a trinta de Janeiro foi ouvir MiíTa á 
Sé , e depois de acabada , com folemne fal- 
ia , relatando os méritos de D. Vafco da 

Ga- 



24 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

Gama , o fez Almirante dos mares de Ará- 
bia , Perfia , índia, e de todo o Oriente. 
No fim do qual aíto EIRey lhe entregou 
a bandeira do cargo que levava, edahi foi 
levado per todolos principaes Senhores , c 
Fidalgos , que eram prefentes , com grande 
pompa té o cais da ribeira , onde embar- 
cou. Partido de reftello , fazendo fua derro- 
ta via do Cabo Verde , o derradeiro dia 
de Fevereiro furgio no roíto delle, onde os 
nofíos chamam Porto Dale , no qual cíleve 
féis dias fazendo fua aguada , e alguma pef- 
caria , e alli veio ter com elle huma cara- 
vela , que vinha dâ Mina , de que era Ca- 
pitão Fernando de Montaroyo , o qual tra- 
zia duzentos e fincoenta marcos d'ouro to- 
do em manilhas , e jóias , que os Negros 
coftumam trazer. O Almirante , porque le- 
vava comíigo Gafpar da índia, que elle to- 
mou em Anchediva , e aífi os Embaixadores 
d'ElRey de Cananor , e d'ElPvey de Cochij , 
quiz-lhe dar moftra delle ; náo tanto pola 
quantidade , quanto porque o viffem aííi , 
como vinha por lavrar, e lbubeflem fer EI- 
Rey D. Manuel Senhor da Mina delle , e 
que ordinariamente em cada hum anno lhe 
vinham doze , e quinze navios , que traziam 
outra tanta quantidade. A' viíla do qual ou- 
ro houveram eíles índios por tao grande 
çoufa , quç vieram dcfcuhrir a D. Vafco da 

Ga- 



Década I. Liv. VI. Cap. II. 25* 

Gama huma prática , que cm Lisboa tive- 
ram com elles huns Venezeanos , em que 
lhe fizeram crer que as coufas deite Reyno 
de Portugal eram bem differentes do que 
elles viam naquella fomma d'ouro ; eoca- 
ío foi per eíla maneira. Ao tempo que efta 
Armada da índia lè fazia em Lisboa pref- 
tes , eftava nella hum Embaixador dos Ve- 
nezeanos , homem nobre , e prudente , a 
vinda do qual aefteReyno era pedirem elles 
a EIRey D. Manuel ajuda contra o Turco , 
que lhe tinha tomado Modon , e procedia 
na guerra contra ellc , de que fe eíperava 
poder fobrevir grão damno á Chriílandade , 
o qual foccorro lhe elle mandou , fegundo 
efcrevemos em a noíía Africa. E corno eíle 
negocio do commercio das efpeciarias era 
huma grão parte de que o eílado de Veneza 
fe fuftentava, vendo eftes Embaixadores da 
índia em Lisboa, ou per mandado do Em- 
baixador Venezcano , ou per qualquer outro 
modo que foífe , alguns familiares feus ? 
moflrando curiofidade de querer faber as 
coufas da índia , foram fallar com elles. 
Tendo íècretamente prática fobre o trado 
da efpeciaria , aífi os induziam j que lhes 
fizeram crer que o Embaixador de Veneza 
era vindo a eíle Reyno a dar adjutorio de 
dinheiro , e mercadorias pêra fe fazer aquel- 
h Armada , em que elles haviam de tornar 

pe- 



26 ÁSIA de JoXo de Barros 

pêra a índia; porque eíte Reyno de Portu- 
gal era mui pequeno , e pobre , e não fe 
atrevia a tamanho negocio , como era o tra- 
cto da efpeciaria , e a fenhoria de Veneza 
era a maior potencia de toda a Chriílanda- 
de ; a qual fenhoria defque houve trr.íto no 
Mundo , fempre negociara com os Mouros 
do Cairo , que traziam cila efpeciaria pelo 
mar Roxo do Reyno de Calecut , e de toda 
a coita Malabar , donde elles eram naturaes. 
Que o final deita verdade elles o podiam 
lá ver , e faber , porque quanta moeda d'ou- 
ro os Mouros levavam pêra a compra del- 
ia , tudo eram ducados Venezeanos ; e as 
ledas efcarlatas com todalas outras policias , 
que eíles Mouros levavam da mão dos Ve- 
nezeanos 3 fe havia em os portos de Alexan- 
dria ? e Barut, onde elles mandavam fuás 
náos a fazer com os Mouros commutação 
deitas coufas com a efpeciaria que alli tra- 
ziam. Que fe efpantavam muito como os 
Reys , e Príncipes d'aquellas partes leixa- 
vam de contrastar com os Mouros , como 
té li fizeram, pois per elles podiam haver 
todalas coufas , que a Senhoria de Veneza 
tinha per modo tão pacífico , como fempre 
ufáram. O qual modo elles eram teítemunha 
não terem os Portuguezes \ porque como 
eram homens de guerra 5 e não ufados na 
mercadoria 5 todo o feu negocio per cite 

no- 



Década L Liv. VI. Cap. II. 27 

novo , e comprido caminho , que tinham dei* 
cuberto , havia de fer á força de armas , e 
trabalharem por deftruir os Mouros d'aquel- 
las partes , por ferem feus capitães imigos 
neílas Occidentaes de Africa , por andarem 
cm contínua guerra com elles. Finalmente 
per efte modo aíil encheram os Venezeanos 
as orelhas dos Embaixadores , que levavam 
elles maior opinião do eftado de Veneza que 
deite Reyno , e que o mais d'aquella Ar- 
mada era adjudas defta grande Senhoria. Pê- 
ro quando elles viram o ouro , que lhe o 
Almirante D. Vafco da Gama amoftrou , 
ainda que não era muito em pezo 5 como 
vinha em manilhas , e jóias parte delle , e 
outro aíli como naíce , fazia tão grande vo- 
lume, que houveram elles que Portugal em 
ter aquella Mina era mais poderofo , e rico , 
que todolos Reys da índia , porque nella 
principalmente em todo o Malabar não ha 
ouro , e todo lhe vai de fora. O Almirante , 
porque EIRey D. Manuel foubefle gratifi- 
car ao Embaixador de Veneza, que ficava 
em Lisboa , efta informação , que os feus 
deram a eftes índios _, per o mefmo Capitão 
Fernão de Montaroyo lho efcreveo. E aca- 
bada de fazer fiaa aguada , hum Domingo 
féis de Março com a maior parte da gente 
fahio em huma Ilha 3 a que chamam Palma , 
pegada no porto de Bezeguiche, onde ou- 

vio 



28 ÁSIA de JoXo de Barros 

vio MiíTa , e pregação , e ao feguintc dia 
fe fez á vela , fazendo fua viagem. Na qual 
té o parcel de Çofala teve alguns tempo- 
raes , que lhe dcfapparelháram algumas 
náos ; e chegado áquelle parcel na paragem 
delia , mandou a Vicente Sodré feu tio que 
fe foífe a Moçambique com todalas náos 
groflas , em quanto elle hia dar huma viíla 
a Çofala com quatro navios pequenos , por 
lho EiRey mandar em feu Regimento. Na 
qual ida elle Almirante não fez mais que 
algum refgate de ouro com os Mouros , 
que eílavam na povoação : poriíTo a relação 
das coufas deita terra leixamos pêra outro 
lugar , e continuamos com Vicente Sodré , 
que chegou a Moçambique , onde armou 
huma caravela , de que a madeira hia de cá 
lavrada , a qual quando o Almirante chegou 
a Moçambique , que foi a quatro de Junho , 
achou já quaíl de todo acabada , havendo 
quinze dias que Vicente Sodré era chega- 
do. 



CA- 



Década L Livro VI. 29 

CAPITULO III. 

Como partido o Almirante de Moçam- 
bique , foi ter d Cidade Qiiiloa , onde fe 
*uio com o Rey delia , e o fez tributário , 
e dahi fe partio pêra a Lídia , onde ante 
de chegar a Cananor , tomou a ndo Merij 
do Soldao do Cairo. 

Almirante D. Vaíco da Gama , depois 
que chegou a Moçambique , deo pref- 
fa a fe lançar ao mar a caravela , que efta- 
va armada, e fez Capitão delia a João Ser- 
rão, hum cavalleiro dacafa d^ElRey. Eem 
quatro dias que feaili deteve, por algumas 
náos fazerem agua pelo coitado , lhe man- 
dou dar pendor , e também aífentou paz 
com hum Xeque da povoação , que já era 
outro , e não aquelle , com quem tinha paf- 
fado o que atrás fica , quando defcubrio 
aquelle caminho. Na mão do qual achou 
huma carta de João da Nova, em que da- 
va conta a qualquer Capitão que per alli 
paíTaffe do que lhe acontecera per toda 
aquella coita , e na índia , dando-lhe avifo 
de algumas coufas. Por razão da qual Car- 
ta , o Almirante leixou na mão do Xeque 
huma pêra Eítevão da Gama , que partira 
deite Reyno com finco náos , e ainda não 
era chegado \ e outra pêra Luiz Fernandes > 

e An- 



30 ÁSIA de JoÁo de Barros 

e António do Campo > dous Capitães , que 
antes de chegar ao Cabo das Correntes 5 com 
hum temporal que alli teve 3 fe apartaram 
delle Almirante > nas quaes cartas dava Re- 
gimento a todos do que haviam de fazer, 
que era differente do que Jhe dera antes que 
partifle deíle Reyno , e iílo por caufa dos 
que achou na carta de João da Nova. Fei- 
tas eílas couías , partio-íè pêra Qiiiloa , on- 
de chegou a doze de Julho , a qual Cida- 
de ficou aífombrada , vendo o terror com 
que o Almirante entrou , por fer tudo fo- 
go , e hum contínuo torvao da artilheria ; 
porque como o Rey deila Cidade citava 
mui izento , e com Pedralvares Cabral , c 
João da Nova tinha ufado de cautelas de 
muita maldade que nelle havia , quiz o Al- 
mirante entrar com eíle furor, pelo aíTòm- 
brar. E pofto que também com elle quize- 
ra andar em dilações , em quanto mettia den- 
tro na Ilha gente pêra fe defender , o Al- 
mirante lhe não deo tempo pêra ufar dei- 
tes feus modos , cá teve com elle outros 
de mais conclusão , com que o fez vir á 
praia , e fe metteo em hum batel com fin- 
co homens principaes a lhe fallar aos ba- 
teis , em que o Almirante já vinha pêra fa- 
hir em terra , e metter a Cidade a fogo , e 
langue. Ao qual Rey , per nome Habrahe- 
mo , o Ahjurame fez mais gazalhado , e 

hon- 



Década I. Liv. VI. Cap. III. 31 

honra do que elle merecia, pelo que tinha 
feito aos Capitães paliados , e por quão re- 
vel fora em querer vir alli. Finalmente o 
Almirante lhe deo huma carta d'E!Rey 
D. Manuel , fobre elia tratou com elle , que 
fe fizefíe feu vaffallo pêra ficar em fua ami- 
zade , e debaixo de fua protecção com tri- 
buto de quinhentos miticaes de ouro, pezo 
que amoedado podiam fer da noíTa moeda 
quinhentos oitenta e quatro cruzados 5 ifto 
mais em final de obediência 5 que por a 
quantidade delle. Em retorno do qual 5 o 
Almirante lhe mandou huma Patente em no- 
me d^EÍRey D. Manuel , em que relatava 
acceptallo por vaffallo com aquelle tributo , 
promettendo de o defender , e amparar , &c. 
e mais lhe mandou huma bandeira das Qui- 
nas Reaes defte Reyno , como final da hon- 
ra da vaflallagem que recebia , e algumas 
peças pêra fua peííòa. A qual bandeira foi 
arvorada em huma afie , e levada em hum 
batel acompanhada de outros com muita 
gente veítida de feíla , e trombetas , e El- 
Rey a veio receber á praia 5 fazendo-lhe re- 
verencia , como quem reconhecia aquelle 
final de fua protecção. E tomada per fuás 
próprias mãos , a levou hum bom pedaço , 
e de fi a entregou a hum Mouro dos prin- 
cipaes y o qual andou per toda a Cidade , 
e o povo trás elle bradando Portugal, Por- 

tu- 



32 ÁSIA de João de Barros 

tugaly e per derradeiro foi poíla áviíh das; 
noíTas náos em huma torre das cafas d ? EI- 
Rey. Acabado eíla folemnidade , efpedio-fe 
o Almirante delle , e aífi de Mahamede En- 
conij , que foi parte mui principal pêra EI- 
Rey vir áquella obediência , e o Almiran- 
te folgou muito de o ver , por quão fiel 
amigo íempre fe moílrou aos Capitães que 
alli foram. E poíto que elle Almirante , de- 
pois que partio deita Cidade Quiloa , levaf- 
ie determinado de paliar per Melinde pêra 
ver EIRey , e lhe gratificar o gazalhado , 
que delle recebeo , quando per alli paííou , 
eram tao grandes as correntes que o efeor- 
reo , e foi tomar huma enfeada abaixo , que 
feria de Melinde oito léguas. EIRey , quan- 
do foube que elle eftava alli , efereveo-lhe 
huma carta per mão de Luiz de Moura , 
que era hum dos degredados , que Pedral- 
vares alli lcixou , e elle lhe refpondeo , di- 
zendo a caufa de ir ter áquella parte , não 
trazendo coufa que mais defejaíte ver que 
fim peíToa - 7 mas pois o tempo lhe não deo 
lugar , quando embora tornaíTe da índia , 
efperava em Deos de o ter melhor pêra fe 
ver com elle. Partido o Almirante daquella 
enfeada, atraveílbu o grão golfão caminho 
da índia , no qual foi dar com elle Eítevao 
da Gama com três náos ; e depois que che- 
garam á Ilha de Anchcdiva , vieram as mais 

de 



DecadA L Liv. VI. Cap. III. 33 

de toda aquella Armada , fomente António 
do Campo 3 que não paliou aquelle anno á 
índia. E neíta Ilha convalefceo toda a gen- 
te que levava enferma \ e dahi fe foi lan- 
çar ao monte Delij , por fer hum Cabo mui 
notável , que eítá no principio da coíla Ma- 
labar* Na qual parte ordenou fuás náos, 
huma em vifta d'outra , começando no rof- 
to do Cabo i té quinze léguas ao mar , por- 
que não paííaífe vela alguma fem fer vifta y 
e per outros navios pequenos mandou cor- 
rer toda a coita daquella paragem. E como 
adiavam té hum barco , era logo levado 
ante elle Almirante a dar razão de íi j a 
maior parte dos quaes, que alli foram to- 
mados ? por ferem de Cananor , mandou 
fokar , e aos de Calecut reter por caufa de 
fer noífo imigo. EIRey de Cananor tanto 
que foube parte deitas obras , que elle an- 
dava fazendo tão vizinhas ao feu porto , o 
mandou viíitar , e aíli lhe efcrevêram os nof- 
fos , que lá eítavam com elle , dando-lhe no- 
vas do eítado da terra , aos quaes elle re- 
fpondeo , e a EIRey de Cananor , dando-lhe 
agradecimento pelo bom tratamento deiles. 
Também neítes dias que alli andou , refpon- 
deo a certos mercadores de Calecut , que 
lhe efcrevêram per mão de hum Portuguez 
chamado Fernão Gomes , que era dos ca- 
tivos que lá ficaram do tempo dePedralva- 
Tom.I. P.iL C res, 



34 ÁSIA de JoÂo de Barros 

res , e a refpoíta foi mui diíFercntc do que 
elles cfperavarn. Porque a fubftancia da car- 
ta y que elles efcrevêram ? era efpantarem-fe 
como elle tratava mal as coufas de Calecut, 
o qual eítava com grande defejo de o rece- 
ber pêra affentar^paz , amizade, ecommer- 
cio da maneira que elle quizeíTe , por terem 
fentido que o Çamorij nenhuma coufa mais 
defejava ; e eíle Almirante refpondeo-lhe , 
que ainda não fizera coufa contra Calecut 
igual á maldade, que commettêra na mor- 
te , e roubo dos Portuguezes ; e que té não 
haver emenda diflo , elle não cumpria o 
que EiRey D. Manuel fcu Senhor lhe man- 
dava fazer fobre ifto. Que citas novas po- 
diam dar ao feu Çamorij , em quanto lhe não 
mandava outras acerca de algumas náos de 
Meca , que elle alli andava efperando , e a 
primeira feria a chamada Merij ? tão efpe- 
rada de todos. Paliados alguns dias , nos 
quaes fempre o Almirante teve que fazer 
em dar audiência a Mouros , que lhe leva- 
vam eftes navios , que andavam ao longo 
da terra , veio-lhe cahir na mão huma náo , 
que elíe efperava , de que tinha nova per 
algumas perguntas , que fazia a eíles Mou- 
ros , que , fegundo lhe tinham dito , era do 
Soldão do Cairo , Capitão , e Feitor hum 
Mouro per nome Joar Fiquim , a qual , par- 
tida de Calecut carregada de efpeciaria , e 

por 



Década I. Liv. VI. Cap* III. 35* 

por fer mui grande 3 e fegura , foram nellá 
muitos Mouros honrados em romaria á fua 
abominação de Meca, e tornava com eíies 
romeiros, e também carregada de muita ri- 
queza. O Almirante como vio , que o navio 
Capitão Gil Matoíb a tinha rendido , por 
vir dar primeiro com elle quafi á vifta de 
todos , metteo-fe em o batel grande da fua 
náo com o Feitor Diogo Fernandes Cor- 
rêa , Diogo Godinho , e Diogo Lopes Ef- 
crivães , e foi-fe ao navio de Gil Matofo , 
porque o tempo acalmou , e não podia vir 
a elle. E tanto que foi em o navio , per o 
batel mandou vir ante li o Capitão da náo , 
e os principaes mercadores delia , a que fez 
algumas perguntas , entre as quaes foi faber 
que cabedal traziam pêra empregar em eí- 
peciaria ; e levemente fem os forçar muito y 
diíTe , que fe tornaflem á náo , e-que as cou- 
fas de pouco volume , que traziam pêra efte 
emprego , que lhas trouxeffem. Os Mouros 
parecendo-lhes que ifto era huma honefta 
maneira , que o Capitão tinha de lhe pedir 
alguma coufa , aííentáram terem feito hum 
grande íizo em fe render ao navio ., porque 
com algum prefente que levaífem ao Capitão 
mor acabariam tudo: cáfeelles preíumíram 
o que depois paliou 5 caro houvera de cuílar 
fua entrega. Finalmente tornados ante o Al- 
mirante com huma fomma de dinheiro amoe-* 
C ii da* 



36 ÁSIA de Joio de Barros 

dado em ouro , e alguma prata lavrada , 
brocados , fedas , que tudo poderia valer té 
doze mil cruzados , mandou elle Almirante 
entregar tudo ao Feitor ; e elles que fe tor- 
naíTem á fua náo , que ao outro dia os def- 
pacharia por fcr já mui tarde. Quando veio 
a manha , que as náos da frota eftavam já 
ahi juntas derredor delta , que todos anda- 
vam efperando , entrou o Almirante com 
algumas peííbas nella , e mandou-lhe tirar 
fobre a cuberta mais fazenda , e entregalla 
a Diogo Fernandes ; e depois que per efte 
modo nao pode haver mais dos Mouros , 
tornou-fe á fua náo S. Jeronymo. E vindo 
pêra fe pôr ao longo do cortado da náo dos 
Mouros , e mandar baldear delia na fua to- 
da a fazenda que trazia , per defaftre ficou 
bum criado delle Almirante entalado entre 
os cortados das náos , de que morreo , com 
que elle houve tanto pezar , que fe affaftou 
da náo , e mandou a Eftevão da Gama , e 
ao Feitor Diogo Fernandes Corrêa que a 
levaflem mais ao pego por nao fazer nojo 
ás noflas veias , e depois que lhe fizeflem 
baldear quanta fazenda trazia , lhe puzeíTem 
o fogo. Haveria nefta náo duzentos e fef- 
fenta homens de peida , e mulheres , e me- 
ninos mais de fincoenta j os quaes Mouros , 
em quanto lhe tomaram a fazenda , e ar- 
mas . vendo tanta náo derredor de íi , fof- 

frê- 



Década L Liv. VI. Cap. III. 37 

frêram o que té alli lhes foi feito. Peró quan- 
do eiles viram que os bateis das noílas náos 
citavam em torno da fua , poendo-lhes fogo , 
que era perigo da vida , e não damno da 
fazenda , determinados de morrer ., como ca- 
Yalleiros ? com algumas armas que efcondè- 
ram , e ás pedradas fizeram apartar os ba- 
teis. A eíte tempo hum dos noííbs navios, 
que andava em vigia de outras náos , vinha 
a vela demandar a náo capitania ; e quan- 
do vio os bateis andar derredor deita náo , 
veio inveítir com ella. Mas como o navio 
era pequeno , e a náo mui grande , e os 
Mouros náo faziam já conta das vidas , e 
queriam morrer vingados , em o navio che- 
gando , faltaram no caítello davante, met- 
tendo-fe tão rijo com os noífos , que os fi- 
zeram recolher aos caítellos da popa grão 
parte delles, de que feriram muitos , e ma- 
taram três , ou quatro. Na qual entrada ha- 
vendo elles algumas armas dos noífos , pe- 
ró que andavam mui feridos , a fúria os 
trazia tão vivos , que lhe houvera de ficar o 
navio em poder. Porém fobreveio a náo 
Julioa Capitão Lopo Mendes de Vafcon- 
cellos , com que os Mouros íe recolheram 
á fua náo , etm eíta de Lopo Mendes , pre- 
paífando per ella , cuidando que a afferra- 
va , lançáram-lhe dentro huma chuva de pe- 
dras , que lhe çfcalayrou muita gente. O AI- 

mi- 



38 ÁSIA de João de Barros 

mirante , que eftava de largo , vendo como 
eíta náo eípedia de íí os que chegavam a 
ella , paíTou-fe ao navio S. Gabriel de Gil 
Matofo , e chegando a ella , achou que a 
tinha afferrado D. Luiz Coutinho com a fua 
náo Lionarda , ao qual fe clíe paliou , don- 
de pelejaram tanto com ella , matando-lhe 
muita gente , té que a noite apartou a pe- 
leja. Quando veio ao outro dia , ainda com 
muito trabalho , e perigo dos noflbs , a po- 
der de fogo acabaram com cila , e fomen- 
te deite incêndio , por lhe quererem dar vi- 
da , mandou o Almirante recolher vinte e 
tantos meninos , e hum Mouro corcovado , 
que era Piloto , os quaes meninos elle man- 
dou fazer Chriílãos. E porque no feito de£ 
ta náo , António de Sá moço da camará 
d'ElRey D. Manuel , foi o primeiro que 
entrou nella , e fez como homem de lua 
peíToa que elle era, o armou Cavalleiro. 



CA- 



Década L Li v. VL 39 

CAPITULO IV. 

Como o Almirante fe recolheo pêra Ca- 
nanor , e das viftas que houve entre elle , 
e EIRey : e depois Jobre o afjentar o preço 
das efpeciarias , fe par tio pêra Cochij des- 
avindo delle , e o que fobre ijjò fucceâeo. 

ACabando o Almirante de fe deíapref- 
far deita náo , que era a principal coa- 
la que o fazia andar naquella paragem pola 
fama que tinha delia, aííi de fua riqueza, 
(da qual dle houve mui pouca em compa- 
ração do que trazia , ) como dos Mouros 
de Calecut , que vinham nella , recolheo-fe 
dentro no porto deCananor, onde, depois 
que foi vifitado d'ElRey per recados , af- 
fentou com elle , que fe vifiem em huma 
ponte tão mettida dentro no mar, que pu~ 
deíTe elle Almirante eftar em huma carave- 
la , e elle na ponte praticando ambos. Fei- 
ta eíla ponte , e aífentado o dia deitas vis- 
tas , fahio o Almirante das náos na fua ca- 
ravela toldada de veludo verde , e roxo, 
com muitas bandeiras de feda , e per der- 
redor todolos bateis também embandeira- 
dos , e nelles , e na caravela a mais limpa 
gente da Armada , e em guarda de fua pef- 
foa vinha outra caravela , que tudo era ar- 
tiljieria 7 e gente armada 7 porque quem 

olhai- 



40 ÁSIA de JoÃo de Barros 

olhaíTe pêra a galanteria das cores dos vef- 
tidos, também viífe reluzir armas, efeou- 
vifle trombetas , ouviria bombardas. El- 
Rey como foube que o Almirante D. Vaf- 
co da Gama partia das náos com eíte appa- 
rato , também por lhe moílrar o feu , fahio 
de fuás cafas , que eftavam a hum cabo da 
povoação , tomando ao longo da praia pc- 
íra lhe verem os noflbs fua pompa. Diante 
do qual vinha muita gente iblta , cujo offi- 
cio nas taes coufas hc poer-fe onde melhor 
poíTa ver , e detrás deite povo vinham dous 
Elefantes adeítrados per dous índios , que 
de íima delles em modo de porteiros faziam 
aífaítar a gente , leixando num grande ter- 
reiro ante a peffoa ^lelRey. E de quando 
em quando remettiam os Elefantes ao car- 
dume dos homens , como que os queriam 
fazer apartar \ e em modo de prazer , to- 
mavam hum com a tromba , e andava vol- 
teando com elle no ar, e per derradeiro o 
lançavam em lima da outra gente. EIRey 
vinha em hum andor dos que elles ufam , 
ás coftas de certos homens , mui bem veíH- 
dos a feu modo com pannos de feda , e per 
lima o cubriam três , ou quatro fombreiros 
de pé de copa de hum grande efparravel , 
que faziam fombra , não fomente á peíToa 
d'ElRey , mas ainda aos homens , que o 
traziam aos hombros. Outros traziam Jiuns 

aba- 



Década I. Liv. VI. Ca?. IV. 41 

abanos altos com que abanavam , como 
quem lhe queriam refrefcar o ar per onde 
paliava ; e junto delle vinha hum homem , 
que lhe trazia hum vafo de prata dourado 
a modo de copa pêra lançar a feiba , que 
fazem do batel , que o mais do tempo an- 
dam remoendo entre os dentes , couía entre 
elles mui coílumada , do qual em os Livros 
do noíío Commercio no Capitulo defte ba- 
tel mui particularmente tratamos delle , e 
deíle ufo geral daquellas partes. Toda a 
outra gente , que acompanhava EIRey > vi- 
nha pofta em ordenança , parte detrás , e 
parte diante 5 os quaes feriam quatro mil 
homens de efpada , e adarga , e d elles al- 
guns por feíla em boa ordem fe fahiam do 
fio do feu lugar, e jogavam de efgrima mui 
leve 5 e foltamente , quafi ao fom dos in* 
ftrumentos , que traziam pêra animar o fu- 
ror da guerra , como vemos uíar na Orde- 
nança dosSoiços nefta noíTa Europa. Poílo 
cada hum cm feu lugar , ElP.ey no cada- 
faífo da ponte , e o Almirante na popa da 
caravela , tão chegados hum a outro , que 
parecia eílar em hum mefmo aííento , fallá- 
ram hum pedaço per meio de feus Interpre- 
tes. Na qual prática não houve mais que 
oíFerecimentos de parte a parte , e apre- 
sentar hum ao outro o que traziam pêra fe 
darem > fegundo o ufo da terra. EIRey co- 
mo 



42 ÁSIA de João de Barros 

mo era homem , que parecia de feíTenta ân- 
uos 3 debilitado em luas carnes , e mui eí- 
crupuloíò em fua religião , por ter huma cer- 
ra dignidade acerca dos Brâmanes , a quem 
fob grave excommunhao he defezo tocar- fe 
com outra gente por a verem que he pro- 
fana , e fobre tudo mui temerofo das nof- 
fas armas , c medos , que lh$ os Mouros 
faziam ter de nós , efpedio-fe do Almiran- 
te p dizendo , que como homem velho já 
não podia íòffrer a grande calma , que lhe 
pcrdoaíle , que fe queria recolher. Que quan- 
to ao negocio do trato da efpcciaria , elle 
mandaria logo ao outro dia os feus Offi- 
ciaes , e aííi os principaes mercadores da 
terra pêra eílarem com elle niíTo , e que tu- 
do fe faria , pêra que EIRey de Portugal feu 
irmão foffe fervido: e fem mais prática EI- 
Rey fe recolheo a feus Paços na ordem em 
que veio , e o Almirante pêra as náos , dan- 
do também fua moílra. Tanto que paíTáram 
eftas viílas 3 quiz o Almirante eferever ao 
Çamorij por lhe confundir feus propoíitos , 
e artifícios , dando modo como os merca- 
dores de Calecut lhe efereveífem a carta , 
que ante da tomada da náò Merij elles lhe 
eferevêram , moftrando ler feita fem o Ça- 
morij o faber. A fubftancia da qual era 
denunciar-lhe elle Almirante como ficava 
naquelle porto delRey de Cananor , e por 

quan- 



Década I. Liv. VI. Cap. IV. 43 

quanto elle tinha mandado dizer a alguns 
íeus naturaes, que lhe efcrevêram , andando 
naquella paragem de Cananor , que como 
acabafle huma obra que alii tinha por fa- 
zer , logo lhe havia de mandar recado del- 
ia ; a obra era ter queimada a náo Merij 
do Soldao , e que aquelle Mouro portador 
da carta, que fora Piloto delia, lhe daria ra- 
zão do cafo. E porque per ventura elle não 
contaria todalas novas , lhe fazia faber , que 
de duzentos e feíTenta homens que vinham 
nella , fomente áquelle mandou dar vida , 
€ a vinte e tantos meninos. Os homens fo- 
ram mortos á conta dos quarenta e tantos 
Portuguezes , que mataram em Calecut; e 
os meninos foram baptizados á conta de 
hum moço , que os Mouros levaram a Me- 
ca a fazer Mouro. Que ifto era huma mo£ 
tra do modo , que os Portuguezes tinham 
em tomar emenda do damno que recebiam , 
que o mais feria na própria Cidade Cale- 
cut, onde elle efperava íèr mui cedo. Da- 
da efta carta ao Mouro , que o Almirante 
mandou veftir de cores , foi levado per Pe~ 
draffonfo d' Aguiar Capitão da náo S. Pan- 
talião , que o poz em Pandarane , que era 
perto de Calecut ; o qual quando chegou 
ante o Çamorij , elle era fabedor da toma- 
da da náo Merij per cartas de Mouros de 
Cananor. Ao dia feguinte , que EIRey de 

Ca- 



44 ÁSIA de João de Barbos 

Cananor difle ao Almirante , que lhe havia 
de mandar homens , que aíTcntaíTem com 
elle o negocio do trato , vieram quatro dos 
principaes da terra , dous Mouros , e dous 
Gentios , aos quaes o Almirante recebeo com 
honrai , e gazalhado. E começando de pra- 
ticar com elles em os preços da efpcciaria , 
achou-os em fuás palavras mui differentes 
do que lhe EIRey tinha dito 5 dizendo el- 
les 3 que EIRey não tinha das efpeciarias , 
aífi das que íe davam na terra , como das 
que vinham de fora , fomente os direitos del- 
ias , tudo o mais era dos mercadores que 
niílb tratavam. Que elle não podia pôr pre- 
ço a fazenda alheia , e mais per eíle preço y 
que lhe elles diziam , levava o Capitão João 
da Nova as que alli carregou, c em Cale- 
cut , antes que foíTe o alevantamento , as que 
Aires Corrêa houve , a eíle preço foram. O 
Almirante poílo que replicou , repetindo 
fempre que per os preços porque as davam 
aos Mouros de Meca , a eífe lhe haviam 
de fer dadas , efpedíram-fe eftes Mouros 
delle , dizendo , que iriam dar diífo conta 
a EIRey. O que elle Almirante não houve 
por eílranho , parecendo-lhe ferem modos 
de contratar a feu prazer, fegundo o tinha 
avifado Gonçalo Gil , que eílava em Cochij , 
e aífi Payo Rodrigues , que ficava alli em 
Cananor d' Armada de João da Nova. Pch 

rém 



Década I. Liv. VI. Cap. IV. 45* 

rém depois que elle vio que não tomavam 
conclusão , e que tudo era querer dilatar o 
negocio pêra fe chegar o tempo de fua par- 
tida , e que EIRey eftava dalli duas léguas , 
com titulo que fe affaftava do mar por lhe 
fazer nojo á fua má difpoíiçao , mandou a 
elle António de Sá, acompanhado de tres > 
ou quatro homens , com huns apontamentos , 
pedindo-lhe que fe determinaífe fegundo for- 
ma delles. Em refpofta dos quaes António 
de Sá trouxe, que pois elle Almirante não 
era contente dos preços , e modo pei; que 
fe lhe dava a efpeciaria , podia ir em boa 
hora a Cochij , e fegundo o partido que lá 
fizeífe , aífi o fariam os * mercadores de Ca- 
nanor. Da qual refpoíla o Almirante ficou 
tão indignado , que mandou logo chamar a 
Payo Rodrigues , e os que ficaram com el- 
le , dizendo que fe recolheíTem , por quanto 
elle fe mandava per huma carta efpedir del- 
Rey com taes palavras , que não convinha 
ficar alli algum Portuguez. Payo Rodri- 
gues vendo a determinação do Almirante, 
pedio-lhe que houveífe por bem fer elle a 
peífoa , que havia de enviar a EIRey, com 
tanto que a carta foífe hum pouco mode- 
rada , porque fendo aíH , efperava tomar 
com elle alguma boa conclusão , por faber 
já o modo de negociar com aquella gente. 
O Almirante, porque lhe pareceo que não 

fe 



46 ÁSIA de João de Barbos 

fe perdia muito tempo em tentar EIRey ou- 
tra vez per Payo Rodrigues , o mandou a 
elle , aqueixando-fe da mudança que acha- 
va em fuás palavras , tomando por conclu- 
são , que pois os Mouros de Cananor tinham 
tanto poder cm ília vontade , que lha faziam 
mudar , elle também pela manhã fe mudava 
dalli pêra Cochij , onde eftava hum Rey de 
muita verdade , e que tinha mais conta com 
os Portuguezes que com os Mouros. Que 
leixava alli huma caravela pêra recolher 
aqueUe menfajeiro 5 e os outros de fua com- 
panhia ; e lhe fazia faber 5 que onde quer 
que achafíe Mouros de Cananor , havia de 
tratar como aos de Calecut , e lhe havia 
por alevantados os feguros que lhes tinha 
dado pêra podprem navegar , porque gente 
perturbadora de paz , e concórdia , não me- 
recia que alguém a tiveffe com elles ; e com 
eílé recado efpedio Payo Rodrigues , e elle 
Almirante partio-fe ante manhã , leixando 
naquelle porto de Cananor a Vicente So- 
dre em fua náo , e huma caravela pêra re- 
colher Payo Rodrigues. 



CA- 



Década L Liv. VI. 47 

CAPITULO V. 

Como o Almirante fe partio via de Cale- 
cut : e o que fez chegando a elle , e dabi 
fe par tio caminho de Cochij , ficando 
em maior quehra com o Çamorij 
do que eflava dantes. 

PArtido o Almirante , defavindo d'Ei- 
Rey de Cananor, e fazendo feu cami- 
nho ao longo da coita , veio ter com elle 
hum zambuco , em que vinham quatro ho- 
mens Gentios do mais nobre fangue da ter- 
ra 5 os quaes lhe deram huma carta d ? El- 
Rey de Calecut. A fubílancia da qual era , 
fe elle Capitão mor leixára de ir a feu por- 
to por razão do damno , que fora feito ao 
Feitor Aires Corrêa, elle lhe entregaria os 
auétores daquella união ; e que além difto 
por amor da amizade , que defejava coníer- 
var com EIRey de Portugal, naquella Ci- 
dade Calecut lhe feria dado carga de efpe- 
ciaria pêra todalas náos que levava. Que 
pêra iílb mandava aquelles quatro homens 
dos mais nobres de fua cafa, dos quaes fi- 
caria hum com elle > em quanto os três lhe 
tornavam com refpofta. O Almirante como 
vinha quebrado com EIRey de Cananor, 
recebeo eítes Naires com honra , e gazalha- 
do , moftrando ter muito contentamento del- 

Rey 



48 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Rey por lhe mandar eííe feu recado pertaes 
pcílbas , dizendo , que lhe parecia que cita 
vinda delles havia de íiicceder em bem , por 
não entrar neíte negocio homem da cafta 
dos Mouros. Per o qual modo refpondeo 
a EIRey ; e quanto a fua ida a Calecut elle 
eílava em caminho , que aíli o faria , como 
lhe mandava pedir. Efpcdidos os três Nai- 
res, e ficando hum per fua própria vontade 
com o Almirante , veio dar entre as carave- 
las , que hiam ao longo da terra , hum 
zambuco com obra de trinta almas naturaes 
de Cananor , aos quaes leixou ir em paz , 
por ter já da noite paliada vindo a elle hum 
criado de Payo Rodrigues com huma car- 
ta 5 em que lhe dava razão do que paliara 
com EIRey , e como eílava fubmettido a 
toda razão , e a conceder os capítulos que 
lhe mandara , e que Vicente Sodré levaria 
reíòluçao de tudo per carta aílinada d'El- 
Rey. Seguindo o Almirante feu caminho 
fempre pegado com terra , per três vezes o 
foi detendo o Çamorij com recados , hum 
no porto de Chomba , outro em Padarené , 
e outro duas léguas antes de chegar a Ca- 
lecut. E a eíle derradeiro porto , cm refpofta 
do que o Almirante lhe requeria , lhe man- 
dou dizer , que quanto ao pagamento da 
fazenda , que os Portuguezes perderam no 
alvoroço 7 que o povo de Calecut commet- 

teo., 



Década I. Liv. VI. CaP. V. 49 

teo 5 por as afrontas que lhe os mefmos 
Portuguezes faziam , que elle Capitão mor 
fe devia contentar com a tomada da náo de 
Meca , que importou mais em fubftancia. de 
fazenda , e em morte de gente , que dez 
vezes o que Pedralvares tinha perdido. Que 
fe de huma parte , e da outra fe houveíTem 
de a fommar perdas , damnos, e mortes, 
que elle Çamorij era o mais ofFendido ; e 
pois não requeria deitas coufas reftituiçao, 
lendo requerido com muitos clamores do 
feu povo , que lhe défTe emenda dos males „ 
que tinha recebido dos Portuguezes ; e diífi- 
mulava efte clamor por defejar ter paz , e 
amizade com EIRey de" Portugal. Que elle 
Almirante não devia mais repetir em coufas 
paliadas , e fe devia contentar ir ter áquel- 
la ília Cidade Calecut, onde acharia as es- 
peciarias que houveífe mifter. E quanto ao 
que dizia, que lançaífe dofeuReyno todo- 
los Mouros do Cairo , e de Meca , a iílo 
não refpondia , por fer coufa impoífivel ha- 
ver de defterrar mais de quatro mil cafas 
delles , que viviam naquella Cidade não co- 
mo eftrangeiros , mas naturaes , de que o 
feu Reyno tinha recebido muito proveito. 
Que fe elle Almirante , fem eftas capitula- 
ções tão impoíllveis , como apontava , qui- 
zeííe aífentar paz , e trado de commercio , 
que folgaria de o fazer. O Almirante quan- 
Tom.L P.iL D do 



yo ÁSIA de João de Barros 

do vio tão differentes palavras do que té li 
tinha ouvido per recados da parte delle Ça- 
iriorij j porque as houve em lugar de afron- 
ta , não refpondeo mais fenao , que elle fe- 
ria a refpofta , e não feriam com o Çamorij 
os mcnfajeiros , que trouxeram eíte recado > 
quando elle Almirante eílava já furto ante 
a Cidade Calecut. Mandando logo tomar 
dous barcos pequenos com féis homens , 
que vieram ter ás náos , e ifto com tenção 
de os mandar hum j e hum com recados a 
EIRcy , temendo-íè que não os havendo 
per eíle modo , pêra que huns ficaílem em 
arrefens do que mandaíle , per própria von- 
tade nenhum lhe havia de acceptar levar 
recado aElRey. E parece que aíli a toma- 
dia deites , como dos outros , que o Almi- 
rante veio tomando per o caminho fez , 
obrigaram tanto , que logo aquella noite lhe 
veio recado do Çamorij , aqueixando-fe que 
não fabia porque queria reter os feus na- 
turaes em modo de cativos. Que fe o fazia 
por razão do ódio , que tinha aos Mouros , 
que os prezos pouca culpa tinham na caufa 
deite ódio ; e fe era como reprezaria pêra 
haver o que dizia terem perdido os Portu- 
guezes no alevantamento- paífado , que já 
lhe tinha enviado dizer quanto mais damno , 
e mais fazenda elle Almirante tinha havido 
que perdido em Calecut 3 e que foífe huma 

per- 



Década L Liv. VI. Cap. V. yi 

perda por outra. O Almirante como já dos 
recados , que ao caminho elle Çamorij lhe 
mandara , vinha indignado, cíle o indignou 
mais 3 e a refpoíla que levou foi , que não 
vieíle mais a elle com outro recado , fenao 
trazendo comfigo o preço das coufas , que 
foram tomadas aos Portuguezes ; e depois 
que fizeíle eíla entrega , então entenderia en\ 
o negocio da paz , e trato da efpeciaria. O 
Brâmane , que trouxe efte recado , quando 
vio a indignação do Almirante , fem replicar 
coufa alguma , fe efpedio com mais temor 
do que trouxera. E porque elle pudeíTe con- 
tar ao Çamorij o que vira,, mandou o Al- 
mirante em fua prefença tomar huma náo, 
que eítava furta diante da Cidade carrega- 
da de mantimentos , elevar abordo da fua; 
e aííi mandou paffar toda a artilheria das 
náos groffas , e as outras mais pequenas , 
que podiam bem chegar á terra , pêra com 
eíla artilheria varejar a povoação 5 dizendo , 
que logo ao feguinte dia havia de começar 
eíla obra. A qual coufa , temendo o Çamo- 
rij , pelo damno que Pedralvares Cabral fi- 
zera , quando lhe varejou toda a Cidade, 
mandou per toda a frontaria da Cidade ao 
longo do mar fazer huma eílacada de grof- 
fas palmeiras , entulhada per dentro de ma- 
neira , que lhe ficava em lugar de muro ; 
não fomente pêra defender afahida em ter- 
D ii ra, 



£2 ÁSIA de João de Barros 

ra , fe os noflbs a quizeffem commetter , 
mas ainda pêra cegar toda a artilheria , com 
que a povoação não recebefle damno. Po- 
rém como a tenção do Almirante não era 
iahir em terra , mas csbombardear a Cida- 
de , quando veio ao outro dia , mandou 
chegar todalas velas pequenas a terra efpa- 
co conveniente ; aífi pêra que a artilheria 
de ferro , que os Mouros tinham aífeítada 
na principal frontaria da Cidade lhe não 
pudcíTe fazer nojo , como pcra que a fua 
pudeíTe fobrelevar a eítacada , e foíTe pefcar 
á povoação. E antes que procedeíTe na obra 
deite apparato , em que citava , o efcreveo 
primeiro ao Çamorij per hum dos Gentios, 
que fe tomaram nos barcos , denunciandc- 
lhe , que não vendo té 'o meio dia recado 
feu , com effèíto do que lhe per tantas ve- 
zes mandara dizer , dlc abrazaria em fogo 
aquella fua Cidade. Paliado o qual termo, 
porque não houve refpoíta , mandou a to- 
dalas náos , que eítavam com recado pêra 
iíTo , que cada huma enforcaíTe no lais da 
verga os Mouros ? que lhe elle mandara : e 
fobre eíta obra , que foi hum efpedtaculo 
de muita dor a toda a Cidade , começaram 
de ver , e ouvir outro de maior fua confu- 
são , tirando toda artilheria naquelle efpaço 
do dia , que foi hum contínuo torvao , e 
huma chuva de pelouros de ferro, e pedra, 

que 



Década L Liv. VI. Cap. V- 5-3 

que fizeram huma mui grande deftruição , 
em qué também morreo muita gente. Quan- 
do veio fobre a tarde , por eípedida , e maior 
terror , mandou cortar aos enforcados , que 
eram trinta e dous, cabeça, mãos, e pés , 
e foram mettidos em hum barco com huma 
carta , em que dizia , que fe aquelles ; não 
lendo os próprios , que foram na morte dos 
Portuguezes , fomente por terem parentelco 
com os moradores , recebiam aquelle cafti- 
go 3 efperaííem os audtores deíla traição 
outro género de morte mais cruel. O qual 
barco mandou per hum André Dias , que 
depois foi Almoxarife do armazém do Rey- 
no ; e os toros dos corpos deites membros 
mandou lançar ao mar a tempo que a ma- 
ré vinha 9 pêra irem ter á praia entre os 
olhos da gente , e verem quanto cuftava 
huma traição feita a Portuguezes , e quão 
vingado havia de íer qualquer damno que 
lhes fizeflem. A qual coufa affi aflbmbrou 
toda a Cidade , que quando veio ao outro 
dia , que elle Almirante tornou a mandar 
fazer outra tal obra , não apparecia coufa 
viva per toda a praia ; porque o Gentio , 
como gente mais temerofa , defamparava 
os lugares da frontaria do mar j e os Mou- 
ros , a quem era commettido a guarda del- 
le ? não oufavam apparecer , enterrando-íè 
na arêa dos valos y e repairos, que tinham 

fei- 



54 ÁSIA de João de Barros 

feito. Tudo citava tão deíamparado , que 
bem pudera o Almirante laquear a Cidade 
fein muita refiílencia ; mas como eftas mor- 
tes de gente mais eram feitas pêra terror de 
EIRcy deíiftir dos confeihos dos Mouros , 
que por vingança do paliado i nao quiz exe- 
cutar quanto damno pudera fazer , por dar 
tempo a EIRey que fe arrependeíTe , e nao 
cauía , que fe indignafle com tão grande 
perda , como fora , le lhe dcftruíra a Cida- 
de de todo. E porque não parecefle a EI- 
Rey que aos Portuguezes mais os obrigava 
a cubica que a honra, neítes dous dias, que 
toda a Armada fe oceupou em varejar a Ci- 
dade , nunca o Almirante quiz mandar en- 
cetar a nao , que mandara tirar do porto , 
e trazer junto da fua , efpcrando que ha- 
vendo algum bom concerto com EIRey, 
lha mandar reílituir áfli carregada como ef- 
tava. Peró depois que paliaram es dous dias 
daquella fúria de fogo , por eípedida man- 
dou defearregar a nao de muitos mantimen- 
tos 5 que fe repartiram per toda a Armada , 
e lhe foi mui bom refrefeo ; c deícarregada 
de tudo , foi-lhe poílo fogo , ardendo toda 
a vifta da Cidade té onde lhe chegava a 
agua , corn a qual eípedida fe partio o Al- 
mirante caminho de Cochij , aonde chegou 
a fete de Novembro. 

CA- 



Década I. Liv. VI. 57 

CAPITULO VI. 

Como ElRey de Cananor por meio de 
Payo Rodrigues tornou a conceder as coufas 
que o Almirante lhe requeria , o qual re- 
cado lhe levou Vicente Sodré a Cochij , on- 
de elle jd eflava : e das coufas que em fua 
chegada pajjòu com ElRey de Cochij. 

ELRey de Cananor com o recado , que lhe 
Payo Rodrigues levou do Almirante , 
vendo que era partido defavindo delle , te- 
ve não fomente còm o meímo Payo Ro- 
drigues grandes práticas , mas ainda com 
os Gentios principaes da terra , que não 
eram tão fufpeitofos a nós , como os Mou- 
ros. E a primeira çoufa , que logo fez na- 
quelle dia da chegada de Payo Rodrigues', 
foi pedir-lhe pela amizade que com QÍle ti- 
nha, fe tornaíTe a Vicente Sodré, e acabaílc 
com cllc que não partiíTe , e fe detiveíTe per 
efpaço de dous , ou três dias , em quanto 
elle mandava ajuntar todolos mercadores da 
terra , no qual tempo efperava tomar tal af- 
fento , com que ElRey de Portugal foiTe 
fervido , e o Almirante contente. Porque 
como eíle negocio das efpeciarias dependia 
mais da vontade daquelles , que andavam 
nefie traífco , que da fua , e em coufa de pro- 
veito os homens eram máos de concordar, 

e o 



56 ÁSIA de JoÁo de Barros 

e o Almirante mui impaciente dos vagares 
dos Mouros , e mais fendo imigos 3 queria 
que o fervilTem tão preftes , como fe os ti- 
vefle ganhado de muito tempo por amigos: 
não o devia culpar y fe nefíe cafo té então 
não tinha mais feito , e também as coufas 
de tanta importância geralmente mais fe aca- 
bavam com amor , que com indignação. 
Vicente Sodré , porque á mingua de elle não 
eíperar aquelles dias , não fe perdefle efta 
vontade $ que EIRey moftrava , ( fegundo 
lhe dizia Payo Rodrigues , ) cíperou cfte 
tempo 3 em o qual teve confelho com os 
feus , que zelavam a paz , e bem do Reyno , 
e determinou-fe de todo : mandando dizer 
ao Almirante per Vicente Sodré , que elle 
podia mandar carregar asnáos que quizeíTe 
cias fortes da efpeciaria que lhe tinha pro- 
mettido , aífi , e pela maneira que elle Al- 
mirante queria em feus apontamentos ; e 
que a perda que niíTo houveíTe , elle a refa- 
ria aos mercadores em os direitos , que lhe 
liaviam de pagar ; porque mais eftimava a 
amizade d 5 ElRey de Portugal , que o ac- 
crefeentamento das rendas de íèu Reyno , 
pofto que os Officiaes de fua fazenda lho 
tinham contradito. E com cfte recado man- 
dou a Payo Rodrigues , e aos que eílavam 
em fua companhia , que fe não foflem ; por- 
que elle efperava que o Almirante acceptaf- 

fe 



Década I. Liv. VI. Cap. VI. 57 

fe fua offerta, e ambos tornaflem á primei- 
ra paz que tinham , e nefte tempo acaba- 
riam elles de desbaratar fua fazenda , e fazer 
feu emprego pêra fe poderem ir em asnáos 
que foliem 'pêra Portugal. O Almirante aífi 
por razão deite recado* d'ElRey de Cana- 
nor , como por em alguma maneira ter cas- 
tigado o Çamorij i que eram as duas coufas 
que elíe mais defejava , quando chegou a 
Cochij hia já mui confiado que não havia 
de achar EiRey tão mudado , como lhe ti- 
nha eferito Gonçalo Gil Barbofa. E a cau- 
fa j por que elíe Gonçalo Gil tinha eíte re- 
ceio , era por eílas coufas 5 que eile contou 
ao Almirante , as quaes ante de fua vinda 
eílavam ordenadas. O Çamorij per meio dal- 
guns Brâmanes 4 gente , em que eílá a reli- 
gião de todo o Gentio daqueílas partes , ti- 
nha convocados em fua amizade a EíRey 
de Cananor , e a EIRey de Cochij 3 liando- 
fe todos em noífa deftruição. Pêra que or- 
denavam huma Armada de mais de duzen- 
tas velas entre nãos , e zambucos com gran- 
de apparato de armas j e numero de gente ; 
a qual fahindo dos portos , onde cada hum 
tinha armado a fua pêra fe ajuntarem todas 
em Calecut, Deos acudio com hum pouco 
de temporal travefsão 3 que deo com a maior 
parte deftas velas a coita , com que ficaram 
tão quebrados ± que não oufáram debolir 

mais 



58 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

mais com coufa alguma. Porém entre ellcs 
citava ordenado , pois com as armas não 
podiam , que íè ajudaflem deita induítria : 
ir cada hum per fi detendo , e gaitando o 
tempo , defavindo-fe em os preços da cfpe- 
ciaria 5 de maneira , que paliada a monção 
da carga pêra vir a eíte Reyno , forçada- 
mente invemarem na Ilidia. E como as náos 
grandes não tinham portos pêra iííb , a maior 
parte delias haviam de vir á coita ; e fe met- 
reííem os navios pequenos em os rios , fe- 
gundo coílume da terra , tinham certo po- 
derem logo fer queimados. Que lhe parecia 
que daqui procederam os modos , que El- . 
Rey de Cananor tivera com elie , em íe 
deíconcertar nos preços da efpeciaria , e aíli 
os recados do Çamorij ? tudo a fim de lhe 
gaitar o tempo. É pois era vindo a fe con- 
certar comElRey de Cochij , lhe pedia que 
foífe logo , e não curaíle de muitos eferu- 
puíos com elie ; e aífi proveíTe na oíferta 
delRey de Cananor , ante que o Çamorij 
teceífe com elles outra nova têa , que o fi- 
zeíTe invernar na índia, por eítarem já em 
oito dias de Novembro. O Almirante , co- 
mo já tinha experimentado parte deitas cou- 
iàs , bem vio que Gonçalo Gil fallava co- 
mo homem , que tinha tenteado , e fentido 
a tenção daquelles Príncipes Gentios ; e por- 
que, fobre iffo queria logo prover, ajuntou 

os 



Década I. Liv. VL Cap. VI. 5^ 

os Capitães 5 e principaes peííoas da frota 
cm confelho , onde Gonçalo Gil tornou a 
reíumir c que diííera a eíle Almirante. Do 
qual confelho fahio efpedir elle logo a Vi- 
cente Sodré com os navios da Armada , 
que haviam de ficar na índia : mandou-lhe 
que andaíTe na paragem de Calecut té An- 
chediva , porque não entraíTe , ou fahiíTe bar- 
co d ? algum porto daquella coita , que não 
foífe viíío per elle , e aos imigos déííe o 
caftigo que mereciam ; c daqui mandaffe re- 
cado a ÉlRey de Cananor, como elle Al- 
mirante ficava tomando carga em Cochij , 
e que logo feria com eíle. EIRey de Co- 
chij nefte tempo não fe tinha viílo ainda 
com o Almirante ; e porque foube que an- 
dava pêra entrar -em feu porto huma náo 
de Calecut , que vinha de Ceilão , a qual 
era de hum Mouro de Calecut chamado 
Nine Mercar > temendo que em Vicente So- 
dré fahindo a tomaíle , mandou pedir ao 
Almirante que não impediííe aquella náo j 
que queria entrar naqueííe feu porto , poílo 
que de Calecut foíle. Ao que o Almirante 
refpondeo , que o porto , e as nãos eram 
fuás , as quaes eftavam ao que mandafTe • e 
que eíle era o principal mando que trazia 
.d'ElRey feu Senhor : por tanto que aquel- 
la , e todalas mais de Calecut , que elle cui- 
zefTe, ainda que eram dos maiores imigos, 

que 



6o ÁSIA de João de Bauros 

que os Portuguezes tinham naquella terra , 
ellas feriam tratadas como as próprias fuás. 
Do qual recado EIRey ficou tão contente, 
que logo ordenou de fe ver ao outro dia 
com elle Almirante , fobre as quaes viílas 
andava Gonçalo Gil ; e porque quafi foram 
ao modo das delRey de Cananor, leixare- 
mos de particularmente tratar do apparato 
delias. Somente que paliadas as palavras ge- 
raes de fua vifta , quando veio ao fallar em 
o negocio do trato da efpeciaria , e preços 
delia , fobre que logo o Almirante quiz en- 
tender, também achou EIRey do bordo do 
de Cananor , donde entendeo fer certo o 
que lhe Gonçalo Gil tinha dito , com que 
íe apartaram hum do outro não mui con- 
tentes. Na qual efpedida teve EIRey hum 
artificio com elle Almirante , por lhe mof- 
trar que não á força de palavras , mas que 
de fua própria vontade, procedia o que nif- 
fo queria fazer; porque indo elle Almiran- 
te pelo rio abaixo na caravela , em que veio 
a eftas viílas ,. leixando EIRey todo o ap- 
parato com que viera a ellas , fomente com 
ieis , ou fete homens principaes metteo-fe 
em hum barco , e veio á força de remo 
bufear o Almirante. E como homem con- 
fiado no que vinha fazer , metteo-fe com 
elle na caravela , e difle-lhe, que elle o vi- 
ra hum pouco defeontente , e que lhe pa- 
re- 



Década I. Liv. VI. Cap. VI. 61 

recia que ifto procedia de elle fer máo de 
contentar , mais que de qIIc fer duro em 
conceder; e porque ambos não ficaífem in- 
famados de mal avindos , que elle fe vinha 
metter em feu poder, e pois lhe entregava 
a peíToa , que entregava a vontade , que alli 
tinha tempo de fe vingar da menencoria, 
que trazia delle. Quando o Almirante vio 
a confiança , com que EIRey fe metteo na 
fua caravela 5 e a graça , com que lhe dizia 
eftas palavras , creo que tudo ifto procedia 
da bondade de Deos , e que elle guiava o 
coração defte Principe Gentio por efte mo- 
do não efperado ; porque aífí o defcubri- 
mento da índia , como o governo de paz , 
e concórdia de tão barbara gente , creffe- 
mos vir de fua mão , e não da noífa induí- 
tria. E depois que com muitas palavras agra- 
deceo a EIRey aquella confiança , e modo 
de conceder nas coufas , que lhe EIRey feu 
Senhor mandava per elle requerer, vieram 
aífentar nos preços das efpeciarias , de que 
logo fizeram folemnes contratos de efcritin 
ra , os quaes duram té hoje. EIRey de Ca- 
nanor tanto que foube parte deftas coufas, 
ficou mui temerofo que o Almirante não 
foíTe mais ao feu porto , poílo que per Vi- 
cente Sodré lhe mandaííe recado que q não 
havia de fazer , e ifto lembrando-lhe as dif- 
ferenças , que teve com elle , e quanta mais 

fa- 



62 ÁSIA de João de Barros 

facilidade EIRey de Ccchij moftrou no mo- 
do de fe com elie confervar , íegundo lhe 
era dito per aviíòs , que os Mouros merca- 
dores de Cochij mandaram aos de Cana- 
nor. E como homem deíconíiado , íabendo 
que Vicente Sodré andava íbbre o porto de 
Calecut i ordenou de mandar dous Embai- 
xadores 3 que íbffem a elle com hum Por- 
tuguez dos que eílavam cm companhia de 
Payo Rodrigues pêra os encaminhar , pe- 
dindo-lhe perhuma carta, quedéffe ordem 
como aquelles íeus Embaixadores em hum 
navio dos feus foíTem a Cocliij , porque os 
mandava ao Capitão mor com negocio , que 
importava muito ao íerviço delRey de Por- 
tugal. A qual coufa Vicente Sodré fez com 
diligencia , mandando huma caravela das 
fuás que os levaiTe, e o Almirante os rece- 
beo honradamente , e tornou logo a efpe- 
dir, mandando dizer per elles a EIRey, que 
tiveííe fua ida por mui certa a Cananor 
aiTentar as coufas, que lhe mandava reque- 
rer, Íegundo forma do que elle tinha aíten- 
tado com EIRey de Cochij. Neíle meírrio 
tempo vieram a elle Almirante outros Em- 
baixadores , que diziam fer da gente Chri- 
fta , que habitava per as comarcas de Cran- 
ganor , quatro léguas de Cochij , que em 
numero feriam mais de trinta mil almas. 
A fubílancia da qual embaixada era ferem 

Chri- 



Década I. Liv. VI. Cap. VL 63 

Chriílaos da linhagem daquelles , que o 
Apoftolo S. Thomé baptizara naquellas par- 
tes , os quaes fe governavam per certos 
Bifpos Arménios , que alli reíidiam , e per 
meio delles davam íua obediência ao Patriar- 
ca de Arménia. E por quanto elles eftavam 
entre Gentios , e Mouros , de que eram mal 
tratados , e tinham fabido íer elle Capitão 
de hum dos mais Catholicos , e poderofos 
Reys da Chriftandade da Europa 3 lhe pe- 
diam pelos méritos da Paixão de Chrifto 
os quizefle amparar , e defender daquella 
infiel gente que os períeguia-, por fe não per- 
derem de todo aquellas relíquias de Chri- 
ílandade , que o Apoftolo S. Thomé alli 
tinha , como memoria dos trabalhes , e mar- 
tyrios , que alli paifára. E que elles com 
zelo de falvar fuás almas , e peííoas , fe vi- 
nham entregar a elle per meio daquelles 
feus Embaixadores , como fe puderam en- 
tregar a EIRey de Portugal , fe prefente fo- 
ra • pois elle reprefentava a fua , por quan- 
to elles queriam fer governados , e regidos 
per elle , e- em final de obediência lhe en- 
tregavam a vara da juíliça , que entre fi ti- 
nham. Com as quaes palavras lhe aprefen- 
táram huma vara vermelha tamanha como 
hum fceptro , guarnecida nas pontas de pra- 
ta , e na de fima tinham três campainhas 
de prata. O Almirante , depois que os ouvio 5 

mof- 



64 ÁSIA de João de Barros 

moítrando ter grande contentamento diíío , 
e aífi do que lhe aprefentáram , refpond-eo , 
que a mais principal coufa , queElRey feu 
Senhor lhe encommendára , era , que traba- 
lhafle por ter communicaçao com a Chri- 
ílandade daqucllas partes , por ter noticia 
que havia muita , e mui avexada dos infiéis. 
Porém como elle em chegando á índia , 
com cila própria gente de infiéis tivera mui- 
to trabalho , como ellcs ouviriam dizer f 
eítas differenças lhe gaitaram todo o tempo , 
fem poder entender em outra coufa. E ven- 
do elle que per íi onao podia já fazer, por 
citar de caminho pêra Portugal , leixava ci- 
te cuidado a hum Capitão , que havia de fi- 
car naquellas partes com huma Armada , o 
qual ao prelente citava em Cananor com 
ella , e a elle, quando tivellem neceffidade > 
podiam requerer qualquer ajuda , e favor , 
porque elle o faria com tanto amor, como 
aos próprios Portuguezes , que havia de lei- 
xar em Cochij , e Cananor. E quanto ao 
que tocava a dlc Almirante , podiam ier 
certos , que depois que Deos o levaíTe a Por- 
tugal , cllc reprefentaria fuás coufas a El- 
Rey feu Senhor , de maneira , que na pri- 
meira Armada proveífe como elles foífem 
confolados. Finalmente o Almirante per ef- 
te modo os fatisfez 5 e lhes deo algumas 
coufas j com que os efpedio ? depois que fe 

in- 



Dec. I. Lív. VI. Caí. VI. e VII. 6$ 

informou do modo de íua religião , e vi- 
da. E porque da Chriftandade deita gente, 
e do que íe acerca delles tem de S. Tho- 
mé , ao diante particularmente trataremos , 
e principalmente em a nofla Geografia 5 lei- 
xamos de o fazer aqui. 

CAPITULO VII. 

Como o Almirante , per hum artificio dê 
engano , que hum Brâmane teve com elle y 
joi ter ao porto de Calecut , onde pajfiu 
grande rifco de lhe queimareyn a não , e o 
quefobre ijjo fez : pajjado o qual trabalho , 
par tio pêra ejle Reyno , onde chegou a faU 
vamento. 

EM quanto o Almirante paliou eftas cou- 
fas com eíles Embaixadores d'ElRey 
de Cananor , e da Chriftandade de Cranga- 
nor, eftava o Feitor Diogo Fernandes Cor- 
rêa com os Ofliciaes da Feitoria , que de cá 
Jiiam ordenados , e principalmente com Gon- 
çalo Gil Barbofa , dando ordem á carga da 
efpeciaria. O qual negocio fe fazia em hum 
recolhimento de madeira tão perto das náos , 
que ainda que a terra foííe fufpeitofa , o íi- 
tio do lugar, e favor delias os fegurava de 
qualquer temor. E o que mais nefta parte 
defcançava os noíTos era não haver alli 
aquelle tráfego de mercadores de Méca>, 
Tom.L P.iL E co- 



66 ASTA de JoÂo de Barros 

como havia em Calecut, e Mouros da ter- 
ra eram poucos , e não mui poderofos , e a 
povoação dos Gentios coufa mui fraca , e 
as cafas delRey mettidas dentro polo rio, 
de maneira , que aííi da parte da povoação 
dos Mouros , e Gentios , como repairo de 
força , que o Almirante niffo fez , tudo ef- 
tava leguro pêra qualquer cafo , que fobre- 
viefle , fegundo o eílado da terra , do fitio 
da qual ao diante faremos maior relação. 
Andando o Almirante no maior fervor dei- 
te negocio de carregar as náos , veio a el- 
le hum Brâmane , que entre os Índios he a 
peílba mais eftimaaa por fua religião , o 
qual trazia comfigo três peíToas , dous dos 
quaes dizia ferem filho , e fobrinho , e o 
outro feu fervidor , pedindo-lhe que hou- 
veíTe por bem dar-lhe licença pêra vir cm 
fua companhia ao Reyno de Portugal ver 
o modo da Chriftandade , pêra mais facil- 
mente fer doutrinado nas coufas da noífa Re- 
ligião. O Almirante vendo nas fuás pala- 
vras , e peíToa fer homem pêra eílimar , e 
mais com tal nropofito , como elle dizia , o 
mandou agazalhar em fua náo , e certos ba- 
ilares de pimenta , que dizia trazer pêra fua 
provisão , e outra fazenda , de que a princi- 
pal era alguma pedraria de preço. Paliados 
dous , ou tres dias , tendo o Almirante com 
clle prática, diíle-lhc eíle Brâmane ; que el- 
le 



Década I. Liv. VI. Cap. VIL 67 

lie lhe queria deícubrir a verdade da cauía 
da fua vinda a Portugal , per ventura fe o 
aífi não fizefle , a elle Almirante lhe pezaria 
de o não ter íàbido a tempo , dizendo que 
o Çamorij feu fenhor o enviava a EIRey 
de Portugal íbbre concerto de pazes , e 
preço das eípeciarias pêra afientar com elle 
eftas coufas , de maneira que ficaííem firmes , 
e perpetuas ; por quanto lhe parecia que fen- 
do feitas per os íeus Capitães , não podiam 
ler muito duráveis , porque cada anno vi- 
nha hum , e fegundo fua condição , aífi mo- 
via os partidos da paz. O Almirante lhe 
refpondeo , que fe por razão de as pazes 
ficarem firmes , e tudo o mais que o Çamo- 
rij aífentaífe, conforme aoferviço d'ElRey 
feu Senhor , o enviava a Portugal , a elle 
Almirante parecia coufa efcufada ; porque 
os poderes 3 que EIRey dava a feus Capi- 
tães , eram tão folemnes , e de tanta autori- 
dade naqucllas coufas ? que elles faziam fe- 
gundo fuás inftrucções , que tinham a pró- 
pria força , e vigor , como fe per elle mef- 
mo foífem feitas. Finalmente tanto pratica- 
ram ambos nefta matéria de paz , que veio 
o Brâmane a dizer, que fe elle Almirante, 
quizeífe algum tanto abrandar de feus quei- 
xumes , elle feria medianeiro entre elle, e 
o Çamorij , com que os negócios vielfem a 
melhor eftado do queeftavam; e que devia 
E ii que- 



68 ÁSIA de JoÂo de Barros 

querer que efta paz , e concerto fofle feita 
ante per elle , que vir hum novo Capitão 
de Portugal , e acabar ifto com o Çamo- 
rij ; e mais pois lhe tanto amor , e graça 
moílrára a primera vez que com elle fe 
vio , e tanto procurara de o livrar das mãos 
dos Mouros léus imigos. E que em penhor 
defta oíFerta , que promettia de fi , não po- 
dia mais dar que fua pelToa , e as de feu fi- 
lho , e fobrinho , que não falariam da náo 
té acabar tudo , querendo tornar ao porto de 
Calecut. O Almirante vendo a conílancia 
das palavras deite Brâmane y e a feguridade 
de fua peííoa , e confiado na entrega , que 
fazia de fi , e do filho , e fobrinho , deo-lhe 
licença que foíTe a Calecut dar conta ao 
Çamorij defta prática , que ambos tiveram , 
o qual não tardou muito com fua refpofta ; 
e pola mais autorizar , trouxe comfigo hum 
homem , que elle dizia fer Naire , dos prin- 
cipaes da cafa do Çamorij , dizendo da fua 
parte que era contente de pagar em efpc- 
ciaria por as coufas , que foram tomadas 
no alevantamento contra Aires Corrêa té 
quantia de vinte mil pardaos , moeda da ter- 
ra j que da noífa são de trezentos e fefíen- 
ta reaes cada hum. Vendo o Almirante tal 
recado , pareceo-lhe que efte modo de vir 
aquelle Brâmane aífi diífimulado , não era 
tanto pêra vir a eíte Reyno 7 fegundo elle 

di- 



Década L Liv. VI. Cap. VIL 69 

dizia , como por artificio do Çamorij , por 
eítar já arrependido , fabendo que EIRey de 
Cananor, e ElRey de Cochij eítavam com 
elle concertados , e elle ficava de fora. Fi- 
nalmente o Almirante por não perder eíte 
negocio , que lhe a elle parecia eílar mui 
certo , encommendando a frota a D. Luiz 
Coutinho Capitão da náo Lionarda , met- 
teo-fe em a náo Flor de la mar , Capitão 
Eftevao da Gama , por ler mui poderofa , 
e fem querer levar comíigo mais que huma 
caravela , fe partio pêra Calecut , parecen- 
do-lhe que podia lá achar as outras de Vi- 
cente Sodré, por haver poucos dias que per 
a caravela., que levou os Embaixadores de 
Cananor , tinha recado delle como ficava fo- 
bre Calecut > peró não fabia o que lhe ai li 
acontecera ; porque fe elle Almirante fora 
fabedor diííb , não viera da maneira que 
veio fobre as palavras do Brâmane. E o 
que Vicente Sodré tinha paliado era , que 
havendo alguns dias cue eftava fobre Cale- 
cut tolhendo que não entraífe , ou fahiífe 
navio , eftreitou iíto em tanta maneira , que 
té os barcos dos pefeadores, que fahiam a 
pefear 5 perfeguia com os bateis das náos. O 
Gentio da Cidade , como o principal manti- 
mento de que fe fuftenta he pefeado 5 ven- 
do não ter modo de poder ir pefear , or- 
denaram huma cilada aos bateis de Vicente 

So- 



yo ÁSIA de João de Barros 

Sodré , lançando-lhe ao mar liuns poucos 
de barcos dos pefcadores , como que hiam 
a feu officio. Os nofíbs bateis tanto que os 
viram , a grão preza foram-fe a elles , os 
quacs começaram de fe recolher artificiofa- 
mente té os metter na boca de hum eíleiro , 
onde jazia a cilada. Do qual lugar lubita- 
mente fahíram mais de quarenta zambucos , 
e pardos , com tamanho Ímpeto , todos remo 
empunho, que em breve cercaram os nof- 
íbs , e cubríram a todos de huma chuva de 
frechas , que logo naquclla primeira chega- 
da encravou muita gente. Com o qual Í07 
breíalto eftiveram em muito perigo , por a 
multidão dos imigos , e a frechada ler tan- 
ta que coalhava o ar , fem os noííos fe po- 
derem revolver com elles ^ mas quiz Deos 
que o tiro de huma caravela remediou tu- 
do , porque foi dar o pelouro de huma bom- 
barda no meio do cardume dos zambucos , 
com que arrombou o principal , em que vi- 
nha o Capitão de todos. Por foccorrer ao 
qual deíaprefsáram os noííos , com que ti- 
veram tempo de ir bufear abrigada das 
nãos , ondeciles não oufavarn chegar, por- 
que começou a artilheria delias metter al- 
guns no fundo-, que os fez recolher ao lu- 
gar donde fahíram. E porque ficaram bem 
caíligados daquelle feu ardil , o qual lhes 
não fuecedeo como cuidaram , leixou Vi- 

cen- 



Década I. Ljv. VI. Cap. VIL 71 

ccnte Sodré o porto de Calecut, e foi dar 
viíta a Cananor ao tempo que o Almiran- 
te chegou alli , eeíla foi a caufa por que o 
não achou. O qual , depois que efpedio a 
caravela , que diífemos em bufca delle , con- 
fiado nas palavras do Brâmane , e em lei- 
xar taes reféns , como eram o filho , e o fo- 
brinho , e o Naire , deo-lhe logo licença que 
foffe aterra com recado aEIRcy. Arcfpof- 
ta do qual foram palavras brandas , que 
dobraram a confiança ao Almirante ; a con- 
clusão das quaes era , que elle tinha man- 
dado chamar certos homens principaes do 
feu Reyno 5 que haviam de fer preíentes ao 
aílentar daquellas pazes , e contratos das es- 
peciarias , por ficarem mais firmes 3 que lhe 
pedia houveíTe por bem eíperar que vief- 
fem, cá não podiam tardar dous dias. Nos 
quaes o Brâmane hia , e vinha muitas ve- 
zes á terra , ora com caufa , ora fem ella , 
fingindo neceífidade diífo ; e quando veio 
ao terceiro dia , quizera per modo diífimu- 
lado levar o filho comfigo , mas não o con- 
fentio o Almirante 5 de que teve má fufpei- 
ta. Finalmente aquella noite elle ficou em 
terra fem vir dormir á náo , como quem te- 
mia fer logo pago dos enganos em que an- 
dava , e apparecêram ante menhã. Os quaes 
enganos foram obra de cem paráos , que 
no quarto d 5 alva cercaram mui caladamen- 
te 



72 ÁSIA de João de Barros 

te a náo do Almirante , e vinham os Mou- 
ros , e índios tão oufados , que começaram 
trepar per as cadeias das mezas da guarni- 
ção. Os noílbs, que vigiavam feu quarto, 
quando deram rebate nos outros que dor- 
miam , com o fomno , ( però que o temor 
muito efperra ,) era tamanha a confusão , que 
não fabiam onde haviam de acudir , porque 
toda a náo eítava cercada em torno deites 
paráos. O qual fobrefalto lhes dco muito tra- 
balho , porque não fe aproveitavam da ar- 
tilheria, cá lhes ficava tão alta , que não po- 
dia pefcar os zambucos , e barcos , que ef- 
tavam pegados no cofiado da náo , e fomen- 
te lhes ferviam béftas , efpingardas , e pedra- 
das. Aeftetempo, (como dilTemos,) tinha 
o Almirante efpedido a caravela, que viera 
em fua companhia , com hum recado a Vi- 
cente Sodró , que fegundo foubera , andava 
fobre Cananor, o qual lhe leixára per po- 
pa da fua náo hum paráo grande , que to- 
mara , vindo elle Almirante de Cochij ; os 
Mouros do qual , dando-lhe eíla caravela 
caça , fe lai varam em terra. Os Mouros , 
que tinham cercado o Almirante , vendo ef- 
te paráo , e quão animofamente os noífos 
defendiam a entrada da náo , e quanto da- 
mno recebiam delles , quizeram-fe aprovei- 
tar deíle artificio , que traziam , que eram 
dous barcos juntos com muita lenha , e ma- 
te- 



Década I. Liv. VI. Cap. VIL 73 

teriaes pêra quando lhe puzeííem o fogo , fe 
accender mais preftes., ainda quelheacudif- 
fem com agua. Os quaes barcos foram amar- 
rar ao paráo , que eílava por popa* da náo ; 
e poíto o fogo nelles , começou logo levar 
tão furiofamente , que em breve fe ateou a 
labareda pelos caílellos da náo. O Almiran- 
te quando vio tão grande perigo , não achou 
outro remédio mais prompto que mandar 
cortar as amarras , humas das quaes o de- 
teve muito y porque temendo elle que de 
noite os Mouros , fegundo feu ufo 5 a remo 
furdo , ou a nado 5 lhe vieflem cortar as 
amarras pêra lhe darem com a náo á cofta , 
a da parte do mar todo o defcuberto del- 
ia era huma groíía cadeia , que eílava de 
maneira , que a não pode alargar , fenão cor- 
tando a mefma cadeia , que lhe deo muito 
trabalho. Peró como a náo fe achou livre , 
e obedeceo á vela 5 começou de abrir cami- 
nho por meio dos paráos dos imigos , lei- 
xando o que tinha per popa entre elles , os 
quaes por fe livrarem da labareda delle, 
defapreífáram o coílado' da náo , que deo 
caufa a que os noííos fe pudeílem aprovei- 
tar da artilheria. Finalmente tanto andaram 
aquelles infiéis perfcguindo a náo ás frecha- 
das , e bombardadas té que amanheceo ; no 
qual tempo , poílo que da terra concorriam 
muito mais paráos ? fobreveio Vicente So- 

dré, 



74 ÁSIA de João de Barros 

dré j que com as caravelas que trazia, fez 
tal deítruição nelles , que lhe conveio tor- 
na rem-fe todos ao eílreito donde fahíram. 
Tanto que o Almirante fe vio delapreífado 
deite trabalho , por pagar ao Brâmane a mal- 
dade que commetteo , mandou enforcar nas 
vergas das caravelas os três reféns que lhe 
leixou , andando com clles ao longo da Ci- 
dade á vifta de todos hum pedaço , e per 
derradeiro os mandou metter em hum pa- 
rdo com huma carta pêra o Çamorij , as 
palavras da qual eram conformes ao en- 
gano , que ufára per meio do Brâmane. 
Acabado cite acto de caítigo , partio-fe o 
Almirante pêra Cochij , onde chegou a tem- 
po que eítavam já as náos tão preítes , que 
efpedido d'ElRey , ordenou como o Feitor 
Diogo Fernandes Corrêa ficafTc feguro no 
recolhimento de madeira , que lhe tinha fei- 
to. Ao qual leixou trinta homens , e por 
jEfcrivaes de feu officio Lourenço Moreno , 
e Álvaro Vaz, e efpedido delles , partio-fe 
pêra Cananor a dezoito de Janeiro , onde 
chegou. EIRey como já eítava fobmettido 
a toda a razão , e aos apontamentos , que 
lhe elle Almirante mandara fobre o contra- 
to , e preço das efpeciarias , não houve mais 
detença que affinarem ambos eítes contra- 
tos 5 e receber gengivre , e outras coufas , 
que elle Almirante havia de tomar. E tam- 
bém 



Década L Liv. VI. Gap. VIL 75 

bem lhe leixou alli feitoria em outra força 
como emCochij, e por Feitor Gonçalo Gil 

Barbofa , e Efcrivaes de feu cargo Baílião 
Alvares , e Diogo Godinho com' té vinte 
homens. Acabadas eftas coufas , partio o Al- 
mirante deCananor, em companhia do qual 
todo aquelle dia veio Vicente Sodré com 
fua frota , té que fe apartaram. Na qual via- 
gem não fez o Almirante mais detença que 
quanto em Moçambique carregou algumas 
náos , e peró que com tempos arribaram , 
todavia trouxe-o Deos a eíle Reyno a dez 
de Novembro , entrando pela barra de Lis- 
boa com nove velas. Em a qual maré en- 
traram com elle duas caravelas, que vinham 
da fortaleza de S. Jorge da Mina , e duas 
náos de Ourao com lambeis pêra o mefmo 
trafto da Mina , e huma de Levante chama- 
da Annunciada , que foi das mais formofas 
velas 5 que fe vio em toda a Europa ; e aííi 
entraram outras náos, que vinham deFJan- 
des , que fizeram efta vinda do Almirante 
melhor afortunada. E como neíle tempo Ei- 
Rey eftava em Lisboa , quando foi a elle , 
levou as páreas , que houvera d'ElRey de 
Quiloa , as quaes com grande folemnidade 
a cavallo , levava em hum grande bacio de 
prata hum homem nobre em pelote com o 
barrete fora ante elle Almirante com trom- 
betas y e atabales., acompanhado de tcdo- 

los 



y6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

los fenhores , que havia na Corte. Das quaes 
páreas EIRey mandou fazer huma cuftodia 
d'ouro tão rica na obra , como no pezo ; e 
como primícias daquellas vidtorias do Orien- 
te 5 offereceo a Nofla Senhora de Bethlem , 
á obra da qual cafa applicou todalas pre- 
zas , que pertenceíTem a elle , e mais em 
quanto foífe fua mercê a vintena do rendi- 
mento dos frudlos daquella conquifta ., com 
que fe faziam as obras da cafa. 



DE- 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO VII. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no deícubrimento , e conquifta dos 
mares, e terras do Oriente: em que 
fe contém a guerra, que o Çamorij 
de Calecut por noíTa caufa fez a El- 
Rey de Cochij , e o que os noífos 
fizeram niíTo, eafíi as Armadas, que 
defte Reyno partiram os annos de 
quinhentos e três , e quatro, Capi- 
tães mores AíFonfo de Albuquerque , 
Francifco de Albuquerque , Antó- 
nio de Saldanha , e Lopo Soares. 

CAPITULO L 

Como o Çamorij Rey de Calecut por noffa 

caufa fez guerra a EIRey de Cochij , 

e o que fuecedeo delia. 

TAnto que o Almirante D. Vafco da 
Gama partio da índia pêra efte Rey- 
no , como o Çamorij Rey de Calecut 
ficava mui indignado com os máos fuece- 
dimentos de feus negócios , e mais vendo 
creícer o eílado delRey de Cochij , e o feu 

di- 



7%- ÁSIA de João de Barros 

diminuir , depois que entrámos na índia, 
determinou bufcar novo modo defe vingar 
deitas coufas , e principalmente delRey de 
Cochij. Porque não fomente achava nelle 
em algumas cartas, que íbbre eíte feito lhe 
tinha efcrito , huma maneira deoeítimarem 
menos do que fazia ante da noífa entrada na 
índia ; mas ainda mandando a elle alguns 
Brâmanes pêra o provocar per modo de fua 
religião a fe conformarem ambos em def- 
truição noíía , refpondia como homem , que 
tinha mais refpe&o a fua fazenda , que á 
religião de Brâmane que elle era. O Çamo- 
rij vendo que per nenhum modo de quan- 
tos commetteo o podia mover , aífentou 
publicamente de ir contra elle com mão ar- 
mada , pêra que já tinha mandado fazer al- 
guns apparatos de guerra , fímulando que 
eram contra nós , e iílo ante da partida do 
Almirante, dos quaes EIRey de Cochij era 
avifado , e diífo tinha dado conta ao mef- 
mo Almirante, ao qual elle esforçou muito 
com a Armada de leu tio Vicente Sodré , 
que ficava pêra o mais do tempo do verão 
andar naquella coita em favor feu , e def- 
truiçao do Çamorij : a que elle mandava 
que fofle feito tanto damno, que em fe de- 
fender teria aílas trabalho. Com as quacs 
efperanças , e penhor jao principal , como 
era o Feitor , e Officiaes , que ficavam em 

feu 



Década T. Lív. VIL Cap. I. jy 

feu poder, EIRey le animou muito. Com 
tudo , como efta guerra , que o Çamorij 
lhe queria fazer, era toda per terra, nunca 
os noflbs lhe puderam impedir os apparatos 
deila , pêra a qual adjuntou fmcoenta mil ho- 
mens em hum lugar chamado Panane dez- 
efeis léguas de Cochij. E pofto que a to- 
doios íeus Capitães , e a Nambeadarij feu 
fobrinho tinha dito a caufa daquelle adjun- 
tamento naquelle lugar, por fejuílificar na- 
quelle movimento de guerra , lhe fez huma 
falia , a refoluçao da qual eftava em três 
pontos ; na obrigação , que tinha de fazer 
pelas couíàs dos Mouros ; e no damno , que 
elles , e elíe tinha recebido de nós ;«e na 
pouca obediência , que lhe EIRey de Co- 
chij tinha , fendo elle Çamorij do Malabar , 
e tudo com favor de noífas armas. O qual 
arrazoamento foi mui louvado de todolos 
feus Caimaes , e approváram fer mui jufta 
a guerra , que queria fazer a EIRey de Co- 
chij ; e quem mais accendia o fogo delia , 
era o Mouro Coje Cemecerij , que foi caufa 
da morte de Aires Corrêa com outros de 
fua valia. E fobre elles com mais autori- 
dade era Nambeadarij , Senhor da Comar- 
ca Repelim , que eftá ao pé da ferra , a qual 
Comarca he hum pofto , donde fe colhe a 
melhor pimenta de toda aquella cofta. O 
qual não contradizia tanto noífas coufas por 

ódio 



8o ÁSIA de João de Barros 

ódio que nos tiveííe , quanto pelas compe- 
tências , que tinha com EIRey de Cochij , 
dizendo pertencer-lhe a elle o leu Rcyno. E 
vendo o Príncipe Nambeadarij , que era her- 
deiro de Calecut , que todos indignavam o 
Çamorij mais por lhe comprazer , que por 
bem aconíelhar , favorecido d'alguns , que 
eftavam na verdade , diíTe , que elle era em 
contrario parecer j porque como aquellas 
indignações contra EIRey de Cochij proce- 
diam da nofTa entrada na índia , o diícur- 
fo das coufas paliadas moítravam quão in- 
juílo era aquelle preícnte movimento. Por- 
que elle vira entrar os Portuguezes na índia 
com liuma embaixada a elle Çamorij , offe- 
recendo paz , c amizade de leu Rey , ouro , 
prata , e mercadorias , de que aquella terra 
tinha neceílidade , a troco de pimenta que fo- 
bejava nella , os quacs per induzimento dos 
Mouros logo foram daíli mal-tratados. De- 
pois na fegunda Armada , vindo poderofos , 
e ricos do que prometteram , não fe teve 
com elles o paíto , que lhe concederam per 
entrada; c por lhe fer mandado maliciofa- 
mente , tomaram a não dos Elefantes, c a 
outra , que eftava á carga 5 e não de feu 
próprio moto. No qual tempo fe fizeram 
damno na terra 5 foi em defensão de fuás 
vidas , fazendas , e fatisfação da injúria , que 
lhe foi feita : coufa natural aos brutos > quan- 
to 



Década I. Liv. VIL Ca*. I. 81 

to mais aos homens. Foram a Cochij , acha- 
ram paz y verdade , e gazalhado , repoufá- 
ram alli , porque onde os homens acham, 
efías coufas , fazem natureza , poíto que es- 
trangeiros fejam ; e fe os EIRey de Cochij 
agazalhou acerca do commum parecer dos 
homens , nifíb tinha ganhado o que o Rey- 
no de Calecut perdeo , e cada hum fentia 
em fua cafa. Quanto mais fe o elle não 
fizera , grande era a índia ; e fe com cada hum 
daquelles , que os pudera agazalhar , elle Ça- 
morij houvera de tomar queftão , ifto era 
contender com todolos homens , porque to- 
dos recolhem em fua cafa quem lha enche 
de tanta fubílancia, quanta os Portuguezes 
traziam em fuás náos. E porque elle não 
via naquelle negocio da guerra , que fua 
Real Senhoria começava , algum fim provei- 
tofo pêra o Reyno de Calecut, e tudo pa- 
rava em deíejo de vingança , propunha o 
que tinha dito , não por fe efeufar de fer 
o dianteiro em caftigar EIRey de Cochij ; 
mas porque temia que o feu caíligo cahiííe 
fobre a cabeça dos filhos de quantos alli ef- 
tavam , por ver que os feus vingadores ha- 
viam de fer os Portuguezes , que cada an- 
no dobravam em náos , gente , e armas. O 
Çamorij peró que algum tanto ficou com- 
movido com eílas palavras do Príncipe 5 era 
já tamanho o ódio, que tinha a EIRey de 
Tom.LP.iL F Co- 



82 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

Cochij , e havia tantos que o indignavam 
mais , que aíTentou de todo no que eftava 
determinado. EIRey de Cochij , per alguns 
amigos que tinha em Calecut , foube parte 
delia determinação do Çamorij , e logo com 
muita diligencia começou de fe aperceber , 
e não com pouco clamor do povo ; porque 
no apparato da guerra , que trazia o Ça- 
morij , bem viam fer a todos huma certa 
deílruiçáo. Do qual calo tinham grande in- 
dignação contra EIRey de Cochij ? vendo 
que aventurava perder feu eftado , e a vida 
de todolos feus por defensão dos Portugue- 
ses , que alli cílavam , pois o Çamorij não 
queria mais fatisfação delle , que fazer-lhe 
entrega delles , com que ficariam amigos. 
Das quaes murmurações os noíTos eram fa- 
bedores , e fegundo o povo andava indi- 
gnado tanto , temiam já a elle , como aos 
apparatos do Çamorij : e muito mais depois 
que eílando elle em Repelim , que ferão 
té quatro Jeguas de Cochij , mandou gran- 
des amoeftações a EIRey de Cochij , cha- 
mado Trimumpara , e a todqlos Príncipes , 
e Brâmanes , requerendo-lhes que fizeíTem en- 
trega dos Portuguezes , proteílando per to- 
das fuás religiões ferem homicidos em to- 
dalas mortes , e damnos , que fobre efte ca- 
fo vieífem. Porque obravam tanto eftas 
amoeftações., e excommunhões de fua reli- 

8*" 



Década I. Liv. VIL Cap. I. 83 

giao com os primeiros infortúnios , que El- 
Rey de y Cochij teve em algumas vidtorias , 
que o Camorij houve delle , que a maior 
parte dos Príncipes do íeu Reyno o leixá- 
ram , paíTando-le ao Camorij. Entre os 
quaes foi Cham de Begadarij fenhor de Por- 
ca , c o Mangate Caimal , e feu irmão Nau- 
beadarij , o Caimal de Cambalu , o Caimal 
de Cheriavaipil , e os finco Caimaes da ter- 
ra , a que elles chamam Anche Caimal , que 
deram entrada per fua terra a que o Ca- 
morij paffaíTe á de Cochij , por efta fer a el- 
la mui vizinha. Na qual paííagem Trimum- 
para pelejou animofamente , em quanto os 
feus o não leixáram ; e por defender efta 
paíTagem , que era per hum váo > lhe ma- 
taram três fobrinhos , a que elles chamam 
Principes por fuccederem no Reyno : hum 
dos quaes chamado Narmuhij , que era o 
herdeiro , fez grande mingua na terra , por 
fer mui excellente cavalleiro ; e tanto que 
foi morto , morreo a efperança do povo, O 
qual povo andava tão defcontente dos no£ 
fos pela conftancia , que EIRey tinha de os 
não querer entregar , que temendo eile que 
poderiam receber algum damno dos feus 3 
ou que elle ficaria defamparado de todos i 
trazia-os fempre em fua companhia. Final- 
mente o Camorij com o grande poder da 
gente que tinha ? tornou íegunda vez entrar 
F ii a Ilha 



84 ASIÀ de João de Barros 

a Ilha de Cochij 3 com que conveio a El- 
Rey paffar-fe a outra Ilha de Vaypij por 
ler mais dcfcniavel , e principalmente por 
acerca delles ter huma religião , como acer- 
ca de nós tem os lugares fagrados y que 
quem fe a elles acolhe , eílá feguro de re- 
ceber algum damno de feu iinigo. No qual 
recolhimento não levava já peflba notável 
que o quizefle feguir , fenão o Caimal do 
próprio Vaypij , que fcmpre o fcrvio neíles 
trabalhos com muita lealdade , e dos nofíbs 
que andavam com elle , feleixáram ficar com 
o Çamorij dous Chriftãos naturaes da Ef- 
clavonia. Os quaes indo defte Reyno na 
Armada do Almirante em lugar de mari- 
nheiros , leixáram-fe ficar com os noíTos em 
a Feitoria , fimulando que eram lapidarios > 
fendo feu próprio officio bombardeiros , e 
fundidores de artilheria , que foram depois 
caufa de grande trabalho aos noíTos , e mui- 
to maior ao Çamorij poios defender. E fe 
he verdade , (o que fe não deve crer de hu- 
ma tão illuftre Senhoria , como he a de Ve- 
neza , ) elles a quizeram infamar , dizendo 
depois , que per feu meio foram ter áquellas 
partes pêra ufar aquelle officio de fundir a 
artilheria em noflb damno* 



CA- 



Década I. Liv. VIL 8? 

CAPITULO II. 

Como EIRey D. Manuel o anno de qui- 
nhentos e três mandou á índia nove nãos 
repartidas em três capitanias , de que 
eram Capitães mores Ajfonjò de Albuquer- 
que , Francifco de Albuquerque , e António 
de Saldanha : e como Vicente Sodré fe per- 
deo , e de algumas coufas , que os Albu- 
querques fizeram por rejlituir a EIRey de 
Cochij no que tinha perdido na guerra , 
que lhe fez o Çamorij. 

EStando EIRey de Trimurapara de Co- 
chij com os noflbs nefte eílado de tan- 
to trabalho , e poftos nas grandes necefíida- 
des , que os cercados tem , e principalmen- 
te de mantimentos , que era guerra de todo 
o dia , chegou Francifco de Albuquerque 
filho de João de Albuquerque com féis ve- 
las , três com que partira defíe Reyno por 
Capitão , e as outras da Armada de Vicente 
Sodré. E porque no mefmo anno de três , 
em que elle partio , partiram outras féis ve- 
las , daremos razão de todas , e do modo 
como fe repartiram , pois todas foram a 
tempo que reftituíram a EIRey de Cochij , 
e feguráram a vida dos noflbs , que com el- 
le eftavam. EIRey D. Manuel , porque o 
negocio deita conquiíla , e commercio da 

In- 



86 ÁSIA de João de Bakros 

índia cada anno com as Armadas , que de 
lá eram vindas , defcubria o que convinha 
pêra melhor proceder nelle , ordenou de 
mandar efte anno de quinhentos e três nove 
náos repartidas em três capitanias , as féis 
pêra virem com carga de efpeciaria , e as 
três pêra andarem na boca do eílreito do 
mar Roxo efperando as náos dos Mouros 
de Meca 5 com que tínhamos guerra. Das 
primeiras três náos era Capitão mor Affon- 
ío de Albuquerque filho de Gonçalo de Al- 
buquerque Senhor de Villa Verde-; eosdous 
Capitães da fua bandeira eram Fernão Mar- 
tins de Almada filho de Valco de Alma- 
da, Alcaide mor que foi deita Villa , e Duar- 
te Pacheco Pereira filho de João Pacheco ; 
e os dous Capitães da conferva de Francif- 
co de Albuquerque eram Pêro Vaz da Vei- 
ga de Montemor o novo , e Nicoíáo Coe- 
lho , que foi no defcubrimento com D. Vaf- 
co da Gama , eíías féis velas eram as que 
haviam de trazer carga de efpeciaria. E pof- 
to que Affonfo de Albuquerque partio pri- 
meiro a íeis de Abril , e Francifco de Al- 
buquerque a quatorze , clle foi o derradei- 
ro que chegou á índia ; o outro Capitão 
pcra andar de Armada na beca do eílreito 
era António de Saldanha filho de Diogo de 
Saldanha , e com elle hum Cavalleiro da 
caía d'ElRey per nome Ruy Lourenço Ra- 

vaf- 



Década I. Liv. VIL Cap. II. 87 

vafco , e Diogo Fernandes Pereira de Se- 
túbal ? que por fer homem mui ufado no 
mar, hia também por Meftre da náo. Da 
viagem do qual António de Saldanha em 
leu lugar faremos relação por continuarmos 
com Francifco de Albuquerque, dando pri- 
meiro razão dos navios de Vicente Sodré, 
que elle topou na cofta da índia bem per- 
didos , e afli o navio de António do Cam- 
po 3 que , como atrás vimos , com hum tem- 
poral fe perdeo á ida da conferva do Al- 
mirante. Vicente Sodré , fegundo atrás difíe- 
mos ,v^artido o Almirante da índia junto 
de Cananor, fe apartou delle, ficando com 
regimento que andaífe , em quanto o tempo 
lhe déíTe lugar , na coita do Malabar em fa- 
vor de Cananor , e Cochij , fazendo guer- 
ra ao Çamorij na entrada , e fahida das náos 
de Calecut. E quando o tempo lhe não fer- 
vifle pêra andar naquella cofta, que he no 
inverno , foífe andar na boca do eftrçito do 
mar Roxo , fazendo guerra ás náos de Me- 
ca , o qual regimento elle cumprio té fe 
perder. A primeira coufa que fez , foi aos 
ilheos de Sandia Maria , tomando quatro 
náos de Calecut , as quaes trouxe a Cana- 
nor , onde foram defcarregadas de arroz , 
e mantimentos que levavam , fazendo entre- 
ga de tudo ao Feitor Gonçalo Gil Barbo- 
ia j e os Mouros , que nellas vinham , deo a 

El- 



, S8 ASIÀ de João de Barros 

EIRey de Cananor a fcu requerimento , por 
haver alli muitos que eram parentes de al- 
guns , que viviam em Cananor , a qual cou- 
ia EIRey eítimou em grande honra. E nef- 
re tempo quaíí emfatisfação deita obra, EI- 
Rey o aviíou do que o Çamorij movia con- 
tra EIRey de Cochij , com o qual recado 
elle fe partio logo pêra Cochij 5 e de cami- 
nho topou três zambucos , que vinham das 
Ilhas de Maldiva , a que poz fogo por la- 
bor ferem de Calecut. Chegado a Cochij , 
entregou a preza delles ao Feitor , e vio-fe 
com EIRey , dizendo , que era alli vindo ao 
que mandaífe delle pela nova que tinha dos 
grandes apercebimentos , que o Çamorij fa- 
zia pêra vir contra o leu Reyno. EIRey 
com palavras de muito agradecimento efti- 
mou aquella ftia vinda , dizendo fer verda- 
de o que fe dizia • mas como era no prin- 
cipio do inverno , em que o Çamorij não 
havia de mover fenao paliado eíle , era ef- 
eufada lua prefença , que bem poderia dar 
humaviíla acoita da Arábia 5 pera onde di- 
zia que efiava de caminho , c quando em 
boa hora tornafle 5 feria ao próprio tempo 
que o Çamorij moveífe , fe adiante houvef- 
fe de proceder no que tinha começado. Ef- 
pedido Vicente Sodré d'ElRéy , foi ter á 
Ilha Çocotorá , onde fez fua aguada , e dei- 
la fe paliou ao cabo de Cuardafu 5 que he 

a mais 



Década I. Liv. VIL Cap. II. 89 

a mais oriental terra , que tem a parte de 
Africa , e deite cabo atraveflbu a coita de 
Arábia por fer mais feguida das náos 5 que 
da índia hiam , ou vinham do eítreito do 
mar Roxo , em a qual paragem tomou al- 
gumas de Cambaya com roupas , e outras 
de Calecut com efpeciaria , que todas hiam 
pêra o eítreito. E porque elle andou alli 
obra de dous mezes , e os Ponentes , que 
eram Abril , e Maio , começaram de ven- 
tar j conveio-lhe bufcar algum abrigo , o 
qual foi huma enfeada vizinha ás Ilhas , a 
que chamam Cúria Muria , e iíto per con- 
íelho de dous Mouros Pilotos , com funda- 
mento que como vieíTe Agoíto de fe fazer 
na volta da índia , por já fer paliado o in- 
verno. Com o qual fundamento , entrado 
neíta enfeada , acudiram logo á ribeira do mar 
huns poucos de Mouros , a que elies cha- 
mam Baduijs , cuja vida he paítorar gado, 
e andar no campo ao modo que dizemos 
que andam os Alarves. E poíto que no 
principio tiveram algum receio dos noíTos , 
depois que goftáram do bem que lhes fa- 
ziam , dando-lhes pannos , arroz , e outras 
coufas 3 que entre elles não havia ? fizeram- 
fe tão familiares a elles , dando-lhes carnei- 
ros a troco de fuás neceíTidades . que fe 
chegaram com mulheres , e filhos á praia 
do mar a fazer alguma pefcaria ? com que 

le 



90 ÁSIA de JoXo de Barros 

fe mantém boa parte do anno. E havendo 
perto de hum mez e meio que alli eíla- 
vam , como eílcs Baduijs tinham conheci- 
mento de hum certo temporal , que ás ve- 
zes alli fobrevem , deram avifo aos noflbs 5 
aos quaes parecendo fer ifto modo de os 
lançar dalli , por fe dizer que haviam de 
paílar per aquella coita certas náos de Or- 
muz , leixáram-fe eítar, té que á cuíta de 
feu damno verem que os Mouros lhes di- 
ziam verdade ; porque foi tal o tempo , que 
fe perdeo Vicente Sodré com a maior par- 
te da gente , e aíTi fe perdeo o navio de 
Braz Sodré leu irmão , e os outros mila- 
grofamente efeapáram. Ceifando o qual tem- 
po , fe fizeram á vela caminho da Índia , 
onde vieram ter , quando Francifco de Al- 
buquerque os topou ; e com elles também 
fe ajuntou António do Campo Capitão de 
hum navio , que fe perdeo da Armada do 
Almirante , e foi invernar na coita de Me- 
linde em humas Ilhas fem faber onde eíta- 
va , meio perdido. Francifco de Albuquer- 
que como hia mui inteiro com mantimen- 
tos , e coufas do Reyno , recolhidos eítes 
navios , provê-os do neceífario , principal- 
mente os da Armada de Vicente Sodré , que 
era muita gente morta a fome 5 e fede , com 
os quaes foi ter a Cochij , onde achou EI- 
Rey quaíl tão perdido na Ilha de Vaypij. 

E 



Década I. Liv. VIL Cap. II. 91 

E o primeiro conforto que lhe deo , foi 
aprefentar-lhe o que lhe EIRey D. Manuel 
mandava , que eram muitas peças ricas pê- 
ra o ferviço de fua caía ao modo dos Prín- 
cipes de Hefpanha , e com elias lhe diííe 
as palavras, gue havia mifter hum Príncipe, 
que tinha paílado tantos trabalhos , nos quaes 
moítrou a lealdade , e amor que comnofco 
tinha. E pêra reílituiçao de leu eftado lhe 
oifereceo as náos , e gente que alli vinha , 
e as outras , que já eram ante delle partidas 
do Reyno , promettendo-lhe não fe parti- 
rem té o não leixar em poíTe de fuás ter- 
ras com vidtoria de ièus imigos ; porque 
EIRey D. Manuel feu Senhor nenhuma ou- 
tra coufa lhe mais encommendava , que tra^ 
balharem nas coufas de feu efiado , como 
em o feu próprio. Que não fer ajudado de 
Vicente Sodré , fegundo tinha fabido fua 
Real Senhoria , era a caufa , pois o efpedíra 
ao tempo que fe viera offerecer a elle ; e 
como o mar pode mais que a vontade dos 
homens , o impedio de maneira que fe per- 
deo , como faberia. EIRey, depois de lhe gra- 
tificar eílas coufas , como tinha mui viva a 
dor, logo começou a praticar no modo de 
fua reílituiçao , dizendo , que aíli á honra 
delle Capitão , pois tinha tão nobre gente 
comfigo , como a bem da carga das náos , 
convinha que a Ilha de Cochij foífe logo 

def- 



92 ÁSIA de JúÂo de Barros 

defpejada. O que Francifco de Albuquer- 
que cumprio pela ordenança d'EIRey , po- 
lo mais comprazer , fahindo logo em bateis 
em terra , com que á cuíla da vida de mui- 
tos do Çamorij , que eílavam em guarda , 
como dos reveis a EIRey , não fomente 
defpejou todo Cochij , mas ainda a Ilha 
Cheravaypil , em que o Capitão Nicoláo 
Coelho per fua própria mão matou o Cai- 
mal delia , e toda a terra tornou á obediên- 
cia d'ElRcy. Depois fez Francifco de Al- 
buquerque algumas entradas com os Capi- 
tães das nãos , indo já mais dentro per os 
rios 5 e efteiros , com que toda a terra he re- 
talhada a modo de leziras , deftruindo , e 
queimando muitos lugares dofenhor de Re- 
pclim , em que houve honrados feitos á 
cuíla do fangue dos noífos , e com morte 
de quatro. Francifco de Albuquerque como 
vio EIRey alegre , e fatisfeito deitas cou- 
fas , que fe faziam em fua reítituiçao , por 
levar recado d'ElRey D. Manuel pêra ifíb , 
fallou-lhe em fe ordenar huma fortaleza , 
dizendo , que huma das principaes caufas de 
ellc , e os Portuguezes terem recebido tanto 
trabalho na defensão de fuás peífoas , fora 
não terem algum recolhimento forte , em 
que fe pudeíTem defender ao impeto do Ça- 
morij. E pois o paíTado aconfelhava ao 
prefente 3 era neceífario que fua Real Senho- 
ria 



Década I. Liv. VIL Cap. II. «73 

ria déíTe hum lugar, emandaííe cortar ma- 
deira pêra fazerem huma fortaleza , cm que 
os Portuguezes , que alli haviam de citar , ti- 
veíTem onde recolher fuaspeflbas, e as mer- 
cadorias pêra compra da pimenta ; porque 
da maneira que a terra então eítava , de dia 
fe não podiam vigiar as couíàs 5 quanto mais 
de noite. EIRey como vio fer o requeri- 
mento jufto , e neceíTario pêra o negocio , 
e maneio do tradto , mandou logo dar avia- 
mento a tudo : começando a qual obra , che- 
gou Affonfo de Albuquerque , fem haver cau- 
fa 5 que o detiveffe no caminho , fomente 
tempos contrários. Com avinda do qual fe 
repartio logo o trabalho , porque a Fran- 
cifco de Albuquerque ficou o aviamento de 
dar carga ás náos^ e elle tomou fobre íi o 
fazer da fortaleza ; e por a íingular devo- 
ção , que tinha no Apoítolo Sant-Iago , por 
elle fer Cavalleiro de fua Ordem , e a náo 
em que hia fe chamar do nome deite Apof- 
tolo , houve a fortaleza nome Sant-Iago ? 
a qual fe fundou onde ora eftá a cafa do 
Armazém da ribeira , e aíli fundou huma 
Igreja do Orago de S. Bartholomeu no pró- 
prio lugar , onde ainda eftá. Parece que 
aprouve a Deos que elle foífe auclor deitas 
duas obras : huma efpiritual , que foi a fun- 
dação da Igreja ; e outra temporal da for- 
taleza : neíta tomando poíTe por parte do 

Rey- 



94 ÁSIA de João de Barros 

Reyno , e na outra por parte da Igreja Ro- 
mana, As quaes , porque foram de madeira , 
podemos dizer ferem cimbres das outras de 
pedra , e cal , que elle fundou em Goa , Ma- 
laca , e Ormuz , principaes cabeças dos Rey- 
nos , e eítados da índia , de que temos poíTe , 
como veremos em feu lugar. E porque a 
nova que achou das entradas, queFrancifco 
de Albuquerque fez , o encitáram com hu- 
ma virtuofa inveja , defejando de fe ver em 
outros taes feitos , praticando com elle , e 
com os outros Capitães , adjuntáram obra 
de quinhentos homens nos bateis das náos , 
e pardos , que tinham tomado aos imigos , 
determinando irem dar em Rcpelim , do 
Senhor da qual EIRey de Cochij tinha re- 
cebido muito damno. Peró efta ida não foi 
aííi tão leve , como parecia no principio 
áquelles 5 que foram efpias da terra ; porque 
o Senhor de Rcpelim tinha comfigo paíTan- 
te de dous mil homens , todos Naires , c 
gente defira em pelejar , e também muitos 
paráos , e artilheria d'ElRey de Calecut , 
como quem temia que o foííem vifitar. Com 
tudo aprouve a Deos que os nolTos entra- 
ram , e queimaram o lugar , com a qual vi- 
dloria EIRey de Cochij ficou mui contente, 
porque deite Senhor de Repelim defejava 
tomar crua vingança. Depois fizeram outra 
grande entrada per os rios alfima féis léguas 

con- 



Década I. Liv. VIL Cap. II. 9? 

contra Repelim , em que AíFonfo de Albu- 
querque fe houvera de perder; porque co- 
mo andava defejofo de fazer per íi alguma 
coufa , e elles partiram de noite , pêra que 
em rompendo Alva da manha deflem no 
lugar, adiantou-fe tanto de Francifco de Al- 
buquerque , que teve tempo pêra dar em hum 
lugar , o qual eílava tão apercebido , que lo- 
go á fahida ante nienhã lhe mataram dous 
homens , e feriram vinte ; e depois que ef- 
clareceo que aterra foi appellidada, acudio 
tanto Gentio , que pareciam gralhas , que def- 
ciam das arvores , por trazerem entre íi hu- 
ma maneira de fe chamar , a que elles cha- 
mam Cuquiada, que náo determinavam os 
noíTos a que parte havia mais. Os quaes afíí 
eram leves , e oufados em commetter com 
fuás efpadas , e adargas , que primeiro os 
achavam entre as pernas por as decepar, 
do que os noífos os podiam ferir. Outros 
com frechas cubriam o ar, apertando tanto 
com Affonfo de Albuquerque , que come- 
çou a fua gente de fe ir retrahindo pêra os 
bateis fem a elle poder entreter. O qual re- 
trahimento lhe deo a vida ; porque chegan- 
do junto delles em hum efcampado , onde 
os índios começaram de fe derramar por 
lhes tomarem a embarcação , varejou a arti- 
Iheria que vinha nelles , de maneira , que 
não fomente os fez affaííar , mas ainda cha- 
mou 



96 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

mou a Francifco de Albuquerque , que não 
era paíTado. Per os quaes tiros conhecendo 
que pelejada , chegou a tempo que o tirou 
daquella affronta , em que ie Jiouvera de 
perder ; porque além defta , em que os da 
terra o tinham pofto , eram chegados trin- 
ta e três paráos de Calecut , e andavam to- 
dos tão azedos , e favorecidos huns dos ou- 
tros , que não íe podia elle valer per mar , 
nem per terra. Peró chegado Francifco de 
Albuquerque com os Capitães Duarte Pa- 
checo , Pêro de Taíde , e António do Cam- 
po , não fomente foi elle livre do perigo 
em que eftava , mas ainda puzcram os imi- 
gos em fugida , no qual alcanço pereceram 
muitos delles. E da volta que fizeram , fo- 
ram á Ilha Cambalão , que era de hum vaf- 
fallo delRey dos rebelados , e leixando Duar- 
te Pacheco á entrada de huma ponta de 
terra fobcrba fobre o rio , donde á vinda 
os imigos lhe podiam fazer muito damno , 
reparti ram-íc elles pela Ilha , e não tão 
apartados , que não lè pudeffe ajudar huns 
aos outros , com o qual modo atalharam 
toda a Ilha , em que mataram mais de fe- 
tecentos índios. Duarte Pacheco , por ver 
que o lugar , onde o leixáram , eftava já fe- 
guro pêra os noflbs bateis poderem tornar 
fem perigo , deo em huma povoação que 
•deftruio > onde matou muita gente , e dahi 

foi- 



Pecada L ■ Liv. VIL Ca p. II. ^ 

foi-fe ajuntar com os outros Capitães. Os 
quaes Vindo já todos caminho pêra Cochij 
mui contentes com a viítoria daquelle dia , 
de hum efteiro , que de través dava naquel- 
le principal rio , lhe fahíram obra de íin- 
coenta paráos de Calecut , que os metteo 
cm grande trabalho \ porque como chega- 
vam folgados j e elies vinham fem -fufpeita 
do çaíòy, e mui. caníados , e alguns feridos , 
tiveram ..aflas que fazer em fe defempeçar 
da primeira fúria, Porém depois que paliou 
aquelle impero , que os imigos traziam , e 
começaram fenrir a indignação dos nof- 
íbs 5 voltaram as -coitas \ e valeo-lhes não fi- 
carem alli todos , metter-fe per hum eíleiro 
tão baixo, que não puderam nadar os noí- 
ibs bateis : a qual viíloria adjuntáram ás ou- 
tras que traziam , que deo grande prazer, a 
EIRey de Cochij quando chegaram a elle. 
E porque pêra leixarem eftas coufas do ci- 
tado da guerra , poftas em termo que pudef- 
fem haver carga da efpeciaria , era necefía- 
rio fazer alguma demora ; ordenaram de 
carregar a António do Campo pêra vir dian- 
te dar nova a EIRey da perdição de Vi- 
cente Sodré 3 e das vistorias que tinham ha- 
vido do Çamorij de Calecut , o qual An- 
tónio do Campo a falvamento chegou a ef- 
te Reyno a dezefeis de Julho de mil e qui- 
nhentos e quatro. 
Tom.I. P.iL G CA- 



98 ÁSIA de João de Barkos 

CAPITULO III. 

Como a Rainha de Coulão mandou pe- 
dir aos Capitães que fojjèm duas nãos to- 
mar carga ao feu porto : e da paz que o 
Çamorij fez, com elles , a qual logo que- 
brou i c tornou \ â guerra , por a qual cau- 
fa Duarte Pacheco ficou com a fua não > 
e duas caravelas em guarda de Cochij : e 
do que os outros Capitães pajjãram , vindo 
pêra ejle Reyno. 

COm cftas coufas da guerra , pofto que 
EIRey de Cochij trabalhava por fe dar 
carga ás náos , fazia-fe mui trabalhofamen- 
te ; porque fe hiam quatro toneis per eífes 
rios , c efteiros em buíca delia , era neceífa- 
rio irem outros tantos bateis em fua guar- 
da , de maneira > que não havia quintal de 
pimenta que não cuftaífe fangue. Mas fo- 
brevéio cafo , que niflb ajudou muito aos 
noílbs j e foi mandar a Rainha de Coulão 5 
e feus Governadores , ofrerecimentos aos Ca- 
pitães j que lhe dariam carga a duas náos , 
com o qual affentáram os Capitães que foí- 
fe lá Affonfo de Albuquerque carregar as 
fuás. E ainda por comprazer a EIRey de 
Cochij , quizeram elles que fofle ifto por 
fua vontade , e que a Rainha lhe mandai^ 
fe pedir eíla licença. Chegado Affonfo de 

Al- 



Década L Liv. VIL Cap. líí. y<) 

Albuquerque a Coulão bufcar cila carga , 
foi mui bem recebido , e feflejado dos Go- 
vernadores da terra , e aíTentou trato com 
elies ao modo de Cochij > e que ficafíe alli 
hum Feitor pêra que ordinariamente cada 
anno vieíTem tomar carga duas , ou três 
uáos , fegundo a novidade foflc. Por razão 
do qual concerto leixou por Feitor Antó- 
nio de Sá de Santarém , Ruy de Araújo j e 
Lopo Rabeilo por Efcrivães , com obra de 
vinte homens pêra guarda da Feitoria , que 
foi huma cafa , que lhe os Governadores da 
terra ordenaram ; e com iílo acabado , e fua 
carga feita , fe tornou a Cochij. O Çamo- 
rij j em quanto Affonío de Albuquerque e£- 
teve tomando eíta carga 5 foi aviíado diíToj 
e vendo que lhe aproveitavam pouco feus 
paráos armados , pêra que a pimenta não vie£ 
iè a Cochij , pois fora delle em tão poucos 
dias achávamos carga ; e que a canella , cra- 
vo , maças , e outras drogas da parte don- 
de vinham ao feu Reyno , podiam vir ás 
noflas mãos , e gengivre bailava Cananor , 
com que tínhamos amizade : tenteando eílas 
coufas , e as paliadas , que lhe tinham cuíla- 
do tanto , converteo a indignação a regra 
de prudência , querer ante fegura paz , que 
guerra tão damnofa como era a que tinha 
comnofco. Sobre o qual propoíito mandou 
certos Embaixadores a Francifco de Albu- 
G ii quer- 



'TOO ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

querque , movendò-lhe contradto de pazes , 
que lhe foram concedidas com efías condi- 
ções : que havia de dar mil e quinhentos 
bahares de pimenta pela fazenda, que fora 
tomada na morte de Aires Corrêa, e mais 
que mandaífe logo defpejar feus portos dos 
navios , náos, e paráos de fuás Armadas 5 
pêra as noífas náos poderem ir tomar car- 
ga , e que os dons bombardeiros , que fe lan- 
çaram com elle , que os entregaííe. Feito 
cíle concerto , a primeira coula que fe niíío 
fez , foi ir Duarte Pacheco a Cranganor a 
-receber os mil e quinhentos bahares de pi- 
menta 5 parte da qual trouxe , e veio bal- 
dear em a náo de Francifco de Albuquer- 
que. E tornando lá outra vez com Nicoláo 
Coelho , por lhe fer promettido que lhe da- 
riam carga pêra ambas as náos , 'não acha- 
ram o recado fegundo a efperança que le- 
vavam , porque EIRey efta va já arrependi- 
-do y por razão dos bombardeiros , pola en- 
trega dos quaes Francifco de Albuquerque 
apertava'. Finalmente , como elle defejava ter 
alguma pequena caufa de quebrar o contra- 
âo .das pazes , fuccedeo coufa que veio a 
xleícubrir efta fua tenção , e foi efta. Indo 
jium batel deftas duas náos per hum efteiro 
aíTtma , onde lhe tinham dito que foíTe a 
receber pimenta, encontraram hum paráo , 
que .vinha carregado delia , o qual parece 

que 



Década L Liv. VIL Cap. III. 101 

que foi lançado áquelle propofito ; porque 
querendo os noííbs receber a pimenta , fo- 
bre a entrega delia, vieram huns , e outros 
ás armas , na qual revolta os noííos mata- 
ram féis homens do paráo , e feriram ou- 
tros , e elles também vieram fangrados del- 
ia. A qual coufa tanto que o Çamorij fou- 
be , como quem efperava por iíío , mandou 
logo cerrar todolos portos , e fem pedir res- 
tituição , nem fe aqueixar daquelle damno , 
tornou á guerra. Peró como os noifos já a 
efte tempo eílavam quaíi carregados , toda 
efta fúria fundio pouco pêra impedir a car- 
ga da pimenta , que era o principal intento 
feu , e quebrou em apparatos j e novos aper- 
cebimentos pêra fazer guerra a EIRey de 
Cochij. O qual vendo que com a vinda da- 
queíles doús Capitães pêra efte Reyno , el- 
le tornava a ficar no próprio perigo , e 
trabalho de que fahíra ., e que o coração 
dos reveis que tornavam a fua obediência , 
com a chegada delles Capitães não citava 
ainda muito fiel , poíío que ficaíTe cafa da 
Feitoria na fortaleza que fizer-am , os que- 
nella ficaífem ; mor cuidado lhes havia de dar 
defendellos da indignação do feu povo, do 
que lhe podiam dar de ajuda. Revolvendo 
eítas , e outras coufas em feu animo , bem 
afíligido com temor delias, deo diíTo conta 
a Affonfo de Albuquerque ? e a Fíancifco 

de 



Í02 ÁSIA de JoXo de Barros 

de Albuquerque, pedindo-lhes que por fer- 
viço d'ElRey de Portugal feu irmão , pois 
elle tão lealmente defendia fii&s coufas té 
offerecer a vida por dias , e perder todo 
feu eftado , confultaífem entre li como alli 
ficaífe algum delles com mais gente da que 
ficava ordenada á Feitoria ; porque como 
viam , elle efperava de íè ver em maior ne- 
ceflidade , fegundo tinha fabido per peííoas , 
que trazia em cafa do Çamorij. Sobre o 
qual negocio ) depois que os Capitães con- 
fultáram , fe aífentou com elle , que em fua 
ajuda ficaria o Capitão Duarte Pacheco com 
a fua náo , e Pêro Rafael , e Diogo Pires 
Capitães das duas caravelas debaixo de fua 
bandeira com cem homens \ e além dos or- 
denados ficariam na fortaleza outros fincoen- 
ta , tudo tão artilhado ; c provido 5 que po- 
deriam reíiítír ao poder do Çamorij ; e ain- 
da eíperavam em Deos , que lhes haviam 
de ir fazer muito damno dentro no feu por- 
to de Calecut. EIRey vendo que clles , de- 
pois de fua chegada té aquelle tempo , fem- 
pre trabalharam por o reíiituir em feu eíta- 
do , com tanto perigo 3 e langue derrama- 
do ante feus olhos , e em ficar aquella náo , 
e dous navios , era o mais que lhe podiam 
fazer 5 ficou fatisfeito. Finalmente aífentado 
eíte negocio , AfFonfo de Albuquerque fe 
partio de Cochij 3 e paliando per Cananor 

a to- 



Deg. I. Liv. VIL Cap. III. e IV. 103 

a tomar gengivre , dahi fe partlo via def- 
te Reyno , onde chegou a falvamento. A 
qual boa fortuna não aconteceo a Francis- 
co de Albuquerque > porque não fe poden- 
do fazer tão preíies como elle , partio o der- 
radeiro dia de Janeiro de quinhentos e qua- 
tro; e ou que por partir tarde, ou porque 
aífi eftava ordenado de íima , elle , e as ou- 
tras náos de fua companhia fe perderam > 
fem fe faber como , nem onde , porque não 
efcapou quem o contaífe. Somente parece 
que fe perderam em os baixos de S. Laza- 
ro , onde fe também perdeo Pêro de Taíde , 
que vinha em fua companhia y fegundo el- 
le diífe , o qual fe falvou com a gente , e 
foi ter a Melinde , e alli achou Lopo Soa- 
res, como veremos adiante, alguma gente 
fua, e elle faleceo de doença. 

CAPITULO IV. 

Do que António de Saldanha , e dous 
Capitães , obrigados a fua bandeira , pafjd- 
ràyn 7 depois que partiram dejie Reyno o an- 
uo pajjado de quinhentos e três 1 depois da 
partida dos Albuquerques té chegarem d 
índia. 

POis temos dito o que fizeram eítes dous 
Capitães mores AíFonfo de Albuquer- 
que > e Francifco de Albuquerque y os quaes 

par- 



104 ÁSIA de JoÃo de Barros 

partiram deite. Rcyno o-anno de mil qui- 
nhentos e três , ante que faiamos do armo 5 
convém fazermos relação do que paíTòu An- 
tónio de Saldanha , que era o terceiro Ca- 
pitão mor. O qual partindo do Reyno de- 
pois delles , por ir ordenado pêra andar de 
Armada fora das portas do eurôitõ de Me- 
ca entre as duas coitas , a do cabo Guarda- 
f u , e a da Arábia : e foi fua ventura que 
levava hum Piloto , que deo com elle na Ilha 
de S. Thomé j não indo já em fua compa- 
nhia a náo de Diogo Fernandes Pereira , e 
daqui o levou aquém do Cabo de Boa Ef- 
perança , affirmando-fe que o tinha dobrado. 
Ao qual lugar por razão da aguada que al- 
li fez , fe chama hoje Aguada de Saldanha , 
mui celebrada em nome acerca de nós , não 
tanto por eíta *, e outras , que alguns Capi- 
tães aqui fizeram, quanto porcaufa de mui- 
ta fidalguia que a mãos da gente deita ter- 
ra aqui pereceo , (como fe verá em feu lu- 
gar. ) A qual gente logo neíta chegada de 
António de Saldanha moftrou fer atreiçca- 
da , e pêra não confiar delia , porque tra- 
zendo a António de Saldanha huma vaca $ 
e dous carneiros no modo de dar, e tomar 
com osnoflbs; na fegunda vez, que Antó- 
nio de Saldanha fahio cm terra , fobre hu- 
ma vaca lhe tinham armado huma cilada 
de obra eje duzentos homens , com que o 

pro- 



Década I. Liv. VIL Cap. IV. 10? 

próprio António de Saldanha correo riíco 
de fua peífoa por acudir a hum homem , 
e não efcapou dos Negros , fenao ferido em 
hum braço. E ante que houveíTe eíla rotu- 
ra com os Negros , porque a terra lhe pa- 
receo defpovoada , e não fabiam em que 
paragem eram , e a náo de Ruy Lourenço 
já não era com eile , por fe apartar com 
hum temporal ante quechegaífe a eíla agua- 
da ; fubio-fe António de Saldanha em hum 
monte per cima mui chão, e plano, ao qual 
ora chamam a meza do Cabo de Boa Ef- 
perança , donde vio o rofto do Cabo , e o 
mar que ficava além delle da banda de Lef- 
te, onde fe fazia huma baia mui penetran- 
te , no fim da qual per entre duas cerranias 
de altos rochedos, a que ora chamam os pi- 
cos fragofos , vertia hum grande rio, que 
parecia trazer o feu curfo de mui longe , 
íegundo era poderofo em aguas , por os 
quaes íinaes vieram em noticia fer aquelle 
o mefmo Cabo de Boa Efperança ; e com 
o primeiro tempo que lhe lèrvio , o paílâ- 
ram , fazendo fua viagem já mais confiados. 
Ruy Lourenço com o temporal que tiveram 
apartado deíle , foi ter a Moçambique , e 
como o não achou nem em Quiloa*, onde 
o efperou vinte e dous dias , partio-fe dalli : 
e á fahida do porto tomou, dous zambucos 
com alguns Mouros , que entregou aEJRey 

por 



io6 x\SIA de João de Barros 

por ferem de Mombaça. E dahi fe foi á 
Ilha de Zemzibar , que he aquém de Mom- 
baça vinte légua* , e tão pegado á terra fir- 
me , que as náos que paliarem per entre el- 
las , hão de fer viftas. Onde por efte fer hum 
canal da navegação daquella coíla 3 fe lei- 
xòu eílar obra de dous mezes , em que to- 
mou mais de vinte zarnbucos carregados 
de mantimentos da terra ; no fim do qual 
tempo , rodeando a Ilha per fora , foi ter 
ao porto da Cidade Zemzibar , donde a Ilha 
tomou o nome \ em que citavam algumas 
náos furtas , e muitos zarnbucos. Na qual 
chegada , por fer quafi Sol podo , não tive- 
ram mais tempo pêra faber da terra , que 
verem recolher-fe os navios pequenos , pon- 
do as proas nella , e tudo com moítras que 
não haviam de fer bem hofpedados , prin- 
cipalmente com as gritas que davam de 
noite : te que em amanhecendo veio hum 
recado do Senhor da terra ao Capitão , no 
qual lhe mandava perguntar fe era aquelle , 
que andava roubando os navios , que vinham 
com mantimentos pêra aquella Cidade faa ; 
e fendo elle > lhe perdoaria o damno que 
tinha feito , com tanto que lhe déífe a arti- 
lheria , 4 e coufas tomadas. Ao que Ruy Lou- 
renço refpondeo , que elle era vaífallo d'El- 
Rey de Portugal , enviado em companhia 
de outras náos , de que fe apartara com hum 

tem- 



Década I. Liv. VIL Cap. IV. 107 

temporal ; e porque em todolos portos da 
Comarca daquella Ilha nunca achou o que 
geralmente fe dá a todolos homens , manti- 
mentos 5 e o necefíario por feu dinheiro , 
ante achara muita bombardada , e frechada , 
elle em defensão de lua peíToa , e por 
emenda do que lhe era feito . faria o que 
fazem os oífendidos. Porém leixadas as of- 
fenfas alheias , lhe pedia que folgalle de o 
agazalhar, e per elle acceptafle a amizade 
d'ElRey de Portugal feu Senhor, como o 
tinham feito alguns Reys , e Senhores feus 
vizinhos , e outros da índia , com a qual 
íèus eílados eram poílos em paz , e em mais 
riqueza, e poder do que ante tinham. El- 
Rey , (que aííi fe intitulava o Senhor deíla 
Cidade Zemzibar , ) como homem não ex- 
perimentado em noflas coufas , não lcmen- 
te fez pouca conta defte recado de Ruy Lou- 
renço , mas ainda mandou poer em ordem 
os paráos , que alli eftavam pêra vir tomar 
anáo. Os noíTos , havido confelho fobreeíle 
cafo , ordenaram , que primeiro que os paráos 
vieííem , que foíle a eiles o batel delia com 
obra de trinta e finco homens , em que hiam 
dous criados d'ElRey : a hum chamavam 
Gomes Carrafco , que era Efcrivao da náo ; 
e o outro Lourenço Feio , homens defejo- 
fos de ganhar honra , os quaes commettê- 
ram os paráos > e hum, e hum com morte 

de 



io8 ÁSIA de João de Barros / 

de alguns Mouros , trouxeram quatro a bor- 
do da náo. EIRcy como la efte tempo ti- 
nha já appellidada a terra , quiz na praia dar 
huma moftra de té quatro mil homens , dos 
quaes era Capitão hum filho feu. Ruy Lou- 
renço vendo a multidão delles , porque ef- 
perava de fe ajudar bem com artiíheria j ar- 
mou dous dos feus zambucos , e o batel 
com a miudeza que podiam levar , e gente 
defira , e poz rofto na terra , a que logo 
acudiram os Mouros apinhoando-fe todos , 
onde lhes parcceo que os nofTos queriam 
fahir. O qual ajuntamento foi pêra maior 
íua deílruiçao ; porque chegados os zambu- 
cos bem a terra com moílra que a queriam 
tomar , ficou o cardume da gente pêra a 
artilheria íer melhor empregada , de manei- 
ra , que logo da primeira cevadura ficaram 
na praia trinta e finco delles , em que en- 
trou o filho do Senhor da terra que os man- 
dava. A qual deílruiçao foi pêra clles tama- 
nho efpanto , que com aquelle temor des- 
ampararam a praia 9 leixando porém muita 
gente da nolTa encravada com o armazém 
de feus tiros , de que logo alli morreo hum 
marinheiro. O Capitão Ruy Lourenço vendo 
toda a ribeira defpejada , e querendo-fe pôr 
em confulta do que faria , viram vir hum 
Mouro correndo com huma bandeira das qui- 
nas Reaes deite Reyno arvorada em huma a£ 

te, 



Década L Liv. VIL Ca p; "IV. 109 

te , bradando per Ara via : Paz , paz \ paz. 
Quando elle conheceo a bandeira \ como quem 
via huma coufa fagrada \ digna de veneração , 
tirou o capacete da cabeça , e poz~fe em 
giolhos fazendo reverencia , como fe vira 
feu Rey , ao qual imitou toda a outra gente 
-queeftava com elle, do qual modo o t s Mou- 
ros que eftavam em hum tezo em olho dos 
noífos \ fe efpantáram muito , e o Mouro qne 
trazia a bandeira teve ouiadia de fe -chegar 
tanto a elies , que levemente o podiam ou- 
vir j pedindo \ polo final que trazia na mão-, 
4icença pêra feguramente fallar ao Capitão : 
ao que lhe foi refpohdido , que fe alguma 
coufa queria , que folie á náo , que lá lhe 
fallaria ; eido fez o Capitão de induftria , 
por lhe moftrar toda a artilheria , e muni- 
ções de guerra , e o poder receber com mais 
apparato do que tinha no batel , onde efta- 
vam todos em pé. Tornado o Capitão Ruy 
Lourenço á náo , veio o Mouro logo trás 
elle acompanhado de outros quatro , que 
eram dos principaes da terra , aos quaesRuy 
Lourenço recebeo.com gazalhado, e os fez 
a (Tentar em huma alcatifa fegundo feu ufo„ 
A fubftancia da qual .vinda era pedirem 
paz, e que EIRey fe queria fazer tributário 
d 5 E!Rey de Portugal que pêra o paífado, 
baftaíFe por fatisfáção d 5 alguma culpa, fe a 
tinham em defender fua terra rç a morte de 

feu 



no ÁSIA de JoÃo de Barros 

feu filho , e de muitos que o acompanha- 
ram nella. Finalmente o Capitão lhe conce- 
deo a paz com tributo em cada hum anno de 
cem miticaes d'ouro , e trinta carneiros pê- 
ra o Capitão que os viefle receber. O qual 
tributo lhe poz , não fomente por razão de 
vaílallo d'ElRey D. Manuel, mas porque 
em fua chegada não moítrou a bandeira das 
quinas Reaes do Reyno , a qual , ( fegundo 
elles diíTeram,) dera João da Nova a hum 
fobrinho d'ElRey de Melindc pêra nave- 
gar feguramente , cujas eram huma das qua- 
tro náos 5 que alli eítavam furtas , e ancora- 
das , tomando eíte fobrinho d'ElRey por def- 
culpa de não aprefentar a bandeira 3 eíbr 
em porto alheio , e fer entertido que o não 
£zeíle. Pagou logo o tributo daquelle an- 
uo 3 deo o Capitão livremente as duas náos 
ao fobrinho d'ElRey de Melinde , e á Ci- 
dade deo outra por fer faa : fomente a quar- 
ta, que era de hum lugar da coita chama- 
do Patê , fe refgatou por cento e feífenta 
miticaes , mais em final de obediência , que 
em eílima de fua valia , com o qual con- 
certo todos ficaram em paz , e quietos , e 
Ruy Lourenço fe p^rtio via de Melinde em 
bufea de António de Saldanha , onde ainda 
não era vindo. Mas acharam o Rey noíTo 
amigo em tanta neceflidade , que a íúa che- 
gada ofalvou de muito perigo, porque El- 

Rey 



Década I. Liv. VIL Cap. IV. m 

Rey de Mombaça lhe fazia mui crua guer- 
ra por razão da amizade que elle tinha 
comnofeo. O qual , como homem que efpe- 
rava retorno daquella obra , em ódio nof- 
fo tinha mui bem fortalecida a Cidade, e 
á entrada da barra feito hum baluarte mui 
forte com toda a artilheria j que houve da 
náo de Sancho de Toar, que fe perdeo na- 
quella paragem , vindo com Pedralvares Ca- 
bral, a qual fe tirou a mergulho donde ef- 
íava. Ruy Lourenço como foi informado 
cPElRey deftes feus trabalhos , e da caufa 
delles , ordenou logo com elle , que com a 
fua náo queria ir dar huma vifta ao porto 
de Mombaça \ per ventura quando EIRey 
o viííe fobre a barra delia , leixaria de vir 
per terra com gente , pois fe fazia preftes 
pêra vir a lhe dar batalha, Poílo Ruy Lou- 
renço em caminho a dar eíla vifta a Mom- 
baça , fuecedeo-lhe também o negocio que 
tomou per vezes duas náos , e três zambu- 
cos , nos quaes vinham doze Mouros ho- 
mens mui principaes da Cidade de Brava , 
que eftá abaixo de Melinde cem léguas. E 
porque eíla Cidade era regida per commu- 
nidade, de que eftes doze Mouros eram as 
principaes cabeceiras do governo delia , não 
fómeíite refgatáram fuás peífoas , e huma 
deitas náos tomadas , dizendo fer daquella 
fua Cidade, mas ainda em nome delia a fi- 

ze- 



ii2 ÁSIA de João de Barros 

zeram tributaria á EIRey de Portugal com 
quinhentos miticaes d'ouro de tributo cada 
■anno , pedindo logo pêra fcgurança de po- 
derem navegar , como vaíTallos d'ElRey , hu- 
ina bandeira, o que lhe Ruy Lourenço con- 
cedeo de boa vontade. E a principal caula 
de fe logo eftes Mouros fazerem tributá- 
rios foi , porque detrás delles vinha huma 
náo mui. rica da própria Cidade de Brava , 
em que cada hum trazia boa parte de fa- 
zenda , a qual prudência Ruy Lourenço co- 
nheceo tanto que a náo chegou , e lha en- 
tregou inteira > e livre , fendo certificado 
que era fua , do que eiles ficaram mui eí- 

Í>antados , vendo que a riqueza da náo nao 
azia cubica aos noífos polo feguro , que 
lhe tinham dado, entendendo a cautela de 
que elies ufáram por a falvar. EIRey de 
Mombaça com cilas prezas , que os noífos 
andaram fazendo , apreílbu mais fua vinda 
fobre Melinde , porque lhe dcfpejariam o 
porto pêra entrarem as náos que vinham a 
ellc , em que tinha recebido muita perda. 
.Da qual vinda EIRey de Melinde foi logo 
aviíado , e o foi receber a hum certo lu- 
gar, onde houveram batalha; e fem a vi- 
storia ficar com algum , poífo que EIRey 
de Mombaça vinha mais poderofo em gen- 
te, tornou-fe á fua Cidade, temendo que os 
-noífos lhesfizeiTem algum damno nella. Pê- 
ro 



Década I. Liv. VIL Cap. IV. 113 

ró Ruy Lourenço contentava-fe com lhe fa- 
zer a guerra de fora 5 tomando quantas náos 
vinham pêra entrar no porto , no qual tem- 
po em hum batel mandou hum Gomes Car- 
rafco com trinta homens , que entraííe pela 
barra dentro a lhe ver o fitic da Cidade , 
e por razão de hum batel , que tinham fei- 
to neíta entrada , não fubio aífima. Final- 
mente havendo já dias que Ruy Lourenço 
andava neíte officio de prezas das náos que 
tomava, asquaes reígatava a preço de me- 
ticaes d'Ouro , por não avolumar a náo 
com outra fazenda , chegou António de Sal- 
danha , que também de Quiloa té alli tinha 
tomado três , que foi a todos grande pra- 
zer , e mais com tão boas venturas , como 
lhe tinham acontecido , pofto que foram com 
perigo , e muito trabalho de fuás peífoas. 
EIRey de Mombaça temendo que com a 
vinda de António de Saldanha , o de Me- 
linde lhe podia fazer mais damno , lá teve 
modo que fe mettêram os feus Cacizes en- 
tre elles , com que fe concertaram , que cau- 
fou partir-fe logo António de Saldanha , e 
Ruy Lourenço com elle. Os quaes dobrado 
o cabo de Guardafu , foram ter á Villa de 
Mete , onde per prazer do Xeque fahíram 
em terra a fazer fua aguada em hum poço ; 
e tendo já tomadas três pipas , levantaram 
os Mouros huma revolta com defejo de 
Tom A. P.iL H em- 



H4 ÁSIA de João de Barros 

empecer aos nofíbs ; mas elles foram os em- 
pecidos , ficando logo três mortos no ter- 
reiro j a fora os feridos , poíto que também 
enfiou fangue principalmente a Gomes Car- 
rafeo em huma perna , em que foi muito 
ferido. E porque todo o povo da Villa fe 
poz em armas , não quiz António de Sal- 
danha que os feus , por beber agua , lhe euf- 
taffe mais fangue , e tomou por emenda 
dclles varejar a Villa com artilheria. Da 
qual coita, por ferjá na entrada domez de 
Abril , que começam ventar os Ponentes , 
atraveííbu á outra parte da coita de Arábia 
affima de Adem , e foi correndo toda com 
propoíito de ir invernar a humas Ilhas , a 
que os da terra chamam Canacanij. Ante 
de chegar ás quaes , tomou huma náo car- 
regada de incenfo , que vinha de Xael , que 
metteo no fundo por fe não embaraçar com 
a carga delia , de que a gente fe falvou por 
dar comíigo a coita , e adiante tomou ou- 
tra carregada de Mouros y que hiam em ro- 
maria a Meca , onde houve de preza algum 
dinheiro do que elles levavam pêra fuás ef- 
molas , e aííi alguns mancebos, porque os 
mais d elles fe fal varam a nado em terra y 
dando também com a náo á coita. Chega- 
do ás Ilhas de Canacanij , e eítando na ter- 
ra firme fazendo aguada, vieram fobre elJe 
muita gente de pé , e até íincoenta de ca- 
vai- 



Década I. Liv. VIL Cap. XV, 115* 

vallo Arábios , homens que oufadamente fe 
chegavam, e com tudo ficaram mortos fin- 
co delles , e dos rtoííòs ao recolher dos ba- 
teis foram fete feridos , fem tomarem mais 
agua, por os Mouros logo em chegando atu- 
pirem o poço. Depois por a grande necef- 
íidade que traziam d'agua , querendo dahi 
a dous dias tornar a ver fe a podiam to- 
mar , acudiram mais de duzentos de cavai- 
lo , e três mil de pé , que não deram lugar 
a poderem fahir em terra. Vendo António 
de Saldanha que já toda aquella cofta era 
appellidada , e que não podiam tomar agua 
fenão á cuíta de fangue , em quanto não te- 
ve tempo , leixou-fe eftar naquellas Ilhas , 
onde comiam por refrefco tartarugas , e al- 
gum pefcado ; e tanto que lhe fervio , par- 
tio-fe com propofito de tomar as Ilhas de 
Cúria Muria ; mas não as pode tomar, e 
dahi fe partio na volta da índia , dia de Sant- 
iago. Da chegada do qual fe verá adiante, 
porque primeiro convém fabermos o que 
paífou ElR.ey de Cochij , e os noífos que 
com elle ficaram depois , que os Albuquer* 
quês fe partiram pêra o Reyno. 



H íi CA- 



nó ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO V. 

Como o Çamorij veio com grande poder de 

gente , e apparato de guerra per terra > 

e per mar fobre EIRey de Cochij : 

e das viãorias , que os nof- 

fos delle houveram. 

PArtido Francifco de Albuquerque y (íe- 
gundo diflemos , ) foube logo o Çamo- 
rij como ficava em guarda de Cochij huma 
náo , e duas caravelas com gente pêra as 
marear , e pêra defensão da fortaleza , que 
os noííòs tinham feito. E confiado no appa- 
rato da guerra , e multidão da gente que 
podia levar , aífi per mar , como per terra , 
dizia , que aquella defpeza que fazia não 
era pêra fomente deílruir o Senhor de Co- 
chij , mas ainda pêra tomar a noífa fortale- 
za ^ eque efta tomada, não teriam asnáos, 
que vieflem do Reyno á colheita , onde 
pudeíTem fazer carga. EIRey de Cochij per 
luas efpias era fabedor deites grandes aper- 
cebimentos do Çamorij , e andava hum pou- 
co defeonfiado de poder refiftir a tamanho 
exercito , por fe dizer que trazia per mar, 
e per terra repartidos íincoenta mil homens : 
huns , que haviam de vir combater a noífa 
fortaleza com muita artilheria, que houve- 
ram dos Mouros de Meca y e os outros ha- 
viam 



Década L Liv. VIL Cap. V. 117 

viam de vir per terra commetter o váo , e 
mais que tinha convocado todolos principaes 
do Malabar contra elle. Com as quaes no- 
vas , que fempre na boca do povo fe multi- 
plicam em mais do que são , muitos dos na- 
turaes de Cochij fe paíTavam do Reyno a 
outras partes , fugindo de noite em barcos. 
EIRey , pofto que ouviíTe , e viíle eílas cou- 
fas , como prudente diífimulava o que tinha 
em feu peito, que eram eftes receios ; e o 
melhor que podia andava provendo em o 
neceíTario pêra a defensão do Reyno , prin- 
cipalmente em huma eftacada no paflb do 
váo do rio , per onde na guerra paífada o 
Çamorij entrou. Duarte Pacheco fentindo 
eíla defconfiança , e temor 5 que EIRey tra- 
zia , o esforçou , promettendo-Ihe que por 
falvação de fua peflba , e eftado , elle com 
quantos eram em fua companhia tinham of- 
ferecido as vidas j e que com efte propoílto 
aceptára ficar em fua ajuda como elle fa- 
bia, etão longe de fua pátria, que não ti- 
nha outro amparo íènão as armas , com as 
quaes efperava de o quietar em feu eftado 
com a viítoria de feus ímigos : que fe eíla 
vontade que elle tinha , Sua Real Senhoria 
achaíTe em feus próprios vaíTallos , tiveífe 
por certa a fegurança de fuás coufas. Mas 
que elle receava , fegundo o que já via em 
alguns ; principalmente em os Mouros P que 

vi- 



n8 ÁSIA de João de Barros 

viviam em feu Reyno , não achar tanta le- 
aldade nelles , quanta fé , amizade , e fervi- 
do lhe haviam de guardar , e fazer os Por- 
tuguezes. EIRey com eftas , e outras pala- 
vras de Duarte Pacheco ficou algum tanto 
confolado , e muito mais quando vio com 
quanta diligencia elle daya ordem ás cou- 
ías neceífarias ; e porque alguns dos feus 
naturaes já defcubertamente de dia fe paira- 
vam do Reyno de Cochij pêra outras par- 
tes com temor da vinda do Çamorij , o que 
fazia grande efpanto na gente miúda , per 
confelho de Duarte Pacheco mandou EIRey 
lançar pregões , que ninguém fc fahiíTe do 
Reyno ; e qualquer que foíTe tomado nefta 
paífagem morrefte por iflb. Duarte Pacheco 
por animar EIRey, e os feus, que andavam 
mui cortados de temor , tanto que foube 
que o Çamorij era no Repelim , ante que 
defcefíe abaixo a Cochij , o foi efperar em 
hum paflb , fomente com huma caravela 5 e 
bateis , e alguns barcos da terra , em que 
levaria té trezentos homens , de que os oi- 
tenta eram Portuguezes , e os outros Ma- 
labares, que pêra iífo deo EIRey. Os Cai- 
inaes , e principaes de Cochij vendo efta di- 
ligencia de Duarte Pacheco , e quão oufa- 
damente hia commetter o Çamorij , peró que 
eftiveífem abalados pêra fe rebelar a EIRey , 
detiveram-fe té ver em que parava efta íua 

ida: 



Década I. Liv. VIL Cap. V. 119 

ida: e approuve aDeos que foi em tal ho- 
ra , que deo em humas aldeãs , onde já ef- 
tava aflentada a gente do Çamorij , em que 
fez grande eílrago por eftar defcuidada. E 
pofto que fempre no commettimento , e fa- 
Jiida em terra , que os noílos fizeram , houve 
íinaes de vidtoria , hiam os naturaes de Co- 
chij tão temerofos com a fama do Çamorij , 
como que vinha trás elles a fúria detodalas 
armas do Çamorij \ e quem mais remava 
com o feu catur , mais valente era , porque 
acerca delles não he vileza virar as cofias, 
mas não oufavam de parecer ante EIRey 
por não terem caufa de fugir. A qual fugi- 
da EIRey fentio muito pola fraqueza dos 
feus 5 e o Çamorij mais polo animo dos 
noífos, e converteo a indignação deíle cafo 
fobre os aítrologos , e adivinhos , que lhe 
promettiam grandes viítorias de nós. Porém 
como elles fèmpre bufcam eícapulas a feus 
enganos, tomaram por defçulpa que o dia 
que commettêra aquella jornada pêra a fua 
gente tomar aquelie alojamento , em que 
receberam tanto damno , fora em hora in- 
felice , e não eleíla per parecer delles , fe*- 
não per fua própria vontade, fem com elles 
confultar os dias , que pêra bem de fua vi- 
toria lhe convinha obrar as coufas eífen- 
ciaes daquella guerra : que fe quizefíe con- 
fcguií vi&oria de feus imigos 3 ufafle das 

ho~ 



120 ÁSIA de João de Barros 

horas de fua eleição , porque eftas lhe con- 
vinham 3 e não as tomadas per própria von- 
tade , ao queElRey deo credito polo mui- 
to que confiava nelles. . Paííado efte acciden- 
te 5 entre alguns dias , que eftes meílrcs da 
eleição do tempo eicolhèram pêra o Çamo- 
rij pelejar com os noííbs , foi hum Domin- 
go de Ramos deite anno de quinhentos e 
quatro , o qual por fer tão folemne com os 
Myfterios , que Chrifto nelle obrou por nof- 
faRedempçao, andavam os noííbs tão a]e- 
gres de em tal dia fe verem com os imigos , 
que fe efpantavam os Malabares , e diziam , 
que os nofíbs andavam tomados da fúria da 
vingança , como os Amoucos de Malaca , e 
da Java , os quaes são homens , que com 
indignação de alguma vingança matam quan- 
tos acham ante fi , não temendo a morte , 
com tanto que fiquem vingados. E certo , 
que fegundo o Çamorij trazia a gente , e 
navios , de que os noífos cada hora eram a£- 
fombrados , fenão entrevicra a confolaçao , 
e esforço efpiritual da memoria daquelles 
dias da Quarcfma , em que efperavam por 
ferviço de Deos , c de feu Rey derramar leu 
langue , fegundo eram poucos , e a carne he 
fubjedfa. a temeres da morte , fem dúvida 
era coufa pêra fe todos embarcarem pêra 
efte Reyno , porque rofto , difpoíição , e 
vontade viam em os naturaes da terra pêra 

det 



Década I. Liv. VIL Cap. V. 121 

defefperar de fua ajuda , e efperar fazerem 
delles entrega ao Çamorij , como elle reque- 
ria. Aífi que entre fé, e temor fe determi- 
naram de ir efperar o Çamorij ao váo da 
eílacada , em que elle por paliar , e os noífos 
polo defender, houve huma miraculofa ba- 
talha ; porque tendo o rofto a tanto pezo 
de gente , fomente três dos noífos foram fe- 
ridos 5 e dos imigos hum grande numero, 
porque onde morreram cento e oitenta , não 
podia deixar de fer boa fomma. PaíTado ef- 
te dia , em que o Çamorij recebeo tanta 
perda i á feita feira de Endoenças , per elei- 
ção dos feiticeiros , mandou outra vez com- 
metter o palfo do váo , e dia de Pafcoa ou- 
tra , não fomente a pé , mas ainda com gran- 
de numero de pardos , que quaíl faziam hu- 
ma parte , no qual commettimento a noífa 
artilheria lhe metteo no fundo onze delles , 
e matou trezentos e feífcnta homens ; e o 
maior damno que da noífa parte fe rece- 
beo , foi a gente da terra , que andava mal 
armada ; porque como a maior parte de fua 
guerra he frechadas , efpada , adarga , e ain- 
da entre elles não havia tanto numero de ar- 
tilheria , como ora tem : mais fubjeótos an- 
davam os naturaes da terra ao perigo por 
mal armados , que os noífos , que traziam 
as armas de que cá ufam. E a maior induf- 
tria que o Çamorij punha neíle negocio, 

era 



122 ÁSIA DE*JoÃO DE BARROS 

era faber quantos Portuguezes morriam : cá 
fazia conta que por ferem poucos elle os 
iria gaitando té EIRey de Cochij ficar def- 
amparado delles ; e com lhe dizerem que 
nos três dias , que commetteo o váo , eram 
mortos vinte Portuguezes , ifto lhe faziam 
crer feus adivinhos , por lhe terem dito que 
na morte dos Portuguezes eftava a fua vi- 
Ctoria. Com os quaes enganos , quando veio 
á terça feira de Pafcoa , per leu confelho 
tornou repetir a entrada per mar, e per ter- 
ra ; e foi tão caftigado da noffa artilheria , 
que affaftando-íè do lugar do váo , fe recolheo 
a hum palmar com perda de cento e trinta 
homens mortos , e grande numero feridos ; 
e os noíTòs , fegundo andavam cubertos de 
nuvens de fettas , e entre artilheria , rnira- 
culofamente Dcos os guardava. As quaes 
coufas quebraram tanto o coração de todo 
aquelle Gentio do Çamorij , que lhe fugio 
da gente fraca , e mefquinha mais de quin- 
ze mil homens , e fefíenta paráos de remo , 
o que caufou tamanho temor nelle , que lo- 
go fe quizera partir, fe o não entretivera o 
fenhor de Repelim ? e confelho de alguns 
Mouros , dizendo , que leixaífe aquelle váo 
de tanto infortúnio , e commetteíle a entra- 
da per outra parte , que não foífe per tão 
eítreito lugar , pêra que a gente toda pudef- 
fe pelejar : o que não podia kr naquelle lu- 
gar 



Dec. I. Liv. VIL Cap. V. e VI. 123 

gar eftreito , porque tirando os dianteiros , 
os outros mais damnavam aos feus próprios , 
do que offendiam aos imigos , o qual con- 
felho o Çamorij acceptou > e partio-fe da- 
quelle lugar. 

CAPITULO VI. 

De algumas viãorias , que os nojjos 
houveram cio Çamorij : e das indujirias , 
e ardis de guerra , que os Brâmanes , e 
Mouros do feu arraial lhe inventaram pê- 
ra oconfolar das perdas , que houve , e pe- 
rigos per que pajjbu. 

PArtido o Çamorij de aquelle paflb , fem 
os noíTos íaberem o fundamento de fua 
partida 5 chegou naquella mudança hum Brâ- 
mane a Duarte Pacheco , e deo-lhe huma 
carta , a qual lhe mandava hum Rodrigo 
Reinei , que fora cativo em Calecut no tem- 
po de Pedralvares Cabral , quando mataram 
Aires Corrêa ; o qual lhe fazia faber como 
quantos ardis , e confelhos EIRey de Co~ 
chij tinha, logo o Çamorij era avifado del- 
les per os Mouros , em que EIRey mais 
confiava ; e que todos eftavam de acordo 
per induílria do Çamorij pêra matar todo- 
los Portuguezes per qualquer modo que pu- 
deífem. Duarte Pacheco por não moftrar a 
EIRey que temia os Mouros ., que andavam 

na- 



124 ÁSIA de JoÁo de Barros 

naquellas coufas , não lhe deo conta do que 
ordenavam contra os noflbs , fomente lhe 
fez queixume delles da pouca lealdade que 
lhe mantinham, dando avifo de feus fegrc- 
dos a feu imigo , pedindo-lhe que proveííe 
niífo , mandando dar tal caftigo a hum par 
delles , que temeífem os outros incorrer na 
íua culpa. O que EIRey diííimulou , e não 
poz em obra , temendo efcandalizar em tal 
tempo os Mouros , em quem elle tinha polu- 
to boa parte de fua efperança , por ferem 
mercadores, que tinham muita fubftancia de 
fazenda *, e com efte receio , que elles fen- 
tiam em EIRey , tomaram licença que def- 
cubertamente andavam amedrentando os na- 
turaes a leixar a terra , e principalmente 
áquelles , que eram adjutorio de guerra , que 
com feus paráos , e barcos hiambufcar man- 
timentos 5 de que começava haver a necef- 
íidade. A qual coufa efcandalizou tanto a 
Duarte Pacheco , que tornou outra vez fo- 
bre iílo a EIRey , e lhe afeou tanto o cafo , 
que lhe deo elle licença que pudefle caíligar 
aquelles , que contra feus mandados leixa- 
vam a terra. Havida efta licença, não paf- 
fáram féis dias que não foífem tomados nef- 
ta culpa finco Mouros , os quaes Duarte Pa- 
checo mandou levar á náo com fama que 
os mandava enforcar : fobre que logo vie- 
ram muitos recados d 5 ElRey que tal não 



Década I. Liv. VIL Cap. VI. 125: 

fizeffe , por ferem homens aparentados , e 
dos principaes da terra. Ao que elle reípon- 
deo , que lhe pezava de vir o feu recado 
táo tarde, porque osminiftros de lua morte 
foram niííb mui diligentes por fuás culpas o 
merecerem : de que EIRey , e os Mouros 
ficaram mui triítes, e temerofos de tão pu- 
blicamente fazerem o que ante faziam. Peró 
Duarte Pacheco os tinha mandado mui bem 
guardar 5 e ter em fegredo té o fim da guer- 
ra , porque efperava ao diante comprazer 
com a refurreiçao delles a EIRey , e aos 
Mouros da terra, por ferem proveitofos pê- 
ra o negocio da pimenta ; porém ao preíen- 
te ficaram tão efcandalizados , que não an- 
davam bufcando fenão como pudeflem a feu 
falvo empecer os nofíòs. Com o qual ódio y 
andando Duarte Pacheco fazendo algumas 
entradas na Ilha Cambalão , em quanto o 
Çamorij fez aquella mudança do váo a ou- 
tra parte , eftes Mouros de Cochij 5 lá onde 
os noíTos andavam pelejando , lançaram hu- 
ma fama folta per todos os da terra , que 
os Mouros de Cochij tinham tomada a for- 
taleza , e huma das caravelas , e a náo , com 
morte de quantos Portuguezes eftavam em 
fua guarda, exhortando os que lá andavam 
em fua ajuda que fizeílèm outro tanto , e 
aíTi ficariam livres dos trabalhos da terra , 
que padeciam por fua caufa, Duarte Pache- 
co, 



I.2Ó ÁSIA de JoÁo de Barros 

co, primeiro queefta falfa nova fepublicaf- 
fe , foi fabedor delia per avifo de Cochij ; 
e temendo que podia fazer alguma irnpref- 
sao no animo dosnaturaes, que não era mui 
fiel , íimulando neceílidade , íe veio pêra Co- 
chij fem do cafo dar conta a EIRey , fo- 
mente de novo começou fortalecer, e pro- 
ver nas partes de fufpeita , e ter maior vi- 
gia acerca dos Mouros de Cochij. E entre 
algumas coufas , que ordenou , foi , que na- 
quelia parte per onde o Qimorij queria paf- 
far , em que via outro váo de maré vaíia , 
mandou de noite fecretamente metter humas 
eftacadas mui agudas de páos toftados em 
lugar de abrolhos pêra fe encravar a gente , 
o que aproveitou muito. Porque o dia da 
paííagem defte váo , como todos vinham 
com impeto de paliar , lançou-fe hum grão 
golpe de gente a elie , dando-lhe agua peles 
peitos , e tanto que fe começaram a encra- 
var, acurvavam, e os outros que fobrevi- 
nham detrás , empeçavam nelies de manei- 
ra , que cabiam huns fobre outros reprefan- 
do a agua , fem ler já váo , mas lugar de 
fua perdição , huns afogados , e outros en- 
cravados , com que os trazeiros não oufa- 
vam commetter aquella paííagem. Com tu- 
do , era tão grande o numero da gente , que 
ainda pairaram muitos da banda da Ilha 
onde eílavam os noífos , que naquella defen- 
são 



Década I. Liv. VIL Ca?. VI. 127 

são tiveram o maior trabalho do que té en- 
tão tinha paíTado ; e a caufa foi efta. O Ça- 
morij 5 quando quiz commetter efta paíTagem , 
fez moftra que havia de íèr per hum fó lu- 
gar j e tanto que a gente começou entrar , 
o Senhor de Repelim com grande numero 
de paráos , em que haveria mais de três mil 
homens , commetteo entrar per outro paíTo 
mais abaixo , o qual cafo fez Duarte Pa- 
checo repartir a gente que tinha em duas 
partes , mandando a efta , per que entrava o 
Senhor de Repelim , as duas caravelas , Capi- 
tães Diogo Pires , e Pêro Rafael com al- 
guns paráos , e elle ficou em terra no lugar 
per onde commettia o váo o Príncipe Nau- 
beadarij com o maior corpo da gente. Ef- 
tando emhummefmo tempo , alíi nefta par- 
te do váo , como nas caravelas , defendendo 
a paíTagem obra de trezentos homens da 
terra , per induftria dos Mouros defampará- 
ram Duarte Pacheco , o qual vendo-fe mui 
perfeguido da multidão dos imigos , man- 
dou chamar o Príncipe de Cochij , que ef- 
tava em outro paíTo de menos defensão , e 
não lhe acudio , como quem temia ir-fe met- 
ter em tão manifefto perigo , como fabia 
fer o em que elle eftava. Duarte Pacheco, 
porque fobre efte defamparo fe vio ainda em 
outra maior neceííidade , que foi falecer 
pólvora ahuns bateis que tinha no feu pa£ 

fo> 



I2õ ÁSIA de João de Barros 

fo j os quaes lhe ajudavam muito , entreten- 
do o pezo da gente , a grão prefía mandou 
ás caravelas debaixo que lhe foceorreíTem ; 
e com hum batel que mandaram , que íe 
ajuntou aos outros que lá tinha , ficou com 
algum repouío da multidão dos imigos , que 
qualhavam o rio naquella paílagem ; por- 
que teve outra ajuda depois da vinda deite 
batel , que. foi vir também a maré a elles , 
com que totalmente aquelle lugar ficou fe- 
guro de paflagem , e elle teve tempo de vir 
nos bateis que alli tinha foccorrer as cara- 
velas : e approuve a Deos que com fua che- 
gada também ficaram livres do damno , que 
recebiam da multidão dos paráos. Final- 
mente íe os imigos íangráram os noíTos , 
elles receberam o maior damno , porque em 
ambolos paflbs fomente os mortos foram 
feiscentos e fincoenta. E o que mais aflbm- 
brou o Çamorij neíte dia , foi , que recolhi- 
do elle em hum palmar vizinho a borda do 
rio , lá o foi pefear huma bombarda das ca- 
ravelas , matando-lhe nove homens aos feus 
pés , do fangue dos quaes elle ficou borri- 
fado , e hum delles diziam fer Brâmane, 
que lhe eílava dando betei. Por razão do 
qual cafo fe indignou tanto contra os feus 
feiticeiros , que os quizera mandar matar, 
porque naquelle dia lhe tinham elles pro- 
mettida a viftoria , e ndk recebeo maior 

da- 



Década I. Liv. VIL Cap< VI. 129 

damno que em -todolos paliados. Porém en- 
tre vieram niííò muitos Caimaes , e pelfoas 
notáveis , e deram por deículpa por parte 
delles , dizendo , que os Deofes citavam iri- 
dignados contra elle Çamorij ? porque no 
principio daquelia guerra proinettêra de lhe 
fazei" hum Templo , o qual té aquelle dia 
não tinha começado \ e pêra confirmação 
difto que lhe queriam perfuadir , fobreveio 
ao feu arraial huma enfermidade á maneira 
de peite per efpaço de hum mez , que não 
durava hum homem mais que dous , ou três 
dias , em que perdeo mais de féis mil ho- 
mens* Com temor da qual muitos lhe fu- 
giram , e os outros andavam tão aífombra- 
dos , que metteo o Çamorij em grande con- 
fusão , não fe íabendo determinar. Os Brâ- 
manes feiticeiros , por fe tomarem a recon- 
ciliar com elle , vieram com hum ardil de 
enganos, por não acabarem de perder o cre- 
dito de fuás promeflas , dizendo , que que- 
riam ordenar huns certos pós , os quaes ha- 
viam de fer lançados na vifta dos noflos 
quando vieíTem a fe adjuntar com a fua gen- 
te ; e eram tão poderofos , que os haviam 
^-de^ cegar de todo pêra não poderem dar 
mais hum paflb. Os Mouros , a quem eftas 
coufas mais tocavam , poílo que não con- 
fiaílem neílas mentiras dos Brâmanes , fol- 
gavam com ellas por animar o povo , e 
Tom.L P.iL I mais 



130 ÁSIA de J0Á.0 de Barros 

mais aElRey, que o viam mui quebrado, 
e trouxeram também outra invenção , cm 
que mais confiava por íèr induítria de guer- 
ra, dizendo ao Çamorij , que alli citava hum 
Mouro per nome Coje Alie , o qual tinha 
inventado huma maneira de caítellos de ma- 
deira armados íòbre paráos , em cada hum 
dos quacs bem poderiam caber dez homens , 
e feriam tão fobranceiros fobre as caravelas , 
com que ficaíTem fenhores do alto : e como 
a força dos noíTòs citava neílas caravelas 
por razão da artilheria , tomadas ellas , fica- 
vam perdidos de todo. E que além deite 
ardil, tinham outro muito melhor, por fer 
fem nenhum trabalho , dar avifo aos Mou- 
ros de Cochij , que lançaíTem peçonha nas 
aguas de que os noíTos bebiam , com que 
os iriam gaitando. As quaes coufas aíli fi- 
caram no juizo do Çamorij , que lhe pare- 
cia não ter mais dilação per haver viítoria 
dos noíTos, que em quanto eítas fe ordena- 
vam , e por iífo com muita diligencia man- 
dou logo pôr mão nellas. 



CA- 



Década L Livro VIL 13X 

CAPITULO VIL 

De algumas coufas , que o Çamorij Rey de 

Calecut ordenou , e commetteo contra os 

nojjos , e ElRey de Cochij na guerra > 

que tinha com elle : e do que 

Duarte Pacheco nijjò fe%. 

Uarte Pacheco 5 depois que lhe Deos 
deo aquella viíloria , veio-fe com as 
caravelas adjuntar á náo , e favorecer a for- 
taleza , mui defcontcnte do Príncipe de Co- 
chij 5 e delRey , por lhe fugir tanta gente 
cia fua , principalmente por o Principe não 
acudir com foccorro ao tempo que o man- 
dou chamar , em que os imigos quafi hou- 
veram de paliar o váo , e fe paliaram ? fo- 
ra o negocio de todo acabado. E o que 
mais daqui fentia era pàrecer-lhe , que vi- 
nha ifto per induílria dos Mouros de Co- 
chij \ e fendo aífi , elle não podia ter tanto 
refguardo , que huma hora , ou outra não 
]he pudeíle acontecer algum grande defaf- 
tre, por fer trabalhofa coufa guardai-fe dos 
imigos de cafa. ElRey como foube que el- 
le eítava defcontente ? veio-fe com o Princi- 
pe a vifitallo da viíloria do dia paliado , e 
o Principe a defculpar-fe , dizendo , que a 
gente que fugira , elle tinha mandado fazer 
exame diflb 5 e achava ler quaíí dos Cai- 
I ii mes, 



132 ÁSIA de João de Barros 

mes , e Capitães , que fe rebelaram ao fer- 
viço d'ElRcy , fentio que alli eftava. EIRey 
tomada a mão ao íbbrinho com palavras 
brandas , e moftras de muito amor , come- 
çou de tirar de fu (peita a Duarte Pacheco y 
moftrando que de coufa alguma daquellas 
elle não fora fabcdor ; fomente vindo viíi- 
tallo , e dar-lhe as graças do trabalho , que 
aquclle dia paliado levara por defensão do 
íeu Reyno , topara feu Íbbrinho , que lhe 
contou o defeontentamento , que elle tinha , 
e a caufa delle. E quanto á defeonfiança 
dos Mouros , elle tinha razão 5 peró o tem- 
po não dava lugar a mais , que a diíTimular 
com elles por ferem muitos , e poderofos j 
que commettendo algumas coufas leves , con- 
vinha paliar per elles , e quando foífem pú- 
blicas , e de perigo , então teria outro mo- 
do com elles. Que lhe pedia não houveífe 
paixões , pois não tinha por trabalho os pe- 
rigos , que pafíava cm defender aquelle feu 
Reyno , que era d'ElRey de Portugal feu 
Irmão \ por tanto , leixado todo o paífado , 
entendeífe em remediar o prefente , porque , | 
fegundo o Çamorij fora efearmentado , não 
podia leixar de tornar com poder de mais; 
gente , pois as injúrias parem indignação,; 
eefta fúria de vingança. Ao terceiro dia tor-i 
nou EIRey mui agaftado , dando conta 
Duarte Pacheco , que per fuás enculcas, qn 
V. tra- 



Década L Liv. VIL Cap. VIL 133 

trazia no arraial do Çamorij , tinha fabido 
o confelho que houve fobre fua tornada , 
e os ardis dos pós , caftellos , e peçonha nas ' 
aguas ; e que também lhe fora dito , que o 
Çamorij mandara bufcar todolos Elefantes 1 
adeftrados que havia na terra pêra paílarèm j 
o váo , pêra ferem amparo da gente , que^ 
havia de vir efcudada detrás delles. Duarte 
Pacheco a eílas novas , e ao temor que lhe 
EIRey moftrava 3 refpondeo-lhe com pala- 
vras ae esforço 5 dizendo 3 que não fe agaf- 
taíTe 5 porque todos eftes apparatos , e in- 
venções dos Mouros de Calecut , mais eram 
a fim de temorizar a gente de Cochij , que 
por lhe parecer terem força contra o poder 
dos Portuguezes , que per muitas vezes ti- 
nham experimentado. Qtie quanto aos caf- 
tellos 5 e Elefantes , elle tomava fobre íi o 
remédio ; que o lançar de peçonha nas 
aguas , ifto lhe pedia que mandaiTe prover 
per homens de confiança , porque a malda- 
de dos Mouros podia corromper a mui- 
tos 5 fenao foliem muito fieis nefte cafo que 
importava a vida de tantos. E depois que 
mui miudamente cíKveram praticando no 
modo de efperar eftes apparatos do Çamorij , 
e em que parte fariam mais força 3 no mar , 
ou na terra , pois per ambas eílas partes ef- 
perava commetter 5 acordaram que por ra- 
zão dos caftellos ? que fe armavam nos ba- 
teis , 



134 ÁSIA de JoÃo de Barros 

teis, a maior parte de gente Portuguez eí- 
tiveífe nas caravelas , e em guarda da for- 
taleza , e outra eftiveiTe com o Príncipe de 
Cochij , e Caimaes no lugar do váo. Tor- 
nado EIRey pêra fua caía a prover em as 
coulas deíla prática , ficou Duarte Pacheco 
em outra com os Capitães , e principaes pef- 
ibas , que com elle andavam naquclles tra- 
balhos ; porque como os coníelhos delRcy 
eram logo poftos nos ouvidos do Çamorij , 
quiz prover no que haviam de fazer fcm 
o communicar com EIRey , temendo o da- 
mno , que lhe podia fobrevir, tomando o 
Çamorij na fua induftria ardil de os oíFen- 
dcr. E as coufas , em que logo proveram , 
foi cortar a ponta de hum cotovello que 
fazia a terra , orílie fez huma maneira de 
baluarte , que ajudafle a defender as cara- 
velas , que ficavam mettidas naquelle anco 
da terra, por lhe ficar hum fó combate, e 
no lugar do váo outro de madeira grofla 
entulhado , onde havia de eftar a artilheria 
por caufa dos Elefantes , que haviam de en- 
trar per aquella parte , e huma groíía eíta- 
cada ao longo da terra , que ficaííe foberba 
fobre o váo em lugar de muro pcra po- 
derem pelejar de íima. Mandou também en- 
cravar huns grandes madeiros com as puas 
de ferro per íima , os quaes haviam fecreta- 
mente á noite ante do dia da entrada fer 

met- 



Década L Liv. VIL Cap. VIL 13? 

mettidos no lugar do váo , prezos com eíta r 
cas por os não levantar agua , pêra os Ele- 
fantes fe encravarem nelles. E pofto que en- 
commendou a EIRey a vigia das aguas , 
por razão da peçonha , por mais fegiirança 
deo cuidado a alguns Portuguezes homens 
de recado , que andaíTem fobre os Gentios , 
a que EIRey encommendaíTe a guarda del- 
ias. O Çamorij , em quanto os noííbs orde- 
navam eftas coufas , também entendia em 
feus apercebimentos , principalmente na in- 
venção de caítellos de Coje Alie , que eram 
oito , cada hum em dous pardos de altura 
de vinte palmos , de íima do qual poderiam 
pelejar dez homens. E em quanto trabalha- 
vam nelles , não leixava de mandar com- 
inei ter os noflbs per quantas partes , e mo- 
dos podia , ora com armas , ora per trai- 
ções , que fempre cahíram lbbre fua cabe- 
ça com perda dos feus. Porque elle man- 
dou fobre a náo de Duarte Pacheco por ef- 
tar apartada das caravelas , e deíla feita per- 
deo quatro paráos com muita gente mor- 
ta, e ferida , e mais tomáram-lhe hum car- 
regado de mantimentos , e a gente , que era 
natural da terra, fe falvou. Depois per duas , 
ou três vezes fizeram entradas com ardis , 
e ciladas , huma das quaes foi per induflria 
de hum Mouro mercador chamado Gorma- 
le 5 a quem Duarte PachecoT - por comprazer 

a El- 



136 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

fi EIRey de Cochij , dco huma bandeira, 
dizendo , que a queria pêra trazer pimenta 
per os rios dentro , porque per cila foiTe 
conhecido dos noíTos por não receber da- 
mno. Mas todo o feu ardil elle o pagou , 
e neíles commettimentos fempre perdiam mais 
do que ganhavam , porque de huma fó vez 
lhe tomaram os noííbs oito paráos , e treze 
bombardas. E por lhe não ficar coufa por 
tentar , também foram lançados féis Na ires 
da parte do Çamorij pêra matar Duarte Pa- 
checo , dos quacs fendo elle avifado , aco- 
Iheo hum , e outro de Cochij , que já anda- 
va em fua companhia , e pr.ezos , os man- 
dou a EIRey de Cochij , que fizeííe juftiça 
delles, porque elle não queria fer o juiz da- 
quelle cafo , pois era o olfendido. E o mais 
que Duarte Pacheco eítranhou a EIRey, 
foi , ferem elles também lançados pêra quei- 
mar as caravelas : e de todas eftas , e ou- 
tras coufas que cada dia moviam , permet- 
tia Deos ferem logo defeubertas aos noííos 
ante de fe commetterem , com que fe pro- 
viam pêra não incorrer no perigo. Não fo- 
mente com eftes que eftavam em Cochij o 
Çamorij ufava deites ardis , mas ainda man- 
dou lançar fama em Cananor , e em Cou- 
lao onde eftâvam as duas Feitorias , que 
todolos Portuguezes de Cochij eram mor- 
tos ., com recado a alguns Mouros de fua 

va- 



Década I. Liv. VIL Ca*. VIL 137 

valia , per que lhe encommendava que fizef- 
fem lá outro tanto aos que lá eftavam , que 
foi caufa de elles terem trabalho , em quan- 
to não fouberam a verdade ; e porém nefte 
recolher-fe á cafa forte , que António de Sá 
tinha feita em Coulão , lhe mataram hum 
homem , e feriram alguns ; aíli que per to- 
dalas partes , e modos o Çamorij commet- 
teo fe podia tomar vingança dos noflbs > 
fem lhe aproveitar algumas de quantas cou- 
ias lhe os Mouros inventaram pêra iflb. Aca- 
bados os feus caftellos , em quanto davam 
efte$ rebates , ficou -o Çamorij tao namora- 
do delles , que leixadas as outras induftrias 
dos pós , e Elefantes , toda fua efperança , 
e força poz no commettimento do comba- 
te per mar com elles. E certo que tinha ra- 
zão , porque na vifta eram tao temerofos, 
quão fracos fe depois moftráram quem os 
povoou : a vinda dos quaes em fama tan- 
to aífombrou a EIRey de Cochij , e os feus y 
que poios animar quiz também Duarte Pa- 
checo ufar de outro artificio 3 dizendo , que 
era contra os caftellos , e todavia em feu 
tempo fervio. O qual foi ajuntar ambas as 
caravelas com as popas em terra com ra- 
geiras per baixo pêra fe alagar quando qui- 
zeffe ; e ao pé de cada mafto mandou tam- 
bém armar outra maneira de caftellos, pêra 
que querendo os outros abalroar > que fi- 
cai- 



138 ÁSIA de João de Barros 

cafre igual delies. E nas proas , alem dos go- 
roupezes : que eram mais compridos do ne- 
cefíario pêra a navegação , mandou atravef- 
far dous maílos pêra entreterem a chegada 
dos caftellos as caravelas , e lhe ficar efpaço 
pêra íe aproveitar da artilheria. Providas ci- 
tas couías , repartio a gente que tinha dos 
noíTos , que per todos podiam fer até cento 
e feííenta homens , a qual repartição era 
neftas quatro partes , no váo , na fortaleza , 
e pelas caravelas , e náo , porque em todos 
citava a defensão delies , e daquellc Reyno 
deCochij. Epoíto que efea repartição ficou 
afli feita , depois que o negocio chegou a 
pelejar, tudo fe baralhou , trocando huns por 
outros , fegundo a neceífidade o requeria ; e 
em cada hum deites lugares também havia 
muita gente , que EIRey mandou mais por 
fazer corpo de gente , que por acerefeentá-* 
rem animo aos noíTos : cá fegundo feu ulb , 
ante que experimentaíTem o ferro , muitos 
delies fe punham em falvo. A eíte tempo 
já em Cochij havia mui pouca gente da na- 
tural da terra , por fer toda fugida da fral- 
da do mar pêra dentro do fertão com te- 
mor dos apparatos do Çamorij , poíto que 
viam quantas viítorias os noíTos haviam de 
íèus imigos ; e não fomente fugio a gente 
civil , mas ainda fe lhe rebelaram muitos 
Caimaes y que entre elles são pelicas notá- 
veis , 



Década I. Liv. VIL Cap. VIL 139 

veis , como acerca de nós Senhores de ter- 
ras de Titulo. CáEIRey de Cochij come- 
çou efta guerra , fendo em ília ajuda eítes que 
eram feus vaflallos : o Príncipe feu fobrinho 
herdeiro do Reyno , o Caimal de Paliport , 
o Caimal de Balurt, o Cham de Bagadarij 
Senhor de Porca , e o Mangate Caimal feu 
irmão , e o Caimal de Cambalao , e o Cai- 
mal de Cherij de Vaipij , e outros Senhores 
de terras , e juntamente eram em ajuda d 5 El- 
Rey com até vinte mil homens , que com 
os feus fazia numero de trinta mil. Peró 
procedendo a guerra, poucos, e poucos o 
leixáram , e ficou fomente com o fobrinho 5 
e com o Caimal de Vaipij , que fempre lhe 
guardou muita lealdade. Finalmente de trin- 
ta mil homens , com que no principio def- 
ta guerra fe achou , nefte tempo de tanta 
affronta , que foi a maior, não tinha oito 
mil, e ainda eftes mais fubjeílos ao temor, 
que á conílancia de acompanhar os noííos 
no tempo do trabalho. E a gente , com que 
o Çamorij começou , íèría até feífenta mil 
homens , de que aeíletempo, (fegundo dif- 
femosr,) pelos cafos , e perdas, que teve, 
também já tinha menos hum terço; porém 
era fama entre os nofíòs que trazia per mar 2 
e terra quarenta mil homens feus , e deftes 
Senhores , que o ajudavam , delles como 
yaíTalios , e outros por ferem amigos , e vi* 

zi- 



140 ÁSIA de João de Barros 

zinhos naquella terra Malabar , que elle con- 
vocou contra nós : Beturacol Rey de Ta- 
nor, Cacatunão Barij Rey de Befpur, e de 
Cucurão junto da ferra chamada Gate, Co- 
ta Agatacól Rey de Cotugão entre Cana- 
nor, e Calecut junto de Gate , Curiur Coil 
Rey Curím entre Panane , e Crangalor , 
Naubcadarij Príncipe de Calecut , Nambea 
feu irmão , Lancol Nambeadarij Senhor de 
Repelij , Paraicherá Eracol Senhor de Cran- 
galor , Parapucol Senhor de Chalião entre 
Calecut , e Tanor , Parinha Mutacol Senhor 
quaíi Pvey entre Crangalor, e Repelij , Be- 
nará Nambeadarij Senhor quafi Rey aílima 
de Panane pêra a ferra , Nambearij Senhor 
de Banalá Carij , Parapucol Senhor de Pa- 
rapuram , Parapucol Senhor quaíi Rey de 
Bepur entre Chanij , e Calecut, e outros 
muitos, cujos nomes não vieram ánoíía no- 
ticia , que entre elles eram principaes mui 
poderofos. Alguns dos quaes , quando o 
Çamorij tornou commetter paliar a Cochij 
com a invenção dos caftcllos , eram já idos 
pêra fuás terras ; do artificio dos quaes caf- 
tellos elle eftava tão contente , que lhe pare- 
cia ter a viéloria mui certa fem ajuda def- 
tes que o deixaram y mas o negocio não 
íuecedeo fegundo elle efperava , como fe 
verá nefte feguinte Capitulo. 

CA- 



Década L Livro VIL 141 

CAPITULO VIII. 

Como o Çamorij de Calecut com humas 
máquinas de cafiellos em barcos , e elle per 
terra veio commetter os nojjòs : e deflas , 
e de outras vezes que commetteo querer 
pajjar o rio , ficou tão desbaratado y que fe 
recolheo pêra feu Reyno. 

Oftas as coufas de cada huma deíías par- 
tes na ordem , em que efperavam de fe 
aproveitar delias , partio o Çamorij tão fo- 
berbo , e confiado na invenção da máquina 
dos caftellos , que por aquelía vez leixou de 
commetter o váo. Aíli por lhe parecer que 
efta força pofía fobre as noílas caravelas , on- 
de eítava toda a d'E!Rey de Cochij , bas- 
tava pêra as tomar , e com a poffe delias 
lhe feria leve a entrada de Cochij ; como 
por ter fabido que a paílagem do váo ef- 
ta va muito mais defenfavel ; e o principal 
de tudo era por os feus Sacerdotes , e Feiti- 
ceiros lhe terem promettido grande viótoria % 
fe puzeíle o impeto de fuás forças neftas ca- 
ravelas. Aíli que com.efte confelho, dia da 
Conceição de NoíTa Senhora chegou o Ça- 
morij per terra com a maior parte do feu 
exercito ás noílas caravelas , a qual frota era 
de duzentos paráos atulhados de frecheiros , 
que haviam de fervir no feu modo de pe- 
le- 



142, ÁSIA de João de Barros 

lejar , como gentes pêra chegar , e correr a 
hum a , e outra parte ; e quando foífe tem- 
po , lançarem em terra aquelie golpe de gen- 
te , e tornarem por outra , onde o Çamorij 
citava da outra parte do rio , te fer tanta , 
que pudeíTe fenhorear a terra em. quanto 
o Çamorij paíTaííe. Entre os quaes paráos , 
que chegaram aomelmo tempo que elle ap- 
pareeeo fobre o rio , vinham oito daquel- 
las máquinas , armadas cada huma em dous 
grandes paráos, tão íbberbas , etemeroías, 
que os noítbs eítimáram mais a viíta delias 
que afama. Mas como elles cfperavam cite 
dia , e mais por fer de N. Senhora , na qual 
punham fua confiança , fem fe mover do lu- 
gar onde eítavam , com as caravelas , e ba- 
teis em hum corpo á maneira de baluarte 
com fuás arrombadas , em as máquinas dos 
caíTeilos chegando a tiro , começou a noífa 
artilheria reprefentar o dia do juizo , afu- 
zilando fogo , vaporando fumo , e atroan- 
do os ares de maneira , que com citas cou- 
fas , e com os enxames de frechas , grita da 
gente, tudo era huma confusão efeura na vif- 
ta , e nos ouvidos , fem huns aos outros fe 
poderem ouvir , nem menos faber fe eram 
oíFcndidos dos amigos , fe dos contrários. 
As máquinas , ainda que vinham foberbas , 
ante que foílem inettidas naquelia efeuridão , 
e fumaça de morte , não puderam dar tanta 

quan- 



Década L Liv. VIL Cap. VIII. 143 

quanta elias promettiam com ília viíla , an- 
te neíle feu Gommettimento receberam maior 
damno do que o fizeram : cá por ferem ar- 
madas fobre dous paráos grandes , ao gover- 
nar delles houve muito embaraço , não po- 
dendo cada hum dos dous lemes acudir a 
hum tempo, quando os do caftello queriam , 
porque também a maré que fubia os hia 
atraveíTando a pezar dos remadores. Com 
os quaes impedimentos de oito máquinas que 
elias eram , duas com aíTás trabalho pude- 
ram chegar ás caravelas , e ainda eftas fo- 
ram mettidas com as vergas , que os nofíbs 
tinham poíto em modo de guroupézes. As 
quaes tanto que chegaram áquelle lugar , com 
a artilheria foram feitas em rachas , que 
fervíram de armas contra aqueiles que vi- 
nham dentro : cá os mais delles foram mor- 
tos , e feridos per elias. E náo fomente pa- 
rou a artilharia aqui 5 mas ainda dava per 
paráos , que eram tão baftos , que nunca fe 
perdeo tiro : com o qual damno muitos fo- 
ram arrombados de maneira , que andava 
já a agua chea de nadadores , trabalhando 
por falvar as vidas na terra , onde eííava o 
Çamorij , porque na de Cochij os d'ElRey , 
que eíhvam em guarda delia , os matavam. 
Finalmente o dia náo foi tão profpero , co- 
mo os feiticeiros do Çamorij lhe tinham prog- 
nofticado j e porque ainda lhe ficou eíperan- 

£ a > 



144 ÁSIA de João de Barros 

ça , que tornando outra vez alcançaria vidto- 
ria , que refizeíTe todolas perdas pafladas , 
veio dahi a certos dias em hora de melhor 
eleição , como elles diziam. Mas N. Senhor 
acabou de vingar os noflos defte foberbo , 
e contumaz Gentio com o grande damno , 
e perda , que recebeo neíte ultimo cominet- 
timento que fez , affi per eíla parte com feus 
caftellos de vento , como per o váo que tam- 
bém commetteo , ficando tão quebrado , e 
por feus Sacerdotes tão convertido a fazer 
penitencia , dizendo todos ter oíFcndido aos 
feus pagodes em não lhes fazer os facrifi- 
cios , e oíFertas , que lhes tinha promettido 
no princípio deita guerra : que íimulando eJlc , 
que fe tornava a refazer pêra tornar a ella , 
íe recolheo de todo com perda de dezoito 
mil homens , treze na enfermidade , que per 
duas vezes fobreveio ao feu arraial , e o^: 
finco na guerra que continuou , a qual guer- 
ra durou féis mezes ; c nefte tempo entre o 
Çamorij , c EIRey de Cochij houve cartas 5 
recados , e outras miudezas , fegundo o que 
efereveo Fr. Gaílão , hum Pvcligiofo , que 
eítava na Feitoria com os noífos 5 em hum 
tratado que fez da guerra entre eíles dous 
Reys , de que fomente tomámos o neceíTa- 
rio com outra mais informação, porque em 
todo o decurfo deíla noífaAfia mais traba- 
lhámos no fubítancial da hiítoria y que no 

am- 



Década L Liv. VIL Cap. VIII. 14? 

ampliar as miudezas que enfadam , e não de- 
leitam. Aílíque tornando ao fim deita guer- 
ra 5 que fe rematou com as amoeílaçoes dos 
Brâmanes , tiveram elles ainda tanto artifi- 
cio de fe falvar das mentiras , que diíTeram 
ao Çamorij no fuccedimento delia , e de con- 
folar a elie , que lhe fizeram crer que os 
feus Deofes lhes tinham feito mercê em pa- 
gar culpas próprias , não com damno de fua 
peíToa , mas dos feus , a qual coufa caufou 
recolher-fe com alguns delles a fazer peni- 
tencia. Dando também por caufa de feu re- 
colhimento querer por alguns dias dar re- 
poufo ao povo dos trabalhos da guerra, e 
mais naquelíe tempo por fer no fim do in- 
verno , em que efperava a vinda das noflas 
jiáos , contra o poder das quaes também lhe 
convinha prover feus portos. Os feus Cai- 
maes , e Príncipes , que o ajudaram , prin- 
cipalmente aquelles , que podiam receber 
damno , ou proveito de nós , ante que as 
noífas náos chegaífem , por fegurar feus ef- 
tados , e lugares , e haver alguma fazenda 
da que ellas de cá levavam , mandaram com- 
metter pazes a Duarte Pacheco , vendo que 
o Çamorij fe recolhia , não tanto por re- 
ligião , quanto por íiza de paz , por fentirem 
nelle que a defejava. E quem logo veio com 
efte requerimento de paz, foi o Senhor de 
Repelim , principal movedor deíla guerra, 
Tom. L P. iL K por 



146 ÁSIA de João de Barros 

por fer mui vizinho a Cochij , e não tinha 
a pimenta de fua terra outra fahida fenao 
per noflas náos ; e pola mefma razão da 
pimenta , e a fua terra fer a flor delia , e a 
nós convir tanto como a ellc eíla paz , 
Duarte Pacheco per vontade d'ElRey de 
Cochij lha concedeo. No qual tempo An- 
tónio de Sá Feitor de Coulão por algumas 
paixões , que lá tinha com os Mouros , lhe 
mandou pedir 5 que com fua viíla o quizeíTe 
ir favorecer ; o que Duarte Pacheco fez , 
indo lá em fua náo , leixando os Capitães 
das caravelas em guarda de Cochij. O qual 
chegando ao porto de Coulão , achou finco 
náos de Mouros , que eílavam á carga da 
pimenta , das quaes vieram a elle finco Mou- 
ros os principaes delias com grandes prefen- 
tes , pedindo-lhe paz , e feguro pêra nave- 
garem fuás náos com a carga que tinham 
feita , o que lhe Duarte Pacheco não con- 
cedeo. Ante por ter fabido de António de 
Sá que as náos eílavam já de todo carrega- 
das contra fua vontade , e que eíla fora a 
principal caufa , por que o mandara chamar ,, 
por ter havido algumas paixões com os Mou- 
ros mercadores eítantes na terra , que lhe 
negavam eíla pimenta por a dar a elles , 
Duarte Pacheco lha fez defcarregar toda, 
e a entregou a António de Sá , pagando-lhe 
o que cuítava , e fomente lhe deo alguma 

P e - 



Década I. Liv. VII. Cap. VIIL 147 

pêra fua defpeza. E em quanto eftas defcar- 
regavam , vieram alli ter outras duas , cada 
huma em feu dia , as quaes traziam pimen- 
ta , e vinham acabar de tomar carga naquel- 
le porto y e porque foube em certo que ne- 
nhuma deitas náos era de Calecut , com 
quem tínhamos crua guerra , a todos não 
fez mais damno , que não lhe confentir que 
tomaíTem naquelle porto alguma pimenta > 
por termos alli o Feitor António de Sá a 
fim de recolher toda a que havia na terra* 
Aíli que efpedidas eftas náos valias , e pagas 
da pimenta que tinham , foram bufcar outro 
lugar , que não tivefle efta defensão , e Duar- 
te Pacheco tornou-fe pêra Cochij , onde dahí 
a poucos dias chegou Lopo Soares , que 
partio defte Reyno por Capitão mor de hu- 
ma grande Armada , da viagem do qual 
faremos relação neíte feguinte Capitulo. 



Kii CA- 



148 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO IX. 

Como EIRey por as novas , que teve 
da Índia per o Almirante D. Vafco da 
Gama , o anno feguinte de quinhentos e 
quatro , mandou huma grande Armada , de 
que foi por Capitão mór Lopo Soares : e 
do que pajjòu da partida de Lisboa té che- 
gar a Cochij. 

COm a vinda da índia do Almirante D. 
Vafco da Gama íòube EIRey , que as 
coufas delia fe hiam ordenando de manei- 
ra , que convinha mandar maior frota da 
que lá era ao tempo de fua chegada ; que 
como efcre vemos , foram nove velas repar- 
tidas em três capitanias , do fucceíío das quaes 
ainda EIRey não tinha nova. Somente fou- 
be .per clle Almirante quão oífendidos os 
Mouros daquellas partes ficavam; aíli pelo 
ódio , que geralmente elles tem ao povo Chri- 
ftao > como pelo damno que tinham recebi- 
do de nós , e principalmente delle Almirante. 
Aíli que por eíla razão , como pêra ir to- 
mando maior pofle daquelle grande eftado , 
que lhe Deos tinha defcuberto , ordenou 
de mandar efte anno de quinhentos e qua- 
tro huma grofla Armada ? a capitania mór 
da qual deo a Lopo Soares filho de Ruy 
o 0: ^ 9 d'Alvarensra , Chanceller mór que 

fo- 



Década I. Lrv. VIL Cap. IX- 149 

fora deites Reynos em tempo cPElRey Dom 
AíFonfo o Quinto , em o qual Lopo Soares 
havia muita prudeneia , e outras qualidades 
de fua pefíba ? que mereciam huma tão hon- 
rada ida , como eíta era. Com o qual fo- 
ram eítes Capitães , Lionel Coutinho filho de 
Vafco Fernandes Coutinho , Pêro de Men- 
doça filho de João de Brito , Lopo Men- 
des de Vaíconcellos filho de Luiz Mendes 
de Vaíconcellos , Manuel Telles Barreto 
filho de AíFonfo Telles , Pedraífonfo de 
Aguiar filho de Diogo AíFonfo de Aguiar , 
AíFonfo Lopes da Coita filho de Pêro da 
Coita de Thomar, Filippe de Caítro filho 
de Álvaro de Caítro , Triítão da Silva filho 
de AíFonfo Telles de Menezes , Vafco da 
Silveira filho de Mofem Vafco , Vafco de 
Carvalho filho de Álvaro Carvalho, Lopo 
de Abreu , e Pêro Dinis de Setubal , em as 
quaes náos levava mil e duzentos homens , 
muita parte delles Fidalgos , e criados d 5 El- 
Rev , toda gente mui limpa , e tal ? que 
com razão fe pode dizer , que eíta foi a 
primeira Armada , que fahio deite Rey no de 
tanta , e tão luzida gente , e de tão grandes 
náos , poílo que foram menos em numero 
que as duas paíFadas. E por eíta caufa não 
íè puderam fazer tão preftes como as outras , 
porque partio da Cidade de Lisboa a vinte 
e dons de Abril deite anno mil quinhentos 



ip ÁSIA de João de Barros 

c quatro , e a dous de Maio foram na pa- 
ragem do Cabo Verde, E dahi em diante , 
pofto que tiveram alguns temporaes, que fe 
acham cm tão comprida viagem , quando 
veio a vinte c finco de Julho liirgio em Mo- 
çambique , onde fe deteve té o primeiro dia 
de Agofto fazendo aguada , e repairando al- 
gumas náos , principalmente a de PedraíFon- 
ib de Aguiar , e a de AfFonfo Lopes da Coi- 
ta , que com hum temporal que tiveram de 
noite deo huma per outra. Partido de Mo- 
çambique , chegou a Melinde , onde achou 
íeis Portuguezes dos que fe perderam com 
Pêro de Taíde , os quaes lhe contaram tam- 
bém como fe perdera Vicente Sodré, e as 
coufas que Affonfo de Albuquerque , e Fran- 
cifco de Albuquerque tinham feito na ín- 
dia. Efpedidó d'ElRcy de Melinde , que 
o recebeo com muito gazalhado , o tempo 
que alli efteve , a primeira terra que tomou 
da índia foi Anchediva , onde achou An- 
tónio de Saldanha com Ruy Lourenço, os 
quaes fe faziam preftes pêra tornar á coita 
de Cambaya , pêra andar alli efperando as 
náos de Meca; mas Lopo Soares os levou 
comíigo por levar recado d'ElRey D. Ma- 
nuel pêra iíTo. Alli veio também ter com 
elle Lopo Mendes de Vafconcellos , que fe 
apartou da frota com hum temporal que 
lhe deo, o qual tinham por perdido; ejun-r 

tas 



Década I. Liv. VIL Cap- IX. 1^1 

tas eftas velas , chegou a Cananor , onde foi 
muito feftejado afli do Feitor Gonçalo Gil 
Barbofa , como d 5 E!Rey , que fe vio com 
elle ao modo das viftas que houve entre 
elle 5 e o Almirante. Porque eftes Príncipes 
* Gentios neítas viftas põem muita parte de 
fua honra em fer com grande apparato y 
€ ceremonias a feu ufo ; mas Lopo Soares 
não lhe deo vagar 5 porque três dias fomen- 
te fe deteve neftas viftas , e em prover algu- 
mas coufas ao Feitor Gonçalo Gil Barbofa , 
pêra fazer preftes a carga do gengivre y e 
outras coufas , que havia de tomar quan- 
do tornaífe de Cochij. Peró ante que par- 
tiíle pêra Cochij , veio a elle com cartas 
hum moço Chriftão mandado poios cativos , 
que lá eftavam em Calecut , pedindo que 
íe lembraffe delles ; á vinda do qual moço 
deo azo Coje Biquij , que era noífo amigo 
do tempo de Pedralvares Cabral : e também 
foi induftria dos principaes de Calecut, te- 
mendo aquelle poder da Armada , e pare- 
cia-lhe que os cativos que lá tinham podiam 
fazer algum bom negocio pêra traílar na 
paz , por faberem que a defejava o Çamo- 
rij. Lopo Soares , depois que fe informou 
do moço de algumas coufas , que per elle 
lhe mandavam dizer os cativos , o tornou 
logo a efpedir com palavras de efperança. 
de fua liberdade; e quando veio ao feguin- 

te 



i$z ÁSIA de JoÁo de Barros 

te dia , que eram fetc de Setembro, che- 
gou ante a Cidade de Calecut , onde em 
lançando ancora foi vifitado com alguns re- 
frcícos por parte de Coje Biquij , e em lua 
companhia eíle moço. O qual prefente Lo- 
po Soares não acceptou , dizendo, que elle* 
eftava naquelle porto fufpeitofo , onde fe 
ooftumava negociar com cautelas de enga- 
nos y e porque não fabia fe vinha da mão 
de Coje Biquij , que elle havia por homem 
amigo do íerviço d'ElRey de Portugal feu 
Senhor , fe de outro algum que fofle imigo 
dos Portuguezes , não podia acceptar coufa 
alguma , ainda que vieííe em feu nome. Que 
em quanto elle não praticaflc com a própria 
peífoa de Coje Biquij , peró que recados 
Ihefoífem dados defua parte teftemunhados 
per aquelle moço que alli eftava , não os 
Jiavia por feus : por tanto elle fe poderia 
ir embora , e fe era de Coje Biquij , podia- 
lhe dizer , que com nenhum outro refrefco 
folgaria mais que com ver a elle , e aos Por- 
tuguezes , que lá eftavam reteúdos. Efpedi^- 
do eíle Mouro , veio Coje Biquij ao feguin- 
te dia , e não mui contente da reipofta que 
os Mouros mandaram a Lopo Soares , poí- 
to que trouxe ccmíígo os mais dos cativos 
que lá eftavam* A qual refpofta era , que 
ÉÍRey eftava ao pé da ferra \ mas que por 
terem fabido quanto defejava a paz , lhç 

man- 



Década L Liv. VIL Cap. IX. 15^ 

mandavam aquelles homens , e que em quan- 
to não vinha feu recado por terem manda- 
do a elle , folgariam faber delle a vontade 
que tinha , e o que queria mais pêra o fa- 
zerem faber aoÇamorij. Lopo Soares , de- 
pois que agradeceo a Coje Biquij a vonta- 
de que fempre moftrava aos Portuguezes , 
refpondeo-lhe ao negocio da paz ; que a 
primeira coufa que haviam de fazer pêra 
elle ouvir as condições delia , era entrega- 
rem-lhe os dous Gregos d 5 Efclavonia , que 
lá andavam , que na prática da outra paz 
EIRey prometteo entregar , e não cumprio. 
Coje Biquij , porque vio que Lopo Soares fe 
cerrou nifto , e não quiz ouvir mais réplica , 
eípeoio-fe delle , dizendo-lhe , que elle de- 
fejava mais eílapaz que peflba alguma ; mas 
como EIRey, e os principaes do feu Con- 
felho o haviam já por fuípeito nas coufas 
do ferviço delRey de Portugal , elle não 
tinha neíta parte mais autoridade , que re- 
prefentar bem eíte negocio , o qual prazerá 
a Deos que viria a effefto. Lopo Soares 3 
porque neíle , e em outros recados que foram , 
e vieram tudo era cautelas , e dilações , fem 
alguma conclusão , mandou chegar féis náos 
das mais pequenas a terra , que varejaífem 
com artilheria toda a Cidade 5 em que fe 
deteve dous dias , nos quaes fe fez tanta 
deftruição , que cahio grande parte do Ce- 
ra-» 



1^4 ASIÀ de João de Barros 

rame delRey. Acabada a qual obra , Lopo 
Soares fe partio pêra Cochij , onde chegou 
a quatorze de Setembro , a tempo que tam- 
bém Duarte Pacheco chegava deCoulão do 
negocio pêra que o mandou chamar An- 
tónio de Sá 5 ( como atrás diflemos.) E ao 
feguinte dia depois de íua chegada , EIRey 
de Cochij o veio ver , moftrando grande 
contentamento de fua vinda , e da boa en- 
trada , que deo no varejar de Calecut, do 
qual eítrago logo per patamares , que são 
grandes caminheiros de terra 5 tinha já fa- 
bido ferem mortas mais de trezentas pcf- 
foas , e derribada muita cafaria , até os pal- 
mares eraríi deílruidos , que o Gentio mui- 
to fentia por íer propriedade de que fe man- 
tém. Na qual prática Lopo Soares por par- 
te d'ElRey D. Manuel com as cartas , que 
trouxe a EIRey de Cochij , lhe deo agra- 
decimentos dos trabalhos , que tinha palia- 
dos , offerecendo-lhe aquella Armada , e que 
nenhuma coufa lhe EIRey feu Senhor mais 
encommendava 5 que a reftituiçao de qual- 
quer perda , que elle tiveffe recebida por 
çaufa da amizade que com elle tinha , e 
outras muitas palavras ; a que EIRey refpon- 
deo y dizendo , que elle perdia mui pouco 
em perder feu eftado por amor d'ElRey de 
Portugal feu irmão , pêra o que elle defeja- 
va aventurar por feu ferviço , quanto mais > 

que 



Década I. Liv. VIL Cap. IX- las- 
que os damnos da guerra paíTada mais fo- 
ram de feu imigo , que delle j e os traba- 
lhos de defender aquelle feuReyno deCo- 
chij 5 não eram feus , nem dos feus fubdiros , 
e vaíTallos , fenão dos Portuguezes , que al- 
li citavam , principalmente do Capitão Duar- 
te Pacheco ; e que algum trabalho , que o 
feu Reyno podia receber * EIRey feu ir- 
mão lho pagava cada anno nas coufas , que 
por amor delle fazia , de maneira , que re- 
compenfada huma coufa por outra , elle era 
o que ficava devendo. Que em íignal def- 
tas mercês , e favores , que cada dia rece- 
bia, (pois em ai o não podia fervir,) elle 
queria logo mandar ordenar a carga da ef- 
peciaria , e que elle Lopo Soares podia de£ 
cançar neíta parte. As quaes palavras Lopo 
Soares refpondeo com outras affi da parte 
d'E!Rey , como da fua , conformes ao que 
ellas mereciam , com que fe efpedíram hum 
do outro mui contentes. E porque a efte 
tempo EIRey por caufa das guerras paf- 
fadas eftava na Ilha de Vaipij 5 e dlc defe- 
java de fe paífar á Ilha de Cochij , onde 
era fua própria vivenda , fegundo deo con- 
ta a Lopo Soares ; mandou elle António de 
Saldanha que com alguns bateis , de que 
eram Capitães Triftao da Silva, Pêro Ra- 
fael , Pêro Zuzarte , e Ruy Lourenço , que 
o levaífem. Os quaes foram com muita feP 

ta 



156 ÁSIA de João de Barros 

ta de trombetas , bandeiras , e gente luzida , 
fazendo toda honra , c acatamento á peflba 
cPEIRcy , ccmo fe foram feus vaflallos, 
porque o queriam contentar , e comprazer 
por razão dos grandes trabalhos , que tinha 
padecido por confervar a amizade d 5 ElRey 
D. Manuel. 

CAPITULO X. 

Como Lopo Soares a requerimento cPElRey 

de Cochij deo em Cranganor \ e o dej- 

truio : e da ajuda que mandou a El- 

Rey de Tanor , e as caufas porque. 

HAvendo hum mez que Lopo Soares 
era chegado , EIRey de Cochij lhe 
deo conta como de hum lugar chamado 
Cranganor , que feria dalli quatro léguas 
per hum rio dentro contra Calecut , recebia 
muito damno , por íèr lugar de frontaria , 
que o Çamorij tinha fortalecido : que lhe 
pedia muito que em quanto as náos cílavam 
á carga , houveffe por bem de mandar fo- 
bre elle pêra o deílruir de todo. Lopo Soa- 
res como já tinha informação deíle lugar 
per Duarte Pacheco, e quão prejudicial era 
a fua vizinhança , determinou de ir ]ogo fo- 
bre elle , e aííi o diíle a EIRey com pala- 
vras , de que elle ainda levou maior conten- 
tamento. Juntos pêra efte negocio vinte ba- 
teis . 



Década L Liv. VIL Cap. X. 157 

teis , cm que entravam os efquifes das náos , 
determinou Lopo Soares em peííoa de ir a 
efte lugar, e tão fecretamente , que não fe 
foubeíle em Cochij por não darem avifo 
aos imigos , que fegundo tinha fabido efta- 
va no lugar hum Capitão do Çamorij cha- 
mado Maymamé, e o Príncipe Naubeada- 
rij com gente de guarnição ; por caufa da 
qual guarnição EIRey de Cochij mandou 
per terra o Príncipe feu íbbrinho com alguns 
Naires , e muitos frecheiros , e a mais gen- 
te de guerra que pêra tal empreza lhe pa- 
receo fer neceflaria. Partido Lopo Soares 
huma antemanhã, foram dormir a hum lu- 
gar por efperarem alli o Príncipe de Cochij , 
que com fua gente vinha per terra per ou- 
tra parte , o qual fe deteve tanto , que quan- 
do ao outro dia chegaram 5 pofto que foi 
em amanhecendo , já a terra era appellidada 5 
e poíla em armas. E o primeiro encontro 
que os noífos acharam , foram duas náos 
do próprio Capitão Maymamé atulhadas de 
gente , e dous filhos feus , que em os noí- 
fos as commettendo com animo de valentes 
homens as defenderam ; mas não durou mui- 
to efte feu fervor , porque a cufta de feri- 
dos r e mortos , ellas foram entradas , e en- 
tregues ao fogo. O qual feito fe fez per os 
primeiros Capitães , a quem Lopo Soares ti- 
nha dado a dianteira , que eram António 

de 



ijS ÁSIA de JoÂo de Barros 

de Saldanha, Pedrafonfo d 5 Aguiar, Triítáo 
da Silva , Vafco Carvalho , e AíFonfo Lo- 
pes da Coita. Acabado efte feito , que fe fez 
no rio , poz Lopo Soares com o corpo de 
toda a gente o peito em terra , que foi to- 
mada com affás trabalho , e fangue de to- 
dos , porque os Mouros , e índios cubriam 
a praia com o grande numero delles ; e an- 
te que os noífos chegaíTem a bote de lan- 
ça , foi entre huns , e outros huma nuvem 
de fetas tão bailas , que não davam lugar a 
que os noífos entraflem em caminho , e não 
entendiam cm mais que amparar-fe, eefcu- 
dar daquelles enxames de fetas, que lhe fer- 
viam ante os olhos , té que as noíTas efpin- 
gardas , e béílas fizeram lugar , com que co- 
meçaram de tomar mais poíTe da terra , e 
os vieram careando a bote das lanças pêra 
a povoação , que foi logo entrada , e porta 
em poder de fogo , porque ella eftava já 
tão defpejada , que não houve esbulho , em 
que a gente d'armas fe detiveífe , e a maior 
preza que alli houve , foram trinta e finco 
zambucos , e paráos , que fe trouxeram pê- 
ra EIRey deCochij , como fignal da viélo- 
ria, que houveram de feu imigo. E poíto 
que o fogo tomou muita licença no que 
queimou , maior a tomara , fenão fobreviera 
alguma gente da terra , que eram dos Chri- 
ftãos que alli viviam , e vieram a Vafco da 

Ga- 



Década I. Liv. VIL Cap. X. 15-9 

Gama , como atrás fica ; por caufa dos quaes 
Lopo Soares mandou que fe não fizefíe mais 
damno , pois tinham alli fua vivenda em 
companhia dos Mouros , e Gentios da ter- 
ra. O Principe de Cochij , porque os nof- 
fos deram maior preíTa a efte negocio do 
que elle trazia , e não pode fer prefente a 
elle , quando chegou por honra de fua pef- 
foa, centre elles fe haver por viíloria con- 
tra os imigos 5 faltou na terra decepando 
algumas palmeiras , como Senhor do cam- 
po , e mandou trazer huma em hum paráo 
por triunfo daquelle feito. O qual não fo- 
mente quebrou a foberba do Çamorij , mas 
ainda deo animo a alguns íeus imigos j por- 
que chegado Lopo Soares a Cochij com 
a viítoria delle , dahi a dous dias EIRey 
de Tanor feu vaífallo fe mandou queixar a 
elle per feus Embaixadores , pedindo-] he 
paz, e ajuda contra elle, do qual era des- 
avindo por caufas que tocavam ao ferviço 
delRey de Portugal. E vindo elle Çamorij 
fobre iífo com gente pêra o deítruir , elle 
lhe fahíra ao encontro em hum paífo , do 
qual houvera vidtoria ao tempo que Lopo 
Soares deílruíra Cranganor , em favor , e 
defensão do qual elle Çamorij hia , pare- 
cendo-lhe que fepaífaífe podia caítigar a el- 
le , e ir avante , do qual trabalho elle o ti- 
rou com a vi&oria que IheDeos deo. Que 

o f a- 



i6o ÁSIA de JoXo de Barros 

o favor , e ajuda , que delle queria , era 
mandar ao feu porto de Tanor alguma náo 
com gente , e artilheria , porque tinha per 
nova que oÇamorij com maior indignação , 
como homem injuriado , vinha outra vez 
fobre elle. Lopo Soares , depois que ouvio 
os Embaixadores, os mandou muito bem aga- 
zalhar , e quiz-fe informar d'ElRey de Co- 
chij , e de Duarte Pacheco defta novidade 
cVElRey de Tanor , fendo hum tão prin- 
cipal imigo , como elles diziam , c que na- 
quella guerra paífada fempre fervíra a EI- 
Rey de Calecut, que não fabia como po- 
dia mover huma tal coufa: Que quanto ao 
que elle fentia deite negocio 5 verdadeira- 
mente tinha pêra íi que era alguma fimula- 
ção , a fim de lhe não darem fobre eíle lugar 
com o temor da nova dadeítruiçao deCran- 
ganor. A qual fufpeita EIRey de Cochij 
lhe desfez , e aili Duarte Pacheco polo que 
tinha fabido per alguns principaes da terra* 
e a caufa de mandar pedir eíta ajuda , era 
eíla. Eíle Reyno de Tanor antigamente fo- 
ra livre , e não fubdito , e continha em feu 
eítado muitas terras; mas como o vizinho 
poderofo fempre vai comendo do fraco , 
os Reys de Calecut o puzeram em tal ef- 
tado , que não ficou mais aos Principes del- 
le , que aquella povoação do porto de Pa- 
nane , e iílo em vida deíle Rey que rei- 
na- 



Decáda I. Liv. VIL Cap. X. i6i 

liava, de maneira, que de Rey livre ficou 
tributário ao Çamorij. O qual Rey , pare- 
cendo-lhe que perferviço de fua peffoa po- 
dia cobrar delle Çamorij o que não pude- 
ra defender , em todalas guerras paliadas , 
que elle Çamorij teve , foi hum dos princi- 
pães , e mais contínuos que o ferviam , fem 
haver galardão de feus trabalhos. Mas pa- 
rece que nenhuma coufa deitas fatisfez ao 
Çamorij ; e per qualquer caufa que foi , te- 
mendo-fe delle que podia com noíTo fa- 
vor tirar o laço do pefcoço de fua fervi- 
dão , determinou de lhe tomar efte porto 
de Tanor , e o mais que tinha. Finalmente , 
poíto o Çamorij em caminho com dez mil 
homens pêra vir a Cranganor em ajuda do 
Príncipe de Calecut, e Marmame feu Capi- 
tão mor temendo o que fuccedeo , aíTentôu 
que á tornada, quando fe recolheííe a Cale- 
cut , daria em Tanor. Peró primeiro que 
elle chegaííe a eíle eíteito , lhe fuccedeo ou- 
tro não efperado delle , e foi , que EIRey 
de Tanor fubitamente em hum paífo lhe 
fahio , e o desbaratou. Com a qual obra fez; 
EIRey de Tanor duas coufas , vingou-fe 
primeiro que o Çamorij déíTe nelle , e mais 
foi impedimento pêra fe não ir ajuntar em 
Cranganor com os feus , que per ventura fe 
o fizera não houvera Lopo Soares tão le- 
vemente viéloria delles. Teve ainda EIRey 
Tom.L P.iL L de 



i6z ÁSIA de João de Barros 

de Tanor outra boa fortuna , que indo o 
Príncipe de Calecut, eMarmame desbarata- 
dos dos noílbs , fahio-lhe elle também ao 
caminho , e acabou de os deftruir de ma- 
neira , que chegado Pêro Rafael com huma 
caravela armada ., e quarenta homens, que 
lhe Lopo Soares mandava polo requerimen- 
to dos fetis Embaixadores , tinha já EIRey 
de Tanor havido eftas viílorias , eftando el- 
le , quando os mandou a pedir efte foccor- 
ro , efperando cada dia polo Çamorij que 
o vinha deftruir. E como homem mimofo 
da boa fortuna daqucllas viélorias , já re- 
cebeo com ceremonias de mageftade de fua 
peíToa a Pêro Rafael , dando-lhe agradeci- 
mentos de fua boa chegada , e que ao pre- 
fente não tinha neceflídade delle , por feu 
imigo fer já pofto em falvo , mais timido , 
que foberbo. Que elle efperava de cobrar 
todo feu eftado com favor , e ajuda das Ar- 
madas delRey de Portugal , cujo fervidor 
elle feria todo o tempo de fua vida , e que 
pêra iífo offerecia fua peíToa , fazenda , e 
eftado quando por feus Capitães folfe re- 
querido ; e com efta , e outras ofFertas de 
palavras , que mandou a Lopo Soares , ef- 
pedio a Pêro Rafael , que fe tornou a Co- 
chij. 



CA^ 






Década L Livro VIL 163 

CAPITULO XI. 

Como Lopo Soares , depois de feita Jua 
carga de efpeciaria , e efpedido d"ElRey de 
Cochij , de caminho deo em hum lugar d?El- 
Rey de Calecut chamado Panane , onde pe- 
lejou com alguns feus Capitães , que efta- 
*vam em guarda dedezefete náos , as quaes 
-queimou , e acabado ejle feito , par tio pêra, 
ejie Reyno , onde chegou a falv amento. 

EM quanto eílas coufas paliaram , pofto 
que também íe entendefle em a carga 
*das náos , porque ellas eram muitas , e com 
a guerra o negocio da pimenta não andava 
tão corrente, que aíli em breve fe pudeíTe 
..haver , e mais por a maior parte delle íer 
feito per mãos de Mouros mui vagarofos, 
ordenou Lopo Soares de mandar a Coulao 
♦finco náos , Capitães Pêro de Mendoça , Lo- 
*po à 1 Abreu , António de Saldanha, Ruy 
Lourenço , e Filippe de Caflxo , pêra lá ha- 
iverem carga. Porque além de ter recado de 
António de Sá, que eflava por Feitor da- 
«quella Feitoria , que tinha recolhido boa forn- 
iria de pimenta, também per confelho del- 
le, e de Duarte Pacheco, que delia era vin- 
do, quiz mandar aquellas finco velas pêra 
favor da noíTa Feitoria : cá andavam os 
^Mouros tão aleyantados contra António de 
L ii Sá, 



164 ÁSIA de João de Bakkos 

Sá , que com trabalho lhe queriam dar pi- 
menta, e não vinha náo de Mouros ao por- 
to de Coulao , que logo não foífe defpacha- 
da a pezar delle : aíli que por eftas caufas 
as enviou , e em breve foram , e vieram com 
lua carga a tempo que as outras eftavam 
preítes. E porque EIRey D. Manuel man- 
dava a Lopo Soares que em guarda da For- 
taleza de Cochij , e aíli daquella coíla , fi- 
cafle Manuel Telles Barreto filho de Afíbn- 
fo Telles Barreto por Capitão mor de qua- 
tro velas \ á efpedida que teve com EIRey 
de Cochij , lho entregou com palavras , de 
que EIRey ficou fatisfeito acerca da fegu- 
rança de feu eftado , pofto que elle quizera , 
pola experiência que tinha delle , que ficara 
Duarte Pacheco. Com o qual Manuel Tel- 
les , por ferem homens conhecidos delRey , 
e andarem fempre naquella guerra , e o com- 
prazer nilfo , ficaram Pêro Rafael , e Dio- 
go Dias, eChriítovãoZuzarte. Enefta efpe- 
dida , que Lopo Soares teve com EIRey , 
não lhe quiz dar conta do que determinava 
fazer de caminho , que era dar em hum lu- 
gar do Çamorij chamado Panane , temendo 
que communicando eíle negocio com clle 7 
foífem logo os Mouros avifados , por não 
fe guardar muito fegredo entre elles , princi- 
palmente como tocava em coufas noíías. A 
qual ida Lopo Soares aíTentou com os Ca 






Década I.'Liv. VII. Cap. XI, 16? 

pitães , e principalmente com Duarte Pache- 
co , por ter fabido ; quando logo elle che- 
gou , que naquelie lugar dePahane eílavam 
dezefete náos de mercadores do eftreito de 
Meca pêra tomar carga de efpeciaria ; por 
a qual razão huma das coufas ò que Lopo 
Soares proveo em chegando , foi mandar 
a Pêro de Mendoça por Capitão mor de 
três velas , que andaífe em guarda dos por- 
tos de Calecut , por não fahir , ou entrar 
náo fem fer per elle vifta. Finalmente , af- 
fentadas todalas coufas ; que convinham á 
Fortaleza j e efpedido d ? EÍRey , elle Lopo 
Soares fe partio a vinte e féis de Dezembro , 
levando em fua companhia Manuel Telles 
com os outros Capitães de fua bandeira pê- 
ra ferem com elle naquelie feito. E feguin- 
do feu caminho , levando diante as carave- 
las chegadas á coíla , e elle com as náos 
de largo por irem carregadas , fendo tanto 
avante como Panane , fahíram a ellas vinte 
pardos bem artilhados , e como genetes li- 
geiros começaram defpender fua pólvora, e 
armazém. Os quaes % íegundo logo pareceo , 
de induftria vinham travar com ellas ; e co- 
mo a frota das náos da carga fe moílrou , 
fingiram temor , e começaram de fe reco- 
lher pêra dentro do rio , onde as náos dos 
Mouros eílavam , porque lhe pareceo que 
por os noífos irem já de caminho com -car- 
ga 



166 ASIÀ de João de Barros 

ga feita , não fe haviam de querer metter 
dentro cm ventura , por o rio não lhe dar lu- 
gar, principalmente com hum baluarte , que 
defendia a entrada , pofto que as caravelas 
o quizeffem commetter. E verdadeiramente 
pofto o negocio em coníèlho , os Mouros 
eílavam na verdade , que não era coufa pê- 
ra commetter entrar naquelle rio fegundo 
elle eftava defenfavel ; e mais impoílivel lhe 
parecia fe fouberam o modo , que os nof- 
fos depois tiveram em commetter efte feito. 
Porque quem podia crer que obra de tre- 
zentos e feíTenta homens em quinze bateis , 
c duas caravelas , haviam de commetter dez- 
clete náos groíías com muita artilheria en- 
cadeadas humas em outras, tão juntas com 
as popas em terra a maneira de alcantila- 
da , que pareciam hum eirado foberbo fo- 
bre o' mar , em guarda das quaes eílavam 
quatro mil homens. Porém como as cou- 
fas da honra, acerca daquelles que a tem por 
vida , precedem todolos perigos da morte , 
e mais eíle cafo , que tratava do eílado da 
índia , não fe quiz vir Lopo Soares fem o 
leixar concluído , o qual per ventura fizera 
mais damno que as guerras paífadas , por 
ficar o Çamorij mui efeandalizado do fei- 
to de Cranganor , e d'ElRey de Tanor. 
Aííi que havida outra coníideração , e con- 
feito y ainda que confufo por ainda não te- 
rem 



Década L Liv. VIL Cap. XI. 167 

rem vifto como as náos eftavam , aíTentou 
Lopo Soares de as ir queimar > levando dian- 
te Pêro Rafael , e Diogo Dias , que tinham 
as caravelas mais pequenas , e elle em quin- 
ze bateis. O qual partido das náos com 
grande eílrondo de trombetas , e grita da 
gente nefta ordem das caravelas ante íí , quaíi 
por amparo da artilheria dos Mouros , que 
ao longo lhe podia fazer mais damno que 
ao perto , principalmente de hum baluarte , 
que á entrada da barra eftava cheio delia, 
a primeira caravela , que foi a de Pêro Ra- 
fael , aífí a fal varam , que com as rachas que 
fez a artilheria em os altos delia, lhe ferio 
muita gente í e fobre iffo carregaram os pa- 
rdos 3 que a vieram demandar , lançando-lhe 
dentro hum grande numero de frechas , que 
lhe encravou muitos homens. A qual entra- 
da aíTi embaraçou a gente do mar na ma- 
reagem da caravela , que por fe lançarem a 
outra parte , e fugir o perigo do baluarte , 
foram cahir em outro peior, e era debaixo 
de huma náo groíTa dentro no porto , que 
por fer muialterofa padeceram mui grande 
trabalho \ e em fe amparar das frechas 5 e 
arremeífos de zargunchos, quaíi á mão te- 
nente tiveram bem que fazer , do qual pe- 
rigo ficaram muitos mui mal feridos. A ou- 
tra caravela , Capitão Diogo Dias , indo na 
eíleira deite baluarte , lhe mataram hum ma- 

ri- • 



r t68 ÁSIA de João de Barbos 

rinheiro que hia ao leme ; e porque os ou- 
tros fe chegavam de má vontade áquelle 
lugar , como a caravela não fentio gover- 
no , deo comíigo em hum baixo , de ma- 
neira , que ambas ficaram em eítado , que mais 
haviam miíler ajuda ? do que a podiam dar 
a ninguém. Lopo Soares , que vinha detrás 
delias , peró que vio o perigo perque palia- 
ram , não houve mais ordem de efperar ou- 
tro coníeiho fenao dar as trombetas com 
Sant-Iago na boca a quem remaria , e feria 
primeiro com as náos , como quem corria 
hum pario naval , cujo termo da viítoria 
era chegar a ellas. E parece que N. Senhor 
lhe quiz pôr eíle impedimento nas carave- 
las de os não poderem naquella chegada 
ajudar j pêra que a vidtoria foífe mais mi- 
lagrofa. Porque afferrando cada hum fua 
náo , aíli levava o efpirito poílo em confian- 
ça de viftoria 9 que lhe não lembrava que 
hia commetter huma náo atulhada de gen- 
te , e tão alta de fubir , que em paz quieta 
hum homem pideria huma efeada de corda 
de que lançaíle mão. E porém logo na che- 
gada , eílando Lopo Soares pêra aíFerrar ? hu- 
ma bombarda lhe matou hum homem , e 
feriram quatro ; e Triftão da Silva , que foi 
dos primeiros , fubindo per outra , o deita- 
ram abaixo , e outro tanto fizeram a Pêro 
deMendoga, e a António de Saldanha com 

cu- 



Década I. Liv. VIL Cap. XI. 169 

outra bombarda lhe arrombaram o feu ba- 
tel , e levou a barriga da perna a hum cria- 
do feu de que ficou aleijado. E porque era 
já maior o perigo de fe affogarem , por o 
batel fe ir ao fundo , que commetter as náos , 
tomou poíTe de huma com os que levava. 
Manuel Telles j Duarte Pacheco aíFerráram 
huma 3 que diziam fer a capitania das ou- 
tras , onde acharam bem de trabalho , por- 
que havia nella muitos Turcos , homens mui 
valentes , e deípachados , que não chegavam 
a elles fem fazerem fangue. Finalmente ca- 
da hum em anáo que lhe coube em forte, 
com morte do Capitão dos Turcos , e al- 
guns Mouros j e muitos do Gentio da ter- 
ra , deo tal conta delia , que poucos , e pou- 
cos fubindo ao alto fe fizeram Senhores de 
todas , lançando-fe os Mouros ao mar , on- 
de poucos efcapavam , porque os marinhei- 
ros dos bateis ás lançadas os mataram. E 
fem fe faber quem , nem por cujo mandado 
foi poílo fogo ás náos ; e aíli tomou elle 
poíTe delias, que as não leixou até o lume 
da agua , onde ardeo muita fazenda , por- 
que eítavam pêra partir quaíi de todo car- 
regadas. E foi a coufa que mais efpantou 
aos da terra , vendo que fem ter cubica de 
tanta riqueza , como nellas eftava , tão leve- 
mente foram queimadas , e diziam que ifto 
fe fizera em vingança do que fora feito a 

Ai- 



170 ÁSIA de João de Barros 

Aires Corrêa. Porém a viítoria não foi fetn 
cuíto , porque dos noífos morreram vinte c 
três peflbas , e cento e fetenta feridos , por- 
que durou a peleja de pela menhã té ho- 
ras de meio dia ; e fegundo fe depois fou- 
be em Cananor , morreram dos imigos fe- 
tecentos , e feridos hum grande numero del- 
les. Acabado efte feita, tornou- fe Lopo Soa- 
res recolher ás náos , e naquelle dia não fe 
entendco em mais , que na cura dos feri- 
dos ; e o feguinte , que era dia de Janeiro 
do anno de quinhentos e finco, fe fez á ve- 
la caminho de Cananor , onde foram recebi- 
dos com muita feita , e prazer dos noífos 
que alli citavam , os quaes legundo cada dia 
eram aífombrados dos Mpuros moradores 
da terra , fe Lopo Soares ficara com algu- 
ma quebra daquelle feito , ou as náos fica- 
ram inteiras não oufáram eftar alli mais , por 
verem que EIRey era mui fubjeito a cites 
Mouros , e levemente lhe perdoava qual- 
quer erro pelo rendimento , que tinha del- 
les em feus trados. Porém íabendo elle que 
Lopo Soares era chegado do lugar onde 
eítava , que era contra a ferra , o veio logo 
ver , moítrando grande contentamento da vi- 
floria que houve. Na qual viíta , porque 
era também efpedida , Lopo Soares lhe en- 
commendou o Feitor, e Officiaes , c gente 
que alli ficava debaixo do amparo de fua 

ver- 



Década I. Liv. VIL Cap. XI. i7r 

verdade, paíTando ambos fobre ifto muitas 
palavras , em que EIRey deo grande pe- 
nhor da maneira que haviam de fer tra- 
tados , e favorecidos, e com ifto fe eípe* 
diam ambos. Acabada de tomar a carga 
que alli eftava preftes , fez-fe Lopo Soares 
á vela via deite Reyno , eípedindo de li a 
Manuel Telles com os outros Capitães , que 
ficavam com elle , e com bom tempo que 
lhe fez ao primeiro de Fevereiro , chegou 
aMelinde, onde foi provido de muitos re~ 
frefcos 3 que lhe EIRey mandou ás náos. 
Partido daqui com tenção de queimar hum 
lugar d'E!Rey de Mombaça a rogo d'El- 
Rey de Melinde , aconteceo que paliou per 
elle com as aguas que corriam , e não po- 
de tomar terra , e foi ter a Quiloa por re- 
colher as páreas, que EIRey devia de deus 
annos, de que fe dle efcuícu por pobreza. 
Ao qual Lopo Soares não quiz muito aper- 
tar, vendo que fobmettia fua pefíba á obe- 
diência do que elle mandaíTe , medrando 
que por feus rogos aqueíle anno lhe não 
queria paga , fomente que a tiveífe preíles 
ao feguinte pêra o Capitão cue alli vieííe. 
Efpedido delle , partio-fe a dez de Feverei- 
ro , e em Moçambique fe deteve dez , ou 
onze dias , tomando agua , e lenha , e e Im- 
perando por corregimento da náo de An- 
tónio de Saldanha que fazia muita agua , 

don- 



172 ASIÀ DE JOÃO DE BARROS 

donde mandou diante a Pêro de Mendoça ; 
e a Lopo de Abreu , que trouxeíTem a nova 
de fua vinda a efte Reyno. Os quaes fendo 
quatorze léguas da aguada de S. Braz , de 
noite encalhou Pêro de Mendoça em ter- 
ra 5 e pela manhã Lopo de Abreu o vio ef- 
tar com o Traquete desferido , e por cau- 
fa do tempo não lhe pode valer, com que 
Pêro de Mendoça ficou fem fe mais faber 
delle ; e parece que elle pagou por toda a 
frota , porque Lopo de Abreu veio a fal- 
vamento a Lisboa nove dias ante Lopo 
Soares. O qual , partido de Moçambique , 
poílo que no cabo teve hum temporal com 
que algumas náos fe apartaram delle , aífí 
como António de Saldanha , que com o maf- 
to quebrado foi ter a Ilha de Sanita He- 
lena , e outros correram outras fortunas , 
per derradeiro fe ajuntaram com elle nas 
Ilhas Terceiras , donde partio pêra eíle Rey- 
no , e entrou no porto de Lisboa a vinte 
e dous de Julho com treze velas juntas , e 
clahi a poucos dias entrou a náo de Setú- 
bal , de que era Capitão Diogo Fernandes 
Peteira , que vinha com boas prezas que fez 
na coita de Melinde diante de António de 
Saldanha 5 e foi invernar á Ilha Çocotora 5 
que novamente defcubrio. E por chegar a 
Cochij ? depois que Lopo Soares eílava a 
carga y conveio-lhe tomar a fua per derra- 

dei- 



Década I. Liv. VIL Cap. XI. 173 

deiro de todos , que caufou não vir em ília 
companhia. Dêmos efta relação delle , por- 
que depois que fe apartou de António de 
oaldanha não o tínhamos feito, epodia-nos 
alguém pedir conta delle. AíTi que com a 
Armada de Lopo Soares vieram três Capi- 
tães do anno paliado , e foi efta fua viagem 
huma das mais bem afortunadas que fe fez 
de tão grofla Armada , porque foi , e veio 
junta em efpaço de quatorze mezes , e trou- 
xe mui rica carga , com fazer dous feitos 
mui honrados , hum dos quaes foi dos me- 
lhores 5 em fer bem commettido , peleja- 
do 5 e perigofo > que fe naquellas partes 
vio. 



PE- 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO VIII. 

Dos Feitos ^ queosPortuguezes fizeram 
no defcubrimento , e conquifta dos 
mares , e terras do Oriente : em que 
fe contém o que fez D. Franciico de 
Almeida , que o anno de quinhentos 
e fmeo EIRey D.Manuel mandou á 
índia pêra lá reíidir por Capitão ge- 
ral , o que depois foi intitulado por 
Vifo-Rey delia. 

CAPITULO I. 

Do modo , que fe navegavam as efpe- 
ciarias té virem a ejlas partes da Euro- 
pa ante que dejcuhrifjemos , e conquijlajje- 
mos a índia per ejie noffo mar Oceano : e 
das embaixadas , que os Mouros , e Trin- 
ei pes da que lias partes mandaram ao Sol~ 
ãao do Cairo , pedindo-lhe ajuda contra nós. 

COmo toda efta nofla Afia vai funda- 
da íobre navegações por caufa das Ar- 
madas, que ordinariamente em cada 
hum anno fe fazem pêra a conquiíla , e com- 
mercio delia , e as coufas que pertencem á 
fua milícia imos relatando , fegundo a or- 
dem 



Década I. Liv. VIII. Cap. L 17J 

dem dos tempos ; convém pêra melhor en- 
tendimento da hiftoria darmos liuma geral 
relação do modo que fe naquellas partes de 
Afia navegava aefpeciaria com todalas ou- 
tras horientaes riquezas , té virem a efta nof- 
fa Europa , ante que abriffemos o caminho , 
que lhe demos pêra efte noflb mar Ocea- 
no 5 peró que em o traétado do commercio 
copiofamente o eferevemos. E também he 
neceíTario , que quando fallarmos nefta na- 
vegação , e commercio da índia , não fe ha 
de entender que eítas duas coufas eftam li- 
mitadas em aquellas duas regiões , a que os 
antigos chamam índia dentro do Gange , e 
índia além do Gange ; porque as noffas na- 
vegações 5 e conquiíla daquella parte , a que 
propriamente chamamos Afia , não fe con- 
tém fomente na terra firme ? que começa 
em o mar Roxo , onde fe ella aparta da 
Africa , e acaba na oriental plaga , a que 
ora chamamos a Cofia da China ; mas ain- 
da comprehendem aquellas tantas mil Ilhas 
a efta terra de Afia adjacentes , tão grandes 
em terra , e tantas em numero , que fendo 
juntas em hum corpo , podiam conftituir 
outra parte do Mundo , maior do que he 
efta noíía Europa. Por cuja caufa em anof- 
fa Geografia , deíbs , e de outras Ilhas def- 
cubertas , fazemos huma quarta parte em 
que fe o Orbe da terra pôde dividir 5 por- 

que 



176 ÁSIA de João de Barros 

que muitas eftam diftantes da coita , que lhe 
jiao pertencem por adjacência , ou vizinhan- 
ça. Per todas as quaes partes ao tempo que 
defeubrimos a índia , aíli os Gentios , como 
os Mouros , andavam commutando , e tro- 
cando humas mercadorias por outras , fe- 
gundo a natureza difpoz fuás fementes , e 
frutos , e deo induftria aos homens em a 
mecânica de fuás obras. As que jaziam além 
da Cidade de Malaca , fituada na Áurea 
Cherfonezo , (nome , que os Geógrafos de- 
ram á quella terra , ) affi como cravo das 
Ilhas de Maluco , noz , e maça de Banda , 
iandalo de Timor , cânfora de Borneo , ou- 
ro 5 e prata do Liquio , com todalas rique- 
zas \ e efpecies aromáticas . cheiros , e poli- 
cias da China , Java, e Sião, e de outras 
partes , e Ilhas a efta terra adjacentes , to- 
das no tempo de fuás monções concorriam 
áquella riquillima Malaca , como a hum em- 
pório , e feira univerfal do Oriente , onde 
os moradores de eftoutras partes a ella oc- 
cidentaes que fe contém té o eílreito do 
mar Roxo , as hiam bufear a troco das que 
levavam , fazendo commutação de humas 
por outras , fem entre elles haver ufo de 
moeda. Porque ainda que alli houveífe mui- 
ta cópia de ouro deCamatra, e do Liquio, 
em que na índia fe ganhava mais que a 
-quarta parte , era tanto maior o ganho das 

ou- 



Década L Liv. VIII. Cap. I. 177 

outras , qiíe ficava o ouro em tão vil eítn 
mação , que ninguém o queria levar. E co- 
mo Malaca era hum centro , onde concor- 
riam todos os navegantes , que andavam 
neíla permutação , alli os da Cidade de Ca- 
lecut , íituada na coita de Malabar , e os 
da Cidade de Cambaya , fituada na enfeada , 
que tomou o nome delia > e os da Cidade 
de Ormuz poíla na Ilha Geru dentro na 
garganta do mar Períico > como os da Ci- 
dade Adem , edificada ae fora das portas 
do mar Roxo , todos com a riqueza deite 
commercio tinham feito a eítas Cidades mui 
illuftres , e celebradas feiras. Porque não fo- 
mente traziam a ellas o que navegavam de 
Malaca , mas ainda os robijs , e lacre de 
Pegu , a roupa de Bengala , aljôfar de Ca- 
lecaré , diamantes de Naríinga, canela > e 
robijs de Ceilão , pimenta 5 e gengivre, e 
outros mil géneros de efpecies aromáticas, 
aífi da coita Malabar , como de outras par- 
tes 3 onde a natureza depofitou feus theíbu- 
ros. E as que deita parte da índia fe ad- 
j untavam em Ormuz , leixando alli a tro- 
co de outras as que fervírarri pêra as partes 
da Turquia 5 e da noífa Europa , eram na- 
vegadas per eíte mar Perilco té a povoação 
de Batfora , que eítá nas correntes do rio 
Eufrates 5 a qual ora he huma Cidade cé- 
lebre com o favor que lhe deram os noíTos 
Tom.1. P.iL M Ca- 



178 ÁSIA de João de Barros 

Capitães de Ormuz. No qual lugar eram 
repartidas em cáfilas , humas pêra Arménia y 
e Trabiíònda, e Tartaria, que jaz fobre o 
mar maior • outras pêra as Cidades Halepo , 
e Damafco , té chegarem ao porto de Ba- 
rut , que lie no mar mediterrâneo , onde as 
vendiam a Venezeanos , Genovezes , e Ca- 
telaes 5 que naquelle tempo eram fenhores 
deite trato. A outra efpcciaria , que entrava 
per o mar Roxo > fazendo luas efcalas per 
os portos delle , chegava ao Toro , ou a 
Suez , íituados no ultimo feio deite mar. E 
daqui em cáfilas per caminho de três dias 
era levada á Cidade do Cairo , c dahi per 
o Nilo abaixo a Alexandria ? onde as na- 
ções , que aífima diífemos 5 a carregavam 
pêra eítas partes da Chriítandade , como ain- 
da agora em alguma maneira fazem ; e per 
qualquer deites dous eítreitos , que eíta ef- 
peciaria entrava nas terras de Arábia , quan- 
do vinha a fahida , era per os portos do 
eítado do Soldão do Cairo , cuja Poten- 
cia , antes de fer mettida na Coroa da ca- 
fa Othomana dos Turcos , começava no 
fim do Reyno de Tunez em aquelle Cabo y 
a que ora os mariantes de Levante chamam 
Rafaufem , e Ptholomeu Borco Promontó- 
rio , e acabava em huma enfeada chamada 
per elles o Golfão de Larazza por razão de 
huma povoação deite nome que alli eítá, 

a qual, 



Década I. Liv. VIII. Cap. I. 179 

a qual , fegundo aíítuaçao delia, parece fer 
a Villa a que Ptholomeu chama Serrepo- 
lis. Na qual diílancia de coíla pode haver 
trezentas e feíTenta léguas , que contém em 
íí muitos , e mui célebres portos. E per den- 
tro do fertao fe eítendia per o Nilo aííima 
á região Thebaida , a que os naturaes ora 
chamam Çaida , té chegar á antiquiffima Ci- 
dade Ptholomaida , cujo nome ora he Hi- 
cina , que acerca daquelles bárbaros quer 
| dizer efquecimento , e dalli vinha beber ao 
! mar Roxo. Paliando o qual entrava na ter- 
j ra de Arábia , vindo avizinhar com o Xa- 
j rife Baracat Senhor da cafa de Meca , atra- 
| veflando os bárbaros daquelle deferto , té 
dar comíígo em a Cidade chamada Bir 5 que 
! jaz nas correntes de Eufrates ; e tornando 
í fazer outro curfo contra o Occidente , aca- 
I bava em o golfão de Larazza que diffe- 
! mos. No qual circuito de terra fe compre- 
. hendia grão parte da Arábia deferta , toda 
a Pétrea , Judéa , e muita da Syria com to- 
j do Egypto , a que chamam Metfer de Mi- 
itfraim, nome per que os Hebreus, e Ara- 
• ! bios nomeam a região de Egypto , por ef- 
l |tã Cidade Cairo fer a cabeça delíe, dando 
o nome do todo á parte. E ao tempo da 
noífa entrada na índia era Senhor defte gran- 
de eílado Canaçao , a que alguns dos nof- 
fos chamam Ganfor , o qual fc intitulava 
JM ii com 



i8o ÁSIA de João de Barros 

com cíle appellido Algauri , de que fe elle 
muito gloriava 3 por lhe íèr poíto por cau- 
fa de huma grão vióloria , que houve de 
hum Rey da Períia , junto de huma alagoa 
chamada Algaor > que faz o rio Eufrates ? 
entre Enz , e Bagadad , donde lhe deram por 
appellido Algauri. Neíle mefmo tempo rei- 
nava em Turquia Selim decimo da geração 
Othomana , e era Senhor de Meca o Xa- 
rife Baracat , entre os Mouros mui celebra- 
do em nome , não tanto por feus feitos , 
quanto por o grande decurfo de tempo que 
viveo neíle eílado. E era Senhor de Adem 
Xeque Hamed , o qual vizinhava com es- 
toutro Xarife por parte da terra chamada 
Jazem , que he dentro das portas do eílrci- 
to defronte da Ilha Camarão. E era Rey 
de Ormuz Ceifadim deite nome o fegundo > 
e do Reyno de Guzarate Machamud o pri- 
meiro deíle nome. Aíli eítes Reys, e Prín- 
cipes , como os mercadores , per cujas mãos 
corria o commercio da efpeciaria , e orien- 
taes riquezas , vendo que com noíTa entra- 
da na índia per efpaço tão breve , como 
eram finco annos , tínhamos tomado poífe 
da navegação daquelles mares , e elles per- 
dido o commercio , de que eram Senhores; 
havia tantos tempos , e fobre tudo éramos 
huma bofetada na cala de Meca , pois já 
começávamos chegar ás portas do mar Ro- 
xo 



Década I. Liv. VIII. Cap. I. r8r 

xo , tolhendo os feus romeiros ; eram todas 
eftas coufas a elles tão grão dor , e triíleza , 
que não fomente áquelies a que tínhamos 
oíFendido , mas a todos em geral era o nof- 
fo nome tão avorrecido , que cada hum em 
feu modo procurava de o deftruir. E como 
a gente a que iflb mais tocava eram os Mou- 
ros , que viviam no Reyno de Calecut , or- 
denaram de enviar huma embaixada ao grão 
Soldáo do Cairo , como a peffoa , que po- 
dia reíiftir a efte commum damno , fazendo 
com o Çamorij Rey da terra, que lhe en- 
viaífe hum prefente com outra tal embaixa- 
da, notiíicando-lhe os grandes males, eda- 
mnos , que de nós tinha recebido por de- 
fender os mercadores do Cairo reíid entes 
na fua Cidade Calecut ; tomando por con- 
clusão de feu requerimento , que lhe man- 
daífe huma grafia Armada com gente , e ar- 
mas pêra nos lançar da índia , que elle a 
proveria de dinheiro , e mantimentos co- 
mo lá fofle. Com a qual embaixada foi hum 
Alouro principal chamado Maimame , ho- 
mem mais dado a religião de fua fefta , que 
ás armas , e foi em huma galé de feição das 
noífas fem appellação , a qual depois acabou 
em Chaul , como veremos em feu lugar. 
Accrefcentou mais a efte clamor dos Mou- 
ros , e requerimento do Çamorij , outro tal 
E mbaixador do Xeque de Adem , o qual 

Em- 



i8z ÁSIA de João de Barros 

Embaixador era Xarife daquelles que di- 
zem vir da linhagem de Mafamede , por- 
que per via de religiofo podia provocar mais 
ao Soldão pêra acudir a eftes damnos , co- 
mo defenfor da cafa de Meca , fegundo fe 
elle intitulava ; pedindo que com diligencia 
puzeíTe neíle cafo o braço de fua potencia , 
porque elle por fua parte mandaria também 
ajuda áquelles miferos , que habitavam no 
Reyno de Calecut , onde noíTas armas ti- 
nham derramado muito fangue Arábico , cm 
que entraram alguns da linhagem do feu 
profeta , que per via de martyrio eram ha- 
vidos por fan&os acerca dos Arábios. 

CAPITULO II. 

Corno o Soldão do Cairo efcreveo ao Pa- 
pa per hum Religiofo da Cafa de Sanita 
Catharina de Monte Sinay , aqueixando-fe 
das nojjas Armadas da índia : e como o 
Papa mandou o próprio Religiofo a efe 
Reyno , e do que lhe refpondeo. 

O Soldão , movido com eftas embaixadas 5 
e outros clamores dos Mouros do Cai- 
ro , que tratavam na índia , e principalmen- 
te com a grande perda do rendimento da 
entrada , e fahida das efpeciarias per feus 
portos 5 o qual damno já começava fentir y 
e lhe chegava mais que as offenfas alheias , 

co- 



Década I. Liv. VIII. Cap. II. 183 

começou de fe inflammar contra nós , como 
homem mimofo da profperidade de feu ef- 
tado , e que não tinha vifto a fortuna delle , 
que dahi a pouco tempo paffou, E pofto 
que nefta indignação de palavras déffe aos 
Embaixadores grande efperança do que fo- 
bre eíle cafo per armas havia de fazer , com 
tudo quiz primeiro ufar de huma cautela 
que delias , parecendo-lhe que per efte mo- 
do deííftiria EIRey da impreza da índia , 
por ouvir dizer que os Reys de Portugal 
eram muito zelofos da fé que tinham, e.re- 
ligiofos na obfervação delia. A qual caute- 
la , de que ufou , foi lançar fama 5 que a fua 
tenção era deftruir o Templo de Jerufalem , 
e a Cafa de Santa Catharina de Monte Si- 
nay, com todas as Relíquias que houveíTe 
na Terra Saneia , e mais não confentir que 
em feu eftado andaffe algum Chriítão def- 
tas partes de Europa \ e os que refidiam no 
Cairo , Alexandria , Halepo , Damafco , e 
Barut por razão do commercio , que for- 
çofamente os havia de mandar fazer Mou- 
ros , não fe fahindo em tantos mezes de to- 
do feu eftado , iíto em recompenfa de dous 
tão grandes males , como eram feitos aos 
Mouros , cujo defenfor , e proteftor elle 
era por fer Emperador , e Calyf da cafa 
de Meca. Hum dos quaes males fazia EIRey 
D* Fernando de Caftella P fazendo Chriftaos 

r per 



184 ÁSIA DE JOÃO DE BARKOS 

per força a todolos Mouros do Reyno de 
Granada ; e o outro , que era muito maior 
mal , fazia EIRey D. Manuel de Portugal 
feu genro. O qual não contente de mandar 
fuás Armadas á índia a conquiílar a terra 
dos Gentios 5 mas ainda tolhia a navegação 
dos mares , e commercio delia , que os 
Mouros tinham acquerido per tantos annos , 
fendo o commercio hum ufo commum das 
gentes , que conciliava amor entre todos 
lem fer defendido , o qual commercio elle 
Soldao permittia em todo feu citado , con- 
forme aos coítumes da terra , a todo género 
de peflba , fem ter refpeíto a lei , ou fedia 
que tiveífe. E molhando o Soldao querer 
poer em efFeCto eftas fuás ameaças , teve 
maneira com que foíle rogado per hum Fr. 
Mauro maioral da Caía de Sanda Catha- 
rina de Monte Sinay Hefpanhol de nação , 
e da prática que teve com o Soldao, reful- 
tou elle Fr. Mauro querer vir ao Papa dar- 
lhe conta defle cafo. Porque , como era Ca- 
beça da Chriítandade , removeria eftes dous 
Príncipes defte damno que os Mouros dcl- 
les recebiam , por fe nao perder a memoria 
das fantas Reliquias , que eftavam naquel- 
las partes , e tão grão numero de Fieis Chri- 
ftaos , como nellas andavam. Pêra o qual 
cafo vir com mais autoridade , o mefmo 
Soldao deo huma Carta de crença a efte 

Fr.' 



Década L Lív. VIII. Cap. II. i% 

Fr. Mauro , leixando as palavras da qual 
cuja reíblução era vir a elle Fr. Mauro com 
algumas coufas 3 que faziam a bem da Re- 
ligião Chriftã , diremos fomente eftas pala- 
vras com que fe elle intitulou, eaífi ao Pa- 
pa , (fegundo vimos em o traslado delia, 
que o próprio Fr. Mauro trouxe a efte Rey- 
no.) O grande Rey , Senhor dos que fenho- 
ream , nobre , grande , fabedor , juflo , e 
viãoriofo , Rey dos Reys , cutelo do Mun- 
do , Príncipe da Fé de Mahomet , e dos 
que nelle cr em , vivificador da juftiça em 
todo o Mundo , herdeiro de Rey nos , Rey 
da Arábia , de Gemia , da Per fia , e Tur- 
quia , fombra de Deos nas terras 5 que obra 
todalas boas coufas , ora fejam per elle 
mandadas , ora não , o qual nejle Mundo 
he outro Alexandre , de quem muitos bens 
procedem , Rey dos que fe afjentam em tri- 
bunal , e trazem coroa , dador de regiões , 
terras , e Cidades , perfeguidor dos que 
fe rebelam , e dos hereges infiéis , confer- 
vador dos dou s lugares de peregrinos , fum- 
mo Sacerdote dos templos fagrados , que 
eftam debaixo de feu poder , e contém a 
Fé de Mahomet , que efparge juftiça , e 
bondade , refplandor da Fé , pai da vitlo- 
ria , Cana ç ao Algauri , cujo império Deos 
faça perpétuo , e exalte fua cadeira fobre 
o Planeta Geminis. A ti 7 Papa Romão Ex- 
cel- 



l86 ÁSIA de João de Barkos 

cellentijjimo , e efpiritual , que teme a De os , 
e* ^^m #£nz , grande na Fé antiga dos Chri- 
Jiaos fieis de Jefus , Rey dos Reys Naza- 
renos , Confervador > e Senhor dos mares , 
e termos Marítimos , pai dos Patriarcas , 
e Bifpos , Leedor dos Evangelhos , ^ yíz^- 
^r na fua Fé , <? #tfj coufas que são , £ 
## j^ licitas 5 benigno aos Reys , ^ Pr/J*- 
r//^j , pojjuidor do Rey no Romão , r #/<# glo- 
ria Deos accrefcente. Chegado Fr. Mauro 
com efta Carta a Roma , como vinha alem- 
brado das ameaças defte bárbaro , e era ho- 
mem zeloíò do bem univerfal da Igreja , c 
iimples em as malícias dos Príncipes tyran- 
nos 5 fez cfte negocio tão grave ante o Pa- 
pa Alexandre , que fe determinou cm Con- 
íiílorio , que elle mefmo Fr. Mauro viefle 
a Hefpanha com cartas fuás , e com trasla- 
do da que eicrevvo o Soldão , pêra repre- 
ièntar eftas coufas a EIRey D. Fernando, 
e a EIRey D. Manuel , como a auítores 
da indignação defte tyranno. Da vinda do 
qual Religiofo a Rortia EIRey D. Manuel 
foi logo avifado per peífoas , que lá faziam 
íeus negócios , de que teve muito prazer , 
iabendo que o Soldão começava já fentir 
as Armadas , que elle enviava á índia, as 
quaes fem terem feito aíTento nella , fomente 
de paííagem lhe faziam tanto damno que 
fe queixava delle. E porque eíle recado lhe 

veio 



Década I. Liv. VIII. Cap. II. 187 

veio quaíí no fim de Odtubro do anno de 
quatro , e no feguinte tinha ordenado de 
mandar huma grofía Armada á índia , com 
Capitão geral , que lá refidtíle , tanto o de- 
moveram eftes queixumes do Soldão , que 
dobrou a Armada que fazia , e com mais 
diligencia mandou dar defpacho ás náos, 
pêra que quando o Padre Fr. Mauro vieíTe 
a efte Reyno , vifle os grandes apparatos da 
frota, è tivefle também que contar do que 
cá hia , como elle ante o Papa relatava o 
poder do Soldão. Donde o Papa tomou cau- 
ia .pêra defejar que EIRey deíiftifíe da em- 
preza da índia , ao menos no modo que 
fe tinha com os Mouros , que lá tratavam , 
pêra que o Soldão não executafle feu furor 
em aquellas Relíquias da Terra Saneia. Pê- 
ro chegado a efte Reyno o Padre Fr. Mau- 
ro em Junho, depois da partida da Arma- 
da , EIRey com vivas , e claras razões o 
tirou dos temores que trazia , declarando- 
lhe , que efte impeto de tanta fúria que o 
Soldão moftrava , mais procedia da perda 
de fuás rendas , por caufa da entrada , e fa* 
hida das efpeciarias per os portos de feu 
Eftado , que por zelar o bem commum dos 
Mouros. Porque fe ifto fora por caufa dos 
damnos , que eram feitos aos de Granada , 
como elle dizia, já efte feu rogo vinha fo- 
rodeo , pois havia mais de vinte annos que 

o ne- 



i88 ASIÀ de JoXo de Barros 

o negocio de Granada era paflado ; quanto 
mais , que todolos Mouros foram poítos 
em íua liberdade pêra fe ir , ou ficar 110 
Reyno , e já fobre eíte negocio entre elle , 
e ÉlRey D. Fernando houvera recados per 
Pedro Martyr. E que a mefma razão do 
interefTe , que era a principal que o Soldão 
neíte caio tinha , cfla fegurava a elle Frei 
Mauro, e a todalas coufas que elle temia ; 
porque o Soldão tinha tanto rendimento da 
Chriítandade por razão das Sandias Relí- 
quias , que havia no feu Eftado, que mais 
lhe cumpria tellas em veneração , que def- 
truillas totalmente ; e mais lhe importavam , 
que quantas efpcciarias por feus portos po- 
diam vir da índia. Finalmente com citas, 
e outras palavras , e grandes eímolas , que 
EIRey fez ao Padre Fr. Mauro pêra a Ca- 
ía de Sanita Catharina , elle ficou contente, 
e efquecido dos temores que trazia , e per 
elle refpondeo EIRey ao Papa. A fubítan- 
cia da qual Carta era , que leixados os fan- 
tos , e juítos propoíítos , que EIRey D. Fer- 
nando de Caítella teve na conversão dos 
Mouros de Granada, com que elle ganhou 
gloria acerca de Deos , e dos homens ; quan- 
to ao que tocava a elle por razão das cou- 
fas da índia , fobre que Sua Santidade lhe 
eferevêra per o Padre Fr. Mauro , Deos 
era teítemunha quanto íèntimento elle tinha 

por 



Década I. Liv. VIII. Cap. II. 189 

por não ter mettido o Soldão em tanta ne- 
ceflidade com fuás Armadas , que com mais 
juíla caufa fe pudefle queixar delias. Porém 
elle efperava em N. Senhor , em cujo po- 
der eftava o direito dos bárbaros Reynos, 
pêra os dar a quem lhe approuveíTe ; que af- 
íl como lhe approuvera conceder a efte Rey- 
no de Portugal , mediante o trabalho de 
feus anteceffores , e feu , huma coufa tão 
nova , e tão pouco efperada das gentes , co- 
mo foi o defcubrimento da índia ; afli lhe 
concederia entrarem fuás Armadas dentro 
no mar Roxo , té irem deftruir a cafa de 
abominação de Mafamede , injúria , e op- 
probrio da Religião Chriftã. Com a qual obra 
daria caufa a que Sua Santidade incitaííe os 
Reys , e Príncipes Chriftãos occupados em 
guerra de feus próprios membros , a fe ajun- 
tarem com elle fua cabeça per amor, e con- 
córdia ,. pois nelle eftavam unidos per fé, 
pêra que todos moveíTem as azas de fua po- 
tencia contra efte bárbaro, que com fuás in- 
fiéis forças tinha tyrannizado o Santuário da 
noffa Redempção. Porque de crer era , e 
mui fácil na eftimação daquelles 5 que bem 
fentiam poder-fe iílo efperar , e fazer , pois 
Sua Santidade via quão cheio de temor já 
eftava efte tyranno com faber que fuás Ar- 
madas andavam na índia , bem remota do 
Cairo, e ifto por não fer coftumado haver 

em 



190 ÁSIA de João de Barros 

em feus portos armas d^aigum Príncipe Ca- 
tholico movidas contra elle. E fe ilto elle 
já temia , que fe podia efperar delle quan- 
do vifle defembarcar em feus portos os exér- 
citos da potencia de tantos Príncipes , como 
havia na Europa, e a gente Portuguez mui 
coílumada a guerra deites infiéis , pocr as 
efcadas nos muros dejudá, porta per onde 
elle efperava em Deos que cites feus vaííal- 
los entraffem na cafa da abominação , e nel- 
la levantalíem Altar pêra ofterecer oblação 
accepta a Deos. Na execução da qual obra , 
elle como obediente Filho da Igreja, e ze- 
lador de fua gloria , promettia a fua San- 
tidade trabalhar quanto nelle foífe , pêra que 
com mais juíta caufa efte infiel fe pudeífe 
queixar de luas Armadas. Porque pois prou- 
vera a noífo Senhor que efte Reyno de Por- 
tugal toda a fua herança fe havia de con- 
quiílar das mãos dos infiéis , e na conquiíla 
de Africa , por haver benção de feus avós , 
fempre contra elies trazia feus exércitos ; 
elle efperava per os mares patentes da Gen- 
tilidade da índia , e depois per as portas 
do eftreito do mar Roxo , donde fahio ef- 
ta pefte de gente , enviar tantas Armadas , 
té que á força de ferro déífe novo patrimó- 
nio á Igreja Romana naquellas partes Orien- 
taes. E a bandeira Real da milícia de Chri- 
fio herdeira deites taes triunfos , de que elle 

era 



Dec. L Liv. VIII. Cap. II. e III. 191 

era Governador , e perpétuo Adminiftrador, 
foiTe dos Gentios , e Mouros temida , e 
adorada pêra gloria , e louvor da Saneia 
Igreja. Pelos méritos da qual elle efpera- 
va nefta vida não fer tido por fervo fem 
proveito , e que efconde o talento de fua 
poffibilidade , pêra na outra lhe íèr dado o 
jornal Divino do Senhor. 

CAPITULO III. 

Como nefte anno de quinhentos e finco man- 
dou EIRey huma grojja Armada d índia , 
de que foi por Capitão mor D. Francif- 
co de Almeida , que depois foi in- 
titulado por Vifo-Key delia. 

ANte que EIRey foubeíTe da vinda dei- 
te Fr. Mauro , por ciaja caufa efcre- 
veo ao Papa na forma atrás , teve alguns 
confclhos , cujo fundamendo era ver , que 
per o decurfo das quatro Armadas paliadas 
que foram á índia , não convinha irem , e 
virem fem lá ficar quem aflifliffe a duas cou- 
fas, que o defcubrimento delia tinha dado: 
Huma era a guerra com os Mouros , e a 
outra o commercio com os Gentios. E por- 
que as náos que hiam , e tornavam logo 
com carga , não podiam juntamente fazer 
eftas duas coufas por o tempo fer mui bre- 
ve , e fobre iíTo ficava cem a vinda delias 

a çof- 



192 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

a coda do Malabar deíamparada , com que 
os Mouros tornavam a fer íenhores delia , 
e favorecidos das Armadas do Çamorij , fa- 
riam damno aos Pveys de Cochij , Cana- 
nor , e a todolos outros noífos amigos , e 
alliados : Pêra reíiílir a eíle tão certo peri- 
go 5 e prover a outras coufas tão importan- 
tes , que a experiência do negocio tinha mof- 
trado , pêra que era neceifario fazerem-fe 
fortalezas , onde as náos delTem , e tomaffem 
carga j ordenou EIRey de mandar náos , que 
foflem pêra tornarem com a carga da ef- 
peciaria no anno feguinte , e outras velas de 
menos toneladas , com alguns navios peque- 
nos pêra lá ficarem de Armada , e por Ca- 
pitão mor delia governança a Triítão da 
Cunha , filho de Nuno da Cunha. O qual , 
citando de todo preíles , teve hum acciden- 
te de vagado , com que perdeo a viíta , de 
maneira, queeíteve muito tempo fem a co- 
brar , e foi no feguinte anno de quinhen- 
tos e féis , como veremos. Ficando a frota 
por eíle fubito cafo fem Capitão , fendo tão 
acerca da partida , mandou EIRey chamar 
a D. Francilco de Almeida , filho do Con- 
de de Abrantes D. Lopo d 5 Almeida , o qual 
a eíle tempo eílava em Coimbra com oBif- 
po delia D. Jorge feu irmão , e com pala- 
vras da confiança que deile tinha , lhe en- 
tregou a frota , a qual citando preítes de to- 
do., 



Década I. Liv. VIII. Cap. III. 193 

do , hum Domingo ante de íua partida , foi 
EIRey ouvir MiíTa á Sé, (por a efte tem- 
po eftar em Lisboa , ) onde com grande fo- 
lemnidade , e palavras conformes ao aílo, 
lhe entregou a bandeira Real j e efpedido 
dalli com os Capitães , e Fidalgos da Ar- 
mada , foi levado per todolos Senhores , e 
Nobreza da Corte com grande pompa té fe 
embarcarem no cães da ribeira ; a qual em- 
barcação foi a mais folemne que. té então 
neíle Reyno fe fez , não fendo de peífoa 
Real , porque aífi peia nobreza de D. Fran- 
cifco d 5 Almeida , e Fidalguia , que com elle 
embarcara , como pelo cargo , e dignidade 
de Vifo-Rey , (no modo que adiante vere- 
mos , ) que foi o primeiro Titulo deita qua- 
lidade, que neftes Reynos fe deo, concor- 
reram aíli da parte delle , como dos que 
o acompanhavam , todalas coufas emaccreP 
centamento , e louvor de honra fua naquel- 
la partida, que foi a vinte e finco de Março 
do anno de quinhentos e finco , dia fole- 
mne por cahir neile a Feíla de N. Senhora 
da Encarnação. Em a qual frota, além da 
gente ordenada pêra a navegação das náos , 
iriam té mil e quinhentos homens de ar- 
mas , todos gente limpa , em que entravam 
muitos Fidalgos , e moradores daCafa d'El- 
Rcy , os quaes hiam ordenados pêra ficar 
na índia ; e per regimento , que EIRey en- 
Tom.LP.iL N tão 



ip4 ÁSIA de Joio de Barros 

tão fez , eram obrigados fervir lá três ân- 
uos contínuos. Eíta limitação de tempo ti- 
nham todalas Capitanias 5 e quaefquer ou- 
tros cargos , e officios , o qual termo de 
tempo ainda hoje fe guarda; e ofoldo que 
então geralmente fe altentou aos homens de 
armas , eram oitocentos reaes por mez 3 e 
depois que chegaífem á índia , tinham mais 
quatrocentos de mantimento o tempo que 
citavam em terra , porque quando andavam 
ms Armadas comiam á cuíta d'ElRey. E 
além deite foldo , tinham mais dous quin- 
taes e meio de pimenta ao partido do meio 
em cada hum anno > a qual podiam carre- 
gar em as náos que vieífem pêra elte Rey- 
no , que lhe podia importar finco mil reaes - y 
e a gente do mar , Capitães , Alcaides mo- 
res , Feitores , Efcrivães , e todo outro Of- 
ficial a efte refpeito tinham fuás quintala- 
das fegundo a qualidade de feu officio. E 
porque eíte foi o primeiro aífento que Ei- 
Rey tomou no foldo que os homens ha-* 
viam de vencer naquellas partes , como cou- 
fa nova 5 de paífada fizemos eíta declaração , 
poíto que ao prefente he tudo mudado , por- 
que o tempo accrefcentou , e diminuio fe- 
gundo a difpoíição delle. As quaes velas 
deita frota eram per todas vinte e duas , das 
quaes doze hiam pêra logo no anno feguin- 
te tornar com carga de efpeciaria 3 por fe- 
rem 



i 



Década I. Liv. VilL Cap. III. 195 

rem de muito porte , de que eftes eram os 
Capitães : D* Franciíco d' Almeida Capitão 
mor , Ruy Freire filho de Nuno Fernandes 
Freire , Fernão Soares filho de Gil de Car- 
valho , Vafco Gomes de Abreu filho de An- 
tão Gomes de Abreu , Baítião de Soufa fi- 
lho de Ruy de Abreu de Elvas , Pêro Fer- 
reira Fogaça filho de Fernão Fogaça , João 
da Nova 5 Antão Gonçalves Alcaide de Ce- 
zimbra , Diogo Corrêa filho de Fr. Payo 
Corrêa, Lopo de Deos Capitão, e Piloto 
João Serrão. E os Capitães que lá haviam 
de ficar de Armada , eram : D. Fernando 
Deça de Campo maior filho de D. Fernan- 
do Deça , Bermum Dias hum Fidalgo Cas- 
telhano , Lopo Sanches , Gonçalo de Paiva , 
Lucas d'Affonfeca , Lopo Chanoca , Jam 
j Homem , Gonçalo Vaz de Bóes , Antão Vaz. 
| E além das velas , em que hiam. eftes Capi- 

I tães , eftavam também outras féis preftes • e 
: pelo que adiante diremos , ficaram té dezoi- 
| to de Maio , que partiram em companhia de 

Pêro da Nhaya , que foi pêra fazer a for- 
taleza da Çofala , onde havia de fer Caoi- 
tao. Partida efta frota d'ante N. Senhora de 
Bethlem , com bom tempo que lhe fez , a 
; | féis de Abril chegou ao Cabo Verde , on- 

I I de chamam o porto Dale , em o qual efta- 
va fazendo refgate de efcravos huma cara- 
vela deíle Reyno j per o meio da qual , em 

N ii quan- 



j()6 ÁSIA de João de Barros; 

quanto a frota fazia aguada 9 foi aviíado o 
Rey da terra , que com delejo de ver tão 
grande couía , veio com ilias mulheres , e 
filhos a fe pôr em huma aldeã á vifta da 
noffa frota. D. Francifco , iabendo a cauía 
da fua vinda , o mandou vilitar per Joáo da 
Nova , em cuja companhia foram algumas 
peíToas nobres com licença por verem o ef- 
tado daquelle bárbaro Príncipe , aos quaes 
elle a leu modo fez muita honra , mandan- 
do-ihe matar algumas vacas , que trouxe- 
ram pêra feu rerreíco , e outras que enviou 
ao Capitão mor em retorno do que lhe le- 
vou João da Nova. E porque algumas das 
náos foram ancorar em huma angra peque- 
na chamada Bezeguiche , que ficava mais aí- 
íiina contra o cabo > e o tempo não lhes fer- 
via pêra virem ao lugar onde eftava Dom 
Francifco , eftivcram humas em huma par 
te , e outras fazendo fuás aguadas té que o 
tempo ajuntou toda a frota. D. Francifco , 
porque algumas náos delia não eram com- 
panheiras na vela , e faziam perder caminho 
ás outras 5 per coníelho dos Capitães , e Pi- 
lotos repartiram a freta em duas partes f 
huma das náos veleiras tomou pêra íi 5 
outra deo a BaíHao de Souía Capitão d, 
náo Concepção , dando-lhe regimento do ca- 
minho que havia de fazer. Partido com ef- 
ta ordenança daquelle porto a vinte e fine 

dias 



Década I. Liv. VIII. Cap. III. 197 

dias de Abril , ante que chegaíTe á linha 
obra de quarenta léguas, a quatro de Maio 
abrio a náo Bell a Capitão Fero Ferreira hu- 
ma agua tão grofla , que não a podendo 
tomar , nem vencer , fe foi ao fundo , em tem- 
po que o Capitão mor lhe mandou acudir 
com todolos bateis de maneira , que além 
da gente fe falvou grão parte da fazenda y 
que hia fobre cuberta , o que fe repartio 
pelas outras náos. Tornando a feu caminho , 
pofto que não foi com grandes temporaes , 
os Pilotos , por fegurar dobrarem o cabo , 
mettêram-fe em tanta altura contra o Sul , 
que em os navios pequenos não podiam os 
homens trabalhar com frio , e daífi vieram 
defcahindo írtettendo-fe no quente , té que a 
dezoito de Julho chegaram á terra que jaz 
entre as Ilhas primeiras de Moçambique. 
E porque em Quiloa , e Mombaça tinha 
que fazer , efpedio dalli Gonçalo de Paiva , 
e Bermum Dias , que foíTem a Moçambique 
faber fe ficaram alli algumas cartas da fro- 
ta de Lopo Soares ; e também fe eram che- 
gadas as náos da Capitania de Baftiao de 
Soufa , e duas que lhe faleciam de fua con- 
ferva - y e fabido ifto , fe foflem caminho de 
Quiloa onde os efperava. Efpedidos eftes 
dous navios a vinte e dous de Julho , dia 
da Magdalena , furgio em Quiloa com oi- 
to velas que o feguiani ; onde logo foi vi- 

li- 



lyS ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

fitado da parte d'ElRey per hum Mouro 
honrado per nome Cydc Mahamed , affi de 
palavra, como com fruta da terra. D. Fran- 
ciíco , depois que o mandou contentar com 
huma marlota de cores , e lhe deo os agra- 
decimentos da vifitaçao , mandou dizer a 
EiRey , que fe efpantava muito delle na che- 
gada daquella frota d^ElRey feu Senhor , 
que por honra delle , e da fua Cidade tira- 
va tanta artilheria , não relponder elle com 
algum final de cortezia í ao menos mandan- 
do arvorar huma bandeira de fuás armas, 
que lhe foi dada pelo Almirante em final 
de paz. Cyde Mahamed confufo com o re- 
cado , não oufou refpondcr , íòmente que lo- 
go traria a refpofta , a qual foi , que dizia 
EfRey , que muito mais defeontente eílava 
elle de hum Capitão d'E!Rey de Portugal , 
que lhe tomou huma náo que vinha de Ço- 
fala , onde elle mandara aquelía bandeira , 
do que elle pedia eítar pela não ter arvo- 
rada , e que cila fora a caufa de o não ter 
feito. D. Francifco parecendo-lhe íor iíío 
affi , ficou mui defeontente , c mandou a elle 
João da Nova , affi pêra concertar que fe 
viííem ambos , corno pêra faber particular- 
mente deíle Capitão de que fe EIRey quei- 
xava , com o qual foi por língua hum Ve- 
neziano chamado Mifer Bonadjuto de Al- 
bão , o qual trouxe a efte Reyno Affonfo 

de 



Década I. Liv. VIII. Gap. III. 199 

de Albuquerque pelo achar em Cananor. E 
íègundo elle dizia, havia vinte e.dousannos 
que fe paliara do Cairo áquellas partes em 
companhia de hum Embaixador que alli 
eftava , fendo Conful da Senhoria de Vene- 
za em Alexandria Mifer Francifco Marcel- 
lo ; e quando veio com Affoníò de Albu- 
querque 5 trouxe por mulher hurna Jauha r 
de que tinha filhos, aoqualElRey, por elle 
fer homem efperto , e que fabia as línguas , 
e mais os negócios daquellas partes , o man- 
dou com D. Francifco com bom ordena- 
do , e fervia de lingua. E a fubítancia do 
recado, que João da Nova levou, de que 
elle era interprete , foi fer grave coufa pêra 
elle D. Francifco crer i que Capitão d'El- 
Rey feu Senhor havia de ter tão pouco aca- 
tamento a huma bandeira fua ; porque os 
Portuguezes eram tão obedientes áquelle ík 
nal , que em o vendo o adoravam , quanto 
mais fazer o que elle dizia. E porque ao 
prefente fe não podia fazer mais , lhe or- 
denaífe como fe videm , porque tinha algu- 
mas coufas que praticar com elle , que cum- 
priam a feu bem , e a ferviço d'ElR.ey feu 
Senhor ; e quanto o que tocava ao caíligo 
daquelie Capitão que dizia , tiveífe por cer- 
to , que fabida a verdade , EiRey feu Senhor 
o mandaria muito bçm caftigar , e a fua não 
lhe feria reftituida com tudo o que levava. 

Par- 



aoo ÁSIA de JoÃo de Barros 

Partido João da Nova 3 tornou com refpof- 
ta , que EIRey era contente de fe verem ao 
feguinte dia , e o modo feria vir elle Ca- 
pitão mor em leu batel defronte dos paços 
com alguns Capitães , c gente que elle ef~ 
colheífe em adio pacífico por não caufar te- 
inor nos da terra , e que elle também em 
jiabito de paz viria com alguns efcolhidos 
de fua cafa a fe metter em hum zambuco 
diante das cafas , onde fe ambos veriam. 
Concertadas todas eftas viítas , mandou o 
Capitão mor que todolos Capitães , e alguns 
Fidalgos em feus bateis vieílem pela manhã 
a bordo da fua não , e o trajo foííe de paz 
com cautela , que ao longo das toftes dos 
bateis vieífem algumas lanças , e tiros pêra 
tirarem em modo de feita 5 e fecretamente 
fuás faias de malha , porque as cautelas que 
eííe Mouro tinha , dava a entender não cf- 
tar mui fiel. Ao dia feguinte , entrando Dom 
Francifco em hum batel debaixo de hum 
toldo de efcarlata , e feda , com muitas ban- 
deiras de fua divifa , partio rodeado de ba- 
teis de toda aqueíla Fidalguia , com grande 
cílrondo de trombetas , e de artilheria , que 
ao tempo de fua partida começou a fuzilar 
per toda a frota. E em partindo da náo ? 
efpedio a João da Nova que levaííe recado 
a EIRey como elle hia , o qual não che- 
gou lá por que na praia achou hum recado 

d 5 El- 



Década I. Liv. VIII. Cap. III. 201 

d'E!Rey , que tornaífè dizer ao Capitão mor 
que fe detiveííe hum pouco , porque os íeus 
não eram ainda juntes. Tornando João da 
Nova aprefíar EIRey com outro recado , 
por haver pedaço que D. Francifco fe deti- 
nha já junto das calas , fei-lhe refpondido 
que diíTefíe ao Capitão mor da parte d'EJ- 
Rey que lhe perdeafíe , dando algumas fal- 
fas deículpas ; huma das quaes era ? que em 
fe alevantando pêra vir a . dÍQ atraveífára 
Iium gato negro , notável agouro entre el- 
les pêra naquelle dia ambos não poderem 
fazer coufa que durável foíTe.E porque el- 
le defejava que as fuás foffem perpétuas , lhe 
pedia que lhe perdoaífe por então , e que fi- 
caífe aquella viíla pêra o feguinte dia. Quan- 
do D. Francifco vio que todo feu apparato 
acabava naquelle agouro d'ElRey , íorrin- 
do-fe , converteo o ódio deíla malícia d'El- 
Rey neftas palavras , dizendo aos Capitães : 
Senhores , e amigos , a mim me parece que 
mais agourado ha de achar quem taes re- 
cados manda o dia fie amanha , que o de 
hoje. Tornemo-nos embora , e venhamos a vi- 
fitallo com as naturaes lou cainhas , e que 
melhor eftam aos Portuguezes , que efias 
cores que trazemos ; porque como f abeis y 
Mouros não ao nojjò ouro 5 mas ao nojjo fer- 
ro fempre fizeram maior honra. Ao que 
João da Nova refpondeo : Parece-me , $&*, 

nhor , 



202 AS IA deJoao de Ba BROS 

nhor , que effe ha defer o fim de nojfos con- 
certos com cjie Mouro , porque Mahamed 
Enconij nofjò grande amigo fe veio a mini 
por me fatiar como homem meu conhecido y 
e não oufou de fe apartar comigo por tra- 
zerem os Mouros olho nelle. Somente em 
fe efpedindo meu furtado diífe : Dizei ao 
Senhor Capitão már que não fe engane com 
EIRey , porque não fe ha de ver com elle \ 
e que'fe lembre de mim. D. Francifco en- 
tendendo a tenção iTElRcy, polo aperceber 
pêra ofeguinte dia , mandou a João da No- 
va que tornallè á praia , c diíTefle aos Mou- 
ros que lhes deram o recado d'ElRcy , que 
lhes foíTem dizer da fua parte que eile fe 
tornava pêra as náos , e ao outro dia pela 
manhã fe havia de ver com elle ; e quando 
não foíle naquelle lugar que tinha ordena- 
do , elle o iria buícar dentro ás fuás cafas , 
fe houvefle por trabalho de o vir efperar 
ao mar. Dado efte recado , tornou-fc João 
da Nova fem efperar refpoíla , por lho man- 
dar D. Francifco , o qual aífi como hia com 
todolos Capitães , fe foi á fua não , onde 
teve com elles confelho fobre aquelle feito , 
refumido não fomente o que paíTára per 
ante elles , mas ainda quanto aquelle bárba- 
ro tinha feito a Pedralvares , c a João da 
Nova que era prefente , tudo como homem 
cautelofo ? e que no feu peito eílava maior 

ma- 



Década I. Liv. VIII. Cap. III. 203 

malícia do que era a fé de luas palavras. 
E mais , que depois que o Almirante Dom 
Valco da Gama per alli paliou , nunca mais 
quizera pagar as páreas que devia , pofto que 
elle diílefle ferem mais em modo de refgate 
de lua peíToa por o Almirante o reter no 
batei , onde fe vio com eile , que páreas de 
própria vontade ; e que fer elle ciofo de fua 
pefíòa , coula era natural dos homens, mas 
iíto havia de fer per modo mais honefto > 
e não tão público defprezo da mageftade 
daquella Armada d'ElRey feu Senhor , do 
qual trazia mandado que fe determinaííe em 
os negócios que tivefle com os Príncipes 
daquellas partes , em paz ; ou em guerra 
defcuberta , trabalhando mais na primeira, 
que na iegunda , e eíta lhe encommendava 
por precepto , e a guerra por neceffidade , 
e que em nenhuma maneira fe partilTe daili 
fem tomar alguma conclusão com elle pêra 
fazer huma fortaleza , por importar muito á 
navegação da índia , e fegurança daquella 
coíla. Acabando D. Franciíco de propor ef- 
tas , e outras razoes 3 todos concorreram 
neíle voto , que ao feguinte dia fahiíTem em 
terra com mão armada 9 porque efta era a 
que havia de pôr as leis áquelle Mouro , 
e não a cortezia que com elle queria ufar. 
AlTentada efta fahida em terra , ordenou lo- 
go D. Francifco que a gente fe faria em 

dous 



104 ÁSIA de João de Barros 

dons corpos , ellc iria commctter a força 
da Cidade em hum , e ièu filho D. Lou- 
renço com outro ás caías d'ElRey , que ci- 
tavam no cabo delia , repartindo logo quaes 
Capitães haviam de fer com cada hum del- 
les 5 e o tempo da íahida das náos leria an- 
te manha , quando clle mandajfc tanger hu- 
ma trombeta. E porque N. Senhor lhe deo 
viétoria 5 com que conveio fazer aqui huma 
fortaleza que EIRey mandava ; e noíTo cof- 
tume em toda eíta hiftoria fera deferever 
iempre o fitio da terra , onde fundaremos 
alguma , e daremos as caufas diflb , pois 
efta he a primeira de pedra, e cal que nef- 
tas partes fundamos , primeiro que entre- 
mos ao combate da Cidade , convém darmos 
huma univerfal défcripção deita parte de 
África , pois té ora o não temos feito , prin- 
cipalmente deita coita, e fitio da Cidade. 

CAPITULO IV. 

Em que fe defereve aparte dacojla de Afri- 
ca , em que ejld Jituada a Cidade Qui- 
loa 5 d qual terra os Arábios propria- 
mente chamam Zanguebar \ e Ptbo- 
lomeu Ethiopia jbbre Egypto. 

EM a parte da terra de Africa fobre a 
i Ethiopia y o que Ptholomeu chama in- 
terior , onde eítá a região Agifymba , que 

hf* 



Década I. Li v. VIII. Cap. IV. 20? 

he a mais auílral terra % de que elle teve no- 
ticia , e onde faz a ília meridional compu- 
tação , jaz outra terra, que em feu tempo 
não era nota , e ao prefente mui labido o 
marítimo deila , depois que deícubrimos a 
índia per efte noíTo mar Oceano. O prin- 
cipio da qual , começando na Oriental par- 
te deila , he o PraíTo promontório , que el- 
le Ptholomeu íituou em quinze gráos contra 
o Sul , e em tantos eftá per nós verificado ., 
ao qual os naturaes da terra chamam Mo- 
çambique , onde ora temos huma fortaleza , 
que ferve de efcala das noílas náos neíla na- 
vegação da índia. E o fim Occidental dei- 
ta terra a Ptholomeu incógnita , acaba em 
altura de finco gráos da parte do Sul , que 
fe communica com os Ethiopias , a que el- 
le chama Hefperios per nome commum, 
que são os povos Pangelungos fubditos ao 
noíTo Rey de Congo , entre os quaes dous 
. termos Oriental , e Occidental fica o gran- 
de , e illuftre Cabo de Boa Elperança , tan- 
tos mil annos não conhecido do Mundo; 
e como efta de que tratamos he grande, e 
os bárbaros que nella habitam são muitos 
differentes em iingua , não ha entre elles no- 
me próprio delia. Somente os Arábios , e 
Parfios , como gente que tem policia de le- 
tras,, e são vizinhos delia, em fuás eícritu- 
ras lhe chamam Zanguebar, e aos morado- 

rcs 



io6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

rcs delia Zanguij , e per outro nome com- 
mum também chamam Cafres , que quer di- 
zer gente fem lei , nome que elles dam a 
todo Gentio idólatra , o qual nome de Ca- 
fres lie já acerca de nós mui recebido poios 
muitos eferavos que temos deita gente. E 
porque em a noíía Geografia particularmen- 
te fazemos relação deita terra Zanguebar, 
aqui como de paflada daremos alguma noti- 
cia delia por as caufas que no precedente 
Capitulo apontámos. E começando no pro- 
montório Aromata , a que ora chamamos 
Cabo de Guardafu . que he a mais Orien- 
tal parte de toda Africa , fituada per Ptho- 
lomeu em finco gráos , e per nós em doze 
até Moçambique , que lerão per coita obra 
de quinhentas e fmcoenta léguas , faz eíta 
terra huma maneira de enfeada não tão cur- 
va , e penetrante como Ptholomeu a figu- 
ra em fua taboa , mas quaíi á feição de hu- 
ma coita de oífo de animal quadrupe. E o 
fegundo curfo maritimo , que elle não fo li- 
be, o qual começa no Cabo de Moçambi- 
que , e acaba em o das correntes , que fera 
per coita té cento c fetenta léguas , fica cila 
hum pouco mais encurvada com hum an- 
co que faz o cabo das correntes logo na 
volta delle , quando vam de cá do Ponen- 
te. Do qual cabo vindo pêra o de BoaEf- 
perança > em que haverá per coita trezentas 

e qua- 



Década I. Liv. VIII. Cap. IV", 207 

e quarenta léguas , vai a terra fazendo hum 
lombo 5 de maneira que fica o Cabo das cor- 
rentes em vinte e quatro gráos da banda 
do Sul , e o de Boa Efperança em trinta e 
quatro e meio ; e deite illuftre Cabo té á ter- 
ra dos Pangelungos do Reyno de Congo 
vai-fe a coita encolhendo , e bojando , pê- 
ro que a grandeza delia faz parecer que fe 
eítende direita ao Norte. A figura da ponta 
deite grande Cabo de Boa Efperança fe apar- 
ta do corpo da outra terra , como que a ei- 
cacharam do cabo das agulhas , que diíta 
delíe contra o Oriente per efpaço de vinte 
e finco léguas , da maneira que podemos 
apartar o dedo pollegar da mão efquerda 
dos outros dedos delia , virando a palma 
pêra baixo. E per eíte modo fica elle apar- 
tado contra o Ponente do grande corpo d# 
outra terra , e rombo em fua ponta á feme- 
Uiaça do dedo j e quaíi na junta , que he 
no meio delle, eftá huma terra íbberba fo- 
bre a outra , que no íima faz huma planura 
de terra rafa graciofa em viíla , e frefea com 
mentraftos 3 e outras hervas de Hefpanha, 
á qual os noflbs chamam a Meza do Cabo. 
E olhando delia contra o Ponente , fica hu- 
ma angra per elles chamada da Concepção ; 
e no efpaço que fe mette entre elle , e a ou- 
tra terra, que jaz pêra Oriente, que vai fa- 
zer o cabo das agulhas 5 eftá huma angra mui 

ef- 



2o8 ÁSIA de João de Barros 

eftreita , a que mais propriamente podere- 
mos chamar Furna , aíli penetrante pela ter- 
ra , cortando direita ao longo do cabo , que 
do rofto delle té o fim delia haverá dez lé- 
guas. No feio da qual Furna , onde ellas 
acabam , fe levanta huma ferrania de viva 
pedra com grandes , e afperos picos , que 
pedem ás nuvens com fua altura; eporcau- 
la delles os noflbs chamam áquelle lugar os 
Picos fragofos , pelo pé dos quaes rompe 
com muita fúria hum rio de grandiílima 
agua , que nafce no interior daquelle fer- 
rão , de que ao prefente não temos noticia. 
E tornando á particular defcripção da terra 
Zanguebar , que faz a noífo propoííto , por 
razão dos feitos , que na fua cofta os nolfos 
fizeram , efta começa em hum dos mais no- 
táveis rios , que da terra de Africa vertem 
no grande Oceano contra o meio dia 5 ao 
qual Ptholomeu chama Rapto , poíto que 
a fua graduação lie mui dilferente do que 
ora fabemos. Cá elle o põe em féis gráos 
de largura da parte do Sul , e nós em nove 
da parte do Norte , o qual nafce em a ter- 
ra do Rey dos Abexijs , a que chamamos 
Preíle João , em as ferras a que elles cha- 
mam Graro , e ao rio Obij , e onde fahe 
ao mar Qyilmance pelos Mouros que o vi- 
zinham , por caufa de huma povoação aílí 
chamada , que eftá em huma das principaes 

bo- 



Década I. Liv. VIII. Cap. IV. 209 

bocas delle junto do Reyno de Melinde* 
Deíle rio, indo contra o Cabo deGuardafu, 
c dahi voltando té as portas do eftreito , e 
delias lançando huma linha ás fontes delle , 
fica huma terra , a que os Arábios propria- 
mente chamam Ájan , a qual quafi toda he 
povoada dellcs , pofto que em muita parte 
contra o meio dia no interior da terra ha- 
bitem Negros idólatras. E das correntes def- 
te Quilmance contra o Ponente té o Cabo 
das correntes , que os Mouros daquelía cof- 
ta navegam , toda aquella terra , e a. mais 
occidental contra o Cabo de Boa Efperan- 
ça , (como diflemos , ) os Arábios , e Parfeos 
que a vizinham , lhe chamam Zanguebar r 
e aos moradores Zanguij. Toda efta cofta , 
começando do rio Quilmance té o Cabo das 
correntes geralmente , he baixa , alagadiça , 
e mui cuberta de hum arvoredo pairado á 
maneira de balfas , que dam pouca ferven- 
tia por baixo. E afli com a efpeflura delle , 
como com os rios , e efireitos , qae a reta- 
lham em Ilhas , e reíKngas , que oceupam o 
marítimo delia , faz fer mui doentia ; de 
maneira , que podemos dizer fer outro Gui- 
né em ares corruptos , e todalas outras cou- 
fas que dá, e gera; porque a gente he ne- 
gra , de cabello retorcido , idolatra , e tão 
crente em agouros , e feitiços , que no maior 
fervor de qualquer negocio deíiftem delle 3 
Tom.L P.iL O fe 



2 io ÁSIA de João de Barros 

fe lhe alguma coufa entolha. Os animaes , 
aves , frutas , e fementes tudo refponde á 
barbaria da gente em ferem feras, e agref- 
tes j poílo que de Magadaxo contra o cabo 
Guardafu , ainda que feja -de mais creaçao 
de gado por fer de poucos mantimentos , 
e prove delle , deita íe mantém geralmente 
os Mouros que habitam o marítimo, eaili 
os das Ilhas adjacentes a cila : todo o man- 
timento que comem , o agricultado fazem 
á enxada, e o mais he fruta agrcftc , e car- 
ne montez , immundicias , leite de alguma 
creaçao que tem , principalmente os Mou- 
ros , a que elles chamam Baduijs , que an- 
dam no interior da terra , e tem alguma com- 
municação com os Cafres , que acerca dos 
que habitam as Cidades , e povoações poli- 
ticas são havidos por bárbaros. E parece 
que a Natureza próvida em todalas coufas 
não quer defamparar alguma parte da terra 
em tanta maneira , que nella não haja algum 
fruto eftimado na opinião dos homens ; por- 
que naquella aipera , e efteril terra pêra ha- 
bitação de gente politica , produzio o mais 
preciofo de todolos metaes , e logo lhe deo 
povo paciente daquella afpereza, e dado a 
bufea delle , e a nós cubica pêra per tantos 
perigos de mar , e da terra os irmos convi- 
dar com noífas obras mecânicas , pêra fup-» 
prirem fuás necellidades a troco deite ou- 
ro 



Década I. Liv. VIII. Cap. IV; iií 

ro tão conquiftado ; ao cheiro do qual , (por 
a terra de Arábia fer a elles mui vizinha , ) 
os primeiros povos eítrangeiros , que a eíta 
terra Zanguebar vieram habitar, foram de 
huma gente dos Arábios deíterrada , depois 
que receberam a fedia de Mahamed. A qual > 
fegundo foubemos , per huma Chronica 
dos Reys de Quiloa , de que adiante faze- 
mos menção , elles lhe chamam Emozaydij ; 
e a caufa deite defterro foi por feguirem a 
dodlrina de hum Mouro chamado Zaide, 
que foi neto de Hocem filho de Ale o fo- 
brinho de Mahamed , cafado com fua filha 
Axa. O qual Zaide teve algumas opiniões 
contra o feu Alcorão, e a todolos que^è- 
guíram a lua dodlrina os Mouros lhe cha- 
maram Emozaydij , que quer dizer fubditos 
de Zaide , e os tem por heréticos : e peró 
que eítes foram os primeiros , que de fora 
vieram habitar aquelia terra , não fundaram 
notáveis povoações , fomente fe recolheram 
cm partes onde pudeíTem viver feguros dos 
Cafres. E deita fua entrada , como huma 
peite lenta , foram lavrando ao longo da cof- 
ia , tomando novas povoações , té que alli 
vieram ter três náos com grão numero de 
Arábios em companhia de fete irmãos , o$ 
quaes eram de huma cabilda vizinha á Ci- 
dade Laçah , que eítá obra de quarenta le- 
guas da Ilha Baharem , que efta dentro no 
O ii mar 



ai2 ASIÀ de JoXo de Barros 

mar Pcríico mui pegada á terra de Arábia 
no interior delie. A caufà da vinda delles 
foi ferem mui períeguidos do Rey de La- 
çah ; e a primeira povoação que fizeram nef- 
ta terra de Ajan , foi a Cidade Magadaxo , 
e depois Brava , que ainda hoje íe rege por 
doze cabeceiras á maneira de Republica , as 
quaes procedem deftes irmãos. E veio per- 
valecer efta Cidade Magadaxo cm tanto po- 
der , e eílado ? que depois íe fez fenhora , 
e cabeça de todolos Mouros deíla cofta ; po- 
rém como os primeiros que vieram a ella 
chamados Emozaydij tinham difFcrentes opi- 
niões dos Arábios acerca de fua fedia , não 
fe quizeram fobmetter a elles , e rccolheram- 
fe dentro pelo ferrão , ajuntando-fc com os 
Cafres per cafamentos , e coftumes , de ma- 
neira que ficaram mifticos em todalas cou- 
fas. Eíles são aquellcs , a que os Mouros , 
que vivem ao longo do mar, chamam Ba- 
duijs , nome commum , como cá entre nos 
chamamos Alarves á gente campeftre. A pri- 
meira nação de gente eftrangeira , que per 
via de navegação teve o commercio da Mi- 
na de Çofala , foi deíla Cidade Magadaxo ; 
não que elles foíTem defeubrir efta cofta , 
mas per acerto de huma náo daquella Cida- 
de, que com temporal, e força das corren- 
tes aíli veio ter. E pofto que ao diante ti- 
veram mais noticia de toda a terra vizinha 

da- 



! 



Década I. Liv. VIII. Cap. IV. 213 

daquelle refgate , nunca oufáram paflar ao 
cabo das correntes ; porque como a Ilha de 
S. Lourenço , que jaz ao Sul deita coita 
Zanguebar , corre com feu comprimento 
quaíi ao longo delia per efpaço de duzen- 
tas léguas j e no meio da parte de dentro 
lança de íí hum cotovelo , que rcfponde ao 
outro, que faz o cabo de Moçambique, os 
quaes parece que querem fechar aquellapaf- 
fagem , que fera de largura obra de feíten- 
ta léguas oceupadas com Ilhas reftingas , e 
baixos , fica efte tranfito em refpeéto do ou- 
tro mar , que jaz entre eílas duas terras , tão 
apertado , e eítreito com feus canaes , que 
em feu modo lhe podemos chamar outro 
Sylla , e Caribdis. Cá são aqui as correntes 
tão grandes, que em breve apanham huma 
náo , e fera vento , e íèm vela a levam a 
parte , em que corre os perigos , de que os 
noílbs navegantes são boa teítèmunha. Da 
qual caufa chamaram Cabo das correntes 
áquelía ponta, que faz a terra firme oppof- 
ta ao fim Occidental da Ilha S. Lourenço , 
porque neíte termo fe efpedem as aguas mui 
furiofas , e correm mui livres per largo cam- 
po de mar, coáio quem íahe do cárcere de 
antre eftas duís terras : De maneira , que 
não fomente acham os mareantes nefta pàí- 
fagem differença no curfo das aguas , mas 
ainda novos tempos de monção pêra a par- 
te 



214 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

te de Levante, e Ponente : cá todolos ven- 
tos fe apanham no eftreito dentre eítas duas 
terras. E como os Mouros deita coita Zan- 
guebar navegam em náos , e zambucos co- 
íeitos com cairo , fcm ferem pn^gadiças ao 
modo das noíTas , pêra poderem foffrer o 
impeto dos mares frios da terra do Cabo 
de Boa Efperança, e iíto ainda com mon- 
ções , e temporaes feitos , e mais tem já ex- 
periência em algumas náos perdidas , que 
cfgarráram contra eíta parte do grande Ocea- 
no Occidental , não oufáram commetter ef- 
tc defeubrimento da terra , que jaz ao Po- 
nente do Cabo das correntes , poíto que mui- 
to o defejaílem , como elles confelfam , prin- 
cipalmente os da Cidade Qtiiloa , que foi 
a maior deícubridora de todalas Cidades da- 
quella coita , porque delia fe povoou gran- 
de parte da terra firme , e das Ilhas adjacen- 
tes , e alguns portos da Ilha S. Lourenço , 
por ella eítar fituada quafi no meio deita 
coita , ante a Cidade Magadaxo , e o Cabo 
das correntes. De maneira , que abaixo , e 
aílima não lhe ficou coufa por correr , té 
fe fazer fenhora de Mombaça , Melinde , e 
das Ilhas de Pemba , Zanzibar , Monfia , Cô- 
moro , e d'outras muitas povoações , que 
fahíram delia pela potencia , e riqueza que 
teve, depois que fe fez fenhora da mina de 
Çofaía, tendo quafi tudo perdido ao tempo 

que 



Década I. Liv. VIII. Cap> IV. 21? 

que nós defcubrimos a índia , com devisoes 
que houve per morte d 5 alguns Reys delia , 
de que adiante faremos menção. O lítio dei- 
ta Cidade Quiloa he em huma terra , a qual 
ainda que feja da coita da terra firme Zan- 
guebar , o mar a foi torneando com hum 
eftreito , que a fez ficar em Ilha. Ella em 
íl he mui fértil de palmeiras com todalas 
arvores de efpinho , e hortaliças que temos 
em Heípanha : e alguma criação de gado 
grande , e miúdo , com muitas gallinhas , 
pombas 5 rolas , e outro género de aves eí- 
tranhas a nós. O geral mantimento he mi- 
lho , arroz , e outras fementcs de raiz agri- 
cultadas , com muitas frutas agreftes , de que 
a gente pobre fe mantém. As aguas delia 
são de poços , e não mui fadias por a ter- 
ra fer alagadiça , e a Cidade eftar íituada 
ao longo da ribeira que faz o eftreito , na 
frontaria da qual elle fe eípraiou em manei- 
ra de baia. A maior parte das cafas são de 
pedra , e cal com feus eirados per fima , e 
nas coftas quintaes plantados de arvores de 
efpinho , e palmeiras , aíTi pêra frefquidao , 
e deleitação da vifta , como pêra ufo do fru- 
to que dam. E de quão largos eíles quin- 
taes são , tão eftreitas as ruas , por aíli acof- 
tumarem os Mouros por fe melhor defen- 
der , cá tem algumas tão eftreitas por fima ^ 
que dos eirados podem faltar de hum em 

ou- 



2i 6 A SI A de JoÃo de Barros 

outro. A huma parte da qual Cidade tinha 
EIRcy fuás cafas feitas á maneira de forta- 
leza , com torres , cubelos , e todo outro 
modo de defensão , com porta pêra ferven- 
tia do mar , que vinha dar em hum cães , 
c outra grande á ilharga da fortaleza , que 
fazia rofto contra a Cidade pêra ferventia 
delia , diante da qual fc fazia hum grão ter- 
reiro , onde eftava a varação de náos , e no 
rofto delia era o pouíò que as noflas tinham 
tomado. Das quaes aífi por apolicia das ca- 
fas , eirados , e alcorões , como com as pal- 
meiras , e arvoredos dos quintaes , parecia 
a Cidade mui formofa , dando aos noíTos 
grande defejo de fahir nclla por quebrar a 
foberba daquelle bárbaro , que toda aquclla 
noite gaitou em metter dentro na Ilha fre- 
cheiros da terra firme. 

CAPITULO V. 

Como D. Francifco de /dmeida fahio em 
terra , e tomou a Cidade de Quiloa , fu- 
gindo EIRey pêra a terra firme. 

DOm Francifco como tinha aflentado 
que havia de fahir em terra ao feguin- 
te dia , que era vefpera de Sant-Iago , ante 
manhã feito o final da trombeta , que todes 
efperavam , cada hum em feu batel com a 
gente que pode levar, fe veio a bordo da 

náo 



Década L Ljv. VIII. Cap. V. 217 

náo capitania; onde fendo juntos o Vigário 
dos Clérigos 3 lhe fez huma confilsão geral , 
e aAbfolviçao plenária pela Bulia concedi- 
da aos que pereceíTem naquelle adto de Fé» 
A qual acabada , e entregue a bandeira da 
Cruz de Chrifto a mm Cavalleiro chamado 
Pêro Cam , que fervia de Alferes , encami- 
nhou eíla frota de bateis com grande eílron- 
do affi da artilheria das náos 5 como das 
trombetas que levavam, O primeiro dos 
quaes que tomou terra no rofto da Cidade , 
em que eftava ordenado que haviam de 
fahir , foi o de D. Francifco , onde todolos 
Capitães acudiram , e fe fez em corpo em 
hum tefo , em quanto os bateis tornavam 
por outro golpe de gente , fem nefte tem- 
po fahir da Cidade coufa , que es fizeífe al- 
voroçar , que lhe dava fufpeita não quere- 
rem fahir os Mouros ao largo por os aco- 
lher nas ruas, que por ferem eílreitas fe po- 
deriam melhor ajudar. Pofta toda eíla gen- 
te em terra , que eftava ordenada pêra com- 
metter a Cidade 3 deo D. Francifco a feu 
filho duzentos homens , e elle ficou com o 
corpo da mais gente 7 que feriam trezentos. 
Ao qual mandou que fe foíle ao longo da 
praia ás cafas d 5 Eliley , que eítavam no ca- 
bo da Cidade 5 e como lá foííe , que lhe fi- 
zeíTe hum final com huma efpingarda , a 
que elle refponderia , pêra que juntamente 

com- 



<2i8 ASIÀ de João de Barros 

commettcííem. Chegado D. Lourenço on- 
de fez efte final , moveo feu pai de roílo 
contra o meio da Cidade , dando Sant-Iago y 
e as trombetas com tanto alvoroço de to- 
dos j que lhe era trabalho entreter a gente , 
fendo já o Sol fobre a terra , fcrn os Mou- 
ros té então apparecerem. Peró depois que 
D, Francilco começou entrar pelas ruas , 
como eram eftreitas , e as cafas altas , aíTi 
diante do rofto , como per fima pela cabe- 
ça dos eirados choviam tantas pedras , e íet- 
tas , que defatinavam os nofíbs , e recebiam 
grão damno por irem mui apinhoados por 
caufa da eftreiteza do lugar , fem fe pode- 
rem aproveitar dosimigos. E dado que aos 
debaixo começaram levar diante fi a bote 
de lança , e os efpingardeiros , e béfteiros 
defpejavam as janelas dos outros > de que 
recebiam damno , todavia era tanto o que 
lhe faziam dos eirados , que conveio aos 
noíTos entrarem pelas caías , e fubirem aífi- 
ina onde os Mouros eftavam. E como os 
eirados eram continuos huns aos outros , e 
tão eftreitas as ruas , que quafi fe podia fal- 
tar de huma a outra parte , ficava per fima 
delles lugar mais defpejado pêra os noíTos 
andarem , que deo caufa a que fubiílem mui- 
tos a defpejar os Mouros , que com pedras , 
e cantos impediam a paííagem per baixo. 
Finalmente com morte de alguns delles o 

ca- 



Década I. Liv. VIII. Cap. V- 219 

caminho que D. Francifco levava foi des- 
pejado , e elle pode com menos perigo che- 
gar aonde D. Lourenço eítava , que era á 
porta das cafas d'ElRey em hum efcampa- 
do , o qual lugar elle tomou com aliás tra- 
balho ante que feupai chegaíTe a elle. Por- 
que como o lugar era largo , e EIRey ti- 
nha comíigo a flor da gente 3 fahíram a elle 
obra de trezentos homens 5 que o ferviam 
de muita frechada , e pedrada ; e ainda que 
efta chuva lhes fazia perder a viíta por fer 
mui baila , e não poderem mais fazer que 
efcudar-fe , todavia apertaram tanto com os 
Mouros , que os fizeram recolher pelas por- 
tas da fortaleza. E como o cardume delles 
era grcíío , enão podia caber per hum pof- 
tigo que entravam , e os noflbs apertavam 
muito aquelle lugar, começaram defemet- 
ter per becos , e traveífas , os quaes fugin- 
do efte perigo , foram dar nas mãos da ou- 
tra gente, que vinha com D. Francifco. A 
efte tempo D. Álvaro de Noronha , que hia 
em companhia de D. Lourenço , com a gen- 
te que levava pêra a fortaleza * de Cochij , 
de que havia de fer Capitão , apartou-fe pê- 
ra onde eftava huma porta per que entra- 
vam a fortaleza ; e eftando em preíTa de a 
querer arrombar , appareceo em íima de 
huma torre hum Mouro bradando que ef- 
tiveíTem quedos , aprefentando a bandeira 

que 



220 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

que EIRey dizia fer-lhe tomada pelo noíío 
Capitão com a náo que vinha de Çõfaía. 
Quando os noíTos viram aquelle final , a 
que fempre obedeceram , leixando o com- 
bate , todos em alta voz , como fe viram 
feu Pvey , começaram dizer : Portugal, Por- 
tugal, Portugal. Chegado D. Franciíco a 
cita voz commum de tantas vozes , vendo 
a bandeira fobre a torre em final de obe- 
diência , e acatamento , tirou o capacete , 
citando quedo , e mandou que cefiaííe a obra 
té faber o que queria. As palavras do qual 
Mouro foram , que dizia EIRey , que clle 
fe vinha metter em mãos delle Capitão mor 
obediente , e pacifico , como vaííallo d'El- 
Rey de Portugal : que lhe pedia muito man- 
daffe ceifar o combate , porque clle fe vi- 
nha logo abaixo. D. Francifco parecendo- 
!he que o temor trazia eíle Mouro Á obe- 
diência 5 mandou íòbreeítar a obra , em o 
qual tempo o Mouro , que eftava na torre , 
não fazia feijão bradar , e bracejar pêra den- 
tro do muro , como que chamava alguém , 
e ifto com huma eftkacia que enganou a to- 
dos, porque fobre eíle bracejar poz a ban- 
deira encoftada a huma amea , moftrando 
que hia chamar EIRey ; mas elie não tor- 
nou mais. A caufa da vinda deite Mouro 
foi querer entreter per eíte artificio os nof- 
fos , em quanto fe EIRey recolheo per ou- 
tra , 



5 



Década I. Liv. VIII. Caí>. V. 221 

tra 5 que hia contra huns palmares ? onde 
elle tinha poílo luas mulheres , e fazenda , 
pêra dalli íe paíTar a terra firme em huns 
barcos que lá tinha preftes ; porque quebra- 
da a porta da fortaleza , foram os noflbs 
dar na outra per onde BIRey íahio , que 
leixou aíTás de raftro d'algumas coufas que 
cahíram com preíTa dos que fugiam em lua 
companhia. O qual rafto D. Francifco não 
quiz que a gente feguiííe , porque hia dar 
em hum palráar mui bailo , onde podiam 
receber algum damno fem o poderem fazer 
aos imigos ; o que a gente mal foífreo , cá 
hiam com aquelle fervor , e defejo de to- 
mar huma cevadura na companhia que El- 
Pvey levava. Porém porque não ficafle fo- 
mente com o trabalho , e honra da entrada 
daquella Cidade , mandou D. Francifco aos 
Capitães que cada hum com fua gente afof- 
fe esbulhar, encommendando a todos apef- 
foa , cafas 3 e fazenda de Mahamed Anco- 
nij ; e mandou a João da Nova que fe foi- 
fe a fua cafa ao defender não fe defman- 
daíTe algueirrcom elle. Partidos alguns Ca- 
pitães a eíla obra , mandou nas coitas del- 
les feu filho D. Lourenço com hum corpo 
de gente nobre > temendo algum defaftre pe- 
los defmanchos 5 que fe fazem no tempo de 
íaquear , o qual quando chegou á Cidade , 
andava já a gente commum tão engodada 

na 



2,22 ÁSIA de João dp; Barros 

na preá , que teve aflas trabalho em a fazer 
recolher. Finalmente acabado aquellô primei- 
ro impeto da entrada deites Capitães , e tor- 
nados onde D. Franciíco eílava , mandou elle 
a João da Nova que lhe trouxefíe Mahamed 
Anconij. Do qual depois que veio ante el- 
le, e foube comoElRey era paliado á ter- 
ra firme , e aííi outras coufas , de que Dom 
Franciíco quiz tomar informação dellc , o 
efpedio , mandando a João da Nova que o 
tornafle a íua cala : e elle começou dar or- 
dem pêra fe recolher toda a gente ao pé de 
huma torre ante huma Cruz , que os Sa- 
cerdotes alli tinham arvorada em final de 
Triunfo da Fé. No qual lugar armou mui- 
tos Cavalleiros ; porque ainda que N. Se- 
nhor deo aquella Cidade fem morte d'algum 
dos noífos , muitos das pedras , e frechas fi- 
caram com final do trabalho que tiveram á 
eufta de muitos Mouros que foram mortos. 
Acabando efte acto de honra , (que he o 
primeiro galardão da guerra ? ) pola gente 
andar já mui cançada , fem terem comido , 
não entendeo D. Franciíco em mais que rc- 
colher-íè á porta da fortaleza , onde fez fua 
eftancia com as coitas no muro ; e ás outras 
eítancias encommendou a feu filho , e aos 
Capitães, íègundo a neceílidade que havia. 

CA- 



Década L Liv. VIII. 223 

CAPITULO VI. 

Como a Cidade Quiloa fe fundou , e os Reys 

que teve té fer tomada per nós: e como 

D. Franctfco de Almeida novamente 

fez, Rey delia a Mahamed 

Anconij. 

Om Francifco de Almeida , por fer 
Commendador da Ordem de Sant-Ia- 
go , ao dia feguinte que era defte Apoílolo 
nao entendeo em mais que folemnizar fua 
feíla ; porque além de cllc por razão de fer 
Cavaíleiro da fua milícia particularmente lho 
dever, toda Hefpanha lhe he neíla obriga- 
ção por fer Patrão delia 3 e com leu appel- 
lido entrar em todalas batalhas contra Mou- 
ros. E própria , e principalmente a gente 
Portuguez fe pode gloriar da caufá de fuás 
conquiftas , pois são contra infiéis , no adju- 
tório das quaes tem tal Capitão geral , que 
os ajuda com legiões celeftes no exalçamen- 
to da Fé , como muitas vezes no meio das 
azes pêra terror dos imigos per elles mef- 
mos foi vifío. E o que dava maior conten- 
tamento 5 e devoção aos noífos , em quanto 
eftiveram á Miífa , e pregação , era verem 
fer-lhes efta viítoria concedida em huma Ci- 
dade remota, e caiara dajurifdicçãoCatho- 
liça da Igreia , e fubdita ás idolatrias dos 

Ca- 



224 ÁSIA DE JOÃO DE BaRROS 

Cafres , c blasfémias dos Mouros. E por- 
que não fomente pêra profeguimento deíla 
hiftoria , mas ainda pêra creaçao do Rey , 
que D. Franciíco de Almeida nella nova- 
mente creou , convém fabermos a fundação 
deíla Cidade , e os Reys que nella foram 
té efte que era tyranno chamado Mir Ha- 
braemo que a defamparou , trataremos hum 
pouco deíla matéria. Segundo apprehencle- 
mos per humaChronica dos Reys defla Ci- 
dade 5 havendo pouco mais de fetenta an- 
nos que as Cidades Magadaxo , e Batua 
eram edificadas , que como atrás vimos fo- 
ram as primeiras nefta coita > quafi nos an- 
nos quatrocentos da era de Mahamed rei- 
nava cm a Cidade Xiraz ,. que he na Períia , 
hum Rey Mouro chamado Soltam Hocen. 
Per morte do qual ficaram lete filhos , hum 
dellcs chamado Ale , era pouco eftimado en- 
tre os irmãos , por feu pai o haver em hu- 
ma fua eferava da cada dos Abexijs , e el- 
Ies terem mai nobre da linhagem dos Prín- 
cipes da Perfia. O qual como era homem , 
que quanto lhe falecia no favor da linha- 
gem , tanto fuppria com pefíoa , e prudên- 
cia , por fugir os defprezos , e mão trata- 
mento dos irmãos , emprehendeo ir bufear 
nova povoação , quaíi chamado pêra melhor 
fortuna da que tinha entre os feus. E por 
fer já calado, recolhendo fua mulher, filhos, 

fa- 



Década I. Lxv. VIII. Cap. VI. 22? 

família , c alguma gente , que o feguio nefc 
ta empreza , embarcou cm duas náos na Ilha 
de Ormuz , e com a fama cio ouro , que ha- 
yia neíla cofia Zanguebar, veio ter a cila. 
Chegado ás povoações de Magadaxo , e 
Brava , aííí por clle fer da linhagem dos 
Perfios , que acerca da fecta de Mahamed 
diíferem dos Arábios , (fegundo adiante 
veremos , ) como porque íua tenção era fun- 
dar própria povoação onde foíle fenhor , 
e náo fubdito de alguém , correo a coíla 
mais adiante té que veio ter áquelle porto 
de Quiloa. E vendo a difpofiçao > e fitio 
da terra fer torneada- de agua y em que po- 
dia viver feguro dos infultos dos Cafres > 
e que era povoada delles , a troco de pan- 
nos lha comprou , e per as razões que lhe 
deo fe paíTáiam á terra firme. Na qual, 
depois que foi defpejada delles , começou de 
íe fortalecer , não fomente contra eiles, fe 
reinaííem alguma malicia , mas ainda contra 
algumas povoações dos Mouros , que tinha 
por vizinhos ? aíli como huns que habitavam 
as Ilhas , a que chamam Songo , e Xanga 5 
os quaes fenhoreavam té Mompana , que 
era de Quiloa obra de vinte léguas. Porém 
como elie era homem prudente , e de gran- 
de efpirito 5 em breve tempo fe fortaleceo 
de maneira , que ficou huma nobre povoa- 
ção , a que poz o nome que ora tem , e de 
Tom.I. P.iL P fi 



2l6 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

fi começou de fenhorear os vizinhos , té man- 
dar hum feu filho bem moço fenhorear as 
Ilhas de Monfia , e outras daquella comar- 
ca , da geração do qual os que fuecedêram 
fe intitularam porRcys, como elle também 
fez. Per morte do qual lhe fuecedeo feu 
filho Ale Bumale , que reinou quarenta ân- 
uos ; e por não ter filhos , herdou Quiloa 
Ale Bufoloquete feu fobrinho , filho do ir- 
mão que tinha em Monfia , que não durou 
no citado mais que quatro annos e meio y 
ao qual fuecedeo Daut feu filho , que foi 
lançado de Quiloa aos quatro annos de feu 
reinado per Matata Mandalima , que era 
Rey de Xanga feu imigo , e Daut fe foi pê- 
ra Monfia , onde morreo. E eftc Matata lei- 
xou em Quiloa hum feu fobrinho per no- 
me Ale Boncbaquer 5 que aos dous annos os 
Parfeos de Quiloa o lançaram fora , e le- 
vantaram por Rey a Hocen Soleiman fo- 
brinho de Daut já defunto , que reinou dez- 
efeis annos , ao qual fuecedeo Ale Bem 
Daut feu fobrinho , que reinou feífenta an- 
nos , e fuecedeo-lhe hum feu neto chama- 
do do feu nome , contra quem fe levantou 
o povo por fer máo homem 5 e o metteram 
vivo em hum poço , havendo féis annos quel 
reinava , levantado por Rey a feu irmão i 
Hacen Ben Daut , que reinou vinte e quatro* 
annos 5 e apôs eile reinou dous annes So-j 

ki- 



Década I. Liv. VIIL Cap. VI. 227 

leimân , que era da linhagem dos Reys \ ao 
qual o povo cortou a cabeça por fer mui 
íttáo Rey ; e em feu lugar levantaram a 
Daut feu filho , que mandaram vir de Ço- 
faJa, donde veio mui rico 5 que reinou qua- 
renta annos , leixando feu filho Soleiman 
Hacen , que conquiílou muita parte daquel- 
la cofta ; e por haver a benção de feu pai > 
fe fez fenhor do refrate de Cofala , e das 
Ilhas de Pemba , Momfia , Zenzibar , e de 
muita parte da cofta da terra firme. O qual, 
além de ler Conquiítador , ennobreceo a Ci- 
dade de Quiloa , fazendo nclla fortaleza de 
pedra , e cal , e com muros , torres , e ca- 
ías nobres , porque té o feu tempo quaíi to- 
da a povoação da Cidade era de madeira^ 
e todas eftas coufas fez em efpaço de dez- 
oite annos que- reinou , a quem fuccedeo 
feu filho Daut , que durou dous annos \ e 
trás el!e veio Talut feu irmão , que viveo 
hum , e por fua morte reinou Hocem outro 
irmão vinte e finco annos , e por não ter 
filhos fuccedeo-lhe outro feu irmão , que vi- 
veo dez annos ; e efte derradeiro irmão cha- 
mado Hale Bonij foi o mais bem afortuna- 1 
do de fua linhagem , porque tudo o que 
commetteo acabou , e fuccedeo-lhc Boné Sq- 
leiman feu fobrinho , que reinou quarenta 
annos , e apôs eile reinou quatorze Ale Daut , 
ao qual fuccedeo Hacen fèu^neto, que rei- 

P ii meu 



228 ASL\ de João de Barros 

nou dezoito armos , que foi mui excellente 
Cavalleiro, e per fua .morte ficou no Reyno 
feu filho Soleiman , que foi morto em lahin- 
do da mefquita per traição , havendo qua- 
torze annos que reinava , per morte do qual 
reinou doiis annos feu filho Daut , e apôs 
eíle reinou vinte e quatro Hacen feu irmão , 
e por não ter filhos tornou a reinar Daut 
Rey paífado , porque os dous annos que 
reinou era em aufencia de Hacen , por fer 
ido a Meca , e em vindo , eíle Daut lhe lar- 
gou o Reyno por lhe pertencer. Deita fcgun- 
da vez reinou eíle Daut vinte e quatro annos , 
ao qual fuccedeo feu filho Soleiman , que 
reinou vinte dias fomente , por lhe tomar 
Hacen feu tio o Reyno , o qual reinou féis 
annos e meio , e por não ter filhos fucccdeo- 
Ihe Taluf feu fobrinho irmão de Soleiman , 
paífado o qual reinou hum anno ; e outro feu 
irmão, chamado também Soleiman, reinou 
dous annos e quatro mezes , no qual tempo 
foi tirado do Reyno per outro Soleiman 
feu tio , que reinou vinte e quatro annos , 
quatro mezes , e vinte dias , e a eíle fucce- 
deo leu filho Hacen , que reinou vinte e qua- 
tro , e trás elle veio feu irmão Mahamedj 
Ladil , que reinou nove , e Soleiman feu fi- 
lho , que o herdou , vinte e dous ; e por eíle j 
não ter filhos , reinou Ifmael Bem Hacem leu 
lio quatorze annos , per morte do qual fer 

le- 



Década I. Liv. VIII. Cap. VI. 229 

levantou per Rey o Governador do Rey- 
no , que não efteve no Eílado mais que hum 
anno , porque o povo levantou por Rey o 
Governador do Reyno 5 o qual não efteve 
no eílado mais que hum anno por tornarem 
por Rey a Mamud homem pobre 5 por fer 
da linhagem dos Reys , que não durou na- 
quelle Eftado mais que hum anno por fua 
pobreza. E foi levantado por Rey Hacen 
filho d'ElRey Ifmael já paíTado , que reinou 
dez annos 5 e feu filho Çayde outros dez , 
e per fua morte fe quiz levantar com o Rey- 
no o Governador delle , e durou nefte po- 
der hum anno. No qual tempo fez Gover- 
nador a hum feu irmão per nome Mamu- 
de , que tinha três filhos ; dos quaes fobri- 
nhos temendo-fe efte tyranno , por ferem ho- 
mens pêra muito , mandou-os de Quiloa 
que foíTem governar as terras fubditas a el- 
la , e aconteceo a forte de Cofala a hum 
chamado Içuf , do qual depois faremos lar- 
ga menção , porque efte era Senhor daquel- 
la terra ao tempo que Pêro d 5 Anhaya alli 
foi fazer huma fortaleza , como logo vere- 
mos. E em lugar defte tyranno, levantou o 
povo por Rey Habedaia irmão d^EIFvCy 
Çaide já paíTado , que durou no Reyno hum 
anno e meio , e feu irmão Ale outro tanto, 
e per fua morte o Governador do Reyno 
forcofamente alevantou por Rey a hum Ha- 

cem 



230 ÁSIA de João de Barros 

cem filho do Governador paliado , que fe 
alevantára com o Reyno a fim de elle me£- 
1110 Governador ler mais abíbhno com eíle 
fer pofto dafua mão. Porém o povo o não 
conientio , porque logo levantou por Rey 
hum da linhagem Real chamado Xumbo , 
que viveo naquelle eftado hum anno fomen- 
te , e tornaram alevantar o pafiado } que aos 
finco annos foi dêpofto , em cujo lugar ale- 
vantííram Habraemo filho de Sultão Ma mu- 
de já defunto, que aosdous annos também 
foi deporto , e levantaram a hum feu fobri- 
nlio per nome Alfudail , que durou mui pou- 
co , e o leu Governador chamado Mir Ha- 
braemo não quiz fazer Rey , e teve o Rey- 
no em feu poder com tenção de ficar naquel- 
le Eftado por filho d'ElRey Soleiman já de- 
funto , e primo com irmão defte Alfudail • 
o qual não leixou mais que hum filho de 
humaeferava , de que ao diante faremos 
menção, porque depois veio a fer Rey dei- 
ta Cidade , fendo já noíTa. E pofto que eíle 
Habraemo foííe abfoíuto Senhor de Quiloa , 
o povo lhe não chamava Rey. fenão Mir 
Habraemo ; e fe alguma couía o fuftentou 
naquella tyrannia , foi o que paífou com Pe- 
dralvares Cabra! , João da Nova , e o Al- 
mirante D, Vafco da Gama , por os modos 
que teve com elles , e por então iíto o fez 
fer accepto ao povo. D. Francifco de Ai- 

mei- 



Década I. Liv. VIII. Ca?. VI. 231 

meida , poílo que não tiveffe fabido tão par- 
ticularmente a íuccefsão deites Reys , como 
ora contamos , todavia per Mahamed An- 
conij foube como o povo não eílava muito 
íatisfeito defte Habraemo , e quanto todos 
defejavam alevantar Rey , que foffe mais 
chegado á linhagem verdadeira delles , e a 
caufa porque o foffriam. E aííí foube das 
peííoas notáveis que havia na terra \ e ou- 
tras coufas ? de que fe elle quiz informar, 
pêra faber o modo que teria acerca da fe- 
gurança , e governo da Cidade ; porque pê- 
ra fatisfazer ao que lhe EIRey mandava, 
principalmente a quem leixaria por Gover- 
nador d'aqueiles Mouros , dava-lhe eíla elei- 
ção grande cuidado , porque fobre eíle fun- 
damento fe haviam de ordenar as outras cou- 
fas do governo da terra , e pêra iífo teve 
confulta com os Capitães. Finalmente jun- 
tos elles pêra eíla eleição de Rey , e pre- 
*poílo per D. Francifco o que EIRey lhe 
mandava em feu Regimento , e o que era 
paíTado com o tyranno , per commum con- 
íelho fe aífentou , que a Mahamed Anconij 
íè entregaffe o lenho rio daquella Cidade , 
poio que tinha merecido , e paíTado por nof- 
ia amizade ; porque além diíTo tinha peffoa , 
idade de até íéffenta annos , e prudência de 
governo , pofto que não foífe da linhagem 
dos Reys , pois pêra reformação da terra 

ne- 



1$2 ÁSIA DE JOÃO DE BARKOS 

nenhuma outra coufa convinha. Pcra entre- 
ga da qual , ante que fedaili levantaífe Dom 
Franciíco , mandou a João da Nova , que 
foííe trazer a Mahamed , o qual como in- 
nocente da honra pêra que era chamado 5 
chegando áquelle lugar onde todos cita- 
vam , lançou-íe* aos pés do Capitão mor , pe- 
dindo que footiveíTe piedade delle 5 miíc- 
rando-fe com aclos de homem , que temia 
vir a eílado de cativeiro por culpas alheias. 
D. Franciíco com muito gazalhado , levan- 
do-o nos braços , começou de o confolar , 
dizendo , que não temeíTe , porque homens 
leaes , como elle era , não tinham que temer, 
mas clpcrar mercê , e honra ; e que efta do 
titulo do Rey de Quiloa , que lhe elle que- 
ria dar em nome d'E!Rey fira Senhor , fe- 
ria a primeira 5 e depois pelo tempo em 
diante elle faria taes ferviços 5 que mereceííc 
outras maiores , com que ficaíTe o mais pc- 
derofo Rey de toda aquella cofia. Maha-* 
med-, quando ouvio tão novas palavras , e 
não efperadas de feus méritos , tornou-fe a 
debruçar aos pés de D. Franciíco , fetn o po- 
derem levantar delles. Finalmente ante que 
dalli partiífe , elle foi veftido em huma mar- 
lota de efcarlata forrada de fetim com ala- 
mares de ouro 5 e hum capelhar do mefmo 
panno , que lhe D. Francifco mandou dar, 
e levado a hum cadafalíb , que fe logo ar- 
mou 



Década I. Liv. VIII. Cap. VI. 233 

mou fobre pipas vazias enaoftado á torre da 
fortaleza alcatifado 5 e embandeirado \ ao 
qual lugar vieram todolos Mouros princi- 
,paes da Cidade chamados per pregão , que 
D. Francifcc mandou dar. E fendo juntos , 
começou hum Qfficial de Armas em alta vós 
em lingua Portuguez i e depois em Arábigo 
per fegunda lingua propoer as caufas de feu 
adjuntarnento \ e as da traição de Habrae- 
mo Governador que fora daquella Cidade, 
tomando armas contra EIRey feu Senhor, 
por razão da qual traição perdera o gover- 
no delia , e elie Capitão mor com aquelíes 
Capitães d'E!Rey feu Senhor a tomara per 
jufto titulo de armas ; e como propriedade 
fua 5 em nome de Sua Alteza a entregava 
com titulo de Iley , e obrigação do tributo , 
que d'antes pagava , ao honrado 5 e leal Ma- 
hamed Anconij em retribuição dos ferviçcs, 
que tinha feito a EIRey feu Senhor : E cm 
teftemunho , e confirmação defte Titulo , dle 
o coroava com aquella coroa de ouro ; e em 
dizendo iílo , D. Francifcolhe poz na cabeça 
huma , que levava pêra EIRey de Cochij , 
como adiante veremos. Acabado efte adto , 
foi o novo Rey poílo em hum cnvallo 
acompanhado de alguns Capitães , e Mou- 
ros , que eram prefentes ; e levado per os lu- 
gares públicos da Cidade com pregões , que 
o denunciavam por Rey delia 5 indo diante 

ar- 



234 AS IA de João de Barros 

arvorada huma bandeira Real das Armas 
doReyno, com todalas trombetas, que ce- 
lebravam aquella feita té o tornarem on- 
de citava D. Franciíco. E ante que fe del- 
le efpedifle pera íe recolher a leu apolen- 
tamento , teve tanta prudência , por ganhar 
a vontade aos Mouros y de quem iabia que 
havia de ler invejado , que lhe pedio quan- 
tos foram cativos na entrada da Cidade , 
dizendo , que mal pareceria receber elle hon- 
ra , leixando os feus naturaes em eítado de 
cativeiro , com os quacs elle eiperava de fer- 
vir EiRey íeu Senlior. O que lhe D. Fran- 
ciíco concedeo tudo a fim que a Cidade tor- 
naffe a feu citado , como logo tornou , com 
os pregões , que o novo Rey mandou lan- 
çar • de maneira , que dahi a dous dias to- 
dos os que andavam pelos palmares da Ilha 
fugidos , fe tornaram a Cidade povoar fuás 
caías : Tanto íegurou o animo dos Mouros 
eíla honra , e galardão , que fe deo a Maha- 
med. Vendo todos que éramos gente gra- 
ta dos benefícios que recebíamos \ pois por 
tao pequenos méritos , como eram os de Ma- 
hamed , de Efcrivao da fazenda do Reyno 
de Quiíoa era feito Rey delia. Parece que 
não fomente a lealdade > que efte Mouro te- 
ve comnofeo , o trouxe áquelle eíla do , mas 
ainda alguma particular fortuna , pois oaíto 
de coroação foi depois ornamento de calas 



Dec. L Liv. VIIL Cap. VI. â VIL 235- 

d'alguns Príncipes , como vimos em huns 
pannos de tapeceria , que fe armavam na ca- 
mará d'ElRey D. Manuel em dias folemnes , 
que elle mandou fazer por memoria dodef- 
cubrimento da índia \ e deíle feiro de Qui- 
loa. 

CAPITULO VIL 

Como acabada a fortaleza cie Quiloa , e 

provido Capitão , e os Qfficiaes delia , 

D. Francifco fe partio pêra a Cidade 

Mombaça , a qual determinou de 

tomar pelo que nella pajjou. 

P Afiados os primeiros três dias , que fe 
gaitaram na tomada da Cidade , e hon- 
ras do novo Rey Mahamed Ai\contj , quan- 
do veio ao feguinte dia i começou o Capi- 
tão mor entender na fortaleza ; e pêra me- 
lhor aviamento da obra , ordenou ílias ef- 
tancias ao pé da torre do caílello. E a pri- 
meira coufa que fez, jfoi derribar fète, ou 
oito moradas de cafas pegadas ao muro da 
parte da Cidade, por ficarem as torres mais 
defabafadas pêra maior defensão da fortale- 
za 3 e da parte do mar fez huma larga fer- 
ventia com hum cubelo junto da agua , pê- 
ra que os noílbs feguramente tiveflem o 
mar , e a terra. E ordenou , como com a 
obra nova que fez , que a maior torre do 
caílello ficaffe em lugar das que chamam da 

om e- 



z-$6 ÁSIA de João de Barros 

omenagem , tudo muito bem acabado , íc- 
gundo a difpofição do lugar , c brevidade 
do tempo , que foi eipaço de vinte dias , á 
qual fortaleza poz nome Sant-Iago , por lhe 
Noffo Senhor dar vistoria daquella Cidade 
vcfpcra daquelle Apoílolo. Da qual obra 
os principaes Officiaes eram os Capitães das 
náos , per quem D. Franciíco repartio a gi- 
ros o ferviço delia ; e quando vinha ao íeu , 
elie tomava a padiola per huma parte , e 
Lourenço de Brito per outra , ou Manuel 
Façanha , porque cada hum deites o ajuda- 
va de companheiro nefte traballio 3 fendo 
per todos feita com muito prazer ? graças , 
motes , e cantigas. E andando neíla obra 
havia três , ou quatro dias , chegaram Ber- 
mudes , e Gonçalo de Paiva , que o Capi- 
tão mor mandara a Moçambique faber no- 
vas de Lopo Soares , e das outras náos da 
companhia de Baflião de Soufa , como atras 
diíiemos , os quaes trouxeram cartas , que 
Lopo Soares leixou já da tomada da índia , 
çmque dava novas do que lá paflara , eda 
carga que levava , com que todos tiveram 
muito prazer. Finalmente acabada toda a 
obra da fortaleza , leixou D. Franciíco nel- 
la eilas pelToas pêra fua governança , e de- 
fensão : Pêro Ferreira Fogaça filho de Fer- 
não Fogaça por Capitão , Alcaide mor Fran- 
çifco Coutinho morador em Alcobaça , por 

Fei- 



Década I. Liv.VIIL Cap. VIL 137 

Feitor Fernão Cotrim , e afli todolos ■ Oín- 
ciaes neceílarios , que com a gente d ? armas 
faziam numero de cento e ÍIncoenta peífoas, 
E leixou pera*ferviço da fortaleza , e guar- 
da da coita Gonçalo Vaz de Góes na fua 
caravela , e hum bargantim , que depois fe 
havia de armar com regimento que havia de 
reíponder á fortaleza de Çofala 1, a qual El- 
Rey mandava fazer per Pêro da Nhaya, 
que houvera de ir em fua conferva , e ficou 
té Maio , que partio deite Reyno com fro- 
ta de certas velas , como adiante veremos. 
Leixadas todaias coufas defta fortaleza em 
ordem , a oito de Agoíto fe partio pêra 
Mombaça, onde checou aos treze com on- 
ze náos , e três navios , o qual dia de fua 
chegada, por fer já tarde, fe houve miíter 
pêra ancorar as náos de fora da barra , e ao 
leguinte mandou Gonçalo de Paiva, e Fi- 
lippe Rodrigues , que entraflem pelo rio, 
e o fondaííem , pêra faber que náos podiam 
entrar ; porque ainda que os Pilotos , que 
trazia deQuiloa, lhe certificaflem haver fun- 
do pêra as náos grandes entrarem pelo ca- 
nal huma ante outra , quiz elle fegurar-fe 
na experiência deites dous Capitães , e fo- 
bre feu confelho fazer cita entrada. Da fi- 
tuação da qual Cidade , poílo que na paífa- 
gem , que o Almirante D. Vafco da Gama 
per ella fez , déífemos alguma noticia , to- 
da- 



238 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

davia pela entrada que D. Francifco d'Al- 
meida nella fez , convém darmos maior rela- 
ção. Efta Ilha jaz mertida dentro na terra 
firme torneada de outro eftrcko de agua ao 
modo de Quiloa , a qual íerá em redondo 
obra de quatro léguas , e na entrada delia 
mui perto da barra eftá aflentada a Cidade 
em huma chapa de terra de maneira , que 
fe amoítra a maior parte de todo o corpo 
delia ; e aíli como o lítio a faz formofa pê- 
ra ver de fora com as grandes caiarias, ei- 
rados , e torres que apparecem , afli fica te- 
meroía a quem a houver de commetter. 
Nefte fitio , defronte delia, faz o mar huma 
maneira de concha , com que fica huma baia 
mui efpaçofa pêra ancoragem de grandes 
náos , e lá per dentro em partes vai o rio 
táo largo , que folgadamente podem andar 
navios á vela cm voltas ; fomente no meio 
deite torno da Ilha da banda cia terra firme 
começa hum recife de pedra, que atraveíTa 
o rio , com que de maré vafia podem paliar 
a pe de huma parte a outra : e além deite 
braço de agua , que abraça aquella quantida- 
de de terra com que fica Ilha , per dentro 
da terra firme entram outros eftreitos , que 
também fe podem navegar. Efte canal da 
ferventia da Cidade a lugares he tão eftrei- 
to , que huma befra o paliará ; e ante que 
cheguem á concha , que fe fez no poufo 

das 



Década I. Liv. VIII, Cap. VIL 239 

das náos , da banda da mefma Ilha contra 
o Levante eftava hum baluarte , que fe fez 
depois que por alli paliou o Almirante Dom 
Vafco da Gama , o qual tinha fqte , ou oi- 
to bombardas , que houveram da náo de 
Sancho de Toar , que le perdeo naquella 
paragem vindo da índia com Pedral vares 
Cabral , que o Key deita Cidade mandou 
tirar de mergulho. Com as quaes , chegan- 
do aqui Gonçalo de Paiva , e Filippe Ro- 
drigues , que hiam fondando a barra , come- 
çaram os Aíouros de lhe tirar 5 hum dos 
quaes tiros tomou o .navio de Gonçalo de 
Paiva pela camará de popa, cfoi vafar aos 
caftellos de proa ; mas quiz Decs que não 
fez outro damno. Em rcfpofta do qual , co- 
mo o baluarte não era maciço , e as pare- 
des fracas, hum tiro furiofo do navio pe- 
netrou de maneira , que foi dar na pólvora , 
com que fez maravilhas , defpejando toda 
a gente ; e outro tanto fizeram a dous cu- 
belos cercados de pedra enfoca , que adian- 
te eíiavam com artilheria, a qual obra def- 
pejou o caminho de maneira, que naquelle 
dia , e no feguinte íbndado o rio , foram 
mettidas no porto todalas náos. D. Francif- 
co , porque a Cidade fazia duas moílras-, 
huma fronteira da barra , e outra pêra trás 
de hum cotovelo , mandou repartir a frota 
néftas duas partes ; na do rofto da Cidade 

fi- 



240 ÁSIA de JoÃo de Barros 

ficou D. Lourenço feu filho , e a de detrás 
da ponta tornou pêra íi , mandando logo 
dous bateis que foffem rodear a Ilha , pare- 
cendo-lhe que per detrás íe podia acolher 
a gente á terra firme , como fez EIRey de 
Quiloa. E aííi mandou os Capitães , que 
íondáram o rio , que lhe foffem metter duas 
náos em hum lugar per onde moílrava 
que podiam paílar da Ilha á terra. Torna- 
dos eíles bateis , trouxeram hum Mouro 
que lá tomaram , per o qual D. Franciíco 
fotibe toda a dilpoíiçao da Cidade ; e co- 
mo EIRey citava porto em a defender , e 
tinha mettido nella mais de mil e quinhen- 
tos frecheiros dos Cafres da terra firme , e 
lançado pregão , que fe alguém da Cidade 
fe paflafle a ella que morreíTe : Sabidas ef- 
tas coufas , e vifta a difpofição da entrada , 
porque em quanto ifto pafTou de terra , náo 
veio a elle algum recado , mandou D. Fran- 
cifco a João da Nova com hum dos Pilotos , 
que trouxe de Quiloa, que foífe com hum 
recado a EIRey. Mas elle não foi ouvido, 
antes em modo de defprezo , chegando á ri- 
beira , diíTeram-lhe , que os Mouros de 
Mombaça não eram os de Quiloa , que fe 
entregavam aos trons das bombardas. E de 
antre eftes , que failavam em Arábigo , fal- 
lou hum Portuguez arrenegado, que fugio 
a António do Campo quando per alli paf- 

fou; 



y 



Década I. Liv. VIIL Cap. VIL 241 

íòu ; as palavras do qual eram conformes 
ao eftado em que elle eftava , e fobre iíto 
deram huma grão grita , fazendo fuás alga- 
zarras de brandir os braços , fegundo elles 
coítumam. Tornado João da NovU com ef- 
ta refpofta , mandou logo D. Francifco , 
que as náos refpondeíTern ás apupadas del- 
les com hum varejo de artilheria per o cor- 
po da Cidade , pois diziam não ferem ho- 
mens que fe entregavam com os trons 
delia ; e affi mandou a Antão Gonçalves, 
e a João Serrão, que comfua gente nos ba- 
teis foífem pôr o fogo a humas náos de 
Cambaya , que eílavam mettidas em hum 
onco detrás da Ilha, E foi tanta a frechada 
ao commetter deíle feito, e era aíli a terra 
foberba, e alta nefte lugar, que ficavam el- 
les debaixo , de maneira , que vieram efca- 
Javrados fem fazerem alguma coufa, ejoao 
Serrão foi frechado em huma coxa , e aíli 
Francifco Rodrigues criado do Prior do 
Crato D. Diogo de Almeida, e hum bom- 
bardeiro , e eftes dous faleceram dahi a do- 
ze dias por ferem as frechas hervadas , cou- 
ià. que os homens muito receavam , e João 
Serrão efteve á morte. D. Francifco vendo 
que já recebia damno dos Mouros , e havia 
dous dias que era chegado , depois de ter 
confelho, em que houve diiferentes votos, 
determinou-fe , que ao feguinte dia , que era 
Tom. I. P. iZ QL de 



*$4 2 ÁSIA de João de Barros 

<3e Noffa Senhora de Agofto , fahiíTem em 
terra. E tomando comfigo alguns Capitães 
t?m hum batel , e feu filho D. Lourenço cm 
outro , vieram ver hum lugar detrás da pon- 
ta que dilTemos , per onde parecia que era 
a melhor entrada í pofto que a terra era mui 
foberba. E vifta a difpoíiçao , mandou vir 
alguns navios pequenos pêra aquelle lugar, 
os quacs fe haviam de igualar tanto com 
a terra íbbranceira , que delles a cila íe pu- 
deífem lançar pranchas pêra fahirem ao tem- 
po da maré ; e o modo de commetter a Ci- 
dade feria irem fem íe defviar direitamente 
ás calas dMSIRey , eile per aquella parte em 
cavalgando a coita per fora da Cidade tó 
chegarem a ellas , por eftarem no cabo del- 
ia na parte mais alta , e feu filho tomaria 
a rua do meio da Cidade a fe adjuntar com 
elle ; o qual defembarcaria quando elle 
•mandaíTe tirar dous tiros , porque juntamen- 
te a hum tempo commetteíTem a terra ; e 
neíle mefmo tempo iriam dous Capitães com 
agente domar queimar as náos donde João 
Serrão veio ferido , cá per efte modo repar- 
íir-fe-hiam os Mouros , acudindo ás trom- 
betas 5 que ouviíTem per tantas partes , com 
'que alguma das entradas lhe ficaffe fem a 
pezo da gente > do grande numero que ha- 
,via dentro , fegundo dizia o Mouro. Dó 
kpal modo de entrada os Mouros eftayam 

fem 



Decaí) a 1. Liv. VIII. Cap. VIL 245 

fem ílifpeita , e todo feu intento era na fron- 
taria da Cidade s per onde havia de com- 
metter D. Lourenço 5 por verem que alli fa- 
ziam os noflbs maior roílo com o corpo da 
frota. E por eíta razão todalas ruas , que 
vinham dar com fuás gargantas na ribeira , 
citavam com tranqueiras mui fortes , e cui- 
davam que eíte fó lugar tinham que defen- 
der ; porque as frontarias das caías por fe- 
rem fobradadas , e com terrados per íima , 
ficavam em lugar de muro > e era a elles 
coufa fácil eíta defensão por as ruas ferem 
mui eífreitas , e tão Íngremes dê fubir 5 que 
foltando no fana da rua huma pedra gran- 
de 5 podia vir tombando per ella abaixo 
com tanta fúria ? que ficava em lugar de 
trabuco* E da outra parte , que D. Fran- 
cifco tomou , citavam elles feguros por a 
terra íer huma barroca em lugar de muro. 
E o que os fez mais fegurar deita entrada y 
foi moítrar D. Francifco , que havia de cop- 
xnetter per o roíto da Cidade , onde D. Lou- 
renço eítava, com mandar por alli as náos 
mais groílas > e onde elle efperava fahir 
fomente os navios pequenos. E ainda de 
induítria aqueila tarde do dia feguinte , que 
elle efperava fahir , mandou a Do Louren- 
ço com alguns Capitães ? que com elle ha- 
viam de íer j que commetteífem á ribeira 
<da Cidade -, e trabalhaflem de pôr fogo a 
QJi ai* 



^44 ÁSIA de João de Bar nos 

algumas cafas , e tranqueiras ; e que acudin- 
do gente , moííraíTem no modo de fe reco- 
lher que temiam fahir em terra fazer efta 
obra , o que elle fez queimando alguma 
pouca coufa , que os Mouros logo apaga- 
ram. 

CAPITULO VIII. 

Como D. Francifco de Almeida tomou a Ci- 
dade Mombaça , e a queimou. 

AO feguinte dia , que era de Nofla Se- 
nhora de Agoílo , em rompendo a al- 
va , como já todos citavam preftes , e ab- 
folutos per huma abfolvição geral dos Sa- 
cerdotes , fegundo feu coftume , feito hum fi- 
nal , que D.. Francifco tinha ordenado , ca- 
da hum na ordem que lhe foi dada , feguí- 
ram feu Capitão. Os que feguiam a Dom 
Francifco , eram D. Fernando Deça , Ruy 
Freire , Bermum Dias , Antão Gonçalves , 
cada hum com a gente das luas náos. E os 
da companhia de D. Lourenço eram Fer- 
não Soares , Diogo Corrêa ? João da No- 
va , pela mefma ordem com fua gente : os 
outros Capitães acudiram ao lugar das náos 
de Cambaya , que lhes era encommendado. 
E delias três partes as primeiras trombetas 
que fe ouviram , que tomavam terra , fo- 
ram as de D. Francifco , o qual depois que 
teve fua gente toda em hum corpo , aíít 

co- 



Década I. Liv. VIIL Cap. VIII. 24? 

como eílava inteiro , fem achar quem lhe 
impediíTe o caminho , começou de fubir pe- 
la coita aííima pêra encavalgar o alto da 
Cidade , onde eílavam as caías d'E!Rey. A 
qual fubida lhe foi leve , em quanto foi 
per fora da Cidade , por não achar quem 
lha impediíTe , e mais fer o caminho efpa- 
çofo ; porém tanto que entrou na povoação 
por o lugar fer eílreito , conveio-lhe ir a 
fio com a gente toda poíla em ordem , fem 
fe defmandar pelas traveífas , e mas per 
onde lhe fahiam alguns Mouros , té que fe 
poz junto das cafas d 5 ElRey 5 onde já acu- 
dio pezo de gente , que ás frechadas , e 
pedradas , aíli de lima das cafas , como per 
baixo nas ruas i ferviam bem os noffos. E 
como D. Francifco pela experiência da en- ( 
trada de Quiloa fabia a manha deites Mou- 
ros j que mais fe ferviam das janelas , e ei- 
rados } que das ruas , levava entre a gente 
de armas , béíteiros , e efpingardeiros repar- 
tidos , que lhe defpejavam os lugares altos 
donde os offendiam : com que mais leve- 
mente do que elle cuidava , tanto que che- 
gou a bote de lança ? foi levando os Mou- 
ros té dar eom elles em hum grande terrei- 
ro diante das cafas d'E!Rey , onde vinham 
dar muitas ruas per que fe elles efpalháram. 
Per as quaes ," poíto que fahiíTem muitos 
Mouros a offender os noíTos 3 maior damno 



re- 



246 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

recebiam do que davam , porque era o lu- 
gar largo pêra todos fe ajudarem das lan- 
ças , o que não podiam fazer nas ruas , que 
eram eílreitas j e fe algum damno recebe- 
ram os nofTos naquelle lugar, era de funa 
dos eirados das caías d'ElRey , que eílavam 
cheios de tanta pedra folta , que cubria o 
chão. D. Francifco como deo viíla a eíle 
lugar , que era a principal parte da Cidade , 
e de fora não havia corpo de gente que de- 
fender as cafas d'ElRcy , mandou quebrar 
as portas , parecendo-] he que por fer forta- 
leza , citaria acolhida dentro alguma gente 
nobre \ e os primeiros que arrombaram ci- 
tas portas , foram Ruy Freire , Rodrigo 
Rabello , Bermum Dias. Os quaes , com a 
outra gente que os feguio , metteram-fe tão 
rijo com os Mouros que eílavam dentro , 
que em pouco efpaço dcípcjáram o baixo, 
e o alto , donde os noílbs que eílavam no 
terreiro recebiam o damno das pedradas. 
D. Francifco , como eílava no cabo dcfte ter- 
reiro , onde vinham dar as principaes ruas 
da Cidade , entretendo a gente que fe não 
derramaíTe per ellas , tanto que foube que 
as caías d^ElRcy eram defpejadas dos Mou- 
ros , deo lá huma chegada, e entregando a 
guarda delias aos Capitães que as entraram , 
porque com defejo de as roubar a gente 
commum não deíamparaífe a dk , e aos 

ou- 



Década I. Liv. VIII. Cap. VIII. 247 

outros Capitães , tomou caminho entre a 
Cidade, ehum palmar, per onde corria o 
fio dos Mouros em fugida trásElRey, que 
era já acolhido per huma porta falia na 
maior efpeflura deite palmar. D. Lourenço 
a eííe tempo andava tão occupado no bai- 
xo da Cidade , que não pode ler em fima y 
como eftava aífentado entre feu pai \ e eU 
le ; porque como a rua do meio perque 
elíe hia , era mui Íngreme 3 e toda fe fubia 
em degráos 3 tanto que os Mouros a viram 
bem cuberta dos nofíbs , affi per fima dos 
eirados , como per baixo pelas ruas , chu- 
viam , e corriam pedras ; e eílas que cor- 
riam eram as mais perigoías por ferem gran- 
des 5 e redondas 5 ordenadas pêra aquelle mif- 
ter 4 as quaes como tomavam galga , vi- 
nham tão furiofas pela rua abaixo , que 
pareciam vir efpedidas de algum trabuco. 
E fegundo na entrada deita rua perque 
D. Lourenço entrou , os Mouros fe houve- 
ram hum pouco remidos em defender a 
tranqueira que a fechava, pareceo que o fi- 
zeram de induftria, pêra que como os nof- 
fos a encheíTem , foltarem eftas pedras ; e fe 
affi não foi , parece que Deos lhes quebrou 
o coração , porque verdadeiramente fe elles 
o tiveram tão defenfavel, como era o fitio 
da Cidade , e a íiibida deíia entrada a ao 
menos per ella nunca a Cidade viera a nof- 



248 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

fo poder. Mas como todos andavam aflbm- 
brados do que ouviram dizer de Quiloa , 
tanto que ouviram as trombetas detrás de 
íí no terreiro dos paços d 5 ElRey , e foube- 
ram fer elle acolhido pêra o palmar, pare- 
cendo-lhes eítarem cercados , e que os ha- 
viam de entalar naquellas ruas per baixo , 
e per lima , começaram de bufcar falvaçao , 
furando pelas cafas. D. Lourenço como feu 
intento era íubir ao alto da Cidade , onde 
eítava ordenado que fe havia de ajuntar 
com feu pai , dcfpejada a rua deite primeiro 
impeto das pedras, íubio té chegar ao ter- 
reiro d'ElRey ; e ante que fahiíte da gar- 
ganta das ruas que vinham dar nelle , lei- 
xou alguns Capitães por lhe não virem dar 
os Mouros nas coitas , levando hum golpe 
delles ante íi , como quem tange gado. Os 
quaes Mouros hiam de boa vontade , por- 
que os encaminhavam pêra as cafas d'El- 
Rey , parecendo-lhes acharem ainda lá algu- 
ma guarida. Vendo D. Lourenço que as ca- 
fas eítavam em poder de Ruy Freire, e dos 
Clérigos , e Frades de S. Franciíco > que no 
alto delias tinham arvorado huma Cruz , 
animando a todolos que alli chegavam no 
exalçamento daquellc final , pareceo-lhe que 
aquella parte eítava já fegura , pois delia ti- 
nham tomado poíTe dous gládios efpiritual , 
ç temporal , e começou encaminhar per on- 
de 



Década I. Liv. VIII. Cap. VIII. 249 

de feu pai fora , o qual achou já defafron- 
tado dos Mouros por ferem acolheitos ao 
palmar. E vendo ambos que por aquella 
parte eílava o negocio de todo acabado , 
tornáram-fe ao terreiro das calas d'ElRey, 
onde também os outros Capitães eílavam 
fem ter a quem oíFender , e alli lhe veio re- 
cado dos outros , que mandara queimar as 
náos, como eram queimadas , com que hou- 
ve por acabada toda a obra daquelle dia. 
Finalmente , porque a calma era grande , e 
o trabalho fora muito , e todos eílavam por 
comer , repartio D. Francifco as eílancias 
da Cidade per os Capitães , e mandou os 
feridos ás náos , os quaes feriam mais de 
fetenta , e mortos fomente quatro com Dom 
Fernando Deça , o qual parece que tinha o 
martyrio de fua vida , e morte nas mãos dos 
Mouros; porque quando partio deite Rey- 
no havia pouco que fahíra de cativo polo 
cativarem com Diogo Lopes Sequeira , fendo 
Capitão de Arziila , como contamos em a 
noífa Parte de Africa. A morte das quaes 
peífoas foi vingada cem morte de mil e 
quinhentos e treze Mouros , fegundo elles 
mefmos difleram , e duzentos cativos dos 
mil e tantos, que fe depcis tomaram ao fa- 
quear da Cidade. Poílo D. Francifco , e a 
gente em repoufo de comer huns bocados 9 
da eílancia que era vizinha ao palmar ,. on- 
de 



a$o ÁSIA de JoÁo de Barros 

de cílava Ruy Freire , veio recado ao Ca- 
pitão mor, que eftava alli hum Mouro ca- 
peando com huma bandeira branca, ao qual 
clle mandou Gafpar da índia que íòubeíTc 
dellé o que queria , e trouxe recado , que di- 
zia EIRey , que ante daquelia Cidade rece- 
ber mais damno , clle fe queria fazer tribu- 
tário d'E!Rey de Portugal , e que pêra iílb 
fe queria ver com elle Capitão mor. Mas 
parece que ou cílc recado não era d'ElRey, 
ou defeonfiado dos méritos de fua peflba , 
não quiz vir , mandando-lhe D. Franciíco 
por ieguro huma manopla lua 5 e depois 
hum capacete. O qual recado por fer trato 
de paz metteo logo a gente em alvoroço de 
duas coufas : a huma , que faqueaffem a Ci- 
dade primeiro ; e a outra , que commctief- 
fem o palmar onde eílava EIRey, pois não 
acceptava cila paz , que mandava pedir , e 
lhe concediam. E fobre eííe commetter do 
palmar , algumas peífoas nobres mais defe- 
joías de gloria , que do defpojo da Cidade , 
apertavam com o Capitão mor que o en- 
traíTem ; mas elle o defviou diflb , dizendo , 
que fe contentaíTem com dar-lhe N. Senhor 
aquella Cidade tanto a leu falvo , fendo a 
mais temida de toda aquella coíla ; porque 
entrar o palmar era coufa mui perigofa 
pof fer mui bailo , e per baixo ter tanto 
feno 5 e herva > que fe não podiam os hoj 

mens 



Década I. Liv. VIII. Cap. VIII. 25T 

mens defempeçar , e detrás dos pés das pal- 
meiras os frechariam a todos ; dando ainda 
outras razões , com que converteo o alvo- 
roço deita entrada a faquearem a Cidade , 
que repartio por capitanias por fe não fa- 
zer alguma defordem. O movei da qual, 
por não fer alguma coufa defpejada , foi tan- 
to , que fe encheo o terreiro , e as caías d'El- 
Rey da primeira cevadura daquelle dia- e 
ao feguinte foi ainda tanto , que por não pe- 
jar as náos , não confentio D. Francifco que 
fe embarcaíTe , nem menos mil almas , que 
alli foram tomadas , fomente duzentas , que 
repartio por eífes Fidalgos 5 e as mais por 
ferem mulheres , e outra gente fraca , man- 
dou foltar. Paliados dous dias na efcala da 
Cidade , quando veio ao terceiro , em fe que- 
rendo recolher , mandou-lhe D. Francifco 
pôr fogo per muitas partes, e tanto fe ateou 
em pouco efpaço , pelas cafas ferem mui api~ 
nhoadas , que quando fe embarcou já o fu- 
mo 3 e as chammas dq fogo traziam todo o 
ar tão corrupto , que o não podiam foffrer. 
O qual fogo abrazou a maior parte daquel- 
la Cidade de abominação , ficando nella hu~ 
ma faifca de efcandalo 5 que dahi a vinte e 
três annos a tornou outra vez a pôr naquel- 
le eftado , como veremos em feu tempo. A 
efte tempo que D. Francifco quiz partir pê- 
ra Melinde , era o vento tanto por davante 

pe- 



2,5- ÁSIA de João de Barros 

pela garganta do rio , que á força de toas 
tirou as náos fora j e em quanto andou ncf- 
te trabalho , mandou a Bermum Dias , e a 
Gonçalo de Paiva , que lhe foflem fazer al- 
gumas coufas preftes. E aíli eipedio Gonça- 
lo Vaz de Bóes , que elle trouxe de Quiloa ? 
e havia de ficar nella, o qual levou muita 
roupa pcra o refgate de Çofala , a que elle 
havia de ir entregalla depois que chegaíle 
Pêro da Nhaya. E á efpedida defte navio 
chegou Vaíco Gomes de Abreu com o maf- 
tro quebrado de hum temporal , que o fez 
apartar de Baftião de Soufa, e com muita 
gente doente , por razão dos quaes doentes 
D. Franciíco o mandou em companhia def- 
tes navios , e elle deteve-fc ainda quatro 
dias , porque no trabalho que teve na íkhi- 
da , perdeo o leme a náo Lionarda Capitão 
Diogo Corrêa , no qual tempo fe fez ou- 
tro , e também proveo de Capitão do na- 
vio , em que daqui foi D. Fernando Déça , 
a Rodrigo Rabello. Pofto D. Francifco em 
caminho , por muito que encommendou aos 
Pilotos , que tiveífem tento não efeorrefleni 
Melinde, que feria dalli vinte léguas, toda- 
via as aguas o levaram abaixo oito a huma 
angra , a que ora chamam de Sanóta Hele- 
na , onde achou João Homem Capitão da 
caravela. S.Jorge. O qual diííe , que com o 
temporal que Vaíco Gomes de Abreu íè 

apar- 






Década I. Liv. VIII. Cap. VIII. 25-3 

apartou de Baílião de Soufa , fe apartara cl- 
le , e Lopo Sanches , correndo ambos á 
vifta hum do outro 5 té que outro tempo os 
apartou , no qual caminho tinha paliado bem 
de trabalho , e defcubrio novas Ilhas. EI- 
Rey de Melinde , como pelo recado 5 que 
lhe D. Francifco enviou eítava apercebido 
com todalas coufas pêra o receber, vendo 
que o tempo o levava áquella angra , alli 
o mandou vifitar com tudo , dando-lhe a 
prol- faça da tomada de Mombaça , que foi 
o maior prazer que lhe pudera vir. Porque 
além das paixões antigas, quepornoíFa cau- 
fa tinha com o Rey delia , fe deíla feita não 
ficara deftruido totalmente , elle Rey de Me- 
linde padecera muito mal, e acaufa era ef- 
ta. Tanto que EIRey de Mombaça vio a 
deftruição de Quiloa , mandou apertadamen- 
te requerer a EIRey de Melinde 3 que fe fi- 
zeíTe em hum corpo contra nós , movendo- 
Jhe cafamentos de filhos com filhas ? não tan- 
to por defejar fua liança , quanto a fim de 
o pôr em ódio comnofco , parecendo-lhe 
que per efte modo feria deftruido. Mas co- 
mo EIRey de Melinde lhe negou feu re- 
querimento , houve-fe por mui injuriado em 
defprezar fua liança , e jurou que paífado 
D. Francifco á índia , havia de ir fobre elle 
com todo feu poder. As quaes coufas fa- 
bendo D, Francifco ? mandou muitas dodef- 

po- 



i$4 ÁSIA de João de Baruos 

pojo de Mombaça a EIRey de Melinde , e 
outras , que lhe EIRey D. Manuel mandava 
como a fiel amigo , com palavras conformes 
aos méritos da lealdade , que tinha comnof- 
co , e aos propofitos d'ElRey de Momba- 
ça. PaíTados eííes recados , e viíitaçòcs que 
houve de parte a parte , partio-le D. Fran- 
cifeo daquella angra vefpera de San&o Agoí- 
tinho com quatorze velas , e em dezefeis dias 
chegou á índia ao porto de Anchediva com 
menos duas , de que eram Capitães Bcrmum 
Dias , e Valco Gomes de Abreu , que che- 
garam depois , e aífi Baftiao de Soufa com 
eftas y menos Lucas de Affonfeca , que inver- 
nou em Moçambique pelo tempo o não lei- 
xar ir avante 5 e Lopo Sanches , que fe per- 
deo , como íe adiante verá* O qual Baftiao de 
Soufa trouxe cartas do novo Rey de Qui- 
loa Mahamed Anconij , e d'ElRey de Mc- 
linde, em que davam conta da paz, e oef- 
tado da terra. E entre algumas coufas 3 que 
'Baílião de Soufa contou ao Capitão mor 
do que acontecera depois de íua vinda, fe- 
gundo foube de Pêro Ferreira Capitão de 
•Quiloa 5 foi ? que Habraemo deíterrado , que 
fe intitulava Rey delia , procurando a mor- 
te a Mahamed Anconij , mandou hum Mou- 
ro que o vieífe matar dentro nas fuás ca- 
las* O qual vindo ao negocio , pofto que 
-o commetteo como valente homem > não 

fez 






Dec. I. Liv. VIIL Ca?. VIIÍ. "e IX. 257 

fez mais que -dar-lhe com . huma agonia pe- 
lo bucho de hum braço', de que houve fau- 
de , em pagamento da quai oufadia foi ef- 
•quartejado 5 que fez grande terror entre os 
Mouros , e foi caulà que os outros dahi 
em diante tiveram mais veneração ao novo 
Rey Mahamed Anconij , vendo como vin- 
gávamos as offenfas 7 que lhe eram feitas/ 

CAPITULO IX. 

De algumas coujas , que Z). Francifio 
ãe Almeida fez r em quanto fe trabalhava 
na obra da fortaleza de Anchediva : e os 
recados , que alli teve d^ElRey de Onor per 
feus Embaixadores : e ajji de alguns Mou- 
ros vizinhos d fortaleza procurando fua 
amizade. 

DOm Francifco de Almeida chegando 
á Ilha de Anchediva , a primeira cou- 
ia que fez , foi eípedir João Homem com 
cartas áos Feitores de Cananor, Cochij , e 
Coulão , efcrevendo-lhes de fua chegada , e 
•o que ficava fazendo , que entre tanto fizef- 
fem preftes aos mercadores , que trouxeííem 
a efpeciaria pêra a carga das náos , porque 
elle feria logo lá. E afli efpedio Rodrigo 
Rabello , e a Gonçalo de Paiva 5 que andai- 
íèm daquelle lugar de Anchediva té omon- 
-te Delij ■-, e fizeíTem arribar a elle todalae 

náos 



256 ÁSIA de João de Barros 

náos de Mouros ; e as que o não quizeflcm 
fazer , as metteíTem no fundo , principalmen- 
te as de Meca , e Calecut ; porque a eítes 
dous lugares Anchediva , e monte Delij vi- 
nham demandar todalas náo9 de Meca , Or- 
muz , Cambaya , pelas caufas que em outra 
parte diííemos. E a principal que movco a 
EIRey D. Manuel mandar a D. Francifco 
que fízeíTe neíla Ilha Anchediva huma for- 
taleza y foi por fer pegada na terra de vol- 
ta aos mareantes pêra luas aguadas , e mui 
abrigada de todolos ventos pêra nella po- 
derem invernar , e eftar no meio de toda 
a cofta da índia. Na qual Ilha parece que 
algum Príncipe magnífico, ou zelofo dobem 
commum , a fim do proveito dos navegan- 
tes , no alto delia mandou fazer hum gran- 
de tanque de cantoria em lugar de agua na- 
divel , do qual per hum córrego abaixo cor- 
re huma quantidade de agua , que vem dar 
na praia , pêra que as náos que alli forem 
ter façam fua aguada. Defronte do qualcor- 
rego 5 que he na face da Ilha contra a terra 
firme , fica o abrigo pêra as náos , e da ban- 
da de fôra em torno delia eftam quatro 
ilheos, que também ajudam abrigar aquelle 
porto , porque quebra a fúria do mar nel- 
les ; e nefte lugar de ancoragem eílava Dom 
Vafco da Gama efpalmando feus navios 
quando com elle veio terGaípar da índia, 

que 



Década I. Liv. VIII. Cap, IX, 257 

que era alli com D. Francifco ao fazer da 
fortaleza , a qual elle fez de pedra , e bar- 
ro , por não adiar modo pêra haver cal: 
enefte tempo também fe armava huma ga- 
lé de madeira , que foi lavrada deite Rey- 
no j e outra tanta fe perdeo em o navio de 
Lopo Sanches , como veremos , pêra duas 
que houveram de fer* O trabalho das quaes 
obras repartio em duas capitanias , o da 
fortaleza deo a Manuel Paçanha , a que Iria 
de cá provido da capitania delia por El- 
Rey; e o da galé a João Serrão , que tam- 
bém a levava de cá , e com efta galé tam- 
bém fe fizeram dous bargantins pêra anda- 
rem em companhia delia , de hum era Ca- 
pitão Simão Martins , e d 5 outro Jacome 
Dias* Profeguindo a obra nefta ordem , to- 
da a gente daquella coita ficou em confu- 
são , principalmente os Mouros , porque não 
fomente os aífombrou o, numero das velas 5 
gente ■ d 5 armas , e nova do que D. Francif- 
co leixava feito per onde vinha , mas ain- 
da ver fundar huma fortaleza doze léguas 
de Goa , huma Cidade doSabayo, queper- 
tendia querer fènhorear toda aquella Comar- 
ca , tomando as terras aos Gentios , como 
fez as do eílado de Goa. E aífi eíles per 
fuás intelligencias , como os vizinhos de An-' 
chediva,.que eram os de Sintacola , e An- 
coh , que eftavam defronte 5 procuravam per 
Tom.L P.iL R feus 



158 ASIÀ de João de Barros 

fcus meios que o Gentio da terra , acerca dos 
quaes éramos acceptos , fenao fiaflem de nós y 
nem deíTcm ajuda alguma , ante trabalhai- 
fem como aqueila fortaleza le não fizefle 5 
por lhe fer hum grave jugo a noíía vizinhan- 
ça ; e quem primeiro moftrou efta amoefta- 
ção dos Mouros , foi EIRey de Onor , que 
era dalli oito léguas per efta maneira. Co- 
mo João Homem , que D. Francifco dalli 
cípedio, paflbu per Cananor, e deo o reca- 
do que levava a Gonçalo Gil Barbofa , que 
Já eftava por Feitor , elle Gonçalo Gil em 
hum barco da terra per hum homem da 
Feitoria lhe efereveo , dando-lhe razão de 
íi , e do eftado da terra ; c de outras cou- 
ías , que convinlia fer D. Francifco infor- 
mado delias. Per o qual homem , quando 
D. Francifco refpondeo a Gonçalo Gil Barbo- 
fa , mandou hum recado a EIRey de Onor , 
que eítava em caminho ; porque além de fer 
o mais chegado vizinho daquella fortaleza 
que elle começava , fabia fer aquelle porto 
acolheita do coífairo Timoja Capitão d'El- 
Rey , o qual Timoja era aquelle , que veio 
alli commetter D. Vafco da Gama. A fub- 
ftancia do qual recado, que lhe D. Francif- 
co mandou , era fazer-lhe faber fer a] li vin- 
do , e o contentamento que tinha de o ter 
por vizinho daquella fortaleza pêra fe pres- 
tarem como amigos , por EIRey feu Senhor 

lho 



Década I. Liv. VIII. Ca?. IX. 25-9 

lho encommendar muito , e que trazia algu- 
mas coufas para praticar comelle da fua par- 
te, que lhe pedia ordenaííe como fe pudef- 
fem ver. Ao qual recado elle não refpondeo 
efta vez, nem outras que D. Francifco lá 
mandou de propoíito , e não de paliada , co- 
mo o primeiro , fomente em feu nome re- 
ípondia hum Capitão, que eftava emOnor, 
e tudo eram defculpas , dizendo , que EIRejr 
feu Senhor eítava mettido dentro no fertãõ 
em hum negocio de guerra , que por iíTo 
não vinha a refpofta dos recados , e com 
eftas efcufas mandava palavras geraes de of- 
fertas por dilatar tempo , e fe prover pêra 
rompimento , fe o ahi houveíTe. D. Francif- 
co recebia eftas coufas com brandura, diíll- 
mulando a verdade que delias fentia , emoí- 
trava aos feus menfajeiros. gazalhado , dan- 
do-lhes dadivas, e boas palavras , porque o 
tempo nao era pêra mais. Mas parece que 
aííí eftava ordenado per EIRey de Onor, 
porque ao fegundo dia chegárkm per mar 
dous feus Embaixadores , como homens que 
eram innocentes de tudo o que era paliado 
entre elle D. Francifco , e o Capitão. Di- 
zendo , que como a nova daquella frota , e 
obra que fe alli fazia , fora ter a EIRey de 
Onor , pofto que andaíle occupado em huns 
movimentos de guerra mui aifaílado da cof- 
ta domar, pelo defejo que tinha da amiza- 
R ii de 



z6o ÁSIA de João de Barros 

de cPElRey de Portugal y e de fe preílar 
com elle Capitão , pois vinha fer alli vizi- 
nho , logo os enviara ao viíitar , e offerecer 
tudo o que houvcfle miíler de mantimen- 
tos ; e qualquer outra coufa que fofle necef- 
faria pêra provimento daquella obra. Dom 
Franciíco , depois que lhe refpondeo a cilas 
offertas geraes , quiz dar alguma culpa ao 
Capitão de O.nor em náo lhe refponder a 
propoíito ; ao que clles refpondêram , que á 
liia partida EIRey feu Senhor não era fa- 
bedor do primeiro recado , quanto mais das 
outras coufas que elle dizia , que iíto lhe 
podiam affirmar , EIRey haver muito de fen- 
tir quando o foubefle y peró que aos Capi- 
tães dos Príncipes toda cautela era licita por 
legurança do eftado delles , em quanto não 
fabiam a fua vontade ; que clles dariam con- 
ta deitas coufas a EIRey , e em breve tor- 
nariam com reípoíla. D. Franciíco , por efte 
fer o primeiro recado d'ElRey , diffimulou 
com eftes feus Embaixadores , dizendo , que 
ria refpoíla que trouxeíTem haveria o pana- 
do por verdadeiro , ou falíb , e efpedio-os 
mui contentes das palavras > e coufas que 
levavam por retorno das que trouxeram. 
Partidos eíles., dahi adousdias vieram cer- 
tos Mouros , que eftavam no porto de Onor ,• 
com efte requerimento : Que por quanto el- 
Ics eram vaflal los d'E!Rey de Ormuz, da 

qual 



Década I. Liv. VIII. Cap. IX. i6t 

qual Cabiam o grande defejo que tinha da 
amizade d'ElRey" de Portugal 3 e cujas eram 
hiimas finco náos , que eftavam furtas no 
porto de Onor, pediam â Sua : Senhoria hou- 
veífe por bem de lhe dar hum feguro pêra 1 
poderem navegar. Que quanto ao negocio 
que entre elle , e o Capitão de Onor era 
paíTado per recados , elles o fouberam : e 
por verem que o Capitão d 5 ElRey fe re-' 
mettia á vontade delle , cujo recado tardava 
muito , elles determinaram de fe fahir da- 
quelle porto de Onor, e que o não quize- 
ram fazer fem diíío vir dar conta a elle 
Senhor Capitão mor; que fe lhe approuvef- 
fe elles fe metterem entre elle , e EIRey de 
Onor pêra o trazerem ao ferviço d'ElRey 
de Portugal , que o fariam de mui boa von- 
tade j porque nifto Ih^parecia que ferviriam 
a EIRey de Ormuz feu Senhor , pela boa 
vontade que fabiam ter ás coufas d 9 ElRey 
de Portugal. E que ainda fe atreviam fazer 
com elle Rey de Ormuz , que déffe em finai 
de amizade cada anno huma rica jóia , e 
que em retorno deita amizade lhe leixaífe 
elle Capitão mor navegar dez , ou doze náos 
naquella coíla da índia, que ordinariamen- 
te mandava cada anno pêra provimento de 
coufas pêra fiia cafa, eque arefpofta d'El- 
Rey podiam elles trazer per todo Dezem- 
bro. D.Francifco peró-que e-ntendeo que a 

yiri* 



2Ô2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

vinda deites Mouros foi na fegurança das 
palavras , que elle havia três dias que paíTá- 
ra com os Embaixadores d'ElRey de Onor , 
e que tudo era por fegurar fuás náos , to- 
davia os defpachou com graça , e gazalha- 
do , moítrando ter contentamento da vinda 
de taes pcflbas , e concedeo-lhes o feguro 
de fuás náos por ferem Parfeos do Reyno 
de Ormuz. Que quanto ao que promettiam 
cPElRey de Onor, elle efpedíra , havia três 
dias , feus Embaixadores , per os quaes efpe- 
rava haver leu recado , que niílo recebia 
prazer delles , faber EIRey de Ormuz feu 
Senhor como elle tratava íuas coufas , e do 
mais que promettiam cumpriíTem com fua 
palavra , e que na obra EIRey o acharia 
mui certo. E porque efta pratica foi em ter- 
ra , onde fe fazia a obra da fortaleza , e en- 
tendeo nelles que defejavam ir com elle á 
náo , quando fe recolheo á tarde , os Jevou 
comíigo ; e como elles não eram coíluma- 
dos ver aquella grandeza da náo S. Jero- 
nymo , e tan{a artilheria , armas , munições , 
e ferver dos nofibs , aíli na obra da terra , 
como do mar , ficaram pafmados , e muito 
mais quando lhe contaram dous Mouros Gu- 
zarates cativos , que foram tomados cm 
Mombaça, o que viram fazer aos noífos na- 
quella Cidade , e ouviram do que leixavam 
fçito em Quiioa. Partidos eítes Mouros af- 

fom- 



Década L Liv. VIII. Cap. IX. 263 

íbmbrados do que viram , e ouviram , ao 
íeguinte dia vieram outros de huma forta- 
leza chamada Cintacora , que feria dalli meia 
légua , e por entrada trouxeram hum Galle- 
go remeiro do bargantim Capitão Jacome 
Dias , que per mandado do Capitão mor ha- 
via dous dias que fora áquelle rio trás dous 
zambucos. OqualGallego fahindo com ou- 
tros em terra , quando veio ao recolher , fe 
leixou ficar como homem, que queria faber 
o que lá paliava; mas logo foi tomado , e 
trazido ao Capitão da fortaleza , que orde- 
nou de o enviar com hum prefente de re- 
frefco a D. Francifco com titulo de viíita- 
çao 5 defculpando-fe de o não ter feito y e 
<que a caufa fora fer elle aufente , e que em 
chegando , a primeira coufa que foube , foi 
daquella boa vizinhança que tinha com fua 
Senhoria , do que houve muito prazer , e em 
final delle , e de bom vizinho , lhe mandava 
aquelle refrefco. D. Francifco , efpedidos os 
menfajéiros que lhe trouxeram efte recado y 
com outro tal retorno de coufas , que lhe 
mandou dar , pofto que quizera caíligar efte 
Galiego por fe leixar ficar em terra entre 
Gentios , e Mouros ., não o quiz fazer por 
elle fer caufa de o efpertar em alguma cou- 
fa de que eftava dcfcuidado , havendo efta 
ficada fer mais permifsão Divina , que ma- 
lícia fua. Porque per elle foube que dentro 

do 



264 ÁSIA de João de Barros 

do rio , onde fe acolheram os caravelões trás 
que Jacome Dias foi , eílava huma fortale- 
za mui defenfavel , aífi per natureza , como 
artificialmente, em que haveria mais de oi- 
tocentos homens , e grande parte delles Mou- 
ros brancos , a qual çaufa logo deo fufpei- 
ta a D. Francifco , como que o feu efpirito 
lhe prognoílicava o trabalho , que lhe eíla 
fortaleza havia de dar; e muito mais a te- 
ineo , depois que foube fer ella do Sabayo 
Senhor da Cidade Goa , que feria dalli do^ 
ze léguas. A qual como era extremo do 
Reyno de Onor , que fe apartava do fenho- 
rio de Goa per hum rio chamado Aliga , ao 
longo do qual ella eílava fuuada por eíla 
razão de fer frontaria , fempre eílava bem 
provida de gente de guarnição pola guerra 
que muito tempo havia que tinham com El- 
Jley de Onor, de que ao diante diremos a 
caufa. Porém depois que entrámos na ín- 
dia , e as noífas náos foram demandar aquel- 
la Ilha Anchediva , por caufa de fazerem allx 
fuás aguadas , teve o Sabayo mais tento 
nella, e a mandou fortificar , e muito mais 
como foube 3 que fazia D, Francifco pola 
vizinhança que tinha com ella , e eíla foi a 
caufa deeílarnella tanta gente de guarnição, 
principalmente alguns Mouros brancos , que 
elle não empregava fenão em parte de que 
fe muito temia. D. Francifco , pôílo que não 

fou- 



Década I. Liv. VIIL Cap. IX. 26c 

foube eftas coufas do Gallego , fomente po- 
lo que elle diífe do que vira , mandou leu 
filho D. Lourenço , e com elle Baftião de 
Soufa , João da Nova , e Antão Vaz , todos 
em bateis com agente que puderam levar, 
e providos do neceíTario pêra qualquer cou- 
fa que íòbrevieíTe. O qual D. Lourenço não 
fe havia de moftrar que hia alli , por não 
dar alguma preíumpção aos Mouros quan-r 
do vifTem peffoa tão notável , fomente hiam 
rodos em modo de viíitaçao da pane do 
Capitão mor ao Capitão da fortaleza , e aífi 
fefez. Porque não houve mais que notarem 
elles. o que lhes era mandado, e o Capitão 
delia vir eílar á falia com elles , e aíTentarem 
paz como bons vizinhos , e trazerem de lá 
algum refrefco : e dahi a poucos dias pêra 
maior confirmação deita paz , o Capitão da 
fortaleza mandou feus menfageiros a Dom 
Francifco com dous zambucos carregados 
de mantimentos. Peró todas eílas coufas eram 
feitas mais por temor que a outro fim , co- 
mo dahi a pouco tempo fe vio , fegundo 
adiante veremos. A efte tempo chegou hum 
fobrinho do Feitor Gonçalo Gil com cartas 
fuás ao Capitão mor , e entre muitas coufas 
que lhe mandava dizer, era do bom avia- 
mento que tinha pêra a carga das nãos , e 
o grande temor que a fama daquella Arma- 
da tinha pofto em toda a terra , principal- 

ííien- 



i66 ÁSIA de João de Barros 

-mente quando ouviram o feito de Quiloa , 
e Mombaça , que tinham grande nome na 
índia por razão do trato do ouro. Com as 
quaes novas eftando EIRey de Calecut per- 
to da Cidade em huns paços feus , fe reco* 
lheo pêra o pé da ferra, e que lá adoecera 
de grave doença ? e muitos dos principaes 
também o feguíram , levando comfigo mu- 
lheres , e fazenda , fimulando que era por 
caufa da doença d'ElRey, e que na Cida- 
de de Calecut havia grande preíTa pêra fé 
acabar hum a forte eftacada de groíTa ma- 
deira ao longo do mar com entulho de ter- 
ra , coufa mui defenfavel. E também tinham 
por nova haver poucos dias que viera bu- 
iria náo de Meca , que trouxera alguns fun- 
didores de artilheria , e muitas armas , os 
quaes trabalhavam de acabar duas peças 
groíTas pêra aíTeftar na frontaria da Cidade 
com outras que já eftavam poítas. E mais 
fouberam per hum Frade , que de Narfín- 
ga viera ter alli a Cananor , como ElPvcy 
de Narfinga , que era quafi hum Emperador 
do Gentio da índia em eftado , e riqueza , 
ordenava Embaixadores pêra lhe enviar 5 e 
que lhe parecia fer efta embaixada a fim de 
fegurar alguns portos , que tinha naquella 
coita , de que os principaes delles eram Ba- 
ticaía i e Onor. Sobre eftas , e outras novas , 
que D. Francifco cada dia tinha do eftado 

da 



Década I. Liv. VJIL Cap. IX. 267 

da terra, e movimentos dos Príncipes del- 
ia , íbbreveio que com hum tempo , que ha- 
via dous dias que andava no mar , hum 
zambuco grande cuidando que ainda aquel- 
le abrigo da Ilha eftava defpejado , vinha-o 
demandar , e quando fe achou entre tão 
grande frota , com temor , vendo que os nof- 
fos fe difpunham pêra ir a elle , foi cor- 
rendo ao longo da cofta contra Onor , e 
vendo que. não podia efcapar aos noífos 
que o feguiam , deo comíigo em terra. Dcm 
Lourenço de Brito , e outros Capitães , que 
hiam trás elle em feus bateis , quando lhe 
chegaram foi a tempo que não acharam nel- 
le mais que doze cavaJlcs , porque os Mou- 
ros eram acolhidos pela terra dentro , os 
quaes vinham de Ormuz fegundo depois 
fouberam. E porque o tempo era tal , que 
com muito trabalho tornariam á fortaleza > 
quanto mais trazer comíigo o zambuco , 
diííe D. Lourenço aos Mouros da terra , 
(que logo acudiram á praia, como a vizi- 
nhos da fortaleza , ) que lhes entregava aquel- 
les cavallos pêra darem conta delles quan- 
do lhos pediíTem , o que os Mouros acce- 
ptáram de boa vontade, e cumpriram mui 
mal , donde procedeo o que fe verá neíle 
feguinte Capitulo* 

CA- 



^68 ÁSIA de João de Barros 
CAPITULO X. 

• 

domo partido D. Francifco de Anchediva y 

deo em Onor , onde queimou as nãos do 

porto : e do que pajjòu com Timoja. 

DOm Francifco de Almeida como teve 
a galé ? e bargantim lançados ao mar, 
e vio que a fortaleza ficava já em eftado 
pêra fe poder defender , tomou a omena- 
gem delia a Manuel Paçanha , que vinha 
provido por EIRey da capitania , e Duarte 
Pereira de Alcaide mor, e aíli o Feitor, e 
Efcrivacs com íodolos outros Officiaes pêra 
ferviço delia , que com os homens de ar- 
mas feriam té oitenta peífoas , afora a gen- 
te do mar , que ficavam nos bargantins , de 
que eram Capitães Simão Martins , e Jacc- 
me Dias. E entre algumas peífoas nobres , 
que ficaram naquella fortaleza , foram eftes 
filhos de Manuel Paçanha, João Paçanha, 
Jorge Paçanha , Francifco Paçanha , Ambro- 
£0 Paçanha , e Álvaro Paçanha , que era 
baftardo , o qual em feitos , e qualidades 
de fua peífoa não havia inveja a feus irmãos , 
ainda que tiveífe efte labéo , e no decurfo 
defta hiftoria fe verá como todos merece- 
ram ferem juntamente aqui nomeados* Fi- 
cando eíla fortaleza provida de todo o ne- 
ceífario , partio-fe D. Francifco com fua fro- 
ta 



Década I. Liv. VIII. Caí. X. 269 

ta a dezefeis dias de Oélubro pêra o porto 
de Onor , onde achou Gonçalo de Paiva, 
que elle enviara diante y o qual tinha to- 
mado finco zambucos ; e porque dous dei- 
les traziam feguro de D. Francifco , por 
ferem daquelles , que levavam a vender man- 
timento á fortaleza de Anchediva , foram 
foltos, e dos outros houveram trinta Mou- 
ros , e huma fomma de arroz pêra manti- 
mento da gente. Surta toda a frota na bar- 
ra do rio , dentro do qual pouco mais de 
huma légua eílava a Cidade Onor , mandou 
D. Francifco a Fernão Soares com alguns 
bateis faber fe eftava EIRey nella , ou os 
feus Embaixadores , por quanto elle vinha 
cumprir o que ficara com élles y que quan- 
do paífaífè pêra baixo viria áquelie porto , 
pois EIRey lhe mandara dizer , que elle 
feria alli pêra fe verem ambos , e affenta- 
rem paz , e amizade. E quando elle per li 
o não pudeífe fazer por eítar em outra par- 
te 5 que mandaria o Capitão da Cidade , e 
os meímos Embaixadores , que em feu no- 
me o fizeíTem; e que fe não tinham recado 
algum dlilRey fobre efte negocio, que fof- 
fem algumas peíToas principaes a elle Capi- 
tão mor pêra praticar comelles coufas, que 
faziam a bem da Cidade, e os que lá fof- 
fem levaífem os doze cavallos , que feus 
Capitães deram em guarda aos moradores 

da 



170 ÁSIA de João de Barros 

da terra. Tornado Fernão Soares com e£ 
te recado que levou , trouxe por reípoíla , 
que EIRey eítava dalii longe , como ellc 
fabia , e elles não tinham recado algum feu , 
nem os Embaixadores não eram vindos , e 
o Capitão da Cidade era chamado per EI- 
Rey , o qual não poderia muito tardar : que 
com mantimentos , e refreíco da terra , que 
de mui boa vontade o ferviriam por fabe- 
rem quanto prazer EIRey feu Senhor teria 
de o elles aífi fazerem ; e acerca dos cavai- 
los elles não podiam dar razão delles , pois 
lhe não foram entregues ; e que fegundo 
parecia , a entrega fe fizera a gente vadia , 
que acudio á coita , onde o zambuco fe 
perdeo , que elles mandariam fazer diligen- 
cia fobre iífo. D. Francifco , como jáeítava 
enfadado delRey , e de feus artifícios , e fe- 
gundo tinha por informação elle houvera 
os cavallos , afientou com os Capitães , que 
com as caravelas , e bateis fubiíTem aflíma 
dar humavifta á Cidade ; e quando não ref- 
pondeíTem mais a propofito do que té li ti- 
nham feito , fahir nella , e lhe dar caíligo 
de ferro. Poíla efta ida emeffeíto, em rom- 
pendo a Lua poz-fe D. Francifco em ca- 
minho , indo diante em companhia de Dom 
Lourenço , Fernão Soares , João da Nova , 
e Gonçalo de Paiva por já faberem o rio. 
Os Mouros como tinham vigia fobre dlcs y 

tau- 



Década L Liv. VIII. Cap. X. 271 

tanto que os fentíram embarcar , defpejáram 
a povoação , e íubiram-le a hum monte que 
citava íòbre ella, onde íèguramente fe po- 
diam defender. E pêra terem mais efpaço 
de o fazer á lua vontade , mandaram hum 
Mouro dos honrados do lugar obra de hum 
tiro de bombarda delle , que entretiveííe o 
Capitão mor 3 pedindo-lhe que os não qui- 
zeíle deílruir , porque elles íè queriam fazer 
vaífallos d'ElRey de Portugal com o tribu- 
to que a terra pudeíTe foffrer; e que a el- 
les lhe parecia que o feu Rey feria diíTo 
contente ^ cujo recado eíperavam ao outro 
dia por lhe já terem efcrito fobre ifíò ; e 
quanto aos cavallos 5 pofto que não eram 
fabedores de quem os houvera , elles os 
queriam pagar. D. Francifco , poilo que en- 
tendeo que o vinham entreter, como a fua 
tenção " não era mais que attrahir aquella 
gente á obediência de EIRey , reípondeo y 
que pêra fegurança do que promettiam lhe 
trouxeffem logo arrefens que entretiveííem 
a indignação daquelía fua gente de armas > 
fenão que a foltaria logo pêra irem tomar 
emenda dos enganos em que andavam, O 
Mouro lançando-fe a feus pés , difíe y que el- 
íe tornava logo com refpofta , a qual foi y 
que EIRey -feu Senhor eftava dahi a quatro 
léguas , e Timoja Capitão dos armados ; e 
o Capitão do lugar eram idos a recebello j 

que 



2jz ÁSIA de JoÁo de Barros 

que pediam a Sua Senhoria , pois entre el- 
les não havia peílba que pudefle aflentar 
coufa firme , fe entretiveííe té vinda de ca- 
da hum daquelles Capitães , ou d'E!Rey , 
que não podiam tardar , e entre tanto tivef- 
íe os raios de lua potencia , e os não qui- 
zefle eftender fobre a vida de tantos inno- 
ccntes y como a Sol , que então nafcia , os ef- 
tendia fobre os montes da terra. D. Fran- 
cifco lhe refpondeo , que era contente de 
entreter a fúria daquelles Cavalleiros , que 
alli havia armados , os quaes fcmpre foram 
piedofos aquém fe humilhava ás Armas de 
feu Rey , porém que não dava mais cfpnço 
que em quanto o Sol , que elle dizia , dé£ 
fe com os feus raios na altura do monte 
que eílava fobre o lugar , amoítrando-lhe 
aquelle onde fe elles acolhiam 3 ifto mais 
por acerto , que por faber o que elles fa- 
ziam, A qual palavra deo fufpeita ao Mou- 
ro que eram entretidos , e que moftrar-lhe 
o monte com o dedo era remoque diflò ; 
e como homem que recebia naquella ref- 
pofta huma grão mercê , debruçou-fe aos 
pés de D, Francifco , e efpedido delle , tor- 
nou-fe ao lugar a grão preífa , inoftrando 
o contentamento que. levava do que lhedif- 
fera. Mas como todas eítas dilações de ir, 
e vir eram a fim de fe acolherem ao mon- 
te y e elle eílava já bem cuberto do Sol 3 

que 



Década I. Liy. VIII. Cap- X. 273 

que era o termo de fua tornada , começa- 
ram os Mouros de fe moílrar armados ao 
longo da praia , como quem a queria defen- 
der. Vendo D. Franciíco efte defengano dei- 
les j repartio aquella frota de bateis em duas 
capitanias , mandando a D. Lourenço com 
fete delles, em que iriam cento e íincoenta 
homens , que foíTe aífima do lugar onde 
appareciam náos , e zambucos 5 e lhe puzef- 
fe o fogo fem fahir em terra , fenao vindo- 
lhe a reíiftir o feito ; e elle D. Francifco to- 
mou os mais que ficavam 5 e foi em refguar- 
do de D. Lourenço , porque fua tenção era 
queimar aquellas náos , e não o lugar , por 
faber que era da obediência d'ElRey de Nar- 
íínga ? cujos Embaixadores vinham a elle , 
fegundo lhe tinha dito o fobrinho de Gon- 
çalo Gil. Chegado D. Lourenço ao lugar 
das náos , era já tanta a gente derredor del- 
ias per toda a praia com apupadas , e alvo- 
roço de pelejar , que mais moftravam oufi- 
dia de offender os noífos , que temor de fe- 
rem offendidos. E com efte alvoroço , e ala- 
ridos que traz a fúria da guerra , de quan- 
do em quando lançavam huma nuvem de 
frechas perdidas em íima dos bateis , que 
fazia aífás de damno aos noíTòs ; e veio a 
tanto , que foi o Capitão mor frechado em 
hum pé , a qual frechada lhe deo mais in- 
dignação que dor; porque com ella feguio 
Tom. L P. //, S avan- 



174 ÁSIA de João de Barros 

avante , dando Sant-Iago , onde vio maio? 
íòmma da gente, que era junto detresnáos, 
que elles queriam defender , a que D. Lou- 
renço por huma parte , e Lourenço de Bri- 
to per outra punham fogo ; e quando che- 
garam a duas , que citavam mais avante ao . 
pé do monte • onde os Mouros recolheram 
fuás mulheres , e filhos , foi a fetada , e pe- j 
drada tanta , que daquella primeira chegada 
que os noíTos fizeram grão parte delles fica- i 
ram feridos , e cahio morto hum remeiro. | 
Mas com todo efte damno , que os nollbs 
recebiam , as náos começaram arder , e par- i 
te da povoação , o qual fogo nefte tempo 
foi amparo aos Mouros , e aos noíTos cau- • 
fa de receberem muito damno ; porque o i 
fumo , e labareda , que eítava entre huns > I 
e outros ; por cauía do terrenho que venta- i 
va , vinha da parte donde os Mouros fre- 
chavam á fua vontade , e principalmente pe- 
dradas , que defatinavam os noíTos , os quaes 
começaram de fe retrahir pêra a praia. 
D. Lourenço como fe tirou da frontaria dei- 
ta fumaça , tomando caminho ao longo do 
Kò , foi encavalgar a terra mais aílima por i 
lhe ficar o vento nas coitas ; e como rodeou ; 
o fogo , que o campo lhe ficou defcuber- ; 
to , tornou fobre os Mouros , os quaes ti- 
nham já hum corpo de gente comíigo de : 
mais de mil e quinhentos homens j e como : 

quem • 



Década I. Liv. VIU. Cap. X. tyf 

quem fe oíterecia á morte por falvar mulhe- 
res , filhos , e fazenda , que a olho viam ef- 
tar em gritos no monte , efperáram animo- 
famente a D. Lourenço , e Capitães que vi- 
nham com elle. No qual encontro fe tra- 
vou entre todos huma mui crua peleja , os 
noífos por lhe entrar na Cidade , e elies por 
a defender j e aílí carregou o grande nume- 
ro delies , que vieram alguns dos noífos buf- 
car abrigo dos bateis , por razão da artilhe- 
ria que varejava , e fazia melhor terreiro. 
Ao qual tempo chegou D. Francifco , que 
com fua gente tanto favoreceo eftoutra , que 
tornaram inveílir com os Mouros de ma- 
neira , que começaram de fe acolher ao mon- 
te , não podendo foífrer a fúria dos noílbs 
já aíTanhados do damno que recebiam j e 
derribavam nelles. D. Frâncifco , porque fua 
tenção , como diíTemos > era não deílruif 
aquelle lugar de Onor por fer de hum va£ 
falio d^EiRey de Narfinga , mas fomente quei- 
mar as náos da carga , e os navios de re- 
mos , que alli tinha Timoja Capitão dos 
coííairos , vendo que o fogo lhe tinha já 
dado vingança deitas duas couías ? e que a 
gente fe começava de metter em furor com 
o vencimento pêra ir mais avante , mandou 
dar ás trombetas que fe recolheífem. E por- 
que ao recolher dos bateis foube que pela 
rio aílima obra de meia légua eílavam aiuk 

S ii da 



iy6 ÀS1A de João de Barros 

da três náos de carga , começou de enca- 
minhar a ellas , e indo já fora da povoação , 
íe aprdfentou diante delle hum Mouro , que 
em ília prefença parecia homem honrado y 
o qual a grandes brados com aquclle efpi- 
rito de paixão , com que vinha ao longo 
do rio , metteo-íb na agua té á finta, pe- 
dindo ao Capitão mor que houvefle miferi- 
cordia delle , por quanto era natural de Ca- 
nanor , e eílava alli com aquellas náos que 
eram fuás , e cie outros homens principaes 
vafíallos de Cananor. D. Francifco quando 
o vio aífi affadigado , adiantou-fe com o feu 
batel , e o mandou recolher dentro , dizen- 
do , que não temefle , que fe aífi era como 
dizia , fuás náos feriam feguras por fer vaf- 
fallo d'ElRey de Cananor , a quem elle dc- 
fejava de comprazer pelo amor com que tra- 
tava as coufas do ferviço d'ElRey de Por- 
tugal feu Senhor ; e que outro tanto fizera 
a EiRey de Onor , fe quizera acceptar fua 
amizade , e não ufar de tanta cautela , e en- 
gano ; e finalmente fabendo certo que o 
Mouro era de Cananor , depois que fe re- 
colheo ás náos , o efpedio em paz. Acaba- 
do efte feito já contra a tarde daquelle dia , 
jazendo D. Francifco fobre huma camilha por 
caufa da frechada que houve no pé , chegou- 
hum menfageiro do Capitão Timoja , que 
lhe mandava pedir licença pêra feguramente ; 

vir 



Década I. Liv. VIII. Caí>. X. 277 

vir ante elle, e foi-lhe concedida, O qual 
Timoja como era homem nobre de bom 
feber, nefta primeira vida entendeo o' Capi- 
tão mor que lhe podia dar mais credito que 
aos Mouros ; porque aííi na fegurança de 
vir ante elle , como nas palavras de fua che- 
gada , e preíença de fua peííòa 3 parecia ho- 
mem digno de honra , e que convinha ao 
ferviço d'E!Rey fer recolhido em fua ami- 
zade , e por iiTo o recebeo com gazalhado. 
E entrando na prática , começou Timoja 
de pedir perdão de fua vinda fer tão tarde , 
e que a caufa fora occupaçóes , em que o 
trazia EIRey de Onorj mas que elle tinha 
pago efta negligencia em perder a maior 
parte de íeus navios , os quaes arderam em 
companhia das náos , a que fua Senhoria 
mandou poer fogo. Porém de qualquer ma- 
neira que foffe , elle fe vinha aprefentar por 
vaflallo d'ElRey de Portugal , e que efte 
defejo não era nelle novo, mas do primei- 
ro dia que vira Portuguezes naquelía terra : 
que lhe pedia por mercê houveffe por bem 
de o acceptar neíta conta , porque elle a que 
fazia de fua vida era empregalla em leu 
ferviço : Que quanto ás coufas d'ElRey de 
Onor 5 elle lhe mandava dizer , que feu de- 
fejo era fer vaífailo d 5 ElRey de Portugal , 
por ter amparo em hum tão grande Prínci- 
pe como elle era - 7 e o reconhecimento dei- 
ta 



17% ÁSIA de JoXo de Barros 

ta obediência feria com coufa que a terra 
pudeíle foffrer ; e que melhor era acceptar 
elle Capitão mor vaíTallos leaes ao ferviço 
d'ElRey de Portugal com pouco encargo , 
que reveis tributários : e também lhe pedia 
houvefle por efeufado elle Rey per fe vir a 
elle Capitão mor por lho impedir hum a cer- 
ta enfermidade , que lhe tolhia caminhar : 
Que acerca dos cavallos , que lhe diíferam 
que requeria aos moradores de Onor, elle 
tinha fabido nenhum dos que alli viviam ter 
parte na entrada delles ; e com tudo elle 
mandaria fazer exame diíTo, e per qualquer 
maneira que foífe os mandaria pagar , e el- 
le Timoja oíferecia alli fua peíToa cm pe- 
nhor de fe cumprir efta palavra. E também 
lhe pedia , que tomaíle por fatisfação de 
alguma culpa , que es moradores de Onor 
podiam ter em tomar armas contra fua ban- 
deira , o damno que por iíTo receberam : e 
que não era coufa nelles muito eftranha , 
mas grande lealdade , quererem defender a 
propriedade de feu Rey , fendo elle aufen- 
te , e não fabendo fua determinação. Dom 
Francifco aeíias palavras refpondeo gracio- 
famente , attribuindo muita parte aos méri- 
tos da peíToa d elle Timoja : Que quanto 
ao negocio da paz , e páreas d'ElRey de 
Onor y elle fe não podia deter ao prefente 
por lhe convir ir aCochij defpachar asnáos 

da 



Década I. Liv. VIII. Gap, X. 279 

da carga ; mas que feu filho D. Lourenço 
havia de tornar logo de Armada per aquel- 
Ja coita , ao qual elle daria commifsao pê- 
ra todas eftas coufas. Timoja , pofto que das 
palavras de D. Francifco ficou contente , não 
fequiz efpedir jdelle fem primeiro levar Pro- 
visão fua , em que havia por bem ,. que af- 
fentando feu filho paz comElRey de Onor, 
elle 5 e os Mouros de Onor pudeflem na- 
vegar feguramente pelos mares da índia , e 
conj efta Provisão fe eípedio de D, Fran- 
cifco. Do qual Timoja 5 poílo que ao dian- 
te havemos de fazer maior relação pelo fer- 
viço que fez a efte Reyno na tomada de 
Goa 5 aqui 3 por lhe tirarmos a infâmia de 
coflario daquella cofia 5 diremos fomente a 
caufa de fuás Armadas. Efte porto , e o de 
Baticalá 5 que eftá adiante fere léguas com 
outros defta coita 5 eram d ? ElRey de Biíha- 
ga 3 e efte Rey de Onor feu tributário , os 
quaes portos havia menos de quarenta an- 
nos que foram os mais célebres de toda 
aquella cofta 5 não fomente por a terra em 
fi fer fértil 3 eabaftada de mantimentos , on- 
de havia grande carregação pêra todalas par- 
tes , mas ainda era entrada , e fahida de to- 
dalas mercadorias pêra o Reyno de Bifna- 
ga ? de que EIRey tinha grande rendimen- 
to : Principalmente dos cavallos da Arábia , 
e Perfia > que aqui concorriam ., como a por- 
to 



2,8o ÁSIA de João de Barros 

to de mais proveito pela grande valia que 
tinham em Biíhaga , por eítes cavallos le- 
rem a principal força , com que fe clle de- 
fendia dos Mouros do Reyno Decan , com 
que continuadamente tinha guerra , e o cer- 
cavam pela parte do Norte ? e lhe tinham 
tomado, muitas terras. E por caufa deita fer- 
tilidade da terra , e do trato deites portos , 
havia aqui grande numero de Mouros dos 
naturaes da terra , a que elles chamam Nay- 
teás , os quaes coftumavam comprar cites 
cavallos , e vendia-nos aos Mouros Deca- 
nijs , de que EIRcy de Bifnaga recebia gran- 
de damno , por lhe fazerem com elles a 
guerra ; e mais da mão dos compradores os 
que eile -havia miíter eram por dobrado 
preço. Finalmente , como a gente prejudicial 
a leu eítado, mandou aoRey de Onor leu 
vaíTallo que mataííe neítes Mouros os mais 
que pudefie , porque os outros com temor 
lhe defpejaíTem a terra. E no aniio de Ma- 
hamed de novecentos e dezefete , que he 
da era de Chrifto Nofib Redemptor mil 
quatrocentos fetenta e nove , houve huma 
matança deites Mouros per todas as terras 
de Onor , e Baticaíá y quaíi em modo de 
conjuração 5 em que morreram mais de dez 
mil ; e os outros que ficaram feitos em hum 
corpo , dando-lhes os da terra azo pera fua 
ida ? foram povoar a Ilha Tiçuarjj 5 que he 

on- 



Década I. Liv. VIII. Cáp. X. 281 

onde eítá fundada a Cidade Goa 5 como 
adiante veremos. Do qual iníiilto , que fe 
fez contra eftes Mouros , começaram elles 
em ódio do Gentio de Onor povoar Goa , 
e advocar alli as mercadorias , principalmen- 
te os cavallos pêra os pafíar ao Reyno da- 
quem , a qual obra fizeram em breve por 
eftas coufas andarem navegadas per mãos de 
Mouros , que queriam favorecer fuás par- 
tes contra o Gentio , com que os portos de 
Onor, e Baticalá começaram de fentir efte 
damno. E pêra obrigarem a que as náos 
dos cavallos , e aífi das outras mercadorias , 
que fempre hiam demandar eíles dous por- 
tos , foííem a elles , e não ao de Goa , or- 
denou EIRey de Onor quatro Capitães Gen- 
tios, que com huma Armada de navios de 
remo fizeffem arribar todaías náos ao feu 
porto , e áquelíes que fe defendiam , rou- 
bavam , e faziam todo o damno que po- 
diam. Da qual Armada efte Timoja de que 
falíamos era Capitão mor, havido por ho- 
mem de fua peíloa , e que fazia todo o 
mal que podia aos Mouros per aquella cof- 
ta , e efta foi a caufa da Armada que elle 
trazia ; e ante que elle vieíTe a efte oíficio , 
já o Rey de Onor tivera outros Capitães : 
pola qual razão fempre entre EIRey de 
Onor , e os Senhores de Goa houve guer- 
ra, e daqui vinha eííar a fortaleza de Cin- 
ta- 



2,82 ÁSIA de João de Barros 

tacora provida como frontaria de imigos. 
Os quaes Mouros tanto prevaleceram fobrc 
EIRey de Onor , principalmente depois que 
o Sabayo foi Senhor de Goa , que tendo 
EIRey de Onor a povoação da Cidade na 
boca da barra , a mudou pêra dentro do 
rio , haveria trinta annos ? a qual com o 
fogo que os noflbs lhe puzeram na entra- 
da de D. Francifco 5 haviam de ter traba- 
lho em reformar o queimado ; porém maior 
o tiveram , fe não entráramos na índia , por- 
que com tomarmos Goa , ficou EIRey de 
Onor feguro em íeu eftado. Efpcdido eftc 
Timoja mui fatisfeito da honra que lhe Dom 
Francifco fez , poílo que delle naquelle tem- 
po não riveíle fabido eftas coufas , ao fe- 
guintc dia , que eram vinte e quatro de 
Oítubro , partio-fe elle com toda fua fro- 
ta via de Cananor onde chegou. E porque 
com a fua entrada neíla Cidade elle tomou 
o titulo de Vifo-Pvey, de que EIRey Dom 
Manuel mandava que fe intitulaíTe, fegun- 
do forma da Provisão que levava , e em 
quanto efteve na índia defcubrio , e con- 
quiílou muitos lugares da coita delia; entra- 
remos no feguinte Livro , que he o nono 
defta primeira Década , fazendo huma uni- 
verfal defcripçao das terras , e portos marí- 
timos á maneira de roteiro de navegar de 
todo aquelle Oriente ; pêra que quando ef- 

cre- 



Década I. Liv. VIIL Cap. X. 283 

crevermos os lugares que conquiítáram , e 
o caminho que as noflas náos fizeram , e os 
portos que tomaram 5 feja melhor entendi- 
da a relação das taes coufas , pofto que em 
cada huma delias principalmente o faremos , 
quando for neceíTario. 



D& 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO IX. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no defcubrimento , e conquifta dos 
mares , e terras do Oriente : em que 
fe contém o que fez D. Francifco de 
Almeida depois que entrou na índia 
té fim do anno de quinhentos e finco , 
que deite Reyno partio y no qual tem- 
po já fervia com titulo de Viíb-Rey. 

CAPITULO I. 

Em que fe âefereve toda a cofia marítima 
do Oriente , com as dift anciãs que ha en- 
tre as mais notáveis Cidades , e po- 
voações per modo de Roteiro , fe- 
gunão os navegantes. 

PEra declaração da terra Malabar , que 
foi a primeira da índia , que D.. Vaf- 
co da Gama trilhou na entrada que 
fez em Calecut Cidade Metropoli delia, fi- 
zemos cm fomma relação da Provinda , a que 
os antigos propriamente chamaram índia 
dentro do Gange , e os naturaes moradores 
Indoftao ; e depois por caufa do que Dom 
Francifco fez emQuiloa, e Mombaça, (fe- 

* gun- 



Década L Liv. IX. Cap. I. 285? 

gundo neíte Livro precedente fica,) trata- 
mos hum pouco daquella terra Zanguebar , 
onde ellas eílam íituadas 5 que he parte da 
terra de Africa , a que os Geógrafos cha- 
maram Ethiopia fobre Egypto. Ao prefen- 
te , porque com a entrada delle D. Fran- 
cifco d'Almeida na índia os mares Orien- 
taes deita terra Afia começaram a fer lavra- 
dos com noífas náos , e fentir fobre li o 
grave pezo de fua potencia, e os morado- 
res da terra firme , e do grão numero das 
Ilhas filhas daquelle Oceano j fendo çafaros 
do nome Chriítão fobmettèram feu entendi- 
mento em obfequio de Chriíto per doétrina 
nofTa , e todolos que fentíram , e ouviram 
noflas armas, abaixaram feu pefcoçoaojugo 
delias per amor , e temor ; convém , pêra fe 
entender o difcurfo deita obra , fazermos mais 
particular relação que a paífada , declarando 
as Cidades , e principaes povoações , e por- 
tos da coita marítima deita parte Oriental , 
iíto por modo de itinerário marítimo , ou 
por fallarmos conforme aos navegantes , fe- 
ra fegundo elles ufam na maneira de fuás 
derrotas. Porque per modo de graduação 
como ufamos em as Taboas da noífa Geo- 
grafia , lá fe verá mais a olho verificada ef- 
ta defcripção ; pois', (como diíTemos , ) aqui 
não ferve mais que pêra dar razão da hif- 
toria, e não pêra fituação de lugares. Ver- 

da- 



226 ÁSIA de João de Bauros 

dade he que dos lugares mais notáveis vai 
de huns a outros a fua diftancia pela altura , 
que os noflbs Pilotos tomaram ; mas os lu- 
gares do meio he pela eítimativa de fengra- 
duras , fegundo a ordem da navegação dei- 
les , pois a matéria he delia. E começando 
em Univerfal , a terra de Afia he a maior 
parte das três , em que os Geógrafos divi- 
diram todo o Univerfo 5 e aparta-fe da Eu- 
ropa per o rio Tanais , a que agora os na- 
turaes delia chamam Dom , e per o mar 
negro , onde fe elle vem metter continuado 
ao de Grécia pelo cílreito de Conftantino- 
pia , e da Africa aparta-fe per outro rio op- 
poíito a elle , (o qual pela grão cópia de 
fuás aguas femprc reteve o antigo nome de 
Nilo que tem , ) e per huma linha que fe 
pode com o entendimento lançar deite Nilo 
pela Cidade Cairo Metropoli de todo Egy- 
pto ao porto de Suez , que eftá no ultimo 
feio do mar Roxo , onde antigamente foi a 
Cidade dos Heroas , na qual linha haverá 
diftancia de três jornadas de camello , que 
podem fer ao mais vinte e quatro léguas. Éf- 
ta parte de Afia como he a maior em terra 
que as outras , afii contém muitas , e varias 
nações de gente , huns que feguetn a Lei de 
Chrifto , outros a feda de Mahamed , e os 
mais adoram o Demónio na figurk de feus 
idolos , e outros que são do povo Judaico > 

por- 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 287 

porque não ha hi parte da terra onde eíla 
cega gente fe não ache vaga \ fem natureza , 
ou aflento , fazendo penitencia fem fe arre- 
pender de fua contumácia. E ainda eílas qua- 
tro nações em crença, naquellas partes são 
tão varias cada huma per íl , que fallando 
propriamente poucos são puros na obfervan- 
cia do nome que cada hum profeíTa ; com 
as quaes nações os noífos , depois que entra- 
ram na índia , começaram communicar , e 
contender per doétrina 5 commercio , e ar- 
mas. E começando a dividir todo o marí- 
timo defta Afia , que ao prefente faz ao pro- 
pofito pêra relação de noífas navegações, 
e conquiíta , podemos fazer efta divisão em 
nove partes , em que a natureza a repartio , 
com linaes notáveis fem lançarmos linhas 
imaginarias , os quaes íinaes são mares \ ca- 
bos j e rios , e onde acaba a primeira par- 
te 5 começa a fegunda , e affi fucceífivamen- 
te. A primeira tem feu principio na boca 
do eftreito do mar , a que propriamente cha- 
mamos Roxo , e acaba na boca do outro 
Paríio : a fegunda acaba na foz do rio In- 
do : a terceira na Cidade Cambaya íítuada 
na mais interior parte da enfeada do mar 
chamado do feu nome: a quarta começa no 
grande cabo Comorij : a quinta no illuftre 
rio Gange : a fexta no cabo de Cingapura 
além da noíTa Cidade Malaca : a fetima no 

gran- 



288 ÀSIÀ de JoXo dé Barros 

grande rio chamado Menão interpretado mãí 
das aguas, o qual corre per meio doRey- 
no de Sião : a oitava fenece cm hum no- 
tável cabo , que lie o mais oriental de toda 
a terra firme , que ao prefente fabemos , a 
qual he quaíl no meio de todo o marítimo 
da grande região da China , a que os nof- 
íòs chamam Cabo deLiampo por razão de 
huma illuftre Cidade , que eílá na volta dei- 
le chamada pelos naturaes Nimpo , da qual 
os noflbs corromperam Liampo , e toda a 
mais cofia deite grande Reyno , o qual cor- 
re quaíl ao Noroeíte , fique pêra eíte lugar 
d'cfcritura com nome de nona parte ainda 
per nós não navegada. Poíto que paliemos 
ao Oriente delia ás Ilhas dos Lequios , e dos 
Japões , e a grande Província Meacó , que 
ainda por íua grandeza não fabemos fe he 
Ilha , íe terra firme , continua a outra coita 
da China , as quaes partes já pafiam por 
antípodas do meridiano de Lisboa. Da qual 
coita não fabida dos navegantes damos de- 
monftração , e de todo o interior deita gran- 
de Província da China , em as Taboas da 
noffa Geografia , tiradas de hum livro de 
Coímografia dos Chijs imprefib per elles , 
com toda a íítuaçao da terra em modo de 
Itinerário , que nos foi de lá trazido , e in- 
terpretado perhumChij, que pêra iífo hou- 
vemos. E tornando á primeira parte Occi- 

den- 



Década L Liv. IX. Cap. L 2S9 

dental defta repartição , leixando o interior, 
dos dous eftreitos do mar Roxo , e Parfeo pê- 
ra feu tempo ; da garganta deite Roxo , que 
eftá em altura de doze gráos , e dous terços 
té a Cidade Adem cabeça daquelle Reyno , 
haverá quarenta léguas , e delia ao cabo de 
Fartaque , que eftá em quatorze gráos e 
meio j ferao cem léguas. Entre os quaes 
extremos ficam eftas povoações, Abiao , Ar, 
Canacar , Brum , Argel , Xael Cidade cabe- 
ça do Reyno , Herit , a Cidade Caxem , que 
eftá fete léguas ante de chegar ao cabo Far- 
taque j e na volta deile outro tanto efpaço 
eftá a Cidade de Fartaque cabeça do Rey- 
no affi chamado , de que o cabo tomou o 
nome , e a gente Fartaquijs. E daqui té Cú- 
ria Muria , duas povoações onde fe perdeo 
Vicente Sodré , haverá fetenta léguas , efica 
nefte meio a Cidade Dofar 5 folo donde ha 
o melhor , e mais inceníb de toda efta Ará- 
bia , e adiante vinte e duas léguas Norbate. 
De Cúria Muria té o cabo Rofalgate , que 
eftá em vinte e dous gráos e meio , e fera de 
cofta cento e vinte léguas a toda he terra 
efteril , e deferta. Nefte cabo começa o 
Reyno.de Ormuz, e delle té o outro cabo 
Monçandan haverá oitenta e fete léguas de 
cofta , em que jazem eftes lugares do rnef- 
mo Reyno , Calayate , Curiante , Mafcate P 
Soar , Calaja, Orfaçam , Doba, c Lima, 
Tom. 1. P. iL T que 



^90 ÁSIA de JoXo de Barros 

que fica oito léguas antes de chegar ao cabo 
Moçandan , que Ptolomeu chama Afaboro , 
fuuado per elle em vinte e três gráos e meio , 
e per nós em vinte e féis , no qual acaba a 
primeira noflfa divisão. E a toda a terra que 
ie com prebende entre eftes dous termos , os 
Arábios lhe chamam Hyaman , e nós Ará- 
bia Feliz , a mais fértil, e povoada parte 
de toda Arábia. AtravefTando defte cabo 
Moçandan ao de fima a elle oppofito cha- 
mado Jafque , com que a boca do eftreito 
fica feita , entramos na fegunda divisão , que 
he mui pequena , e pouco povoada ; porque 
defte cabo Jafque até o illuílre rio Indo são 
duzentas léguas , nas quaes eftam eftas po- 
voações , Guadel , Calará , Calamente , e Diul 
íituado na primeira foz do Indo da parte 
doPonente. A qual coifa he pouco povoa- 
da por o mais delia fer apparcelada , e de 
perigofa navegação , e a terra per dentro 
quaíí deferto chamada dos Geógrafos Car- 
mania , e os Parfeos contam eífa parte na 
região, a que elles chamam Herac Ajan , na 
qual fe contém os Reynos de Macran , e i 
Guadel , que cahe fobre o cabo aíli chama- ! 
do. Haverá cento eíincoenta léguas na ter- 
ceira parte da noífa repartição , (não entran- í 
do per dentro da enfeada de Jaquete port 
fer mui penetrante na terra,) contando per 
eíla maneira : Da fóz de Diul até a ponta, j 

de 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 29Í 

de Jaquete trinta e oito ieguas ; e deite Ja^' 
quete , que he dos principaes templos daquel- 
la gentilidade com huma nobre povoação , 
té a nolTa Cidade Dio do Reyno Guzarate 
lincoenta léguas , na qual diftancia eftam ef- 
tes lugares , Cutiana , Mangalor , Cheruar , 
Patan j Corinar. E do Dio limado em vin- 
te gráos e meio té a Cidade Cambaya , que 
eftá em vinte e dous gráos , haverá íincoenta 
e três léguas , em que fe contém eftes luga- 
res, Mudrefaba, Aíoha , Talaja, Gundim, 
Goga Cidade , que eftá ante de Cambaya 
doze léguas , dentro dos quaes extremos def- 
ta Cidade Cambaya i e Jaquete fe compre- 
hende parte do Reyno Guzarate com a ter- 
ra montuoía dos povos Rezbutos. A quar- 
ta parte deita noíía divisão começa na Ci- 
dade Cambaya , e acaba no illuítre cabo 
Çamorij , na qual diftancia por coita haverá 
duzentas e noventa léguas pouco mais, ou 
menos , em que fe comprehende quaíí toda 
a flor da índia a mais trilhada de nós , a 
qual podemos dividir em três partes com 
dous notáveis, e populofos rios, que atra- 
veltam- do Ponênte a Levante : o primeiro 
divide o Reyno Decan , (a que corrupta- 
mente os noíTos chamam Dáquem , ) do Rey- 
no Guzarate que lhe fica ao Norte : o fe~ 
gundo aparta eíte Reyno Decan do Reyno 
Canará , que fica ao Sul delle. E ainda pa- 

I u re- 



^c)^ ÁSIA de João de Barros 

rece que como a natureza fez eíla divisão 
pelo interior do fertão , aífí acerca dos que 
habitam o marítimo de toda eíla coita per 
outros rios mui pequenos , que nafeem nas 
coitas deites dous notáveis , fazem a mefma 
demarcação do Guzarate, Decan, e Cana- 
rá ; e aíli os pequenos , como os grandes , 
todos vertem da grande ferra chamada Ga- 
te , que como atrás vimos corre ao longo 
da coita fempre á viíta do mar. Peró tem 
eíta differença , que os grandes nafeem no 
Gate da banda do Oriente \ e porque das 
fuás fontes ao mar , onde elles vam fahir , 
que he na enleada de Bengala , ha grande 
diítancia, levando comfigo grande numero 
de outros rios, não fomente per eítes Rey- 
nos aífima nomeados que elles dividem , mas 
ainda per outros que não nomeamos , que 
por ferem no interior da terra não fervem 
ao prefente. O primeiro deites rios nafee de 
duas fontes ao Oriente de Chaul quafi per 
diítancia de quinze léguas em altura entre 
dezoito e dezenove gráos : ao rio que fahe 
de huma das fontes , que jaz mais ao Nor- 
te , chamam Crufná • e ao que fahe da que 
eftá ao Sul , Benhorá , e depois que fe adj un- 
tam em hum corpo , chamam-lhe Ganga , 
o qual vai fahir na foz do illuítre rio Gan- ' 
ge entre eítes dous lugares Angelij , e Pi- j 
chólda quafi cm vinte edous gráos. E por- 
que 



Década I. Liv. IX. Cap. L 293 • 

que com a cópia das muitas aguas que le- 
va ? em que parece querer competir com o 
Gange , ou per qualquer outra opinião do 
Gentio , como ao Gange elles chamam Gan- 
ga , e tem que as fuás aguas são fèn&astf 
(fegundo adiante veremos;) affi a èítoutro 
de que falíamos chamam Ganga , é dizem 
ter a mefma fanétidade : donde vem que os 
Príncipes Mouros \ per cujas terras eile paíTa , 
tem grande rendimento de fuás aguas 5 por- 
que não confentèm que o Gentio , que fe 
nellas quer lavar , o faça fem pagar hum 
tanto. E quaíl na mefma paragem das fon- 
tes defta terra Gate verte outra pêra o Po- 
nente , que faz hum pequeno rio chamado 
Bate ? que fahe na bania de Bombaim , per 
o qual demarcam o Reyno de Guzarate do 
Reyno Decan. E pelo mefmo modo outro 
rio pequeno , que verte do Gate pêra o Po- 
nente , ao qual chamam Aliga \ onde eftá íí- 
tuada a fortaleza Sintacora 5 que fahe defron- 
te da Ilha Anchediva em altura de quator- 
ze gráos , e três quartos , eftá encontrado pe- 
la parte do Oriente com outro grande rio 
que diíTemos , que aparta o Reyno Decan 
do Canará , porque -neíle pequeno Aliga fe 
faz a divisão delles. Porém em o naíeimen- 
to deite grande rio chamado Nagundij ao 
do outro Ganga \ ha efta diíferença , não ter 
aquejla religião das aguas 3 e mais na fce 

quaíi 



ip4 ÁSIA de João dê Barros 

quaíi na paragem do Gate , que eílá fobre 
Cananor 5 e Calecut , e vai correndo ao lon- 
go delle contra o Norte ; e como he de- 
fronte do rio Aliga , faz hum cotovelo , e 
toma outro curfo pêra Oriente , e palia per 
a Metropoli Bifhaga , e per terras de Orixá 
té fahir na enleada de Bengala per duas bo- 
cas entre dezefeis , e dezefete gráos , onde 
eftam duas Cidades Guadevarij , e Maíuli- 
patáo y em que fc faz muita roupa d 5 Algo- 
dão , que ora vem de lá , que tem o meimo 
nome. E tornando á primeira deitas três de- 
marcações de Reynos , que he a do Guza- 
rate , e começando da ília Cidade Cambaya , 
onde acabamos a terceira divisão ao rio Ba- 
te , ou por fallar mais notavelmente ao de 
Nogotava a elle vizinho , haverá fetenta lé- 
guas , em que eílam cilas povoações , Ma- 
chigam , Gandar , a Cidade Baroche , onde 
vem fahir hurn notável rio chamado Nar- 
bada ; e adiante oito léguas fahe outro tam- 
bém notável per nome Tapetij , na foz do 
qual , huma defronte d'outra , eftam as Ci- 
dades Surat * e Reiner. Seguindo mais a 
coíla , efom Nofçarij , Gandivij , Damão , 
Dánu , Tarápor , Quelmaim , Agacim , e 
Baçaim , onde ao prefente temos huma for- 
taleza com as terras de fua jurifdicção , que 
na paz nos pagam de rendimento cem mil 
pardaos ? que são da noífa moeda trinta e 

féis 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 29? 

íeis contos. E adiante treze léguas em altu- 
ra de dezoito gráos, edous terços eftá a Ci- 
dade Chaul , onde temos outra fortaleza, 
que já he da fegunda demarcação do Rey- 
no Decan , porque atrás ficam eftas povoa- 
ções , Maim , Nagotána , que ferão de 
Chaul quatro léguas , e huma ao rio Bate , 
que he o extremo do Reyno , (fegundo dif- 
femos. ) Tornando a fazer outra computa- 
ção defta Cidade Chaul té o rio Áliga de 
Cintacora > em que acaba a terra do Decan , 
haverá fetenta e finco léguas ; ao rio Zan- 
guizar vinte e finco , no qual efpaço ficam 
Bandor , Sifardão 5 Calancij 3 e a Cidade Da- 
bul; e do rio Zanguizar ha outras vinte e 
íinco léguas , onde eftá o pagode , fe contém 
Ceitapor , Carapatao , Tamaga; e deite Pa- 
gode a Cintacora , onde fenece o Decan , que 
são as outras vinte e finco , eílam Banda , 
Chapora , e a noíía Cidade Goa Metropoli 
Epilcopal da índia. E pofto que no rio Ali- 
ga de Cintacora, que eftá mais adiante do- 
ze léguas , fe demarque o Reyno Decan , 
começando do rio Bate , (como diílèmos , ) 
fazem os moradores da terra eíla differen- 
ça. A todo o marítimo que contamos até a 
ferra Gate , que vai ao longo da coíla , com 
que elle faz huma comprida , e eftreita fai- 
xa de terra , chamam elles Concan, e aos 
povos propriamente Conquenijs , poíto que 

os 



zy6 ÁSIA de João de Barros 

os nofíbs lhe chamam Canarijs ; e a outra 
terra que jaz do Gate pêra o hafeimento 
do Sol , efte he o Rcyno Decan 5 cujos mo- 
radores fe chamam Decanis. A terceira de- 
marcação , que divide a Província Canará do" 
Decan j acaba no cabo Comorij , começan- 
do do rio Aliga , em que haverá cem lé- 
guas per eíta maneira : De Aliga té outro rio 
chamado Cangerecora ? que eftá finco léguas 
ao Norte do monte Delij , ( cabo notável 
neíla cofta , ) haverá quarenta e íeis léguas , 
no qual marítimo jazem citas povoações: 
Ancola , Egorapan , Mergeu , a Cidade 
Onor cabeça doReyno, Baticalá , Bendor, 
Bracelor , Bacanor , Careara , Carnate ; Man- 
galor , Mangeiran , Cumbata 3 e Cangere- 
cora , perque corre hum rio deite nome , 
que he extremo , e demarcação , como fe ve- 
rá abaixo. As quaes povoações todas são 
da Província Canará fiibditas a EiRcy Bií- 
nagá , que fendo tão poderofo cm terra , que 
participa de dous mares deite Ponente , e 
do outro de Levante , que jaz do cabo Co- 
morij pêra dentro , entra fomente aqui com 
efte pequeno marítimo. E como do Gate 
pêra o mar ao Ponente do Decan toda 
àquella faixa fe chama Concan , affi do Ga- 
te pêra o mar ao Ponente do Canará , tiran- 
do eítas quarenta e féis léguas , que ora con- 
tamos j que são do mefino Canará D aquella 

foi- 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 297 

faixa , que fica té o cabo Cómorij , que fera 
de comprimento noventa e três léguas , fe 
chama Malabar , em que ha eftes Reys fobe- 
ranos fem fer fubditos a outro maior Prín- 
cipe. O marítimo das quaes noventa e três 
léguas iremos contando com a divisão dos 
Reynos , que vem confrontar nella. Do rio 
Canherecóra , donde começa a região Mala- 
bar té Puripatan , que ferão per cofia vinte 
léguas , he do Reyno Cananor , em que ha 
eftes lugares : Cota , Coulão , Nilichilao , 
Marabia 3 Bolepatan , Cananor Cidade , on- 
de temos huma fortaleza , a qual eftá em 
doze gráos , Tramapatan , Chombá y Maim , 
e Purepatan. E daqui té Chatua corre o 
Reyno de Calecut 5 que poderá fer per cof- 
ia vinte e fete léguas , e tem cilas povoa- 
ções : Pandarane , Couiete , Capocáte ., â Ci- 
dade Calecut , que eftá em onze gráos , e hum 
quarto , e abaixo Chála , onde ora temos 
huma fortaleza , Parangale . Tanor Cidade , 
e cabeça do Reyno fubdito ao Çamorij 5 
Panane , Baleancor , e Chatuá , cm que eíle 
acaba, e entra o Reyno de Cranganor , que 
por ter pouca terra logo com elle vizinha 
EIRey de Cochij , cujo Reyno acaba em 
Porca 5 também de poucas povoações por 
não ter portos em efpaço de quatorze lé- 
guas que tem de comprimento. A qual Ci- 
dade Cochij cabeça do Reyno do feu no- 
me, 



298 ÁSIA de J0Ã0 de Barbos 

me , ao tempcf que entrámos na índia era 
tão pouca coufa , que não rinha força pêra 
refiftir á potencia do Çamorij de Calecut; 
e ora com favor noíTo não fomente lie fei- 
ta huma magnífica Cidade em Templos , edi- 
fícios , e cafas mui fumptuofas dos noífos 
naturaes , que"alli fizeram fua vivenda , go- 
vernando a terra per as Leis , e Ordenações 
defte Reyno de Portugal , como cada hu- 
ma das Cidades delle , mas ainda o Rey 
natural da terra , e feus lubditos são feitos 
com nofla communicação poderofos cm ri- 
quezas , e potencia pêra refiftir a todo Ma- 
labar , por lhe ferem mui íubjeótos aquelles 
Príncipes , e Senhores do Reyno , a que el- 
les chamam Caimaes , (que como atrás vi- 
mos foram mui reveis ao Rey.) Seguindo 
mais adiante noíTa deferipção , de Porca té 
Travancor eftá o Reyno de Coulão , que 
terá percofta vinte léguas 3 cujas povoações 
são : Cale , Coulão , onde temos huma for- 
taleza , R otora , Berinjan , e outras povoa- 
ções , e portos de pouco nome. E no lugar 
de Travancor , em que efte Reyno de Cou- 
lão acaba , começa outro intitulado do mef- 
mo Travancor, a que os noífos chamam o 
Rey grande , por fer maior em terra , ma- 
geftade de feu ferviço , que eftes paííados do 
Malabar , o qual he íiibdito a EIRey de Nar- 
íinga. Junto ao qual Travancor eftá o notá- 
vel , 



Década L Liv. IX. Cap. I. 299 

vel , e illuftre cabo Comorij , que he a mais 
Auftral terra deita Província Indoftan , ou ín- 
dia dentro do Gange, o qual eftá da parte 
do Norte em altura de fete gráos , e dous 
terços , a que Ptholomeu chama Cori 7 e põe 
em treze emeio. Enao fomente deite cabo 5 
mas da fua Tapobrana , a que nós chama- 
mos Ceilão J que eftá defronte delle , em 
feu lugar faremos mais particular relação : 
baíta ao prefente faber , que neíte cabo fe- 
necem os Reynos do Malabar 5 e elle he 
o outro termo que a Natureza fez , o qual 
nós tomamos por fim da quarta divisão dei- 
ta terra marítima de Afia, E navegando dei- 
te cabo Comorij per fora da Ilha Ceilão con- 
tra o Oriente per diftancia de quatrocentas 
léguas , fegundo os navegantes j e não per 
íituação Geográfica , eftá outro tão illuftre 
Cabo com outra mais notável Ilha , ao qual 
juntamente com ella Ptholomeu chama Áu- 
rea Cherfonefo. Per íima da qual corta a 
linha Equinocial , por efta fer a mais auftral 
terra de toda Afia 5 fegundo a verdade que 
nós temos moftrado ao Mundo com noi 
fas navegações ; mais certa que a terra \ on- 
de Ptholomeu- fitua em fuás taboas a Cida- 
de Cangara , e faz a computação do com- 
primento de todo o Orbe deícuberto Oriental. 
Coufa mais imaginada , como ponto celefte 
pêra computação Mathematica , que verda- 
de!- 



300 ÁSIA de João de Barros 

deira pêra íítiiação de Orbe terrefte j pois 
vemos que asnoíTas náos navegam per íima 
defta ília Catigara , e da coita da terra Afia , 
que elle aqui tinge 5 ou lhe fizeram crer que 
havia , como outras coufas , que em leu 
lugar demonftramos. Entre cites dous tão 
célebres , e illuftres cabos Comorij Occiden- 
tal , e Cingapura Oriental, (dos quaes po- 
demos crer que o mar cortou as Ilhas Cei- 
lão , e Camatra 9 aííi como de Itália Seci- 
lia j (fegundo íe efcreve > ) jaz aquclle mui 
celebrado Signo Gangetico per eícritura de 
todolos Geógrafos , e per nós mui navega- 
do \ ao qual chamamos a enleada de Ben- 
gala , por califa do grande Reyno de Ben- 
gala , per onde corre aquelle tão illuítre ; e 
celebrado rio Gange mui íoberbo com a fú- 
ria de fuás aguas , e entra no mar Oceano , 
cujas bocas Ptholomeu fitua entre oito , e 
nove grãos da parte do Norte ; e nós entre 
vinte e dous , c vinte e dous e meio , ao 
qual rio os naturaes chamam Ganga , acer- 
ca delles j e de todo o Gentio Oriental tão 
celebrado em nome por a cópia de fuás 
aguas , como venerado por a religião de 
fanftidade, que todos puzeram nellas. De 
maneira , que como acerca de nós por fal- 
varmos noífas almas , ao tempo que eítamos 
enfermos , pedimos confiisao - 9 e os outros 
fandos Sacramentos y que dam remifsão de 

pec- 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 301 

peccados ; aíli elles mandam-fe levar ás cor- 
rentes deite rio Gange , onde lhe fazem hu- 
ma choupana , e alli morrem com os pés 
rfagua , crendo que no lavatório deitas aguas 
correntes de fandtidade defte Gange lavam 
feus peccados , e vam falvos , ou ao menos 
quando em vida não podem, per fua mor- 
te mandam lançar nelle as cinzas dos feus cor- 
pos depois de queimados. E pêra fe melhor 
entender cila enfeada , e coita com os dous 
Cabos , e Ilhas oppoíitas a elles que diffe- 
mos , quem não tiver viíto a figura deita 
coita Oriental , vire a mão eíquerda com 
a palma pêra baixo , e ajunte com o dedo 
meminho os dous feguintes , quebrando-os 
té as primeiras junturas , e aparte o iadex 
delles , com que fará huma enleada , que 
he a de Sião ; e deite index aparte o polle- 
gar quanto puder , e farão outra muito 
maior , e eíta he a de Bengala ? que jaz en- 
tre eítes dous dedos. Finja mais , que de 
fronte do primeiro dedo pollegar aqui fa- 
zemos o cabo Comorij , e pêra dentro da 
enfeada jaz a Ilha Ceilão ; e toda a coita 
da índia , que té ôra defcrevemos , come- 
çando da Cidade Cambaya, jaz ao longo def- 
te dedo pollegar da parte de fora , a qual 
corre Norte Sul. E da parte de dentro nef- 
te mefmo dedo, começando da ponta del- 
1c y que he o roíto do cabo Comorij té o 

mais 



302 ASI A DE JOÃO DE BARROS 

mais eítremo lugar deíla enfeada 5 onde el- 
la fica mais curva , haverá quatrocentas e 
dez léguas. No qual extremo da enfeada 
íàhe o illuftre rio Gange 5 o qual peró que 
verta fuás aguas per muitas bocas 5 duas 
são as mais célebres , com que figura a le- 
tra Delta dos Gregos , como todolos outros 
ílluftres rios. A primeira boca , que he Oc- 
cidental , le chama de Satigam , por caufa 
de huma Cidade deite nome fituada na cor- 
rente delle 3 onde os noílbs fazem fuás com- 
mutaçoes , e commercios ; e a outra Orien- 
tal fahe mui vizinha a outro mais célebre 
chamado Charigam , porque a elle geral- 
mente concorrem todalas mercadorias que 
vem , e fahem defte Reyno. Na qual dis- 
tancia de huma. perna á outra haverá quaíi 
per linha de Leíle Oefte pouco mais ou 
menos cem léguas : e aqui fazemos outro 
termo menlural da noífa divisão atrás , em 
que fe comprehende a quinta parte , em que 
dividimos toda eíh coita da terra Afia. E 
poílo que no arco deita enfeada haja as qua- 
trocentas e dez léguas de coita; (que diife- 
mos,) per linha direita' do rumo, a que os 
mareantes chamam Nordefte Sudueíte do ca- 
bo Comorij 3 onde começa eíta noífa quin- 
ta divisão a efte porto de Catigam , em que 
ella acaba, haverá trezentas efetenta léguas. 
A qual enfeada repartimos em três eítados 

de 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 303 

de Príncipes , que a fenhoream , as quaes 
duzentas léguas são do Reyno de Bifnaga , 
e as cento e dez léguas do Reyno Orixá , 
que são ambos Gentios , e as cento do Rey- 
no de Bengala 5 que de noííòs tempos pêra 
cá he já íubjedx) a Mouros. As povoações 
da qual coíla são eftas : Logo na volta do ca- 
bo Comorij ás fete léguas Tacancurij , e 
adiante Manapar , Vaipar , Trechandur, 
Callegrande , Chereacalle i Tucucurij , Bem- 
bar , Calecare , Beadala , Manancort, e 
Canhameira J onde eftá hum notável cabo 
aífi chamado em dez gráos da parte do Nor- 
te. E adiante eftam eftes lugares Negapatan , 
Aahor , Triminapatan , Tragaijibar, Tri- 
minavaz , Çoloran , Puducheira , Calapate , 
Conhomeira , Sadrapatan , Meliapor , a que 
os noflbs ora chamam ,S. Thomé , huma an- 
tiga Cidade ? que elles tem renovado com 
magnificas cafas de fua morada i em que 
muitos delles já canfados dos trabalhos da 
guerra fizeram aíTento de vivenda ; aífi por 
a terra fer mui abaílada , e de grão traíto , 
como principalmente por renovar a memo- 
ria do Apoftoío S. Thomé ? que fegundo 
os naturaes da terra dizem , e tem por lem- 
branças ? aqui foi fua habitação , ou por me- 
lhor dizer a Cidade onde elie obrou tan- 
tos milagres , como elles contam , da mão 
do qual eftá feita huma cafa> em que elles 

di- 



304 ÁSIA pÈ J0X0 de Barros 

dizem que jaz enterrado. E poílo que o 
Gentio deita terra íeja idólatra , íempre efta 
relíquia de caía que o San&o fez , foi en- 
tre elles mui venerada , e principalmente dal- 
guns , que confeíTavam o nome Chriftão ? e 
tinham nella Patriarca Arménio. E o que 
ora mais acereícentou devoção na cafa , foi 
huma pedra , que os noflbs acharam em hu- 
mas ruinas , que parecia em outro tempo 
fer Ermida , nos alicerces da qual , queren- 
do elles porfua devoção fundar outra , acha- 
ram huma pedra quadrada limpa , e bem la- 
vrada ; e na face , que jazia pêra a terra , 
tinha huma cruz lavrada de vulto da feição 
das que trjzem os Commendadores da Or- 
dem de Avis , e cm íima de huma ponta la- 
vrada huma ave com azas abertas ao modo 
que o Efpirito Sandto em figura de pomba 
defee fobre os Apoítoíos , como fe coftuma 
pintar. Per o corpo da qual cruz , e campo 
da pedra citavam muitas manchas , e gottas 
de fangue tão frefeo , que parecia haver 
pouco tempo que fora alli vertido ; e per 
derredor per orla tinha humas letras de ca- 
racteres eftranlios , que os da terra não fou- 
beram ler. A qual pedra os nolTos levaram 
dalli com prociísao , e folemnidade , e fo- 
ram pôr na própria Igreja i ,que S. Thomé 
per lua mão fez j e fegundo o que a fama 
tem entre os naturaes, dizem que fobre .ef- 



Década I. Liv< IX. Cap. I. 305* 

ta pedra padeceo o bemaventurado Apoílo- 
]o , eftando aqui fazendo oração ; outros di- 
zem , que era difcipulo feu. O debuxo da 
qual pedra o anno paflado de mil e quinhen- 
tos quarenta e oito me mandaram em três 
papeis , hum dos quaes com huma inquiri- 
ção , que o Governador Nuno da Cunha 
em feu tempo mandou tirar pelos naturaes 
acerca do que fe tinha entre aquelles Chri- 
ftaos de S. Thomé da vida delle ; e aíli hum 
livro da efcritura dos Chijs 5 e outro dos 
Parfeos com algumas informações dos cof* 
tumes dos Gentios daquellas partes , dei a 
Joanne Riccio de Monte Pulciano Arcebis- 
po de Sypontp , que nefte tempo eftava nef- 
te Reyno por Núncio do Papa Paulo III , 
por me pedir que lhe déífe alguma coufa 
deitas partes da índia pêra mandar ao Car- 
deal Farnes neto do mefmo Papa, que lhas 
mandou pedir á iníiancia de Paulo Jovio 
Bifpo Nocerino , barão diligente y e curiofo 
deftas coufas dignas de efcritura pêra a fua 
hiftoria geral do feu tempo , que promette 
nas obras deita facultade , que já tirou á luz. 
Das quaes coufas eu não quiz fer avaro , 
lembrando-me que na penna, e eftilo defte 
dodiífimo Paulo Jovio as minhas achegas 
ficavam poftas em edifício de perpétua me- 
moria , pois tive forte da vida , que tenho 
mais cabedal em defejo , que facultade \ e 
Tom. L P. iL V tem- 



306 ÁSIA de João de Barros 

tempo pcra cite officio de efcritura. E tor- 
nando a continuar a defcripçáo da noflli 
coita , da Cidade S. Thomé , em que nos 
detivemos por louvor deite Apoítolo noflb 
Protector da índia , poíto que em outra par- 
te relatamos mais copioíatnentc o que fe 
tem , e crê delle acerca deita gente : deita 
fua Cidade a Peleacate haverá nove léguas 
e adiante èflàtn Chiricole , Aremogam , Ca 
leture , Careeiro , Pentepolij , Maçulepatan , 
Gudavarij , junto do cabo deite nome , que 
eítá em dezefete grãos , no qual acabam as 
terras do Reyno de Bifnaga , ( como difle- 
mos , ) e começa o de Orixá , cuja coita , 
por ler brava , de poucos portos tem fomen- 
te eítes lugares , Panacote , Catingam , Ba- 
zapátan , Vixáopatan , Vituilipatan , Cali 
nhápatan , Naciquepatan , Puluro , Panaga- 
tc, co Cabo Segógora , a que os noiíos cha- 
mam das Palmeiras por humas que alli ef- 
tam 5 as quaes os navegantes notam por lhe: 
dar conhecimento da terra. E deite cabo 
onde fazemos fim do Reyno Orixá, o qua 
eítá em vinte e hum gráos , ao outro term 
do fim do Reyno de Bengala , que he a Ci- 
dade Chatigao 3 que eítá em vinte e dousj 
gráos largos , haverá as cem léguas que diM 
íèmos. Ficando porém ainda neíta diítancia! 
de cem léguas , fia volta do Cabo Segógora 
Ruma enteada , que he do Reyno Orixá 

on- 



i 



Década I. Liv. IX. Cap. í. 307 

onde vem fahir o outro rio chamado Gan* 
ga , de que atrás falíamos , o qual atravefla 
pela maior parte deíle Reyno , e palia ao 
longo da Cidade Romana Metropoli deiie, 
e vem-fe metter com o rio Ganges y onde 
elíe também entra no mar. E porque toda 
efta diílancia que ha do Cabo Segógora té/ 
Chatigão he mais pêra pintura que efcritu- 
ra , por fer toda terra cortada em Ilhas , e 
baixos , que fazem as bocas do Gange com 
a copia das fuás aguas 3 não nomeamos as 
Cidades , e povoações , que eftam per eftas 
Ilhas , os curiofos da fituaçao delias em as 
taboas da noíTa Geografia a podem ver. Af- 
íi que continuando ao longo do noffo dedo 
index na fexta parte da geral divisão que 
fizemos , a qual começa em Chatigão , e aca- 
ba no cabo de Cingapura > que eftá hum 
gráo afaítado da linha Equinocial pêra a 
parte do Norte , e quarenta pêra Oriente 
da noíTa Cidade Malaca 5 haverá cm toda 
efta cofta trezentas e oitenta léguas , as quaes 
repartimos per efta maneira. Ao Cabo de 
Negraes , que eftá em dezafeis gráos , onde 
começa o Reyno de Pegú 3 haverá cem le- 
: Jguas , no qual efpaço eftam eftas povoações , 
! ' JChocoriá , Bacalá , Arração Cidade cabeça 
\ ido Reyno affi chamado , Chubode , Sedoe , 
je Xará, que eftá na. ponta de Negraes. E 
Vidaqui paliando a Cidade de Távai^ que ef- 

V ii tá 



308 ÁSIA de João de Barros 

ta cm treze gráos , que lie a ultima do Rey- 
110 de Pegú, fica huma grande enfeada de 
muitas Ilhas , e baixos , que ao modo do 
Gange faz outro mui poderofb rio , que re- 
talha toda a terra de Pegú , o qual vem do 
lago de Chiamai , que eítá ao Norte per dif- 
tancia de duzentas léguas no interior da ter- 
ra y donde procedem féis notáveis rios , três 
que fe ajuntam com outros, e fazem o gran- 
de rio , que paíTa per meio do Siáo , e os 
outros três vem fahir neíla enfeada de Ben- 
gala. Hum , que vem atraveífando o Reyno 
de Caor , donde o rio tomou o nome , e 
per o de Camotai , c ode Cirote , onde fe 
fazem todolos capados daquelle Oriente , e 
vem fahir aíTima de Chátigao naquelle no- 
tável braço do Gange defronte da Ilha Sor- 
nagao. O outro de Pegú palia pelo Reyno ■ 
Avá , que he no interior da terra , e o ou- 
tro fahe cm Martabáo entre Tavay , e Pe- 
gú , em altura de quinze gráos. E as po- 
voações que eítam fora deita enfeada de Ilhas 
de Pegú , (que diflemos , ) e vam ao longe 
da cofta delle , são Vagam , Martabáo Ci- 
dade notável por caufa do grande traólc 
que neíla ha , e adiante Rey Talaga , e Ta- 
vay. Na qual Cidade de Tavay pouco tem- 
po antes que entraífemos na índia , começa-J 
va o Reyno de Sião , e acabava no outrcl 
mar de Levante no Pveyno de Camboja , errj 

que: 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 309 

que entrava o Reyno de Malaca , que con- 
quiítámos de hum Mouro tyranno , que íe 
tinha levantado contra efte Rey de Sião, 
como em leu lugar íe dirá. Em a qual cof- 
ta de terra , indo fempre ao longo do dedo 
index que figuramos , té a ponta delle , que 
lie o Cabo de Cingapura , e dahi tornando 
per elle aílima té a juntura do outro do meio y 
onde pode fer o Reyno de Camboja , ha- 
verá pouco mais , ou menos quinhentas 1c- 
guas de coita todas deite Príncipe Gentio , 
o qual perdeo a maior parte delias com a 
variação dos tempos , e principalmente de- 
pois que tornámos Malaca ; porque lança- 
dos os Mouros Malaios daquella Cidade , 
buícáram novas povoações ao longo daquel- 
la coita ; e como ella he do Gentio mais 
falvage daquellas partes , tomados os melho- 
res portos per via de trato , e navegação , 
que os naturaes da terra não uíam , fizeram- 
fe fenhores , e alguns delles fe intitularam 
com nome de Reys. Affi que com eítas mu- 
danças que o tempo fez , e o mais que re- 
latamos adiante , quando Affoníb de Albu- 
querque tomou Malaca , ficou eíta coita fem 
repartição de eftados , e as povoações que 
haverá de Tavay até Malaca são eítas : Te- 
naííarij Cidade notável 5 Lungur , Torrão , 
Queda flor da pimenta de toda aquella coi- 
ta j Pedão , Perá , Soiungor , e a noíía Ci- 

da~ 



"3 io ÁSIA de João de Barros 

dade Malaca , cabeça do Reyno aífi cha- 
mado , a qual eftá em dous gráos e meio 
da linha pêra a parte do Norte ; e feguin- 
do adiante as quarenta léguas 9 eftá o Cabo 
de Cingapura , onde começa ao longo do 
dedo index a fetima divisão que ha dalli té 
o rio de Sião , que , ( como diflemos , ) a 
maior parte delle procede do lago de Chia- 
mai. Ao qual rio , por caufa da grão copia 
das aguas que trás , os Siamês lhe chamam 
Menao , que quer dizer a mãi das aguas , e 
entra no mar em altura de treze gráos , na 
qual cofta ha eílas notáveis povoações : Pão, 
que he cabeça do Reyno aíli chamado ? Pon- 
ticão , Calantao , Patane , Lugor , Cuy , Per- 
perij , e Bamplacot , que eftá na boca do 
rio Menão ; do qual , começando na oclava 
repartição , nomearemos fomente os eirados 
dos Príncipes , que vizinham a cofta , e não 
os lugares , porque não fervem ao intento 
da noíTa hiftoria : cá nefta parte não houve 
conquifta noíTa , pofto que navegaífemos o 
marítimo per via de commercio. E o pri- 
meiro eftado que eftá vizinho a Sião , he o 
Reyno de Camboja , per meio do qual cor- 
re aquelle foberbo rio Mecon , cujo nafei- 
mento he na região da China , ao qual fe 
ajuntam tantos , e tão cabedaes rios , e cer- 
re per tanta diftancia de terra , que quando 
quer fahir ao mar , faz hum lago de mais de 

fef- 



Década I. Liv. IX. Cap. I. 311 

fefíenta léguas de comprimento , e aíli reta- 
lha a terra á fahida per muitas bocas , que 
não chega a elle nenhum dos outros notá- 
veis rios , que acerca de nós são celebrados. 
Paliado efte Reyno Camboja, entra o outro 
Reyno chamado Campa 5 nas montanhas do 
qual nafce o verdadeiro Lenholoe , a que 
os Mouros daquellas partes chamam Calam- 
buc , com o qual confina o Reyno , a que 
os noííbs chamam Cauchij , China , e os na- 
turaes Cacho. O qual acerca de nós he o 
menos fabido Reyno daquellas partes , por 
a fua coita fer de muitas tormentas , e graiir 
des baixos , e a gente fem navegação ; e os 
eftrangeiros , que pêra lá navegam, que são 
Siamês , e Malaios , de quatro navios hão 
de perder dons , e ás vezes três , e porém 
hum que efcapa fe faz nelle mais proveito , 
que fe todolos quatro navios foífem á Chi- 
na. Adiante delie entra a região da China 
repartida em quinze governanças , cada hu- 
ma das quaes pode fer hum grande Rey- 
no : as marinhas , que fazem anoíío propo- 
fito , são , Cantão , Fuquiem , Chequeão , em 
que eílá a Cidade Nimpo 3 onde a terra faz 
hum. notaval cabo , de que no principio fi- 
zemos menção , o qual eílá em altura de 
trinta gráos e dous terços , e té qui corre 
a coita Nordeíle Suducítc. Haverá na der- 
rota , contando da Ilha de Aynao , ond£ fe 

pef- 



312 ÁSIA de JoXo de Barros 

■peíca o aljofre, que he o principio da go- 
vernança de Cantão , duzentas e fetenta e fin- 
co léguas , e daqui torna a coíla a virar pc- 
ra o rumo do Noroeíte , em que acaba a 
odiava parte , e começa a nona , que difíe- 
nios não fer ainda per os noflòs navegada. 
Porém , fegundo a Cofmografía da China , 
(que atrás diíTemos , ) as Províncias maríti- 
mas , que defte Reyno correm quafi pêra o 
rumo do Noroeíte , são eílas três : Nanquij y 
Xantopi , Quincij , onde o mais do tempo 
o Rey reíide , que eílá em quarenta e leis 
gráos y e corre ainda a coíla defta Província 
te fincoenta gráos , na qual fe contém qua- 
trocentas léguas , em que acaba a mais orien- 
tal , e boreal terra firme que fabemos. E 
poílo que além deite marítimo da terra fir- 
me de Afia também navegámos , e conquis- 
támos muita parte das Ilhas daquelle gran- 
de Oceano , afii como as de Maldiva , e 
Ceilão fronteiras á Província Indofían, Sa- 
mátra , Java , Timor , Burneo , Banda j Ma- 
luco , Lequijo , e ora per derradeiro as dos 
Japoes , e a grande Província Meaco , que 
todas jazem de Malaca por diante , nos 
tempos que fe fizermos alguns feitos neílas , 
daremos a relação que convir pêra entendi- 
mento da hiftoria. Fica-nos ao prefente ou- 
tra coufa mui neceíTaria a ella , que como 
ern- univerfal fizemos a deferipeáo de toda 

a ter- 



Década I. Liv. IX. Cap. I. e II. 313 

a terra marítima , por fe faber em que parte 
aconteceram os cafos ; aíli demos também 
outra geral relação dos Príncipes que a fe- 
nhoreavam , porque com eílas duas coufas 
podemos fem confusão diícorrer com no£ 
ias Armadas per todo aqueile Oriente. 

CAPITULO IL 

De alguns Reys ? e Príncipes das partes 

Orientaes , Mouros , e Gentios , com que 

tivemos communicaçao , ajji per via 

de conquijia , como de commercio. 

POPto que neíle paflado Capitulo difle-' 
mos , que toda a terra de Afia era ha- 
bitada deitas quatro nações de gente 5 Chri- 
ftãos ? Judeos , Mouros 5 e Gentios , as pri- 
meiras duas podemos dizer que naquellas 
partes são mais cativos que livres , pois por 
razão de fua habitação são fubditos dos Mou- 
ros , ou Gentios , que occupam toda aquel- 
la terra , como vemos fer a gente Scifmati- 
ca de Arménia , Siria , e Judéa , que toda 
he tributaria a EIRev de Perfia , e ao grão 
Turco 5 ao modo dos Gregos. Certa coufa 
não pêra paflar, mas de ter hum pouco na 
confideração delia ? e com muita caufa la- 
mentar eííe cafo , não como alheio , mas 
próprio de cada hum de nós , íè queremos 
ícr do número dos membros do eftado da 

Ctô- 



314 ÁSIA de João de Barros 

Chriftandade. Pois os peccados delia , (por- 
que da parte deDeos não pode haver cau- 
fa , ) quaíi toda a redondeza da terra eftá 
fubdita ao império dos Mouros , e Gentios ; 
e Europa , que he a menos porção em quan- 
tidade , em que a Igreja Romana parecia ter 
congregada a fua grege , ainda efte açoute 
do Turco veio aííblar boa parte. E na ou- 
tra que ficou livre delle , que íè devera unir 
com vinculo de caridade , c zelo , pêra ir 
contra elle a lhe tirar do poder o Santuário 
de noíTa Rcdcmpção , teve o Demónio tan- 
ta aíhicra , que ainda neíle pequeno agro do 
Senhor veio femear dous géneros de zizania , 
que não leixa creícer a Catholica femcnte. 
Hum de novas opiniões impugnando afiei, 
e pura intelligencia do Evangelho , que nos 
leixáram em eícrito aquelles Sanítos , e do- 
dlos Barões approvados per exemplo dei an- 
ela vida ; e o outro género de zizania foi 
cubica de acereícentar eílados a eftados , que- 
rendo fazer na terra própria monarquia, e 
que os Sandlos do Cco pêra iífo fejam feus 
Protectores , e acudam a feus appcllidos ao 
romper das batalhas , como que o Ceo fof- 
íe alguma congregação de Deofos dos Gen- 
tios , que contendem huns com os outros 
por favorecer fuás partes , huns aos Gregos , 
outros aos Troyanos , huns a Eneas , e ou- 
tros a Turno. Como qualquer appetite , e 

de- 



Década I. Liv. IX. Cap. II. 315' 

defordem dePrincipes poderofos ha de pa- 
gar o íangue da Chriftandade ? Como deíò- 
bedecer á Igreja , tomar-lhe feu património , 
inquietar a tranquillidade , e paz do povo 
Chriftão, impedir com armas os mares, e 
as terras, convocar, e confederar com in- 
fiéis , e membros cortados da Igreja , por 
tudo debaixo da fúria do feu ferro té che- 
gar aos altares , não provocam eílas coufas 
a juíliça de Deos ? Como por eftas , e ou- 
tras taes obras não vemos nós os povos que 
aíFima apontámos , e aíli os Georgeanos, 
Mengralianos , Charquezes , Roixos , e ou- 
tros daquellas partes * cativos , e eícravos de 
Tártaros , e do Turco > pagando ao prefen- 
tc os filhos , e netos dos primeiros tranfgref- 
fores da lei , e da paz Evangélica ? Como 
aíli fe ganha na terra nome de defenfores 
da Fé , nome de Ciiriílianiííimos , Carholi- 
cos , e d'outros títulos de gloria neíla vida , 
e na outra ? Certo que com outras obras fe 
confegue acerca dos homens , e ante Deos 
eíles nomes dados em galardão delias. E 
certo que por mais bemaventurado fe deve 
ter oReyno, cujo exercício eílá em denun- 
ciar o Evangelho 9 e na conversão dos in- 
fieis, c pagãos, que aquelle, que anda oc- 
cupado em remover osCatholicos a doutri- 
nas próprias ; e mais bemaventurado o Rcy- 
no y que anda com acfpada na mão fobre a 

ca- 



316 ÁSIA de João de Barros 

cabeça deites infiéis , e Gentios , que aqucl- 
le que os convoca , e trás pêra derramar feu 
próprio fangue. Finalmente bemaventurado 
aquelle Reyno , que no Juizo final levar os 
triunfos deitas obras pêra merecer fer cha- 
mado fervo fiel , que foube dar á ufura o 
talento de faa poífibilidade. E porque efte 
Reyno de Portugal fempre trabalhou por 
merecer ante Dcos efte nome 5 elle o tem 
conftituido em maiores coufas : cá verdadei- 
ramente , (fem fufpeita de natural 5 ) ifto fe 
pode dizer com verdade , na parte que lhe 
coube per forte , que he nefta da Europa , 
primeiro que ninguém lançou os Mouros de 
cafa além mar ; primeiro que ninguém paí- 
íòu em Africa , e o que tomou , defendeo 
té hoje , tirando o que íeixou por lhe não 
convir • e primeiro que ninguém paífou em 
Afia , onde tem feito as obras deita nofia 
obra. Finalmente per excellencia ., aíli como 
Chriíto Jefus comparou a multiplicação do 
Evangelho ao efpirito do grão da moítar- 
da em refpeito das outras fementes : aíli em 
comparação da grandeza , que outros Rcy- 
nos deita Europa tem em terra , e povo , 
bem podemos na virtude da multiplicação , 
e feitos illuítres em accrefcentamento da Igre- 
ja , e louvor de fua própria Coroa , compa- 
rar eíte Reyno a hum grão de moítarda , o 
qual tem produzido de íi huraa tão grande 

ar- 



Década I. Liv. IX. Cap. II. 317 

vore , que a fua grandeza , potencia 5 e do- 
élrina alfombra a maior parte das terras, 
que neíte precedente Capitulo apontámos. 
É toda a fua conquifta he com aquelles dous 
gládios , em que Deos poz o eftado de to- 
do o Qniverfo : hum efpiritual , que conlifte 
em a denunciaçao do Evangelho per todo 
o paganifmo do Mundo , que tem defcuber- 
to , augmentando , e dilatando o eítado da 
Igreja , e o outro material 3 com que oífen- 
de a perfídia dos Mouros , que querem im- 
pedir eílas obras. Aíli que recolhendo-nos 
a noíTo propoííto , toda noífa contenda na 
índia he com eftes dous géneros de gente , 
Mouros , e Gentios , e a potencia dos quaes 
eftá repartida per efta maneira. Toda a ter- 
ra, queeílá do rio de Cintácora defronte da 
Ilha Anchediva pêra o Norte , e Ponente i 
ao tempo que entrámos na índia , era dos 
Mouros , e dahi por diante contra o Orien- 
te , dos Gentios , tirando o Reyno de Ma- 
laca , parte do marítimo de Camatra, al- 
guns portos de Java , e as Ilhas de Malu- 
co 3 que também eram dos Mouros , a qual 
peííe procedeo de Malaca per via de com- 
mercio , como veremos em feu lugar. Na ter- 
ra que era dos Mouros , começando da par- 
te Occidental , a (li como fizemos a deferi p- 
ção delia , havia eítes Príncipes , EIRey de 
Adem, de Xael, e de Fartaque, os quaes 

le- 



3 18 ÁSIA de João de Barros 

fenhoreavam toda aquella cofta ; e pofto que 
não foflem mui poderofos em navegação , 
eram feus portos mui frequentados por can- 
ja do grande commercio. Os vaíTailos dos 
quaes como citavam naquellas fraldas da 
Arábia , todos eram homens valentes de íua 
pelToa , foíFredores de trabalho , e muito a- 
ptos pêra a guerra , como he a gente Arábia. 
O Reyno de Ormuz já per fi era maior em 
eftado j riqueza , e gente , que eftes três jun- 
tos , e o que o fazia ainda mais" poderofo 
era a vizinhança da Períla , donde podia fer 
íòccorrido. E fe o Rey da Perlia , que na- 
quelle tempo reinava chamado Xeque If- 
mael , tomara pofíe delle como tinha tenta- 
do , quando Affonfo d' Albuquerque o tomou 
como veremos , noíla contenda fora com 
outro Príncipe maior em eftado , e poten- 
cia que o grande Dário , fob reverencia de 
quanto os Gregos efcrevéram delia por dar 
maior gloria ao feu Alexandre. Mais adian- 
te tínhamos EIRey de Cambaya , com que 
tivemos per muito tempo guerra , e ainda 
temos , ao qual nem Xerxes , nem Dário , 
nem Poro chegaram em poder , eftadô , e 
riqueza , c animo militar, como em feu tem- 
po feverá. PaíTad o Cambaya, deChaul até 
Cintácora contendemos com o Yzamaluco , 
eHidalcan Capitão do Reyno Decan , que 
repreíentavam em poder ? . eftado, e riqueza 

dous 



Década L Liv. IX. Cap. II. 319 

dous poderpfos Reys , homens mui dados 
ao ufo da guerra , cujos exércitos andavam 
cheios de Mouros , Arábios , Parfeos > Tur- 
cos , e Rumes de toda nação levantifca , 
animofa, e de grande induftria pêra aquelle 
adio.. Os Mouros do Reyno de Malaca, 
Samatra , e Maluco , ainda que o poder del- 
les era no marítimo , por o fertao fer do 
Gentio , que fe acolhia ás ferranias ; a con- 
corrência das náos que hiam a feus portos 
os tinha tão providos de artilheria , e ar- 
mas , que quando a noíTa lá chegou já per 
número de peças tinham mais que nós. Quan- 
to ao eftado da Gentilidade , que he a ou- 
tra gente que fenhorea aquellas regiões \ 
(leixando os Príncipes do Malabar, de que 
logo faltaremos , ) os mais principaes com 
que tivemos communicaçao 5 por caufa de 
feus eftados virem beber ao mar , foram ef- 
tes : EIRey de Bifnaga ? de Orixá , de Ben- 
gala , de Pegú 5 de Sião , e da China. A 
potencia , e riqueza dos quaes he tão gran- 
de coufa 3 que a penna recea entrar na rela- 
ção delles , e principalmente porque em ou- 
tra parte o faz $ fomente por moftra da fua 
grandeza diremos o que dizia EIRey de 
Cambaya chamado Badur , que morreo a 
noífas mãos vizinho deftes primeiros. Que 
acerca da riqueza , elle era hum , EIRey de 
Naríinga dous, e EIRey de Bengala três, 

e ao 



320 ÁSIA de João de Barros 

e ao tempo que elle iílo dizia , tinha juntos 
vinte e dous contos d'ouro , que todos def- 
pendeo em huma guerra té lua morte. E 
porque não fallou em EIRey de Sião , e 
da China , por não ter com elles tanta com- 
municação , a qual nós tivemos , da grande- 
za dellcs daremos aqui alguma noticia. EI- 
Rey de Sião he Príncipe , que ante que fe 
lhe os Mouros levantaííem com o Reyno 
de Malaca , começava o feu Eftado íi^uel- 
la Cidade , que eftá em dous grãos c meio 
da banda do Norte , e acabava cm os mon- 
tes do Reyno dos Gueos , que começavam 
em vinte e nove grãos. E com tudo ainda 
hoje o feu Eftado paffa de comprimento de 
trezentas léguas, no qual ha eftes feteRey- 
nos a elle fubditos , a fora o próprio de Sião , 
Camboja , Como , Lancha , Chencray , Chen- 
cran, Chiamay, Camburij , Chaipumo , e 
lie Príncipe que tem trinta mil Elefantes de 
toda forte, de que fomente três mil são de 
guerra , e no tempo delia a Cidade Udia 
cabeça do Revno lança íincoenta mil ho- 
jmens. Quanto a EIRey da China bem po- 
demos affirmar que fomente elle em terra , 
povo, potencia , riqueza, e policia he mais 
que todos eftoutros , porque o feu Eftado 
contém em fi quinze Províncias , a que elles 
chamam governanças , cada huma das quaes 
he hum grande Reyno, e na Geografia fua 

que 



Década L Liv. IX* Cap. II. 221 



D' 



que houvemos 5 tratando oAuflor de cada 
Província , faz hum fummario do que ren- 
de ; e fe he verdade a interpretação dos nú- 
meros de fua conta , parece que tem mor 
rendimento que todolos Reynos , e poten- 
cias da Europa. E eu dou-lhe alguma fé, 
porque hum efcravo Chij , que comprei pêra 
interpretação deftas coufas , fabia também 
ler , e efcrever noíla linguagem ? e era gran- 
de contador de algarifmo. E as caufas que 
podem ainda acreditar o que dizemos , são 
que acoita do feu eílado paíla defetecentas 
léguas ; porque quem parte de Cantão pêra 
ir onde EIRey eftá , ao menos atraveíTa qui- 
nhentas léguas , tudo tão povoado , que nin- 
guém dorme fora delle. A terra em li tem 
todolos metaes em grande quantidade , á 
mecânica muita mais que em Frandes , e 
Alemanha , porque he tanto o povo , que por 
fe manter fazem obras de todo género tão 
primas , e fotis , que não parecem feitas com 
dedos , mas que as lavrou a natureza. Fi- 
nalmente he tão groíTa , e abadada de tu- 
do , que eftando alguns dos noífos em hum 
porto junto da Cidade de Nimpo 5 em três 
mezes viram carregar quatrocentos bahares 
de feda folta , e tecida , qup são mil e tre- 
zentos quintaes dos noííos./Démos huma no- 
ticia geral deites Principes\ por as caufas que 
atrás apontámos ; e porque com os Reys 
T0m.LP.1L 'X do 



322 ÁSIA DE JOÃO DE BARBOS 

do Malabar tivemos mais communicacáo 
per commercio , e per armas , principalmen- 
te com o Çamorij , e contendemos té ora 
com elie , fem termos dado relação de fuás 
couías , convém que o façamos particular- 
mente no feguinte Capitulo. 

CAPITULO III. 

Como a terra da Província Malabar fe re- 
partio em Reynos , e Fftados : e o fun- 
damento do hftado do Camorij y e de 
algumas confas dos Naires > 
e gente Malabar. 

TOdo o Gentio da índia , principalmen- 
te o que jaz entre os dous mui gran- 
des , e celebrados rios Indo , e Gange , as 
couías que quer encommendar á memoria 
per eferitura , he em humas folhas de pal- 
ma, a que elles chamam Olla , de largura 
de dous dedos , e o comprimento fegundo 
•a coufa de que querem tratar. Se são algu- 
mas da fua Religião , ou Chronicas , c ou- 
tras memorias pêra muito tempo , ao modo 
como nós cá eferevemos em livros , huns 
de folha inteira , outros de quarto , e ofta- 
vo , aflí elles de ambalas partes eferevem 
em folha comprida , ou curta \ e depois que< 
tem eferito grande número de folhas em con- 
tinuação de livros , mcttein-as entre duas tal-ii 

las 



Década I. Liv. IX* Cap. III. 323 

Ias de páo , em lugar de taboas de enqua- 
dernação ; e affi ellas , eomo as folhas , vam 
trafpaííadas com hum cordel , que as entre- 
tém por fe não efpalharem ; e em lugar de 
brochas com o meímo cordel atam as fo- 
lhas entre aquellas tallas. As outras coufas , 
que fervem ao modo de noiTas cartas mef- 
mas , e efcritura commum , bafta fer a fo- 
lha efcrita , e enrolada em íí , e por chancel- 
la ata-fe com qualquer linha , ou nervo da 
mefma palma. O modo deita efcritura não 
,he mais que com hum eftilo de ferro , 011 
de páo rijo , ir levemente per frnia daquel- 
la folha rifcando os caraéteres da fua letra , 
e não tão profundos, que trafpaífem a ou- 
tra parte da folha , pêra poderem efcrever 
diambas as faces ; e as efcrituras que elles 
querem que dure pêra muitos feculos , que 
he particular de alguma coufa , affi como 
letreiros de templos , doações de juro , que 
dam os Reys , eftas são abertas em pedra , 
ou cobre. O Alfabeto da qual letra, e for- 
ma delia , e o modo de efcrever da parte 
efquerda pêra a direita com os coftumes def- 
ta gente, mais particular efcrevemos em os 
Commentarios da noíía Geografia ; aqui pê- 
ra noífo intento bafta faber que a maior par- 
te das coufas da efcritura da fua Religião , 
a creação do Mundo , a antiguidade da po- 
voação delle , a multiplicação dos homens, 
X ii € Chro- 



324 ASIÀ de João de Barros 

eChronicas dosRcys antigos, tudo hehum 
modo de fabulas, como tinham os Gregos, 
e Latinos , e quafi hum metamorfofeos de 
tranfmutações. E legundo o que deita fua 
eícritura temos alcançado por alguns livros , 
que nos foram interpretados ao tempo que 
entrámos na índia , havia feiscentos e doze 
annos que naquella terra , a que elles cha- 
mam Malabar , fora humRcy chamado Sa- 
ramá Percimal , cujo citado era toda efta ter- 
ra , que terá per coita té oitenta léguas , (co- 
mo atrás diíTemos.) O qual Rey foi tão po- 
derofo , que por memoria do feu nome fa- 
ziam a computação do tempo do reinado 
delle , que com nofla entrada leixáram , to- 
mando a cila por era , e anno de fuás ef- 
crituras , de que já muitos ufam. O aíTento 
principal do qual Rey era em Coulão , on- 
de geralmente concorriam todolos negócios 
do commercio das cfpeciarias de muitas cen- 
tenas de annos , cm cujo tempo os Arábios 
. já convertidos á feita de Mahamed , come- 
çaram per via de commercio entrar na ín- 
dia : Não como gente nova neítc adto , pois 
havia muitos tempos que elles , e os Parfeos 
eram fenhores daquelles dous eítreitos , per 
que as coufas Orientaes vinham a eítas par- 
tes da Europa , e traziam entre íi cita na- 
vegação , e commercio delias ; mas como 
gente ; que novamente começava de denun- 
ciar 



Década I. Liv. IX. Cap. III. 32^ 

ciar a fedta que tinha acceptado. E como 
os Mouros , por ferem núncios do Demó- 
nio , que nefte género de acquirir vaíTallos 
lie mui diligente , e todos são mui íòlí- 
eitos de converter o Gentio a íi , pouco 
a pouco começou efta fua infernal doftrina 
lavrar naquella gente idólatra ; e por fer mais 
accepta , tomavam-lhe as filhas por mulhe- 
res , coufa que cfte Gentio tem por honra , 
té que totalmente vieram aflentar vivenda 
na terra , com que efte Rey Saramá Perei- 
mal veio a fe fazer Mouro. Donde fe cau- 
fou ferem logo tão favorecidos delle , que 
deo lugar próprio onde povoaífem , e foi 
em Calecut, por alíi fer a flor da pimen- 
ta , e gengivre ; e depois que o tiveram pof- 
to naquelle eftado de Mouro , fizeram-lhe 
crer, que pêra falvar fua alma lhe convinha 
ir morrer á caia de Meca. O qual vendo- 
fe de muita idade , defejofo de fua falva- 
ção , acceptou o confelho ; e como homem 
que leixava o Mundo , primeiro que fe par- 
tiífe , quiz em modo de teílamento repartir 
feu eftado per os mais chegados parentes. 
Ao mais principal deo o Rleyno de Coulão , 
onde fepoz a Cadeira da Religião dos Brâ- 
manes , por elíe fer o maior de todos no 
tempo que era Gentio. A outro parente deo 
Cananor com titulo de Rey ; e a outros ou- 
tras terras com nomes de gráos de honra , 

fe- 



326 ASIÀ de J0Á0 de Barros 

fegundo feu ufo ; e aíli como fazia a repar- 
tição , aíli fazia logo a entrega da terra , in- 
do defiítindo do governo delia. A ultima 
das quaes foi a Cidade Calecut , onde os 
Mouros , (fegundo diflemos , ) tinham já po- 
voação própria , como homem que fe en- 
tregava nas mãos daquella gente que lheen- 
íihára o caminho de fua falvaçao , e leixa- 
ya o Gentio profano pêra fe alli embarcar. 
E porque eita terra de Calecut era a coula 
ultima , que na lua vontade tinha por re- 
partir , e quanto á lua opinião aquella , que 
havia de permanecer em grande potencia por 
razão dos Mouros , que já alli habitavam , 
e frequência do commercio que cngroífava 
osNaturaes, com a qual riqueza , c adjuto- 
rio dos Mouros podia o Senhor delia fe- 
nhorear as outras terras que tinha reparti- 
das ; cila , ainda que pequena em termo , 
quiz dar a hum fobrinho a que elle maior 
bem queria , e que de menino lhe fervíra 
de page com hum novo nome de Potencia 
no fecular fobre todolos outros ? chaman- 
do-lhe- Çamorij , que entre elles quer dizer 
o que acerca de nós Emperador. Ao qual 
leixou eftas duas peças de que elle ufava , 
hum candieiro , que ferve ao prefente dian- 
te das peífoas notáveis , como cá entre nós 
a tocha , e por iíTo os noífos lhe deram ef- 
te nome ? per a qual peça que dá luz , ef- 

tes 



Década I. Liv. IX. Cap. III. 327 

tes Príncipes antigamente entendiam a luz , 
e claridade do entendimento que tinham 
íòbre os outros homens , e a outra peça foi 
huma efpada per que íignificava o poder 
Real. Obrigando aos outros parentes ferem 
fubditos a efte na parte fecular , como quiz 
que elle , e os outros nas coufas da fua Re- 
ligião le fobmetteíTem aElRey de Coulão, 
como a cabeça de todolos^Bramanes , ao 
qual leixou efte nome Cobritim ,\que deno- 
ta aquella dignidade que acerca cie nós he 
a do Summo Pontífice. E acerca do tem- 
poral, eíteRey de Coulão, eEiRey deCa- 
nanor podiam bater moeda , peró que o 
Çamorij foífe fuperior delles ; e os outros 
Senhores em final de obediência não podiam 
cubrir cafa com telha , e outras muitas cou- 
fas que ordenou de maior , e menor digni- 
dade , os quaes delegados de fua ultima von- 
tade atou com grandes juramentos de fua 
Religião : e aíTi obrigou a efte feu fobrinho 
Çamorij % que em memoria de fua partida 
daquelle lugar , onde os Mouros tinham 
povoado 5 fundaífe huma Cidade , que fof- 
fe a Metropoli de todo Malabar , pois el- 
le era cabeça de todolos feus habitadores. 
Embarcado efte Rey Saramá Percimal, le- 
vando comfigo muitas náos carregadas de 
efpeciaria pêra oíFerecer na cafa de Meca , 
primeiro que lá chegaííe > chegou fua alma 

a fe 



328 ÁSIA de João de Barros 

a fe offerccer ao Demónio , por elle morrer 
no caminho ; porque per qualquer que elle 
foíTe , ora da gentilidade em que nafceo , 
ora da íefta que acceptou , o termo de ília 
jornada havia de fer naquelle fogo infernal , 
e as fuás oífertas no profundo do mar, on- 
de fe as náos perderam com hum tempo- 
ral. Ficando íèu fobrinho naquelle citado 
com titulo de Çamorij , e fundada a Cida- 
de Calecut , como lhe elle encommendou jun- 
to da povoação dos Mouros , correndo o 
tempo, que muda todalas coufas por mais 
ordenadas que as os homens leixcm , poílo 
que nclle fempre durou efte nome Çamorij , 
outros Senhores da terra Malabar le intitu- 
laram com nome de Ileys. Os quaes , fe- 
gundo elles dizem , todos procedem da re- 
partição deite Rey Saramá , e o de Cochij 
he o que tem a dignidade Cobritim , por 
os antigos de Coulão , em quem cila ficou , 
fe pairarem alli por razão da vizinhança , e 
fer fua própria terra , e outras razões de 
cumpridas ambages que elles contam. To- 
da eíla terra Malabar, ainda que ao tempo 
que nos entrámos na índia eítava dividida 
nos Reynos , que atrás deferevemos , o 
maior Príncipe delia em gente , e riqueza 
era o Çamorij por caufa da habitação dos 
Mouros, e elle avocar alli o tra&o das es- 
peciarias, pofto que emfeuReyno não hou- 
ve í- 



Década I. Liv. IX. Cap. III. 329 

vefle mais que pimenta , gengivrc , e algu- 
mas drogas de botica , que quaíi he geral 
per todo o Malabar , e o mais lhe vir de 
fora , aíli como canella , cravo , maça, 
noz 3 e outra forte de coufas aromáticas. A 
terra em íi toda he baixa , alagadiça 3 reta- 
lhada com efteiros 3 e rios , como cá são as 
terras , a que per vocábulo Arábico cha- 
mamos Leziras. A gente em geral toda tem 
liuma língua , huma crença , huma efcritura , 
e hum coftume , fendo a mais diftinéla gen- 
te em ufo particular de variedade de peflbas , 
acerca das dignidades , e officio , que cada 
hum deve ter de quantas té hoje temos def- 
cuberto , nem fe acha efcrito , peró que no 
fragmento que fe acha das coufas que Ar- 
riano efcreveo da índia , diga alguma couía 
do coftume deita gente Malabar , como que 
teve noticia delia. Porque o lavrador he dif- 
tinclo do pefcador , o tecelão do carpintei- 
ro , &c. de maneira , que os officios tem 
feito entre elles linhagem própria pêra huns 
não cafarem com os outros 5 nem commu- 
nicarem em muitas coufas ; e o filho do car- 
pinteiro não pode fer alfaiate , porque em 
modo de religião cada hum na vida, e offi- 
cio fegue feu pai , da qual fuperftição efcre- 
vemos em os Commentarios da noífa Geo- 
grafia. E o Naire , que he o mais nobre em 
langue de toda efta gente 3 não faziam os 

Ju- 



330 ÁSIA de JoÃo de Barros 

Judeos em feu tempo tanta purificação , quan- 
do fe tocavam com hum Samaritano , quan- 
tas elle faz 5 fe per defaítre algum dei- 
te povo lhe toca : e aífi o tratam , como 
fe elle foííe hum corpo glorificado , e o ou- 
tro hum immundo animal. E reduzindo- 
nos pera noííò intento , o Gentio natural , 
e próprio indígena da terra 5 he aquelle po- 
vo , a que chamamos Malabares : ha hi ou- 
tro , que alli veio da coita de Choroman- 
del por razão do tracto , aos quaes chamam 
Chingalas, que tem própria lingua, a que 
os noííbs commummente chamam Chatijs. Êf- 
tes sao homens tao naturaes , mercadores > 
e delgados em todo o modo do commer- 
cio , que acerca dos nolíos , quando que- 
rem taixar ? ou louvar algum homem por 
fer mui fubtil ? e dado ao traéto da merca- 
doria ? dizem por elle , he hum Chatim , e 
por mercadejar chatinar , vocábulos entre 
nós já mui recebidos. Habitam mais naquel- 
la Província do Malabar dous géneros de 
Mouros ; huns naturaes da terra , a que elles 
chamam Naiteas , que sao meítiços : quan- 
to aos padres de geração dos Arábios , que 
no principio começaram habitar , e por par- 
te das madres das Gentias 5 que tomaram 
por mulheres : Os quaes como sao meítiços 
no fangue , aífi o são na crença , e logo sao 
conhecidos nos coítumes ; no trajo 5 e na 

pef- 



Década L Liv. IX. Cap. III. 331 

ÍeíToa 5 de que ha tão grande número , que 
e a quarta parte da gente ; porque como 
os Mouros são libertados per privilégios do 
Rey , e podem-fe tocar com todo o Gen- 
tio nobre , o que não faz o povo , por ra- 
zão deita liberdade > fazem-fe muitos Mou- 
ros. O outro género de Mouros são os Ef- 
trangeiros , affi como Arábios , Parfeos, 
Guzarates , e outras muitas nações , que con- 
correm alli por razão do commercio , que 
todos são homens de grande cabedal, etra- 
élam groiTamente. Ha ahi também muitos 
Judeos naturaes da terra , que por razão de 
communicarem com os Mouros , e Gentios , 
todos são aguados com feus coítumes , e 
ceremonias , e menos labem da fua lei que 
das outras : são homens de tra&o , e onde 
quer que vivem , fempre buícam a fombra 
do favor do Príncipe por ferem avorrecidos 
da gente ; e porém os daquelía parte são 
liomens de fua peííoa , e pelejam mui bem. 
De todas eílas gerações a mais belicofa he 
a gente dos Naires por terem profifsão de 
ferem homens de guerra ; os quaes fendo 
do mais nobre fangue de todo o Gentio na 
opinião delles , podem-iè chamar filhos do 
vulgo : cá não lhe fabem certo pai 5 por as 
mulheres dos Naires ferem commuas aos de 
fuás dignidades. Porém efta lei fe guarda 
acerca dos mui nobres 3 fomente entre o po- 
vo 



33^ ÁSIA de Jòao de Barros 

vo delles ; e he tão geral , que depois que 
huma mulher deite fangue dosNaires he de 
idade de dez annos , em que fe ha por apta 
de ter maridos , fegundo certas ceremonias 
de que elles ufam , pode dar entrada em fua 
cafa a quantos Naires quizer, e também aos 
Brâmanes , que são os léus religiofos , por 
ferem licenciados neítas entradas ; e lendo 
d'outra linhagem , sao havidas por adulte- 
ras. Esao elles, e cilas tão livres deite vin- 
culo conjugal , que fe hum aborrece ao ou- 
tro , iíto baíta pêra le apartarem per modo 
de repudio; porem em quanto ambos citam 
em concórdia , elle he obrigado de manter 
a cila ; e vindo de fora , fe algum outro 
Naire eítá com ella , balta pêra não entrar 
dentro , e faber que eítá oceupada , achar a 
adarga, ecfpada do outro aporta, fem por 
iíTo receber efcandalo , ou paixão ; e daqui 
vem nenhum delles haver por filho o par- 
to da mulher , nem sao obrigados aos man- 
ter , e feus verdadeiros herdeiros são os fo- 
brinhos filhos dos irmãos. Dizem que cita 
lei he entre elles mui antiquiílima , e que 
procedeo da vontade de hum Príncipe pêra 
defobrigar os homens dos filhos , e os ter 
livres , e promptos no exercício da guerra ; 
e por elles eítarem obrigados a ella cada 
vez que os EIRey mandar , tem grandes 
privilégios , e liberdades : Em tanto , que 

quan- 



Década I. Liv. IX. Cap. III. 333 

quando vai per qualquer parte, vai bradan- 
do hum feu , ouelle : Pó , pó, que quer di- 
zer guarda, guarda ; e como não for ou- 
tro Naire , toda outra peííoa deípeja a rua , 
ou o caminho por reverencia de fua peffoa , 
por também acerca delles fer coufa de gran- 
de religião não fe tocarem com algum fo- 
ra da fua dignidade ; e fe per defaílre lhe 
ifto aconteceo , ha-fè de mundificar deita 
contagião com certas ceremonias. Efte no- 
me Naire , ainda que feja do fangue delles , 
não o pode algum ter íenão depois que lie 
armado Cavalleiro, e porém goza dos pri- 
vilégios de fua nobreza ; porque como che- 
ga a idade de fete annos , he logo obrigado 
ir á efcola da efgrima , ao meftre da qual . (a 
que elles chamam Panical , ) tem em lugar 
de pai pola dodlrina que recebem delle; e 
depois do Rey , ou Senhor a que fervem , 
a efte tem maior reverencia. Eítes feus mef- 
tres não fomente lhes eníinam o modo de 
efgrima de toda a arma , faltar, correr, e 
outras defenvolturas , mas ainda pêra os fa- 
zerem mais déftros , e leves , logo no prin- 
cípio defta fua dodtrina os quebram , e des- 
conjuntam á maneira de volteadores , e pê- 
ra iífo os untam com azeite de gergelim 
por os nervos não receberem lesão. Com 
o qual modo aífi faltam pcra trás , como 
pêra diante ? e são tão leves no movimen- 
to 



334 ÁSIA de João de Barros 

to do corpo , que parecem humas aves ; 
porque quando cuidais que os tendes arre- 
dados de vós 5 achai-los enrofeados debai- 
xo das voíTas pernas cubertos de fuá adar- 
ga. Suas armas são lanças, arco, e frechas, 
e a efpada he de quatro palmos ; e peró que 
feja de ferro morto , he aífi temperado que 
em corte he aço de Milão , muitas das quaes 
são em arcadas á maneira dos noíTos terça- 
dos , e mui pezadas , e não tem mais guar- 
da do que tem huma maça dos noíTos ho- 
mens d'armas , que he huma arandela que 
lhe cobre o punho. E pofto que efta fua ef- 
pada tenha ponta , não ufam de eftocada , 
todolos feus trabalhos he efgrima floreada 
aofom de humas argolas miúdas, que tra- 
zem pegadas junto do punho , que dam es- 
pirito ao efgrimidor. Na maneira de com- 
metter são mui oufados , e com ordem ; e 
cm fugir não tem alguma , nem lie vicio 
acerca delles , mas prudência ; porém são 
tão Jeaes aíli na guarda do Senhor a quem 
fervem , que ante fe leixaráõ todos morrer 
que o deíamparar, fe com efte defamparo 
a peífoa delle pode incorrer em algum pe- 
rigo ; e mais lei tem com o Senhor de que 
recebem foldo , que com feu próprio pai. 
E acertando o feuRey, ou Senhor que fer- 
vem de morrer na batalha , e eíle fe não 
achou naquelle lugar pêra morrer com cllc , 

ain- 



Década I. Liv. IX. Cap. III. 33? 

ainda que feja emReyno eftranho, lá vam 
demandar fua morte per defafio. São ho- 
mens de pouca mantença , e pouco cufto , 
porque com duzentos reaes da nofla moeda 
por mez íe acharão naquellas partes quan- 
tos quizerem. Tanto que he Cavalleiro, o 
Rey , ou Senhor da terra lhe ha de dar mo- 
radia , e pode trazer armas , e acceptar, ou 
commetter defafio , coufa entre elles mui 
coftumada. A ceremonia de armarem Cavai- 
leiro he ir com todolos parentes , e ami- 
gos com pompa , e apparato de feita á ca- 
ía d'ElRey , ou Senhor com que vive, e 
offerecer-lhe feífenta moedas d'ouro , a que 
chamam Fanões , cada hum dos quaes po- 
de valer da noífa moeda vinte reaes , todos 
poftos em huma folha de bctelie , e o Se- 
nhor lhe pergunta fe quer fcr Cavalleiro, 
e úle com todolos que o acompanham a 
huma voz refpondem : Si. Então lhe man- 
da cingir huma efpada de bainha vermelha, 
e põe-lhe a mão pela cabeça , dizendo entre 
íi certas palavras da religião daquella Or- 
dem ; e depois em alta voz diz eftas : Pa- 
guego Brammena bifquera , que querem di- 
zer , guardarás os Brammaíies , e as vacas ; 
e dito ifto , o Senhor lhe dá dous fanóes dou- 
ro em final , e começo de paga do foldo , 
ou moradia que cada mez ha de ter delle, 
eefta he a primeira honra que recebe. Aca- 

ban- 



336 ÁSIA de João de Barros 

bando o Senhor lua ceremonia , humEfcrí- 
vao feu em alta voz pergunta pelo nome 
delle novel Cavalleiro , e de que familia he , 
c aííl o aííenta em o Livro da Matricula dos 
Cavallciros , o qual aíTcnto lie teftemunhado 
com alguns dos principaes , que com elle vie- 
ram em modo de padrinhos. E tirando as 
peíToas muito nobres , que EIRey faz por 
ilia mão , as mais vezes commette cíle ar- 
mar de Cavallciro ao próprio Panical mef- 
tre da eígrima; e ordinariamente todos em 
quanto podem trazer armas , e certos dias 
11a femana por não perderem o exercido 
delia j sáo obrigados ir á efeola deita efgri- 
ma. Todos em os negócios da guerra he 
gente tão fuperíKciofa , que não moverão o 
pé fem eleição da hora : e em tanto eftremo 
guardam a obíervancia do tempo per efte 
modo de eleição da Aftrologia 5 que muitas 
vezes perdem fazenda , e com ella a vida 
por feguir eíla fuperftição. E não fomente 
eítes , mas todo o Gentio daqucllas partes 
per Aftrologia 3 Geomancia , Pyromancia 5 
Hydromancia , Onomancia 5 c outras efpecies 
deitas artes , que elles referem ao curfo do 
Ceo , e Planetas , mas ainda todo género de 
agouros per alimárias , aves , e outras feiti- 
cerias , em que moftram ferem mais doclri- 
nados , ou por melhor dizer mais familiares 
do Demónio > do que foram neíla parte os 

Gre- 



Década L Liv. IX. Cap* III. 337 

Gregos , e Romanos , fegundo as coufas que 
fazem, de que tem muitos livros. O maior 
feito que hum deites Naires pode fazer na 
guerra, he tomar a efpada a feu imigo , e 
tanto que a toma , per obrigação de lealdade 
a leva a EIRey 5 e elle a manda poer na 
cafa das fuás Armas , com huma efcritura 
que declara quem, e per que modo foi ga- 
nhada dos imigos. E quando EIRey rece- 
be eíla efpada do Cavalleiro que lha apre- 
fenta ; alevanta as mãos contra onde nafce 
o Sol , dando louvores a Deos , pois o fez 
fenhor das armas de feus imigos , em fatif» 
facão do qual ferviço dá áquelle Cavallei- 
ro huma manilha d'ouro , a qual traz no 
braço em final de honra. O viver, e habi- 
tação deita gente he junto da cafa do Se- 
nhor que fervem , cada hum apartado per 
fi em caía própria , com quintaes , e vallados , 
de maneira que lhe fica toda fua herança de 
huma cancella pêra dentro , e quaíi per eíte 
modo vive todo o Gentio debaixo dos pal- 
mares , e areaes , que he a fua fazenda de 
que vivem ; donde vem , que a terra em que 
ha povoados , toda he repartida neftas pro- 
priedades ; e são tantos os vallos, que he 
humlabyrintho andar per os caminhos reaes, 
pofto que fejam eítradas largas , quanto mais 
per as azinhagas do ferviço de cada pro- 
priedade , de maneira , que quem os quizer 
Tom.I. P.iL Y con- 



338 ÁSIA de Jo^o de Barros 

conquiítar tem mais que fazer cm entender 
os caminhos per onde pode entrar, eíahir, 
que em pelejar • e os lugares de grande po- 
voação 5 em lugar de muro , são cercados de 
hum género de arvores de cfpinhos tão fe- 
chadas , que fe não podem entrar , nem menos 
queimar de verdes. Eítas são as armas , e 
gente , com que os Reys ,' e Príncipes do 
Malabar , de que falíamos , fazem fua guerra > 
a qual toda he a pé , por entre clles não ha- 
ver ufo de cavallos , nem a terra fer apta 
pêra iílb ; c com nofla entrada na índia , 
principalmente o Çamorij , tiveram grandes 
ajudas nos Mouros , que os mettêram em ar- 
tilheria , e outros artifícios , e induftrias , que 
elles não fabiam. Quanto a outra guerra 
que temos com os Reys , e Principes Mou- 
ros , aífi do Reyno Decan , que pelejam a 
cavallo 7 como do Reyno de Cambaya , 
Ormuz , &c. cm feu tempo daremos relação 
de fuás coufas : Efta noticia em geral baile 
ao prefente , e tornemos ao que o Vifo-Rey 
D. Franciíco d' Almeida fez em Cananor. 



CA- 



Década L Livro IX. 33$ 

CAPITULO IV. 

Como o Vifo-Rey fe vi o com EIRey de 
Cananor , e , efpedido de lie > chegou a Cochij , 
onde lhe deram nova que António de 8á 
Feitor de Coulão era morto pelos Mouros > 
fobre o qual cafo mandou logo la D. Lou-* 
renço. 

O Vifo-Rey , depois queefpedio os Em- 
baixadores de Narfinga , ( como atrás 
fica , ) por fer já vindo EIRey de Cananor 
pêra as fuás cafas 5 que eílavam a huma par- 
te da Cidade , ordenou per meio do Feitor 
Gonçalo Gil , que fe viíTem ambos , pofto que 
entre elles houve as primeiras vifitaçoes de 
ília chegada. A qual viíla havia de ler jun- 
to do recolhimento 3 que elle Gonçalo Gil , 
e os Officiaes com a gente d'armas que alli 
ficara tinham feito , que era em huma pon- 
ta de terra tão aguda , e mettida no mar, 
que a puderam elles cortar com huma cava f 
peró que elle não entrafle per ella ; ao lon- 
go da qual cava da parte de dentro fizeram 
huma eftacada com entulho , que ficava em 
lugar de repairo ; e nas outras duas faces 
que levava o mar 5 também tinham feitas 
eílacadas quanto era neceíTario pêra as cafas 
de madeira , fegundo o ufo da terra. Do 
qual recolhimento té ornais agudo dapon-» 

y íí u 



'34° ÁSIA de João de Barros 

ta havia hum eípaço , que com a vinda de 
Lourenço de Brito, que alli ficou por Capi- 
tão , fe povoou de mais cafas ; e como adian- 
te veremos fe fundou huma Ermida , que 
fe chama NoJJa Senhora da ViSioria , pola 
que D, Lourenço filho do Vilb-Rcy alli 
houve. E diante do lanço da cava , que era 
a ferventia pêra a Cidade , eltava hum poço 
d'agua doce , de que os nofibs bebiam , que 
caufou elegerem aquelle lugar pêra feu re- 
colhimento , além de a terra em fi fer lava- 
da domar pelas duas faces , e ficar mui dif- 
pofta pêra illo \ e entre eíle efpaço , e a ca- 
va tinha cortado algumas palmeiras por 
defabafar eíle recolhimento , com que fize- 
ram hum grande terreiro. O qual por fçr 
efpaçofo pêra aquelle adio de viftas , man- 
dou EIRey enramar, e toldar com pannos 
de feda , tudo per ordenança dos noífos , tão 
concertado , que ficou huma grande , e gra- 
ciofa fala. E no dia que fe haviam aqui de 
ver , mandou EIRey pedir ao Vifo-Rey > 
que quando partiffe das náos não vieíTe de 
frecha a eíle lugar, mas direitamente ás fuás 
cafas , que eftavam no cabo da Cidade , pê- 
ra que dalli ambos juntamente hum per mar, 
outro per terra ao longo da praia fe vief- 
fem metter neíle lugar ordenado. A caufa 
deííe requerimento, (fegundo Gonçalo Gil 
diffe ao Vifo-Rey,) era porque queria EI- 
Rey 



Década I. Liv. IX. Cap. IV. 341 

Rey vir ao longo da praia , dando-lhe moí- 
tra de feu eftado , por ferem neílas viítas tão 
gloriofos , que cm nenhuma outra coufa que- 
rem moftrar feu poder , o qual requerimen- 
to o Vifo-Rey concedeo por lhe compra- 
zer. Embarcado elle com toda a flor da 
gente em bateis embandeirados com gran- 
des apupadas dos remeiros , eítrondo d'ata- 
baques , e trombetas , quando foi ao efpedir 
das náos , começaram ellas também em feu 
modo denunciar fua partida de feita , rom- 
pendo os ares com fua artilheria , de ma- 
neira , que huns fe não podiam ouvir com 
eítrondo dos outros. EIRey como tinha pof- 
to o olho nelle, poz-fe em tal ordem, que 
quando chegou defronte das fuás cafas ef- 
tava poíto em ordenança ao longo da praia 
com obra de finco mil homens, todos arma- 
dos , huns de efpada , e adarga , e outros 
frecheiros 7 em meio da qual ordenança vi- 
nha elle lançado em hum andor alto fobre 
hombros de homens , e hum fombreiro de 
pé fegundo feu ufo, que lhe tomava o Sol y 
e alguns fervidores, que -com abanos altos 
lhe vinham refrelcando o ar. E entre elle y 
e a gente que vinha diante , c ficava detrás , 
havia hum efpaço defpejado , em que efgri- 
miam certos homens de efpada , e cofo y 
coufa pêra muito folgar de ver , porque co- 
mo eram ligeiros , e leves 5 faziam faltos , e 

vol- 



34^ ÁSIA de JoXo de Barros 

voltas, como pode fazer humdcíiro volrca- 
dor. Chegados ambos a hum tempo ao lu- 
gar onde fe haviam de aflentar , efperou o 
Vifo-Rey que fe apartaíTe aquclle grão car- 
dume de gente que vinha diante cfEIRcy, 
a qual como fahio da ordenança , a mais 
delia por ver o adio do recebimento fem 
ordem , quiz oceupar a maior parte do ter- 
reiro. EIRey poílo já no lugar que citava 
toldado , e entendendo que o Vifo-Rey não 
fahia dos bateis poios feus defordenadamen- 
te terem oceupado o terreiro, mandou per 
os Officiaes de fua ordenança que os def- 
pejaíTem de todo , c ficou fomente acompa- 
nhado com as principaes peífoas que haviam 
de eftar com elle. E o Vifo-Rey , viílo eíle 
defpejo , leixou toda a gente ao longo da 
força , que os noiíos tinham feita , poftos cm 
ordenança, efoi-fe pcraElRey naquclla or- 
dem que requeria feu cargo , de porteiros 
de maça , e trombetas diante , e com alguns 
Fidalgos efeolhidos por ver como EIRey 
também fe expunha naquelle modo ; e as 
peflbas notáveis que neílc adio entraram com 
elle , foram feu filho D. Lourenço , D. Ál- 
varo de Noronha , que hia por Capitão de 
Cochij , e Lourenço de Brito , e Gafpar Pe- 
reira Secretario, e Gafpar da índia língua. 
Feitas fuás cortezias , da primeira viíla af- 
fentáranvfe ambos em duas cadeiras , que ef- 

ta- 



Década L Liv. IX. Cap. IV. 343 

tavam cubertas com pannos de borcadinho. 
E depois que praticaram hum pouco na che- 
gada de cada hum , começou o Vifo-Rey 
dizer a EIRey como vinha pêra reíídir per 
alguns annos na índia, por caufa das cou- 
fas que eram movidas entre as Armadas dei- 
Rey feu Senhor , e o Çamorij de Calecut , 
e todolos Mouros que navegavam áquellas 
partes , por razão do ódio que tinham aos 
Chriítãos , e principalmente á gente Portu- 
guez ? de que elle já teria noticia. Final- 
mente pairadas eftas palavras % do fundamen- 
to de lua vinda , começou de tratar em fe 
fazer fortaleza naqueiie lugar, que tinha ele- 
gido o Feitor Gonçalo Gil , a qual EIRey 
prometteo logo , e todolos Officiaes da ter- 
ra pêra iflb , e aíli prometteo de dar com 
brevidade defpacho a carga de efpeciaria ás 
náos , que aquelle anno haviam de vir pêra 
efte Reyno. Paliada eíla prática que durou 
hum pedaço , fe efpedíram hum do outro 
com as dadivas , que fe entre elles coítu- 
mam , em que entravam algumas peças , que 
EIRey D. Manuel de cá mandava , que fe 
deflem áquelles Príncipes feus fervidores. E 
porque entre elles ficaram algumas coufas 
por acabar de aífentar acerca da efpeciaria , 
ao feguinte dia mandou o Vifo-Rey a Gaf- 
par Pereira Secretario , e ao Feitor Gonça- 
lo Gil com Diogo Lopes Efcrivão da fua 

náo 



344 ÁSIA de João de Barros 

náo S. Jeronymo com Gafpar da índia lín- 
gua , que levavam huns Apontamentos dei- 
tas coufas , os quaes ElRey concedeo. E 
entre algumas que elle pedio ao Vifo-Rey , 
foi, quelevaiTe dalli certos homens dos que 
citavam em companhia de Gonçalo Gil por 
ièrem revoltoíòs. E peró que o Viíò-Rey 
delles lhe quizera dar emenda , elle iè 
houve por íàtisfeito em os mandar dalli : 
e com citas , e outras coufas , em que EI- 
Rey via com quanta vontade o Viíò-Rey 
o queria comprazer em feus requerimentos , 
trabalhava elle também por lha pagar , man- 
dando fazer com diligencia tudo o que elle 
queria. O Vifo-Rey porque tinha muito que 
fazer no deipacho das náos , e o tempo era 
mui breve pêra a partida delias , não fe po- 
de alli mais deter que oito , ou dez dias , 
em quanto acabou de cortar bem aquella 
ponta de terra , cm que citava elegida a for- 
taleza , e começou de a poer em termos , 
que ficava pêra fe a gente poder bem de- 
fender. E leixando tudo em ordem pêra fe 
acabar , como a cal foíle feita cm breve 
tempo com Officiaes que pêra iíTò hiam or- 
denados 5 tomou a omenage delia a Louren- 
ço de Brito Copeiro mor d'ElRey D. Ma- 
nuel , que , (como já difiemos , ) hia pêra Ca- 
pitão delia , ou d'outra , que fe havia de fi- 
zer em Couiao ; e Guadalajarra hiun Fidal- 
ga 



Década I. Liv. IX. Cap. IV. 34? 

go Caftelhano per Alcaide mor , e Lopo 
Cabreira Feitor , com os mais Ofíiciaes a 
ella ordenados , que com a gente d'armas 
podiam fer cento e fincoenta pelToas ; e pa- 
ra guarda daquella coíla , e favor da forta- 
leza, ficaram eftes dous Capitães, Rodrigo 
Rabelo em fua náo , e Bermum Dias Na- 
taforea. O Vifo-Rey , providas eílas coufas , 
partio-fe via de Cochij 5 onde chegou o pri- 
meiro de Novembro , e em feguindo na 
barra , elle , e Fernão Soares por ferem me- 
lhores na vela que as outras nãos , chegou 
huma caravela das que leixou Lopo Soares , 
de que era Capitão Chriftovão Zuzarte, o 
qual vinha de Coulao , e lhe deo nova que 
o Feitor António de Sá com todolos Por- 
tuguezs que láeftavam eram morros 3 epof* 
to fogo á fazenda , e cafas que tinham , de 
que o Vifo-Rey ficou mui trifte por aquel- 
le defafíre. Perguntando pela caufa defte ca- 
fo , contou Chriftovão Zuzarte , que no por- 
to de Coulao havia dias que eítavam quatro 
náos de Mouros de Calecut , as quaes tra- 
ziam hum pouco de cravo, ecanella, e al- 
gum arroz , que vieram de contra o Cabo 
Comorij ; e por o Feitor António de Sá fa- 
bcr que vinham eílas alli pêra tomar carga 
de pimenta , e fazer fua viagem de mar em 
fora , caminho do eftreito de Meca , apar- 
tando-fe da coíla da índia por caufa de nof- 

fas 



346 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

fas Armadas , não fomente trabalhou per feus 
meios de lhes impedir efta pimenta , mas ain- 
da lhes mandou commetter que lhevendcf- 
fem a efpeciaria que tinham , com funda- 
mento de os fazer dalli partir , fe lha negaf- 
fem ; e leixando-fe eftar no porto , de lhe 
tomar as velas por fegurar delles que não 
tomaífem a pimenta. O qual negocio elle 
commetteo depois que João Homem che- 
gou com o recado delle Vifo-Rey , porque 
como elle era hum Cavalleiro , que todo o 
feu fer eftava em pelejar fem medo , e das 
outras couías que pertenciam a Capitão tinha 
pouco difeuríò , e cautelas ? tanto fez com 
António de Sá , e clic também efeandalizado 
dos Mouros , que confiado na grande frota , 
e gente noíía , que era entrada na índia , e 
valentias de João Homem 5 com favor feu 
tomou as velas ás náos dos Alouros , o que 
ellcs foíFrêram por mais não poder. Porém 
partido João Homem pêra onde leixava a 
elle Vifo-Rey , chegadas vinte e tantas ve- 
las de Calecut , Cananor , e Cochij , todas 
de Mouros mercadores , ficaram eíles efean- 
dalizados tão favorecidos com ellas , que or- 
denaram logo de enviar hum delles ao Re- 
gedor da terra , que fizelfe com o Feitor 
que lhe tornaffe fuás velas. O Regedor , por- 
que folgava de favorecer os Mouros polo 
proveito que traziam á terra, mandou com 

ef- 






Década I. Liv. IX. Cap. IV. 347 

elle, que lhe trazia o recado , hum criado feu 
a António de Sá ; e foram as palavras que 
per elle lhe mandou dizer taes , e tão efcan- 
dalofas , que fe travaram de tal forte com 
outras de maior indignação , com que o 
Mouro defaforadamente apunhou hum ter- 
çado pêra o Feitor António de Sá , e elle 
poz-lhe tão rijo as mãos nos peitos , que 
deo com elle em terra. Ao qual tempo fe 
chegou hum homem delle Feitor , e com 
huma efpada deo duas feridas ao Mouro , 
com as quaes fe elle foi aprefentar ao Re- 
gedor , e affi accendêram a fúria dos Gen- 
tios , e Mouros das náos que eram prefen- 
tes j que vieram com aquelle Ímpeto hum 
grande numero delles febre os noflbs , os 
quaes por fe defender , fe acolheram a hu- 
ma Igreja que tinham feita , que era de pe- 
dra , e cal 3 onde lhe logo começaram pôr 
o fogo , porque os não podiam entrar. Os 
noflbs vendo-fe mais affrontados do fumo , 
que das armas delles , fahíram fora , e co- 
meçaram entre íi hum furiofo jogo de cuti- 
ladas , e peró que faziam affaílar os Mou- 
ros , como elíes eram muitos , mais canfa- 
dos das forças que desfalecidos do efpirito , 
todos ficaram alli mortos entre os corpos 
dos bárbaros , a que ellcs tinham tirado ávi- 
da. Ao tempo da qual revolta elle Chriílo- 
vão Zuzarte era chegado com fua caravela 

alli 



34<> ÁSIA de JoXo de Barros 

alli com recado do Feitor de Cochij ibbre 
o negocio da carga ; e porque elle eftava no 
mar , e não teve modo pêra acudir a efte 
infulto , fe fez á vela per entre as náos dos 
Mouros, eveio pôr fogo afinco que achou 
apartadas das outras , as quaes quando fahiá 
do porto leixava em huma labareda. Ven- 
do o Vifo-Rcy que no lugar onde lhe con- 
vinha ter paz por razão da carga das náos , 
achava guerra travada com tanto damno re- 
cebido , ficou mui confuíb , porque effe ca- 
lo pedia caftigo por parte dos Mouros , e 
por parte das náos que tinha pêra diífimu- 
lação. Finalmente determinado no que lhe 
pareceo mais neceiTario 5 afii como D. Lou- 
renço vinha á vela com a mais frota , não 
houve mais detença de o mandar , e partir 3 
que em quanto fe mudou da íua náo a Flor 
de la mar , Capitão João da Nova , com 
muita Fidalguia , e eftes Capitães , Vafco 
Gomes d 5 Abreu , Manuel Telles , Ruy Frei- 
re , e as caravelas de Gonçalo de Paiva , 
Lopo Chanoca , e João Homem , levando 
avifo que vifle fe per algum modo podia 
apacificar aterra pêra haverem carga da pi- 
menta , e que pêra iífo déííe a culpa ao mor- 
to , porque depois tempo 3 e culpas haviam 
de ter cada dia com que pagaííem aquelle 
damno prefente , e quando o Regedor de 
Coulão não quizeíTe vir em boa paz> então 

pu- 



Década I. Liv. IX- Cap. IV. 349 

puzeflem rnaos ao caftigo. O que D. Lou- 
renço cumprio , porque chegado a Coulao y 
mandou diante hum recado ao Regedor, e 
polo attraher a paz , deo a culpa do caio 
aos mortos, os quaes fe foram vivos, o cas- 
tigo de feu pai lhe fora mais afpero que a 
mefma morte , por ferem perturbadores da 
paz , que EIRey de Portugal feu Senhor 
queria ter com os Príncipes daquellas par- 
tes. Peró nenhuma deitas branduras , de que 
D. Lourenço quiz ufar , aproveitaram , an- 
te deram oufadia aos da terra de tirarem ás 
frechadas a quem levava efte recado. E vin- 
te e quatro náos que eftavam no porto , co- 
mo quem fe punha em defensão, ajuntáram- 
lè todas em hum corpo , moítrando terem 
em pouco as ofFertas , e paz de D. Louren- 
ço. E porque Chriílovão Zuzarte tinha dito 
que eftavam alli algumas náos de Cananor , 
e Cochij , mandou D. Lourenço notificar, 
que fe alli eftavam algumas deites dous lu- 
gares , que fe fahilTem da companhia das 
outras , porque queria caftigar o damno dos 
mortos , e a injúria que era feita áquella 
Armada d ? EÍRey feu Senhor em defpreza- 
rem a paz que lhe dava. Finalmente os Mou- 
ros fe encadearam todos huns com os ou- 
tros , e aíli pereceram todos em huma brafa 
de fogo , dej>ois que foram bem conquifta- 
dos com a faria da artilharia : e força das 

lan- 



3<ro ASIA de JoÂo de Barros 

lançadas dos noíTos; c alguns Mouros que 
eícapáram , foram os que le lançaram a na- 
do. Da qual viftoria D. Lourenço mandou 
logo nova a feu pai per João Homem , que 
no commetter delias náos Deos fez por elle 
hum milagre , dando-lhe hum pelouro de 
bombarda nos peitos fobre huma adarga 5 e 
não lhe fez mais nojo que cahir aos feus 
pés. Parece que o feu zelo no aélo do pri- 
meiro infulto , de que elle foi caufa , foi tal 
que por elle não teve culpa , pois Deos o 
teítemunhou nifto que fez polo íalvar ; e 
com tudo aíli por elle feito , como por ou- 
tros de pouco governo de Capitão que por 
elle eram paliados , o Vifo-Rey lhe tirou a 
caravela , a qual deo a Nuno Vaz Pereira , 
hum Fidalgo honrado , que como veremos 
per méritos de fua peífoa neíla conquiíla al- 
cançou grande nome. D. Lourenço acabado 
cíle feito , partio-fe pêra Cale Coulão , que 
fera contra Cochij obra de quatro léguas 5 
e alli leixou algumas náos á carga da pi- 
menta per meio de hum Chriílão da terra 
chamado Mathias , que a iílb deo grande 
aviamento : cá por razão do proveito que 
recebiam de nós , em todolos portos onde 
chegávamos , como niífo não entrevinham 
Mouros , o Gentio andava em competên- 
cias a quem nos ganharia mais a vontade 
com benefícios ^ c principalmente com eftes 

de 



Dec. I. Liv. IX. Cap. IV- e V. 35T 

de commercio 3 que era de tanto feu pro- 
veito. 

CAPITULO V. 

Como o Vifo-Rey fe njio com EIRey de Co* 
chij em hum a£io fokmne , em que lhe en- 
tregou certas coufas : e como acaba- 
da a carga das nãos as efpedio 
pêra ejie Reyno. 

ELRey D. Manuel como tinha fabido os 
grandes trabalhos , que Trimumpara 
Rey de Cochij paliara na guerra , que lhe 
o Çamorij de Calecut fez , por lhe gratifi- 
car os méritos de quanta fé moítrou no pro- 
ceifo daquelia guerra acerca da guarda da 
vida dos noílbs , quiz per o Vifo-Rey Dom 
Francifco mandar-lhe moftra da boa vonta- 
de que lhe tinha por eftas obras. E porque 
ao' tempo que elle Vifo-Rey chegou, tinha 
deíiftido do Reyno Trimumpara por fua 
muita idade , e eftava recolhido entre feus 
Brâmanes , como homem que leixava o Mun- 
do , e em feu lugar reinava hum feu fobri- 
nho por nome Nambeadora, quiz o Vifo- 
Rey informar-fe do Feitor , e Officiaes de 
Cochij , como paliava o negocio do reina- 
do deite Principe > por lhe dizerem que era 
por favor delles , e não por lhe pertencer 
o Reyno. Dos quaes foube que o verda- 
deiro herdeiro de Cochij > ( fegundo o ufo 

dos 



35^ ÁSIA de João de Barros 

dos Malabares , ) era outro fobrinho do Rey 
paliado , o qual andava na ferra lançado 
com o Senhor de Repelim ; e nas guerras 
paliadas dentre feu tio, e o Çamorij fe lan- 
çou com elle em ódio noflb , fazendo quan- 
to damno podia a leu tio. Pola qual ra- 
zão , quando o tio deíiítio do Reyno , de- 
clarou cítoutro por herdeiro, pofto que per- 
tenceíle a elle por mais velho : e fobre ef- 
ta eleição do tio , e mérito da grande ami- 
zade que fempre nos guardou, era elle bem 
quifto do commum da gente de todo o Rey- 
no. Porém acerca de alguns principaes era 
o desherdado mui favorecido , c com favor 
delles andava perturbando Nambeadora, ao 
qual negocio elle Feitor acudio com todo- 
]os da fortaleza , e com feu favor o tinham 
entretido em poíTc. O Vifo-Rey como te- 
ve efta informação , pofto que entre elle , e 
EIRey houve vifitaçóes de fua chegada, o 
mais que efperava fazer guardou pêra avin- 
da de D. Lourenço , por caufa de quantos 
Fidalgos , e homens nobres eram idos com 
elle , os quaes convinha ferem prefentes á 
entrega das peças que levava pêra EIRey. 
E ainda pêra maior lblemnidade defte acio , 
tanto que D. Lourenço veio de Coulao , 
mandou elle Vifo-Rey avifar a EIRey , que 
vieíTe áquella fortaleza receber certas cou- 
fas, e recado, que lhe EIRey de Portugal 

feu 



De cada I. Liv. IX. Cap. V. 35-3 

feu Senhor mandava ; e juntos todolos Ca- 
pitães , e principaes peflbas veítidas de fef- 
ta 5 foi-fe com elle a huma grande ramada i 
que pêra eíle aíto era feita diante da Igre- 
ja dos noííbs com hum eftrado alcatifado , 
e paramentado de pannos , e bandeiras de 
feda , onde elle , e EIRey fe haviam de af* 
fentan O qual começou de apparecer em 
ordenança com fua gente de guerra diante, 
e detrás , fegundo o ufo de feus recebimen- 
tos de feita ; e elle pofto em hum Elefante , 
cuberto de pannos de feda, e arraiado de 
borlas , e outras galanterias de entre talhos > 
que fervem de louçainha 3 e paramentos dos 
Elefantes , principalmente os que são de fua 
peíToa , em que coníiíte todo feu eítado* 
Porque fobre íi não trazia mais que hum 
panno de algodão mui fino encanchado , a 
que elies chamam Purava , com que fe cu- 
bria de cinta té meias pernas , e todalas ou- 
tras partes nuas, femmais ornamentos que 
os couros da fua carne , e nos braços ma- 
nilhas d'ouro , e pedraria , e hum barrete 
alto de borcado. Poílos ambos no lugar de 
feus aífentos , e a gente em ordem , e íilen- 
cio , começou o Vifo-Rey em voz entoa- 
da propoer o difcurfo das coufas paliadas , 
depois que o Almirante D. Vafco da Ga- 
ma defcubrio a índia ; e que a tenção prin- 
cipal que ElP^ey D« Manuel feu Senhor ti^ 
Tom.L P.iL Z ve- 



3^4 ÁSIA de JoÂo de Barros 

vera ncfte defcubrimcnto , fora deíòjar a 
communicação dos Reys Gentios daqucllas 
partes ; porque mediante ella 3 e o commer- 
cio \ que he hum uíb , que procedeo das 
ncceífidades dos homens, e fica em vinculo 
de amizade pêra fe communicarem huns 
com os outros , reíultaria defta tal commu- 
nicaçao , amor, e efte amor daria as ore- 
lhas facilmente aos naturaes \ a que a Fé 
dejefus Chriíto Nofíb Redemptor foíTe per 
eiles acceptada \ e fe tornaífe a renovar no 
animo dos preíentes , como fora recebida 
per fcus antepaiTados per a pregação do 
Bemaventurado S. Thomé feii Apoftolo , cu- 
ja cafa ainda entre os naturaes eftava havi- 
da em veneração , como coufa fanéta que 
ella era. E porque na vinda dos Capitães , 
que EIRey feu Senhor daquelle tempo té 
o prefcnte tinha enviado , naquelle Reyno 
de Cochij acharam acolhimento , f é 5 e ver- 
dade ; e nos outros daquella terra Malabar 
o contrario , ao menos em padecer tanto 
trabalho por confervar efta amizade , e guar- 
dar elta fé promettida , como tinha paífado 
Trimumpara Rey de Cochij , o qual não 
fomente aventurou feu eílado , perdendo a 
maior parte delle , mas ainda dous fobri- 
nhos. Em remuneração de todas eílas cou- 
fas EIRey feu Senhor , como Príncipe gra- 
to a feus amigos > lhe mandava três cou- 

fas 



Década I. Liv. IX, Cap. V- 357 

fas em final de amor, e lembrança do que 
por íèu ferviço fizera» E pois elle leixára 
por herdeiro a Nambeadora feu fobrinho , 
que alli eftava prefente, o qual era conhe- 
cido , e recebido por Rey de Cochij ; elíe 
Vifo-Rey lhe queria entregar as coufas que 
trazia , porque quem herdava o Reyno > 
também era digno de receber os méritos 
delle. A primeira das quaes coufas era aquel- 
la coroa d 5 ouro, a qual elle lhe punha fo~ 
bre a fua cabeça em nome do muito alto , e 
muito poderofo D, Manuel feu Senhor 5 Rey 
de Portugal , e dos Algarves , daquém , e 
dalém mar , Senhor de Guiné , e da Conqui£ 
ta , Navegação , e Commercio da Ethiopia , 
Arábia , Períia , e índia : dizendo as quaes 
palavras , fe levantou , e tomando nas mãos 
a coroa* , que lhe tinham diante pofta em 
hum bacio , lha poz fobre a cabeça. E pro~ 
feguio mais > dizendo , que no aéto daquel- 
la coroação , elle , em nome d'ElRey feu 
Senhor , o fazia Rey , e legítimo fucceífor 
daquelle Reyno de Cochij , e novamente 
lho dava , poílo que outra alguma peífoa 
pertendeífe niíTo ter direito , pois já tinha 
perdido efta acção na guerra que fez a Tri-* 
mumpara ? como elle tinha declarado per 
fua ultima vontade. E em confirmação dei- 
ta obra , que elle Vifo-Rey fazia em nome 
d^ElRey feu Senhor, elle per íi., e per to- 
Z ii dos 



35*0 ÁSIA de João de Barros 

dos aquclles Capitães , Fidalgos , Cavalleí- 
ros efeudeiros , que prefentes efíavam , pro- 
mettia que por honra , defensão , e aceref- 
centamento da peíToa Real , e eílado delle 
Rey de Cochij , offerecer fuás fazendas , e 
peííoas , fegundo lhe era mandado nos Re- 
gimentos , xque trazia d'ElRey feu Senhor. 
Pêra a qual execução , quando neceffario 
foíTe, Sua Alteza o mandava com nãos ar- 
madas , e gente de corações mui leaes , e 
fieis a refidir naquellas partes ; e que em 
memoria do dia da batalha , em que EIRey 
Trimumpara perdera léus fobrinhos , lhe 
aprefentava outra peça , que era aquella co- 
pa d'ouro \ que tinha feiscentos cruzados , 
e dentro hum Padrão de tença de juro em 
cada hum auno de outra tanta quantia paga 
■em outra tal copia naquelle dia em os Fei- 
tores que alli eíliveíTem \ a elle , e a todos 
os feus fucceííores , e com cilas palavras lhe 
aprefentou a copa. Dizendo mais , que a 
terceira coufa , que lhe EIRey feu Senhor 
mandava em final -de amor por fe mais 
obrigar á defensão daquelle Reyno , era 
querer ter alli Jiuma fortaleza , que foífe ca- 
beça , e apofento deile Capitão mor , e dos 
outros que pelo diante foíTem no governo 
daconquifta, ecommercio daquellas partes 3 
pêra que as náos do Reyno alli vieífem to- 
rnar carga 7 e não a outro algum porto da- 

quel- 



Década I. Liv. IX Cap. V- 357 

quella terra Malabar , com que o Reyno 
de Cochij foffe augmenttdo , e ennobreci- 
do. E por quanto elle Vifò-Rey da notifi- 
cação , e entrega deitas couías havia de en- 
viar certidões a EIRey feu Senhor , pedia 
a elle Nambeadora Pvey 3 que lhe mandaííe 
paliar feus inftrumentos como as acceptava , 
e recebia com aquelle amor , e vontade 
fegundo per elle Vifo-Rey lhe eram apre- 
íentadas. No fim do qual arrezoamento 3 co- 
mo eftes Malabares são de poucas palavras , 
com eftas rematou EIRey de Cochij a fub- 
llancia de todalás de lima. Que os inftru- 
mentos que pedia , lhe feriam dados \ e que 
nelles , e vocalmente aos prcfentes , eaufen- 
tes denunciava receber \ e acceptar aquellas 
coufas da mão d'ElRey D. Manuel ; como 
do maior Príncipe do Ponente , e Rey dos 
mares do Oriente , e Senhor do coração 
delle y e de todolos que em diante reinaf- 
fem em Cochij ; e que em todo diícurfo de 
fua vida feus íerviços feriam teftemunha def- 
te amor , e com ifto deo com huma pal- 
ma fobre a outra, como quem acabara. Ao 
qual termo começaram as trombetas com 
todolos outros inftrumentos a denunciar o 
fim defte folemne adio ; e como as náos ef- 
tavam elperando por eíte final , também fi- 
zeram fua mufica da artilheria grofia , e 
miúda > de maneira, que aííi no mar, co- 
mo 



358 ÁSIA de JoÁo de Barros 

mo na terra, tudo era prazer, e feita def- 
ta coroação cPElRey. O qual acabado aquel- 
le primeiro alvoroço , efpedindo-fe do Vi- 
fo-Rey , e per aquelles Fidalgos , com grão 
pompa foi levado ás fuás caías, indo dian- 
te delle homens com bacios de prata altos , 
em que levavam as peças que recebeo, ió- 
mente a coroa , que a não tirou da cabeça , 
depois que lhe foi poíta. E porque como 
ora diíTemos no coração de todolos natu- 
raes da terra , eíte Principe não eítava re- 
cebido por Rey de Cochij , polo favor que 
alguns davam ao outro íobrinho d'ElRey, 
que andava lançado com o Senhor de Re- 
pelim : quando viram tão nova coufa, co- 
mo foi a coroação deite , e que em nome 
d'E!Rey de Portugal era confirmado por 
Rey com tal folemnidade , não.oufáram di- 
zer , ou fazer couía alguma contra elle em 
favor do outro , temendo que por iífo fe- 
riam caftigados , e eíte temor os fez quietos 
dos reboliços que moviam. Finalmente aííi 
ficou eíte Nambeadora tão pacífico Rey, 
que os que lhe de antes eram contrários , 
por lhe ganhar a vontade , e os amigos com- 
prazer de o ver naquelle citado , todos jun- 
tamente , cada hum em feu modo , traba- 
lhavam polo contentar , principalmente no 
dar da carga, ás nãos, que era a coufa cm 
que elle logo quiz moftrar ao Vifo-Rey 



Década I. Liv. IX. Cap. V. 3^9 

quão grato era da mercê que tinha recebi- 
do. De maneira , que fegundo o tempo era 
curto , o Vifo-Rcy defpachou em breve féis 
náos , que partiram de iá por todo Dezem- 
bro daquelle anno , e em Fevereiro do an- 
no feguinte partiram dous Capitães, Vafco 
Gomes d' Abreu , e João da Nova , dos 
quaes daremos depois razão , por inverna- 
rem no caminho. As outras íeis náos repar- 
tio o Vifo-Rey em duas capitanias mores , 
huma deo a Baftião de Soufa , em cuja 
companhia veio Manuel Telles , e Diogo 
Fernandes Corrêa, cada hum em lua náo, 
que chegaram a efte Reyno em falvamen- 
ío; e a outra capitania mor deo a Fernão 
Soares , com o qual vieram Diogo Corrêa , 
o Antão Gonçalves. O qual logo á fahida 
da índia teve tempos contrários com que 
fez nova navegação , vindo per fora da Ilha 
de S. Lourenço , e elle foi o primeiro que 
a deícubrio pela parte do Sul ; e nas agua- 
das que fez tomou alguma gente que trou- 
xe comfigo , e per efte novo caminho fez 
a viagem tão breve, que chegou a efte Rey- 
no a vinte e três de Maio de quinhentos 
e féis , da qual Ilha em feu tempo particu- 
larmente efcreveremos fuás coufas. 



CA~ 



'%6o ÁSIA de JoÂo de Barros 

CAPITULO VL 

Como ElRey D. Manuel mandou Ter o da 
Nhaya d Mina de Çofala : e do que paf- 
fou no caminho té chegar ao porto del- 
ia y onde fez huma fortaleza. 

ANte que entremos no anno de qui- 
nhentos e féis 3 por guardar a ordem 
do tempo , convém efcrevermos a partida 
de oito velas , que depois que o Vifb-Rey 
D. Francifco d 5 Almeida partio defte Rey- 
no , partiram também a efte defcubrimento , 
e conquifta : humas em Maio 3 Capitão mor 
Pcro da Nhaya filho de Diogo da Nhaya , 
hum Fidalgo Caftelhano , que nas guerras 
de Caftella fe veio a eíle Reyno ao fervi* 
ço d'ElRey D, AfFonfo o Quinto ; e em 
duas foram Cyde Barbudo 3 e Pêro Qiia- 
rcfma, que partiram em Setembro do mef- 
xno anno. E eftes dous Capitães mandava 
ElRey , que foíTem defcubrir toda a terra 
do Cabo de Boa Efperança té Çofala 5 e 
parte daquellas Ilhas ver fe achavam nova 
de Francifco d'Albuquerque , e Pêro de 
Mendoça, que fabiam ferem defapparecidos 
naquella paragem , fegundo efcrevemos : da 
viagem do qual Cyde Barbudo diremos em 
feu tempo por continuar com Pêro da Nha-* 
ya. Como atrás fica P pola fama que o AI- 

mi-r. 



Década I. Liv. IX. Gap. VI. 361 

mirante D. Vafco da Gama achou da Mi- 
na de Çofala quando defcuhrio a índia , 
mandou EIRey D. Manuel a Pedralvares 
Cabral , que mandaffe a ella 3 quando foi 
na Armada 'no anno de quinhentos , que 
caufou enviar elle a iílb Sancho de Toar. 
Depois a fegunda vez o Almirante na Ar- 
mada do anno de quinhentos e dous , per 
íi mefmo foi ver efte reígate j de maneira , 
que aíli per elles , como per outras Arma- 
das j que fuccedêram nos annos feguintes , 
teve EIRey muitas informações deite tra6lo 
do ouro. Donde fe caufou afientar elle, 
que ná Cidade de Quiioa fe fizeííe huma 
fortaleza , porque com ella , e outra em Mo- 
çambique, e amizade que tínhamos com EI- 
Rey de Melinde, ficava toda aquelia cofta 
Zanguebar de baixo do titulo de feu com- 
mercio , pêra mais facilmente fe fuftentar 
huma fortaleza em Çofala. Porque como as 
mercadorias, com que fe havia de refgatar 
o ouro , todas vinham de Cambaya ás po- 
voações dos Mouros , que habitavam nefta 
cofta , ficava o maneio defte negocio mais 
corrente pêra bem do commercio do ouro, 
e huma fortaleza fe favoreceria com as ou- 
tras , e todas com alguns navios, que an-* 
dafiem naquella cofta ; e efta foi a principal 
caufa por que mandou a Dom Francifco 
d'Almeida , que fizeííe fortaleza em a Cida- 
de 



362 ÁSIA de João de Barros 

de Quiloa. E como a Armada que eiie le- 
vava era grande , e podia favorecer o ca- 
io de Çofala, determinou de mandar com 
elle a Pêro da Nhaya , pêra fazer naquelle 
reígate huma fortaleza , e ficar alli com of- 
ficiaes , e homens de armas ao modo do 
caftello de S. Jorge da Mina , que fez El- 
Rey D. João o Segundo , donde tomou o 
titulo de Senhor de Guiné, (como atrás fi- 
ca.) Em companhia do qual Pêro da Nhaya 
ordenou irem féis velas , três que haviam 
de pa/Tar á índia pêra l trazer carga de es- 
peciaria. , por ferem náos poderolas , e de 
porte pêra iiTo , era a fua , e as outra? em 
que hiam por Capitães Pêro Barreto de Ma- 
galhães filho de Gil de Magalhães , e João 
Leite hum Cavalleiro de Santarém ; e das 
outras três eram Capitães leu filho Francif- 
co da Nhaya , João de Queirós , e Manuel 
Fernandes , que havia de fervir de Feitor 
na fortaleza, que fe havia de fazer em Ço- 
fala 3 as quaes por ferem navios pequenos , 
mandava EIRey D. Manuel que andaffem 
naquella cofia em guarda delia , e no ma- 
neio das coufas do commercio. Preftes cilas 
velas ao tempo que podiam partir em com- 
panhia de D. Francifco , per defcuido do 
Meftre , que não vigiou a bomba , a náo 
Sant-Iago , em que Pêro da Nhaya havia 
de ir £ Subitamente fe foi ao fundo , cem 

o qual 



Década I. Liv. IX. Cap. VI. 363 

o qual defaííre ficou elle Pero da Nhaya 
fem ir com D. Francifco té dezoito dias de 
Maio dia da Trindade, que partio em ou- 
tra náo chamada Saneio Èfpirito , que lhe 
aviaram. E fobre efte defaftre logo no ca- 
minho aconteceo outro a João Leite* Capi- 
tão de hurna das náos , o qual por querer 
á proa fifgar hum peixe , cahio ao mar pê- 
ra fempre. Seguindo Pero da Nhaya feu 
caminho , como partio tarde , querendo os 
Pilotos fegurar dobrarem o Cabo de Boa 
Efperança , foram-fe metter em tanta altu- 
ra , que com frio não podiam marear as 
velas , té que os temporaes do mar frio os 
vieram mettendo no quente, e com o der- 
radeiro que tiveram , Pero da Nhaya fe 
achou com feu filho , e Manuel Fernandes , 
correndo tanto com elle , que os trouxe ao 
porto que defejavam , que foi á barra do 
rio de Çofaia , onde elle quiz efperar al- 
guns dias té faber a fortuna dos outros Ca- 
pitães. Dos quaes João de Queirós padeceo 
a maior , porque correndo com aquelle tem- 
poral , foi ter áquem do cabo das corren- 
tes obra de feííenta léguas , onde chamam 
o rio da Lagoa , e com neceííidade de to- 
mar agua íàhio em terra em huma ilheta, 
a qual os noííos chamam das Vacas por al- 
gumas , que aili viram andar. A gente de 
huma povo.acao , que eftava nelia, vendo 

o na- 



364 ÁSIA de João de Barros 

o navio, a defpejáram , e João de Queirós 

pareccndo-lhe que nella acharia alguns man- 
timentos , fahio em terra com té vinte ho- 
mens, dos quaes eícapáram quatro, ou fin- 
co bem feridos , que fe recolheram ao ma 
vio , 'de que hum delles era Antão de Gá 
Efcrivao delle, todolos outros foram mor- 
tos ás mãos dos negros da aldeã. Parece 
que não foi tanto eíte damno polo que João 
de Queirós hia fazer, quanto polo que ti- 
nham recebido de António de Campo , o 
qual vindo da índia fez alli fua aguada , 
recebendo delles muito gazalhado fegundo 
fua pobreza , e por efpedida deite gazalha- 
do cativaram alguns delles que trouxeram 
comílgo. A qual couía em todo eíte de- 
curfo de.nofla hiítoria tem feito mui gran- 
de mal naquellas partes , cá por mui pe- 
quenas cubicas , que aiguns dos noíTos corn- 
mettêram com os naturaes da terra , onde 
foram aportar , os fegundos , que depois al- 
li foram ter, pagaram pelos primeiros. Fi- 
cando a gente deite navio de João de Quei- 
rós fem Piloto , Meítre, ou peííoa pêra lho 
marear, como Deos provê a todalas necef- 
íidades , veio ter com elles João. Vaz d 5 Al- 
mada , a quem Pei*o da Nhaya tinha dado 
a capitania da náo de João Leite defunto , 
o qual João Vaz proveo efte navio , e o 
levou comílgo, eaífi hum batel., que achou 

lá 



Década I.Liv. IX. Cap. VI. 365- 

lá junto de Çofala , em que hia António 
de Magalhães irmão de Fero Barreto, que 
ficava no Cabo de S. Sebaftiao , e manda- 
va pedir a Pêro daNhaya hum" Piloto, por- 
que o leu não fe atrevia ao metter no por- 
to de Çofala , temendo os baixos dalli , 
por fer novo naquella navegação. E neíle 
batel levava António de Magalhães finco 
Portuguezes , que achou no rio Quiloame , 
■que fera dez léguas áquem de Çofala í os 
quaes lhe entregaram os Mouros dalli já 
meios mortos , e eram da companhia de ou- 
tros , que eram paliados adiante , todos do 
navio de Lopo Sanches , que partira defíe 
Reyno com o Vifo-Rey D. Francifco. O 
qual, fegundo elles difleram , fendo áquem 
do cabo das correntes quarenta léguas ? com 
alguns temporaes que teve 5 levava a náo 
já tão aberta , que não podendo vencer a 
agua , deram com ella em fecco , falvando 
fuás peífoas ., mantimentos , madeira ? e pre- 
gadura com o mais que era neceffario pêra 
ordenarem hum caraveião , determinando 
irem neíle té Çofala ; porque como leixá- 
vam Pêro da Nhaya pêra partir , confiavam 
que chegando alli 5 tinham feu remédio. 
Porém como Lopo Sanches não era natu- 
ral deite Reyno , e aquella capitania lhe fo- 
ra dada por meio de D. Diogo d ? Almeida 
Prior do Crato, irmão do Vifo-Rey "Dom 

Fran- 



366 ÁSIA de João de Barros 

Francifco , por eíle Lopo Sanches andar 
com elle em Rodes , e íabia bem de galés , 
e levava naquella náo muita madeira , cá (co- 
mo diíTemos 5 ) de huma das que fe na ín- 
dia fizeíTem , elle havia de fer Capitão } tan- 
to que os da náo fe viram perdidos , não 
lhe quizeram mais obedecer como a Ca- 
pitão que era. Ante poftos em quadrilhas, 
;iuns foram no caravelão com dle , e huns dei- 
I es per terra 5 e finalmente poftos nefte ca- 
minho, de feífenta que íeguíram ao longo 
da praia , os mais faleceram com trabalho , 
fome , e perigos que paliaram , dos quaes 
eram aquellcs , que eftavam em Quiloame ; 
e outros vinte, que Pêro da Nhaya houve 
em Çofala ao tempo que fe elle vio com 
EIRey , que foram ter a feu poder , e deo 
mais com temor , que com defejo de lhe 
dar a vida , efperando com elles fazer al- 
gum negocio de feu proveito. Porque co- 
mo pola tomada de Quiloa , e deftruição de 
Mombaça os Mouros de toda aquella cof- 
ta ficaram aíTombrados , e fobre iífo houve 
logo fama d'Armada que vinha per alli, 
vieram eftes Portuguezes que confirmaram 
tudo , dizendo , que tomaram aqueíle ca- 
minho , parecendo-lhes que era já alli o Ca- 
pitão Pêro da Nhaya ; e dos outros, que 
fe mettêram no caravelão , não fe foube 
mais , parece que o mar os comeo por a 

ya- 



Década I. Liv. IX. Cap. VI. 367 

vaíilha fer pequena. Pêro da Nhaya reco- 
lhendo eftes linco , que levava António* de 
Magalhães , e provido , como a náo de íèu 
irmão foíle alli trazida , tanto que veio lei- 
xou-a com a fua , e com a de João Vaz 
d' Almada por não poderem ir pelo rio af- 
íima 5 e levou os bateis delias , e aílí o na- 
vio de feu filho , e outro , que foi de João 
de Queirós , de que já era feito Capitão Pê- 
ro Teixeira morador nas entradas. Surto 
com eftes navios abaixo da povoação dos 
Mouros , por não poder ir mais avante po- 
lo rio fer eftreito , e abafado com arvore- 
do , vieram os principaes da terra ao viíí- 
tar, e faber da. parte d ? ElRey o que man- 
dava ; pofto que pelos noíTos perdidos que 
lá tinha comflgo , aos quaes elles encubríram 
fua chegada , já fabiam a caufa da fua vin- 
da áquelle porto. E porque Pêro da Nhaya 
ínfiítio muito em fe querer elle mefmo ver 
com o Xeque , a que os feus chamavam Rey , 
a qual viíta elles trabalhavam por efcufar, 
dizendo , que EIRey era homem de mais 
de oitenta annos , cego , e entrevado , que 
não podia vir a elle *, nem menos elle Ca- 
pitão era bem que foíTe lá , porque daquel- 
Ia povoação á outra onde EIRey eíiava , era 
longe, e per o rio aíTima havia muito ar- 
voredo que impedia o caminho pêra lá fu- 
birem os nayios , todavia concederam no re- 

que- 



368 ASIÀ de João de Barros 

querimcnto dclle Pêro da Nhaya. O qual , 
efpèdidos os Mouros com eíle recado , fe 
metteo em rodolos bateis , e entre louçai- 
nhãs, e armas foi ter á povoação d'ElRey , 
que feria daqueilas té meia légua , e ha- 
veria nella mais de mil vizinhos , toda de 
madeira, e febes barradas, como elles cof- 
tumam , c cubertas de olla. Somente as ca- 
fas d'ElRey moílravam fer do principal da 
terra com pátios , c cafas grandes , a maior 
das quaes era feita ao modo como ufamos 
o corpo das Igrejas fem cruzeiro , fomente 
com a Capella no topo da Igreja. Na qual 
Capella eítava EIRey lançado em hum ca- 
tei , e era táo pequena ? que a cama , e fer- 
viço delia occupava tudo , quaíi como que 
fez ifto a modo de eítrado pêra dalli eftar 
dando audiência a todolos que eftiveíTem 
na fala 5 a qual elle tinha paramentada de 
pannos de feda , que refpondiam ao leito 
daquelles que lhe vam da índia. Entrado 
Pêro da Nhaya nefta grande cafa , os prin- 
cipaes Mouros que alli eram juntos pêra éf- 
ta prática , o levaram ao lugar onde EIRey 
jazia , homem de cor baça , bem apeífoado ; 
e ainda que a idade ? e cegueira o tinham 
poílo naquelle leito , moftrava aífinos ata- 
bios de fua peífoa , e prudência , que era Se- 
nhor dos outros. Pêro da Nhaya , depois que 
paífou com elle a primeira prática de pala- 
vras 



Década I. Liv* IX. Cap. VL $6q 

vras geraes , propoz-lhe que a caufa de íua 
vinda era , per mandado cPElRey de Portu- 
gal feu Senhor , vir alli fazer hurna fortale- 
za ; porque como mandava fazer outras em» 
Quiloa , e Moçambique , e aíli Feitoria em 
Melinde , pêra que fuás náos , que andaíTem 
naquelle caminho da Índia, tiveííem efcala 
naquelles lugares pêra leixar , e tomar as 
mercadorias a elles neceflarias , e também 
pêra refgate do ouro , queria alli ter outra , 
em que feus Officiaes eíliveífem recolhidos» 
Da qual elle , e todolos feus haviam de re- 
ceber muito proveito , e principalmente fe- 
gurança de fuás peífoas 5 e fazenda , por 
quanto EIRey feu Senhor tinha fabido que 
ás vezes padeciam infultos da cubica cios 
Cafres por fer gente mui barbara, e oufa- 
da, os quaes dahi em diante não oufariam 
commetter com temor da fortaleza, porque 
a Nação Portuguez , onde fazia alfento , fem- 
pre defendeo a íl , e aos amigos. Finalmen- 
te com eftas , e outras razões Pêro da Nhaya 
trouxe a EIRey a lhe conceder que fizeífe 
a fortaleza que dizia , moílrando ter muito 
contentamento diífo pola amizade , que de- 
fejava ter com EIRey de Portugal , e que 
eíla fora a caufa delle mandar recolher vin- 
te Portuguezes , que alli vieram perdidos cie 
hum navio , por não recolher mais damno 
dos Cafres do que tinham recebido ? os quaes 
Tom. L P. jL Aa man- 



370 ÁSIA de João de Barros 

mandou logo vir, e eram aquelles que atrás 
diflemos, que deram muito prazer a todo- 
los noflbs , e muito mais a elles em fe ve- 
•rem laivos de quanto perigo tinham palia- 
do. E além deita moftra , que EIRey deo 
em folgar com a vinda de Fero daNhaya, 
foi mandar logo alii acertos homens prin- 
cipaes , que foílem com elle pêra enleger o 
lugar onde elle quizeíTe fazer a fortaleza, 
e aíli lhe darem aviamento do neceffario a 
elía. A qual coufa , c aíli a entrega dos Por- 
tuguezes , Pêro da Nhaya gratificou a EI- 
Rey com muitas palavras , e algumas dadi- 
vas , que lhe prefentou , e outras , que deo 
aos feus acceptos , c com iílo fe efpedio 
delle 5 vindo com aquelles Mouros , que lhe 
EIRey ordenou pêra eleição do lugar da 
fortaleza , que foi ao longo do rio , onde 
eífavam algumas caías dos naturaes da terra 
abaixo da povoação d'E!Rey obra de meia 
Jegua , onde era o íitio mais conveniente 
para ella. Porém fe fora per vontade de 
hum genro d'E!Rey chamado Mengo Mu- 
íaf, não concedera ElB,ey tão levemente fa- 
zer-fe eíla fortaleza : cá elle , e outros de 
fua valia , eram que fe defendeíTem per for- 
ça d'ármas , e não confentir tomarem os nof- 
lbs hum palmo de terra ; e fe alguma cou- 
fa quizeíTe m de refgate , foíTe dos navios, 
.pelo- modo que o Almirante D. Vafco fez 

quan- 



Década I. Li?. IX. Cap. VI. 37Í 

quando alli foi ter. Mas como EIRey era 
homem, que quanto tinha perdido davifta^ 
tanto cobrava de prudência pêra fazer as 
çoufas com mais aftucia do que feu genro, 
e eíloutros tinham , foi-ihe á mão a efte 
primeiro impeto , dizendo , que efperaffem 
que a terra apalpaíTe os noífos , porque elle 
tinha por certo, que mais haviam de mor- 
rer de febres , que a ferro , fe os logo qui- 
zeíTem commetter , por ferem homens mui 
belicofos ; porém depois que eítas febres lhes 
debilitaífem as forças , per efte modo , fem 
verterem fangue próprio , na .cafa os po» 
diam tomar ás mãos. Que ao prefente elle 
havia por melhor confelho receber-nos com 
rofto alegre , e conceder quanto requeref- 
femos por não tomarem íufpe&a delle, té 
vir aquelia conjunção , que elle efperava , 
como íuccedeo, fegundo adiante veremos,, 
Porém porque nós ficámos naquella terra 
mais tempo do que profetava o efpirito da-* 
quelle Mouro , poílo que a terra doentia 
foíTe, como elle dizia, ecom a entrada de 
Pêro da Nhaya tomámos poíte delia , e do 
traéto do ouro , que fe tira das minas , de 
que he fenhor aquelle poderofo Gentio Be- 
namotápa , entraremos neíle decimo Livro 
feguinte fazendo delação delias , e delle , é 
depois daremos conta do que Pêro da Nhaya 
mais fez ; depois que acabou a fortaleza, 
Aa ii DE- 



DÉCADA PRIMEIRA. 
LIVRO X. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no defcubrimento , e conquifta dos 
mares , e terras do Oriente : em que 
fe contém o fundamento da fortaleza 
de Çofala , e parte das coufas , que 
fez o Viíò-Rey D. Francifco o an- 
no de quinhentos e féis. 

CAPITULO I. 

Em que fe defcreve a região do Reyno de 

Çofala y e das minas cfouro , e coufas 

que nella ha : e ajfi os coftumes da 

gente , e do feu Príncipe 

Benomotdpa. 

TOda aterra, que contámos por Rey- 
no de Çofala , he huma grande re- 
gião , que fenhorea hum Príncipe Gen- 
tio chamado Benomotápa , a qual abraçam 
em modo de Ilha dous braços de hum rio , 
que procede do mais notável lago , que to- 
da a terra de Africa tem , mui defejado de 
faber dos antigos Efcritores por fer a cabe- 
ça efcondida do illuftre Nilo , donde tam- 
bém procede o noíTo Zaire ; que corre per 

o Rey- 



Década I. Liv. X. Cap. I. 373 

o Reyno de Congo. Per a qual parte po- 
demos dizer fer efte grão lago mais vizi- 
nho ao noííò mar Oceano Occidental , que 
ao Oriental , fegundo a íituação de Ftholo^ 
meu : cá do mefmo Reyno de Congo fe 
mettem nelles eftes féis rios , Bancáre ? Van- 
ba , Cuylu , Bibi , Maria maria , Zanculq , 
que são muipoderoíòs em agua, afora ou- 
tros femnome, que o fazem quaíl hum mar 
navegável de muitas velas , em que ha Ilha > 
que lança de íi mais de trinta mil homens, 
que vem pelejar com os da terra firme. E 
deftes três notáveis rios , que ao prefente fa- 
bemos procederem deite lago , os quaes vera 
fahir ao mar tão remotos hum do outro ; 
o que corre per mais terra he o Nilo , a 
que os Abexijs da terra do Prefte João cha- 
mam Tacuij , no qual fe mettem outros 
dous notáveis , a que Ptholomeu chama Af- 
tabora , e Aílapus , e os naturaes Tacazij , e 
Abanhi. E pofto que efte Abanhi , (que acerca 
delles quer dizer pai das aguas polas muitas 
que leva,) proceda de outro grande lago 
chamado Barcená , e per Ptholomeu Coloa , 
e também tenha Ilhas dentro , em que ha 
alguns Morteiros de Religiofos, (como fe 
verá em a noífa Geografia , ) não vem a 
conto defte noífo grande lago : cá , fegundo 
a informação que temos per via de Congo, 
e de Çofala s fera de comprido mais de cem 

te- 



374 ÁSIA de João de Barros 

léguas. O rio que vem contra Çofala , de- 
pois que fahe deite lago, e corre per mui- 
ta diftancia , fe reparte em dous braços : hum 
vai fahir áquem do Cabo das Correntes , e 
he aquelle a que os noíTos antigamente cha- 
mavam rio da Lagoa , e ora do Efpirito San- 
£ío , novamente poílo per Lourenço Mar- 
ques , que o foi deícubrir o anno de qua- 
renta e finco ; c o outro braço fahe abaixo 
de Çofala vinte e finco léguas chamado Cua- 
ma , poílo que dentro pelo fertao outros po- 
vos lhe chamam Zembere. O qual braço he 
muito mais poderofo em aguas , que o ou- 
tro do Efpirito Sanfto , por fer navegável 
mais de duzentas e lincoenta léguas , e nel- 
le fe metterem eftes féis notáveis rios , Pa- 
nhames , Luam guoa , Arruya , Manjovo , 
Inadire , Ruenia , que todos regam a terra 
de Benomotápa , e a maior parte delles le- 
vam muito ouro , que nafee nella. Aífi que 
com eítes dous braços > e o mar per outra 
parte , fica efte grão Reyno de Çofala em 
humallha, que terá de circuito mais de íe- 
tecentas e fincoenta léguas. Toda ella no 
íitio , mantimentos , animaes , e moradores , 
he quafi como aterra chamada Zanguebar ? 
de que atrás eferevemos , por fer huma par- 
te delia ; porém como fe vai affaftando da 
linha Equinocial , tirando o marítimo delia , 
àeílê rio Çuame té o Cabo das Correntes 

per 



Década L Liv. X. Cap. I. 37? 

per dentro do ferrão he terra excellente, 
tem perada fahida , freíca , fértil de todalas 
coufas , que fe nella produzem. Somente 
aquella parte do Cabo das Correntes té a 
boca do rio Efpirito Sandlo, apartando-íe 
hum pouco da fralda do mar , tudo são cam- 
pinas de grandes creações de todo género 
de gado , e tão pobre de arvoredo que com 
a bofta delle fe aquenta a gente , e fe veíle 
das pelles por fer mui fria com os ventos , 
que curfam daquelle mar gelador do Sul. 
A outra terra , que vai ao longo do rio de 
Cuama , e do interior daquella Ilha , pela 
maior parte he montuofa , cuberta de arvo- 
redo , regada de rios, graciofa em fua fi- 
tuaçao , e por iífo mais povoada , e o mais 
do tempo eftá nella Benomotápa , e por ra- 
zão de fer tão povoada , fogem delia os 
Elefantes , e vam andar na outra de campi- 
na , que diífemos , quafi em manadas , como 
fatos de vacas. E não pode fer menos , por- 
que geralmente fe diz entre aquelles Cafres , 
que cada anno morrem quatro i ou finco mil 
cabeças , e ido authoriza a grande quantida- 
de de marfim 5 que fe dalli leva pêra a ín- 
dia. As minas deita terra , onde fe tira o. 
ouro , as mais chegadas a Çofala são aquela 
las, a que elles chamam Manica, asquaes 
eftam em campo cercadas de montanhas , 
que terão em circuito trinta léguas i e ge- 
ral- 



yjG ÁSIA de JoXo de Bakros 

ralmente conhecem o lugar onde fe cria o 
ouro y por verem a terra fecca , e pobre de 
herva, e chama-fe toda eíla Comarca Ma- 
tuca , e os povos que as cavam Botongas. 
Os quaes , ainda que eftam entre a linha , e 
o trópico de Capricórnio , he tanta a neve 
naquellas ferras a que no tempo do inverno , 
íe alguns ficam no alto morrem regela- 
dos , no cume das quaes cm tempo do ve- 
rão he o ar tão puro , e fereno , que alguns 
dos noflbs , que nefte tempo fe acharam alli , 
viram a Lua nova no dia que fe defpedia 
da conjunção. Neftas minas deManica, que 
feráõ de Çofala contra o Ponente té fin- 
coenta léguas , por fer terra fecca , tem os 
Cafres algum trabalho : cá todo o ouro que 
fe alli acha he em pó , e convém que levem 
a terra que cavam a lugar onde achem 
agua , pêra o que fazem alguns caboucos , 
em que no inverno fe recolhe alguma , e 
geralmente nenhum cava mais que féis > fe- 
te palmos dalto , e fe chegam a vinte , acham 
por laftro de toda aquella terra lagea. As 
outras minas , que são mais longe de Ço- 
fala , diftaráõ de cento té duzentas léguas 3 
e são neftas Comarcas , Boro , Quiticuy , e 
nellas , e nos rios , que aílima nomeámos , 
que regam efta terra , fe acha ouro mais grof- 
fo, e delle em as veas de pedra , e outro 
já depurado dos enxurros do inverno j e por 

ií- 



Década X. Liv. X. Cap. I. 377 

iíío em alguns remanfos dos rios , como he 
no verão , coítumam mergulhar , e na lama 
que trazem acham muito ouro. Em outras 
partes , onde ha algumas alagoas , adjuntam- 
ie duzentos homens ? e poem-íe a efgotar 
a metade delias , e na lama que apanham 
também acham ouro , e fegundo a terra he 
rica delle , ie a gente fofle cubiçofa , haver- 
fe-hia grande quantidade , mas he a gente 
preguiçofa nefta parte de o bufcar 5 ou por 
melhor dizer tão pouco cubiçofa , que mui- 
ta fome ha de ter hum daquelles Negros, 
quando o for cavar. Pêra o haver dos quaes > 
os Mouros que andam entre elles nefte tra- 
élo , ainda tem artificio de os fazer cubiço- 
fos 3 porque cobrem a elles , e a fuás mu- 
lheres de pannos > contas , e brincos , com 
que elles folgao , e depois que os tem con- 
tentes fiam-lhes tudo , dizendo 5 que vam ca- 
var o ouro , e quando vier pêra tal tempo 
que lhes pagará aquelías peças , de maneira , 
que per efte modo de lhes dar fiado os obri- 
gam cavar , e são tão verdadeiros , que cum- 
prem com fua palavra. Tem outras minas 
em huma Comarca chamada Toróa , que 
per outro nome fe chama o Reyno de Bu- 
tua , de que he Senhor hum Príncipe per no- 
me Burrom vaílallo de Benomotápa , a qual 
terra he vizinha a outra, que diílemos fer 
de grandes campinas ., e eílas minas são as 

mais 



378 ASIÀ DE JOAÕ DE BaRKOS 

mais antigas que fe fabem naquella terra , 
todas em campo. No meio do qual eftá 
huma fortaleza quadrada , toda de canteria 
de dentro , e de fora , mui bem lavrada de 
pedras de maravilhofa grandeza , fem appa- 
recer cal nas juntas delia , cuja parede he 
de mais de vinte e finco palmos de largo , 
e a altura não he tão grande em refpeíto 
da largura. E fobre a porta do qual edifí- 
cio eftá hum letreiro > que alguns Mouros 
mercadores , que alli foram ter , homens do- 
étos , não fouberam ler 5 nem dizer que le- 
tra era; e quaíi em torno defte edifício em 
alguns outeiros eftam outros á maneira dei- 
le no lavramento de pedraria , e fem cal, 
em que ha huma torre de mais de doze 
braças. A todos eftes edifícios os da terra 
lhe chamam Symbaoe , que acerca dclles 
quer dizer Corte ; porque a todo lugar on- 
de eftá Benomotápa chamam aíTi ; e fegundo 
elles dizem , defte , por fer coufa Real 5 tive- 
ram todalas outras moradas d 5 ElRey tal no- 
me. Tem hum homem nobre, que eftá em 
guarda dellc ao modo de Alcaide mor , e 
a efte tal Officio chamam Symbacáyo , co- 
mo fe diííeífemos guarda de Symbaoe , e 
fempre nelle eftam algumas das mulheres de 
Benomotápa , de que efte Symbacáyo tem 
cuidado. Quanto , ou per quem eftes edifí- 
cios foram feitos 7 como a gente da terra 

não 



Década I. Liv.X. Cap. I. 379 

não tem letras, não ha entre elles memoria 
diíTo , fomente dizerem que he obra do Dia- 
bo , porque comparada ao poder , e faber 
delles , não lhes parece que a podiam fazer 
homens ; e alguns Mouros que a viram , mof- 
trando-lhe Vicente Pegado , Capitão que foi 
de Çofala , a obra daquella noffa fortaleza , 
aífi o lavramento das janellas , e arcos pê- 
ra comparação da canteria lavrada daquella 
obra, diziam não fer coufa pêra comparar , 
fegundo era limpa , e perfeéla. A qual dií- 
tara de Çofala pêra o Ponente per linha 
direita pouco mais ou menos cento e feten- 
ta léguas , em altura entre vinte, e vinte e 
hum gráos da parte do Sul, fem per aquel- 
las partes haver edifício antigo , nem mo- 
derno , porque a gente he mui barbara , e 
todas fuás cafas são de madeira ; e per juí- 
zo dos Mouros , que a viram parecer fer 
coufa mui antiga , e que foi aili feita pêra 
ter poífe daquellas minas , que são mui an- 
tigas , em.asquaes fe não tira ouro ha an* 
nos por caufa de guerras. E olhando a fi* 
tuação , e a maneira do edifício mettido tan- 
to no coração da terra , e que os Mouros 
confeííam não fer obra delles por fua anti- 
guidade , e mais por não conhecerem os 
caracteres ào letreiro , que eílá na porta, 
bem podemos conjedhirar fer aquella a re- 
gião , a que Ptholomeu chama Agyfymba 9 

on- 



380 ÁSIA de João de Barros 

onde faz ília computação Meridional ; por- 
que o nome delia , e aíli do Capitão que 
a guarda , em alguma maneira fe confor- 
mam , c algum delles fe corrompeo do ou- 
tro. E pondo niífo noífo juizo . parece que 
eíta obra mandou fazer algum Príncipe , que 
naquelle tempo foi Senhor deitas minas , co- 
mo poífe delias , a qual perdeo com o tem- 
po , e também por ferem mui remotas de 
leu eftado : cá por a femelhança dos edifí- 
cios parecem muitos a outros, que citam na 
terra do Preíte João em hum lugar chama- 
do Acaxumo , que foi huma Cidade Cama- 
rá da Rainha Sabá , a que Ptholomeu cha- 
ma Axumá , e que o Príncipe Senhor deite 
eftado o foi deitas minas , e por razão dei- 
las mandou fazer eítes edifícios ao modo 
que nós ora temos a fortaleza da Mina , e 
eíta mefma de Çofala. E como naquelle tem- 
po de Ptholomeu per via dos moradores 
deita terra Aba Ília do Preíte , a que elle cha- 
ma Ethiopia fobre Egypto , eíta terra de 
que falíamos em alguma maneira era nota 
por razão deite ouro , e o lugar teria nome , 
íez elle Ptholomeu aqui termo , e lua con- 
ta da diítancia Auítral. Toda a gente deita 
região em geral he negra , de cabelio retor- 
cido , e porém de mais entendimento que 
a outra , que corre contra Moçambiqui , Qui- 
loa > Melinde , entre a qual ha muita , que 

co- 



Década I. Liv. X. Cap. L 381 

come carne humana , e que fangra o gado 
vacum por lhe beber o fangue , com que íe 
mantém. Eíla do eftado de Benomotápa he 
mui difpoíla pêra converter á nofla Fé , por- 
que crem em hum fó Deos , a que elles cha- 
mam Mozimo , e não tem idolo , nem cou- 
fa que adorem ; e fendo geralmente todos os 
Negros das outras partes mui dados á ido- 
latria, e a feitiços , nenhuma coufa he mais 
punida entre eftes , que hum feiticeiro ; não 
por caufa de religião , mas polo haverem 
por mui prejudicial pêra ávida, ebem dos 
homens , e nenhum efcapa de morte. Tem 
outros dous crimes iguaes aeíle, adultério, 
e furto , e baila pêra hum homem fer jul- 
gado por adultero, fe o viram eflar affen- 
tado na eíleira, em que fe afienta a mulher 
d 5 alguem , e ambos padecem por juíliça , e 
cada hum pode ter as mulheres que fe atre- 
ver a manter ; porém a primeira he a prin- 
cipal , e a ella fervem todalas outras , e os 
filhos delia são os herdeiros á maneira de 
morgados. Não pode algum cafar com mu- 
lher fenao depois que a ella lhe vem feu. 
mez , porque então eftá auíla para poder 
conceber , e neíle dia coílumam fazer gran- 
des feitas. Em duas coufas tem modo de 
religião, em guardar dias, e acerca de feus 
defuntos , porque dos dias guardam o pri- 
meiro da Lua 7 o fexto , fetimo P onzeno y 

de- 



382 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

decimo fcxto , decimo fetimo , vigefima 
primeiro , vigefimo fexto , vigefimo feti- 
mo , e o vigefimo oitavo , porque neíle nai- 
ceo o feu Rey , e daqui tornam fazer outra 
conta 5 e a religião efta no primeiro , fexto y 
e fetimo 5 e todolos outros lie repetição 
delles fobre as dezenas. Quanto aos defun- 
tos , depois que algum corpo he comido , 
tomam a fua oílada do afeendente 5 ou des- 
cendente , ou da mulher de que houveram 
muitos filhos, e guardam eíles oífos com fi- 
naes pêra conhecerem de que pelToa he , e de 
fete em fete dias no lugar , onde os tem á ma- 
neira de quintal , eílendem pannos , em que 
póe mezas com pão y e carne cozida , co- 
mo que oíFerecem aquelle comer aos feus 
defunétos , aos quaes fazem prezes. E a prin- 
cipal coufa que lhe pedem , he favor pêra 
as coufas do leuRey; e paífadas eftas ora- 
ções , que são feitas , eílando todos com ves- 
tiduras brancas , o Senhor da caía com fua 
família fe põe a comer aquella offerta. O 
geral veílido de todos são pannos d'algo- 
dão , que fazem na terra , e outros que lhes 
vem da índia , em que ha muitos de feda 
com vivos de ouro , que valem té vinte 
cruzados cada hum , e porém os taes vefte 
a gente nobre , e as mulheres. E Benomo- 
tápa Rey da terra , pofto que feja Senhor 
de tudo\ e fuás mulheres andem veftidas 

dei- 



Década I. Liv. X. Ca?. L 383 

delles , cm fua peíToa não ha de pôr pan- 
110 eftrangeiro , fenão feito na terra , temen- 
do- fe por vir da mão de eftrangeiros ? que 
pode ler inficionado d ? alguma má coufa > que 
lhes faça damno. Efte Príncipe , a que cha- 
mamos Benomotápa , ou Monomotápa , he 
como entre nós Emperador, porque ifto íi- 
gnifica o feu nome acerca delles 5 o eftado 
do qual não confifte em muitos apparatos , 
paramentos > ou movei do ferviço de fua 
peíToa : cá o maior ornamento que tem na 
cafa y são huns pannos d'algodao , que íè 
fazem na terra de muitos lavores , cada hum 
dosquaes fera do tamanho de hum dos nof- 
fos repoíleiros , e valerão de vinte té íin- 
coenta cruzados. Serve-íè em giolhos , e 
com falva , tomada não ante do que lhe 
dam , fenão do refte que lhe fica ; e ao tem- 
po que bebe , e toífe ? todolos que eftatn 
diante hão de dar hum brado com palavra 
de bem , e louvor d'ElRey; e onde quer 
que he ouvida , corre de huns em outros, 
de maneira , que todo o lugar fabe quando 
EIRey bebe > e toífe. E por acatamento feu , 
diante delle ninguém eícarra 3 e todos hão 
de eftar aííentados ; e fe alguma peíToa lhe 
falia em pé , são Portuguezes , e os Mou- 
ros , e alguns feus, a que elle dá ifto por 
honra , e he a primeira : A fegunda , que em 
fua caía ia poíía aflentar a tal peíToa fobre 

hum 



384 ÁSIA de Joio de Bakkos 

hum panno : E a terceira , que tenha portas 
nos portaes de fua cafa , que lie já dignida- 
de de grandes Senhores , porque toda a ou- 
tra gente não tem portas ; e diz elle , que 
as portas não fe fizeram fenão por temor 
dos malfeitores , e pois elle he juíliça , que 
os pequenos não tem que temer j e le as da 
aos grandes 3 he por reverencia de fuás pef- 
lbas. As cafas geralmente são de madeira 
da feição de curucheos , muitos páos arri- 
mados a hum efteo , como pião de tenda , 
e per íima cubertos de febe, barro, e col- 
mo , ou coufa que efpeça agua per fima , e 
ha hi cafa deitas feita de páos tão grofíbs, 
e compridos , como hum grande maílo , e 
quanto maiores , maior honra. Tem eíle Bc- 
nomotápa por eftado mufica a feu modo , 
onde quer que eftá , té no campo debaixo 
de huma arvore , c chocarreiros mais de 
quinhentos , com Capitão delles, e eftes a 
quartos vigiam por fora a cafa onde elle 
dorme , faltando , e cantando graças , e no 
tempo da guerra também pelejam, e fazem 
qualquer outro ferviço. As infignias de feu 
eftado Real he huma enxada mui pequena 
com hum cabo de marfim , que trás fempre 
na cinta , per a qual denota paz , e que to- 
dos cavem , e aproveitem a terra ; e outra 
infignia he huma , ou duas azagaias, per- 
que denota juíliça , e defensão de feu povo. 

De- 



Década L Liv. X. Ca?. I. 385* 

Debaixo de feu fenhorio tein grandes Prín- 
cipes 3 alguns dos quaes , que comarcam com 
Reynos alheios 3 ás vezes fe levantam contra 
elle , e por iíTo coítuma elíe trazer comfigo 
os herdeiros dos taes. A terra he livre , fem 
lhe pagar mais tributo que levar-lhe preferi- 
tes quando lhe vam fallar , porque ninguém 
ha de ir diante doutro maior 5 que não leve 
alguma coufa na mão pêra Iht offerecer 
por final de obediência , e cortezia. Tem 
huma maneira de ferviço em lugar de tri- 
buto , que todolos contínos de lua Corte , 
e os Capitães da gente da guerra , cada hum 
com todolos feus, em trinta dias lhe ha de 
dar fete de ferviço em fuás fementeisas , ou 
em qualquer outra coufa; e os Senhores a 
que dá alguma terra que comam com vaf- 
fallos , tem delles o mefmo ferviço. Algu- 
mas vezes quando quer algum ferviço , man- 
da ás minas , onde fe cava o ouro , repartir 
huma , ou duas vacas 5 fegundo o numero da 
gente , em final de amor , e por retribuição 
daquella vifitação , cada hum' delles dá hum 
pequeno d' ouro de até quinhentos reaes. 
Também nas feiras das mercadorias > os mer- 
cadores lhe ordenam hum tanto de ferviço ; 
mas não que contra algum fe execute pena 
fenao paga , fomente não poder ir diante 
delleBcnomotápa, que entre elles he gran- 
de mal. Todolos cafòs dajuftiça, pofto que 
Tom.I. P.iL Bb ha- 



38o ÁSIA de J0Á0 de Barros 

haja Officiacs delia , elle per fua própria 
peíToa há de confirmar a fentença , ou ab- 
lblver a parte , fc lhe parece o contrario , e 
não tem cadeia , porque os cafos logo são 
determinados naquelle dia pelo allcgar das 
partes , c com teílemunha que cada hum 
aprefenta. Chiando não ha teítemunhas , le 
o réo quer que fique em feu juramento , he 
per eftc modo: pizam acafca de hum certo 
pão , a qual moida lançam o pó delia na 
agua que bebe , e fenao arrevefa , hc falvo 
o réo , c arrevefando , he condemnado ; e fe 
o aucíor , quando o réo não arrevefa , quer 
tomar a meíma beberagcm y e também não 
arrevefa , ficao curtas por curtas , e não fe 
procede mais na demanda. Se alguma peí- 
iba lhe pede mercê , dcfpacha per terceira 
peíToa , e efte tal OíKcial ferve como de 
apfeçador do que ha de dar por a tal cou- 
ía ; e ás vezes fe pede tanto por cila , que 
não lhe acceptam a mercê 5 e não bafta o 
que dá ao -Príncipe , mas ainda o terceiro 
leva fua parte. Entre elles não ha cavallos ? 
e por ifíò. a guerra , que Benomotápa faz he 
a pé com eftas armas , arcos de frechas , 
azagayas de arremeço , adagas, machadinhas 
de ferro , que cortam mui bem , e a gente 
^que trás mais junto de íí> são mais de du- 
zentos cães : cá diz elle que eftes são mui 
íeaes feHádores > aífinacaça, como naguer- 

\ ra* 



Década L Liv. X. Gap. I. 387 

râ. Todo o esbulho que fe toma nella fe 
reparte pela gente , pelos Capitães , e per 
EIRcy , e cada hum leva de lua caía o que 
ha de comer, ainda que o Príncipe fempre 
lhe manda dar o gado 5 que trás no leu ar- 
raial. Quando caminha , onde houver de 
poufar lhe hão de fazer de madeira huma 
cafa nova , e nella ha de haver fogo fem 
fer apagado : cá dizem que na cinza lhe po- 
dem fazer alguns feitiços em damno de fua 
peflba ; e em quanto anda na guerra não 
lavam mãos > nem rofio por maneira de dó > 
té não haverem viétoria de íèus imigos , nem 
menos levam lá as mulheres ; fendo ellas 
tão queridas , e veneradas delles , que qual- 
quer mulher que f<pr per hum caminho , fe 
com ella topar o filho do Rey , ha-lhe efe 
dar lugar por onde paífe 5 e eile eftar que- 
do. Benomotápa das portas a dentro £em 
mais de mil mulheres filhas de Senhores; 
porém a primeira he fenhora de todas , pof~ 
to que feja a mais baixa em linhagem , e 
o filho primeiro deíía he herdeiro do Rey- 
no : e quando vem no tempo das fementei- 
ras , e recolher as novidades , a Raynha vai 
ao campo com ellas aproveitar fua fazenda , 
e tem ifto por grande honra. Muitfes outros 
coftumes eílranhos a nós tem eíla gente , os 
quaes cm alguma maneira parecem que fe- 
sniem razão de boa policia , fegundo a bar-* 
Bb i{ ba- 



388 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

baria dellcs , os quaes leixamos , porque já 
jieftes cftendemos a pcnna fora dos limites 
da hiíloria 5 por tanto entraremos na relação 
do modo , que os Mouros tiveram de vir 
povoar naquella parte , e o mais que Pêro 
da Nhaya fez , e paílbu. 

CAPITULO II. 

Como os Mouros de Ouiloa foram po- 
voar em Cofala : c o que Fero da Nhaya 
pajjbu no fazer da fortaleza té ef pedir os 
Capitães , que haviam de pajfar d índia : 
e do que aconteceo a elles y e a feu filho 
Francifco da Nhaya. 

ESta povoação, que os Mouros tinham 
feita naquelle lugar chamado Çofala , 
não foi por força d'armas , nem contra von- 
tade dos naturaes da terra , mas per vonta- 
de delles , e do Príncipe , que naquelle tem- 
po reinava , porque com efta communicaçao 
todos receberam beneficio , havendo pannos , 
c coufas , que não tinham , e dando o ou- 
ro , e marfim que lhe não fervia , pois té 
então per aqtiella parte da cofta de ÇofaJa 
não lhe davam fahida. E pofto que efta bar- 
bara gente não faiba fahir da aldeia donde 
nafceo , e não feja dada a navegar , nem a 
xcorrer a terra per via de cornmercio 5 tem 

^o ou- 



Década I. Liv. X. Cap. II. 389 

o ouro tal qualidade , que como he poílo 
fobre a terra , elle fe vai denunciando de 
huns Wm outros té que o vem bufcar ao lugar 
de feu nafcimento. E per qualquer maneira 
que foííe , fegundo apprehendemos em huma 
Chronica dosReys de Quiloa 5 de que atrás 
fizemos menção , os primeiros daquella co£ 
ta j que vieram ter a efta terra de Çofala a 
cheiro deite ouro , foram os moradores da 
Cidade Magadaxo ; e colno veio a poder 
•dos&eys de Quiloa , foi per efte cafo. Es- 
tando em huma almadia pefcando hum ho- 
mem fora da barra de Quiloa junto de hu- 
ma Ilha chamada Miza , aferrou hum pei- 
xe no anzol da linha , que tinha lançada ao 
mar ; e fentindo elle no barafuílar do pei- 
xe fer grande, polo não perder, defamarrou- 
ie donde eítava, e foi-fe a vontade do pei- 
xe , o qual ora que elle ievaíTe o batel , ora 
as correntes , que alli são grandes , quando 
o pefcador quiz tornar ao porto era já tão 
apartado delle , que não foube atinar. Fi- 
nalmente com fome , e fede elle foi ter 
mais morto que vivo ao porto de Çofala, 
onde achou huma náo de Magadaxo , que 
alli vinha refgatar , na qual tornado pêra 
Quiloa , contou o que paífára , e vira do 
refgate do ouro. E porque no contra 61o 
do commercio , que havia entre eftes Gen- 
tios P e os Mouros de Magadaxo, era, que 

lhe 



g<p ÁSIA de João de Bakhos 

lhe haviam de trazer cada anno certos Mou- 
ros mancebos pêra haverem cafta delles ; 
tanto que EIRey de Quiloa pelo pefcador 
foube parte deite tracto , e das condições 
delle , mandou logo lá huma náo 5 a/ qual 
aflentou com os Cafres commercio ; e quan- 
to aos mancebos Mouros , que pediam , que 
por cada cabeça lhe queriam dar tantos pan- 
nos ; e que le o fazia por caufa de haver 
geração delles , que alli veriam alguns mo- 
radores de Quiloa aíTentar vivenda com Fei- 
toria de mercadorias , os quaes folgariam 
de tomar fuás filhas por mulheres , com que 
íc multiplicaria a ília gente , com a qual 
entrada os Mouros de Quiloa tomaram pof- 
1c daqruelle refgate. Depois correndo o tem- 
po per via de commercio , que 03? .Mouros 
tinham com aquelles Cafres , os Reys de 
Quiloa íc fizeram abfolutos fenhores daquela 
le traíto do ouro , principalmente aquelle , 
que chamaram Daut , de que atrás fizemos 
menção, que per algum tempo alli reíidio , 
e depois foi reinar em Quiloa ; e dalli por 
diante fempre cites Reys de Quiloa man- 
davam Governadores a Çofala , porque tu- 
do fefízeífe por mão de feus Feitores. Hum 
dos quaes Governadores foi Yçuf filho de 
Mahamed , e era eíle cego que Pêro da 
Nhaya alli achou , que fe tinha intitulado 
por Rey de Çofala , fem querer obedecer 

aos 



Decà-da I. Liv. X. Cãv. II. 391 

aos Reys de Quiloa polas revoltas , e dif- 
ferenças que havia naquclle Reyno , fegun- 
do atrás efcre vemos. O qual Yçuf vendo 
que o Vifo-Rey D. Franciíco tornai^, a Ci- 
dade Quiloa 5 temia que por Çofala fer fub- 
jeâa a ella 3 defta aução quizefle bolir com 
elle j e cite temor foi a parte principal de 
elie receber com gazalhado a Pêro da Nhaya s 
querendo-fe per efta via íegurar de nós. E 
também querer-fe aproveitar do noffo favor 
contra feu genro Mengo Mufaf 5 que era 
homem poderofo % e f Ac opinião , e fentia 
nelle que por fu^i morte havia de querer 
tomar aquella herança a feus filhos. Pêro 
da Nhaya , fem faber o que entre elle^paf- 
fava , como teve elegido o lugar pêra a 
fortaleza , andou bufcando alguma pedra; 
mas como aquelle fitio era chão apaulado 
fem haver alguma , ordenou de a fazer de 
madeira por entre tanto , e depois pelo tem- 
po , fabida a terra 5 fe faria como levava or- 
denado per EiRey D. Mttnuel. E porque 
a madeira principal 5 que alii havia pêra ef- 
te mifter 5 eram mangues a que fe criam ao 
longo daquelles alagadiços , páos mui for- 
tes, epezados, os quaes lhe cuílavam mui- 
to a tirar do lugar onde os cortavam ? por 
poupar a gente 5 e lhe r.ao adoecer naquel- 
íe trabalho , a qual elle havia mifter bem 
difpoíla pêra as armas y fe as houveífem de 

vef- 



392 ÁSIA de João de Barros 

veftir , provocou a gente da terra a efte fer- 
viço , pagando-lhe leu jornal nascoufas que 
levava defte Reyno. Os Mouros , princi- 
palmente o genro (PElRey , a quem efta 
obra não era mui apraíivel , vendo que os 
Cafres com cubica do premio acudiam bem 
ao trabalho que alumiava na obra , per ar- 
tifícios 5 e modos que tiveram com elles 3 
os aufentáram todos do ferviço delia , com 
que notoriamente entendeo Ppro da Nhaya 
donde ifto procedia. Pêra remediar o qual def- 
aviamento , metteo-íe em dous bateis com 
alguma gente armada , e foi-fe a povoação 
ver com EIRey ; o qual poíto que ficou 
affombrado j quando lhe diíTeram que o Ca- 
pitão vinha a lhefallar naquelle modo com 
gente armada , não fe movco de ília cafa y 
antes como homem feguro o efperou. E fa- 
bendo que a ca ufa de fua ida era o má o 
aviamento , que achava na gente da terra , 
mandou logo niífo prover com diligencia 
per homens fem fufpeita , com que Pêro da 
Nhaya fez a fortaleza de madeira quão for- 
te podia fer. Em torno da qual tinha hu- 
ma cava , e com a terra que tiniram del- 
ia 5 entulhou os páos da madeira entre hum 5 
e o outro a maneira de taipaes , em altura 
que foíle amparo aos que andaíTem per den- 
tro ; e per íima tinha fuás guaritas , tudo 
mui bem acabado j pêra fe defender degen- 

te 



Década L Liv. X. Cap. II. 393 

te mais induílriofa , do que eram os Cafres 
daquella terra ? o grão número dos quaes 
os nofíòs temiam mais que os Mouros. Pof- 
ta eíla obra em termo que fe podia efcu- 
far a gente das três náos que haviam de 
ir pêra a índia pêra a carga da pimenta , 
eípedio-as Pêro da Nhaya ; na fua ficou 
por Capitão o Piloto delia ,. que pá Gon- 
çalo Alvares , e da fegunda João Vaz d 5 Al- 
mada , e da terceira era Pêro Barreto , que 
ficou por Capitão de todas ; o batel da qual 
ao embarcar com a marefia fe perdeo com 
o cofre do dinheiro 3 em que hia o cabe- 
dal pêra a carga da pimenta ," e a maior 
parte da gente , em que entrou o Contra- 
meítre da não $ e Francifco da Gama mo- 
ço da Camará d'ElPvey Efcrivão delia. Par- 
tido Pêro Barreto com eftas três náos , da- 
"hi a poucos dias vendo Pêro da Nhaya que 
ficava já pacífico , e lèguro na terra , lei- 
xando hum bargantim , que fe alli armou 
pêra ferviço da fortaleza 5 mandou feu filho 
Francifco da Nhaya com dous navios pe- 
ia andar d'Armada ao longo daquella cof- 
tâ té o Cabo de Guardafu \ como levava 
por Regimento. E também pêra favorecer 
todos aquelles lugares , que eflavam pornof- 
fos ', que eram, Moçambique, Quiloa, e 
Melinde , onde o Vifo-Rey leixou ordena- 
das Feitorias pêra as roupas, e fazenda, que 

fò 



394 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fe alli haviam de haver pêra o tradto da 
ouro de Çofala ; no maneio da qual fazen- 
da eíles navios , que levava Francifco da 
Nhaya , haviam de fervir. O qual foi tão 
ditoíb neíla viagem $ que partindo de Ço- 
fala em Fevereiro , quando veio a vinte e 
iínco de Março , entrou em Quiloa em hum 
zambuco em que fe falvou , tendo perdido 
os dous navios , hum em Moçambique , 
querendo-o tirar a monte por lhe alquebrar 
a mingua de não ter apparelhos pêra iffo , e 
o outro em as lihas de S. Lazaro , na qual 
viagem elle tinha tomado dous zambucos , 
efte em que foi , e outro que tinha esbu- 
lhado , poios achar com fazenda da que fe 
refgatava em Çofala. Ao qual Franciíco da 
Nhaya de boa hofpedage Pêro Ferreira pren- 
deo , dando-lhe a culpa da perdição dos 
navios , e mais por a preza dos outros , e 
lhe achar algum ouro do que fe refgatava 
em Çofala , que por bem do Regimente d 5 El- 
Rey perdia. Pêro Barreto partido de Ço- 
fala, diante delle , quando cnegou a Quiloa 
hum Domingo de Ramos com as fuás três 
náos , que o achou nefte eftado de prizao , 
parece que ou por temer que hum homem , 
que tão preftes perdia dous navios cada hum 
poríeu medo, tinha ventura pêra fe perder 
em todolos que fe metteífc ., ou per outro 
qualquer refoeito j quando veio em Maio 5 



que 



Década I. Liv. X. Cap. II. 395' 

que elle Pêro Barreto parrio com fuás náos 
pêra a índia , não quiz levar Franciíco da 
Nhaya , entregando-lhe Pêro Ferreira com 
fuás culpas pêra o Vifo-Rey o julgar , nem 
menos quiz recolher os homens ? que com 
elle fe perderam. E Deos , em cujo poder 
eílam os juizos defías coufas , no tempo em 
que ifto negou , também elle Pêro Barreto 
ie perdeo na barra , e ficou com o batel da 
fua náo , em que fe falvou com fua gente. 
E porque as outras duas de fua conferva 
hiam já diante caminho de Melinde , tor- 
nou elle a grão preíTa a Quiloa aò concer- 
tar 5 e ao outro dia feguio as náos nefte 
batel , que alevantou com alguma gente da 
principal que levava , e per efla maneira fi- 
cou em jogo com Francifco da Nhaya. Por- 
que elle Pêro Barreto á fahida de Çofala 
perdeo o batei , e o cofre do cabedal com 
alguma gente \ e á fahida de Quiloa a náo , 
e partío dalli no batel armado como cara- 
velao, feguindo as náos té Melinde, onde 
efperava de as tomar 5 como tomou ; e Fran- 
ciíco da Nhaya entrou em Quiloa em hum 
zambuco com perda de dous navios , com 
que ambos ficaram iguaes na ventura , mas 
não em modo de caridade. E por derradei- 
ro todos foram ter á índia , cada hum com 
fua parte de culpas , por iffo ninguém con- 
demnç as primeiras de feu vizinho , em 

quan- 



396 ÁSIA de JoÂo de Barros 

quanto tiver vida , porque ainda tem tem- 
po pêra ver as íègundas em fua caía. 

CAPITULO III. 

Como Pêro da Nhaya foi cercado per os Ca- 

fres da terra , donde Je caufou ir elk 

matar EIRey : e do que mais paffòu 

té fer alevantado hum feu filho > 

que poz a terra em paz. 

PEro da Nhaya acabando de aífentar as 
coufas da fortaleza , fem ter fabido cila 
perdição de leu filho , começou de entender 
cm as do refgate do ouro , o qual corria 
mui pouco com as mercadorias que fe le- 
varam deite Reyno 5 que eram conformes 
ás que refgatavam no caftello de S. Jorge 
da Mina , e não as que queriam os Negros 
de Çofala > que todas haviam de fer das 
que os Mouros haviam da índia , princi- 
palmente de Cambaya. E não fomente as 
mercadorias , mas té as defezas de. algumas 
coufas , tudo era ordenado ao modo da for- 
taleza da Mina , que deo logo no princípio 
muito trabalho ao Capitão Pêro da Nhaya , 
e as defezas , (como adiante veremos 3 ) fo- 
ram caufa de muito mal. Porém com a vin- 
^da das mercadorias , que lhe levou Gonça- 
lo Vaz de Góes, as quaes oVifo-ReyDom 
Fraucifco d 5 Almeida ordenou que lhe fof- 

fem 



Década L Liv. X. Cap. III. 397 

fem das que tomou em a Cidade Quiloa 5 
e Mombaça ? ( como atrás diíTemos , ) por 
ferem as próprias 'que os Cafres queriam ? 
começaram elles a correr a fio com ouro , 
porque recebiam muito mais proveito da 
fortaleza , que da mão dos Mouros , e aííl 
bom tractamento de fuás peflbas 5 que foi 
caufa de os Mouros defcubrirem o ódio que 
tinham guardado , té verem efte termo do 
refgate, em que elles efperavam de fe de- 
terminar. A qual paixão não fomente mo- 
veo os principaes , per cuja mão ante da 
noíTa vinda corria efte tradto , mas ainda 
ao genro. d'ElRey , que era o maior con- 
trario que alli tínhamos , aqueixando-fe a 
EIRey mui 7 gravemente de dar azo a que 
as coufas vieflèm áquelle termo. EIRey ven~ 
do-fe afadigado delle , peró que lhe tornou 
repetir as caufas que o moveram a dar li- 
cença a Pêro da Nhaya pêra que fizeífe 
aquella fortaleza , diííe-lhe , que pois os 
Portuguezes já eftavam bem tomados das 
febres , e doença da terra , fegundo lhe di- 
ziam , elle tinha cuidado hum modo pêra 
todolos que eftavam nella ferem mortos fem 
nenhum perigo dos feus naturaes , o qual 
modo lhe denunciou , com que elleMufaf, 
e os outros de fua opinião ficaram fatisfei- 
tos , e foi efte , que logo poz em execução. 
Havia dentro pola terra hum Príncipe Ca- 
fre 



398 ÁSIA de João de Barros 

fre per nome Moconde , homem mui pode- 
rofo , que fenhoreava huma Comarca daquel- 
la terra de Çofala da mão de Monomotá- 
pa , ao qual MocondeEl&ey de Cofala noti- 
ficou , como alii eram vindos homens eítran- 
geiros de máo trado , e viver , que como 
vadios andavam pelo mar roubando íem 
perdoar a alguém , dos quaes roubos tinham 
alli hum grão theíòuro de muitos pannos 
de leda , e ouro , e outras coufas da índia , 
as quaes pertenciam mais a Monomotápa , 
por ler Senhor da terra , que a elles. E por 
elle os ter apertados com os mantimentos, 
que não coníentia que lhe deíTem , citavam 
poílos em tanta fome , que entre cila , c 
febres não tinha força pêra fe defender, e 
pêra os tomar não haveria mais detença que 
chegar , e levar-Ihes as vidas fazenda na mão , 
o que elle per li não queria fazer , fem pri- 
meiro faber delle fe queria fer neíle cafo, 
porque determinava de a hum certo dia 
mandar entrar com elles. Moconde , como 
vio eílas offertas , por fer homem bárbaro , 
cubiçofo , e fem cautela alguma, paíTou o 
rio ; e porém com fundamento , que quan- 
do lhe não fuccedeíTe bem o cafo pêra que 
era chamado , dar na povoação dos Mou- 
ros , de que levaria alguma preza 5 com que 
fua vinda não foíle de balde. O qual mo- 
do, (ainda que fe poz em eífeito,) alguns 

Mou- 



/ 



Década I. Liv. X. Cap. III. 399 

Mouros , que conheciam a natureza dos 
Cafres , temeram , porque lhes parecia que 
Moconde havia de commetter alguma cou- 
fa em damno d'ElRey, ou ao menos que 
não vieffe a effeito ; porque os Cafres tem 
tão pouco fegrédo , que por hum panno 
defeubririam tudo a alguns Mouros', que 
lá andavam por ferem omeziados , osquaes 
por fazerem feus partidos veriam dar avifo 
a Pêro dá Nhaya , como em eíFeito aífi acon- 
teceo. O qual avifo elle teve per alguns 
Mouros , que já viviam derrador da forta- 
leza , polo beneficio que delia recebiam , 
pedindo-lhe todos, que por quanto temiam 
a fúria dos Cafres , houveíTe por bem ao 
tempo de fua -vinda de os recolher dentro 
comíigo com mulheres , e filhos ; entre os 
quaes requerentes era hum Mouro princi- 
pal chamado Yacóte de natureza Abexij da 
terra do Prcfte João , o qual fendo cativo 
de idade de dez annos , o fizeram Mouro , 
o que lhe elle concedeo. Vindo o dia , em 
que fe efperava pela vinda dos Cafres , che- 
garam com tanto alvoroço do roubo que 
vinham fazer , que fem temor, ou ordem 
alguma finco , ou féis mil delles cercaram 
aquelía fortaleza que os noífos tinham feita , 
e não faziam mais naquella primeira chegada 
que quanto lhe os Mouros que os traziam 
enfinavam , que era encher a cava com ma- 
to, 



N 



4oo ASTA de João de Barros 

to , o que fizeram em breve tempo pola 
multidão delles. A qual tanto que foi cheia, 
chegáram-fe aos páos das tranqueiras , del- 
les querendo-os arrincar , outros fubir per 
elles aflima , e de quando em quando lan- 
çavam huma nuvem de fetas perdidas , que 
faziam íombra na terra , e encravaram al- 
guns dos noíTos , principalmente dos Mou- 
ros que recolheram comíígo , que por não 
andarem armados padeciam mais damno. 
Peró efte feu atrevimento não durou mui- 
to , porque como fentíram a obra- da noíla 
artilheria , que juncava a terra com os cor- 
pos delles , íem verem que os derribava y 
ao modo de gado eípantado começaram a 
fugir huns per fima dos outros - ? mas ifto 
não foi aíli tão leve aos noíTos , que lhes 
não cuftaíTe muito trabalho. Porque em to- 
da a fortaleza não havia mais que trinta e 
íinco homens , que pudeííem tomar armas , 
e os outros em tal eífado , que fe ajunta- 
vam finco , e féis pêra armar huma béíta ; 
e os melhores homens d'armas t que Pêro 
da Nhaya naquelle tempo tinha , e que vi- 
giavam de noite , e de dia a fortaleza , eram 
dous libreos , que os Cafres mais temiam 
que a fúria da lança , ou efpada dos noífos , 
porque os braços ainda que davam com von- 
tade , não tinham força pêra fazer damno. 
.E parece que ainda Deos quiz neftes dous 

ani- 



Década I. Liv. X. Cap. III. 401 

animaes moílrar parte do favor que nos deo 
contra aquelles bárbaros , porque aos de 
fora tinham cite ódio ; e aos Mouros 5 que 
Pêro da Nhaya recolheo dentro , eram man- 
fos como a cada hum dos Portuguezes. Pê- 
ro da Nhaya vendo-fe nefle primeiro ímpe- 
to mui afadigado dos Cafres , por lhe não 
ficar coufa por fazer de Capitão , e Caval- 
leiro que elle era , com obra de vinte Mou- 
ros dos da companhia de Yacóte , e quin- 
ze Portuguezes dos melhores difpoftos , fa- 
hio fora aos Cafres ; e deo-lhe Deos tan- 
to favor , que á força de ferro das lanças 
derribou muitos dos que trepavam pela tran- 
queira aífima , e finalmente os fez afaftar > 
recolhendo-fe todos a hum palmar , que efía- 
va de fronte da fortaleza. E em três diasr 
que alli eíliveram fobre ella no commetti- 
mento que per vezes fizeram , morreram 
tantos , que houveram elles que os Mou- 
ros buícáram aquelle modo de os matar , 
pois os traziam a pelejar contra Deos fe- 
gundo elles diziam : cá debaixo das arvo- 
res 3 onde eftavam as cafcas delias , polo 
mal que fizeram em commetter aquella fua 
gente branca , os matava. Ifto era , porque 
o pelouro da artilheria ás vezes hia efeo- 
deando os pés das arvores , onde elles ef- 
tavam apofentados , com as quaes côdeas 
e rachas foram muitos delles mortos , e fe- 
TonuL P.il Ce ri- 



402 ÁSIA de João de Barros 

ridos de maneira , que não fabiam onde 
pudcíTcm fegurar liia vida. E como gente 
indignada defte engano , que lhe os Mou- 
ros tinham feito em os trazer áquelle lu- 
gar , em que receberam tanto damno , lei- 
xando a noffa fortaleza de paliada , rouba- 
ram a povoação dos Mouros ; e EIRey 
houvera de padecer algum mal, fenao pro- 
vera fuás cafas com gente que o defendeo. 
Pêro da Nliaya como os vio partidos , por- 
que EIRey não reinafíe outra maldade, fa- 
bendo per efeutas que pêra iíTo lançou , co- 
mo nas luas caías não havia boa vigia , e 
fe temiam pouco da fortaleza por todos 
eftarem doentes , com alguns que pêra iíTo 
achou bem difpoftos , de noite metteo-fe 
no bargantim , e levando fuás efpias dian- 
te, deo nas cafas d'ElRey. O qual fentin- 
do o que era , poz-fe detrás da porta , e 
em Pêro da Nhaya vindo com huma tocha 
diante , que ao entrar da cafa fe lhe apa- 
gou , fentindo peílba junto de fi , defearre- 
gou com hum terçado , e alcançou a Pêro 
da Nhaya fobre o pefcoço, que não fe def- 
viando hum pouco mais per acerto , que 
por fugir do golpe , per o cafo fer ás ef- 
curas , fegundo elle vinha da mão de cego , 
alli houvera de ficar meio degollado. Mas 
quiz Deos que a ferida foi pequena , e com 
a tocha acceza EIRey recebeo maior , que 

foi 



Década I. Liv. X. Cap. III. 403 

foi acabar feus triftes dias , e cegueira ailí 
da alma , como do corpo , o qual morreo ás 
mãos de Manuel Fernandes , que era Feitor , 
e com elle fe achou João Rodrigues Mea- 
lheiro , na qual revolta também morreram al- 
guns Mouros que acudiram. Pêro da Nhaya 
como vio morto EIRey , que era a caufa 
dcfua ida 5 ante que o lugar fe mais appel- 
lidaíle j temendo que poderia receber algum 
damno , fe tornou recolher ao bargantim , 
e veio-fe embora á fortaleza. Os filhos d'El- 
Rey 5 quando fouberam da fua morte , e que 
os noífos eram poftos em falvo na fortale- 
za 5 logo pela manhã com aquella primeira 
dor ajuntaram a mais gente que puderam , 
e foram fobre ella. Mas eíte feu Ímpeto , 
ainda que deo trabalho aos noífos y não obrou 
quanto elles deíejavam , porque acharam re- 
fiílencia , que os fez leixar o lugar 3 que na- 
quella primeira fúria tomaram ., chegando-fe 
tanto á tranqueira , que tentaram ííibir per 
ílma. E como a neceílidade dá animo , e 
forças 3 teve efta tanto poder fobre as fe- 
bres dos noífos , que muitos as perderam 
com o fervor de fe defender , de maneira 
que a guerra foi a melhor mezinha que ti- 
veram por huns dias 5 porque fez alevantar 
a maior parte delles 3 no qual tempo o 
Mouro Yacóte 5 e os outros , que com el- 
le fe recolheram 3 não fomente como leacs> 

Ce u ■ mas 



404 ÁSIA de João de Barros 

mas como valentes homens , ajudaram os 
nolTos. Os filhos f e genro d 5 E!Rey como 
não tiveram força pêra nos primeiros dous 
outros dias levarem a fortaleza na mão , 
converteram todo feu intento ao negocio 
da herança ; e fobre quem havia de ficar 
Rey houve logo bandos , com que efqueci- 
dos da morte do pai , começaram bufear 
luas ajudas. Hum dos quaes chamado So- 
lcimam , por fer mais amigo da fortaleza , 
per meio dcYacóte procurou favor de Pê- 
ro da Nhava pêra o levantarem' por Rey , 
o que elle fez com muita diligencia. E ain- 
da pêra efte negocio haver mais cedo eífei- 
to , mandou dar da Feitoria alguma fazen- 
da a Mouros principaes i que eram contra 
bando , com que efte Soleimam ficou Rey 
pacífico j e mui amigo da fortaleza por o 
favor que delia recebeo , e elle fer homem 
mancebo , fubjeíto , e obediente ao Capitão 
Pêro da Nhaya , aos quaes leixaremos hum 
pouco té feu tempo, por dar conta das cou- 
ías , que o Vifo-Rey D. Francifco fez , de- 
pois que leixámos de faliar nelle. 



CA- 



Década I. Livro X. 405" 

CAPITULO IV. 

Como o Çamorij Rey de Calecut fez huma 

groffa Armada , a qual D. Lourenço 

filho do Vifo-Rey desbaratou. 

A Trás fica relatado como o Çamorij de 
Calecut á inítancia , e requerimento dos 
Mouros moradores , e tratantes no feu Rey- 
no , enviou hum Embaixador ao Soldão do 
Cairo. E pofto que ao tempo que o Vifo- 
Rey D. Franciíco chegou a índia , elle Ça- 
morij tinha já recado de quão bem eíie feu 
Embaixador fora recebido 5 e a grande Ar- 
mada 5 que o Soldão promettia ao feu re- 
querimento , com todas eftas promeíTas 5 em 
que elle já tinha boa parte de fua efperan- 
ça pêra nos lançar da índia , em quanto as 
não via 3 quiz fegurar-fe nas próprias , man- 
dando fazer grão numero de navios pêra de- 
fensão dos portos , e coita do feu Reyno ; 
parecendo-lhe que a noíFa guerra feria ao 
modo das Armadas paífadas , de àr, e vir 
com carga da efpeciaria nos tempos de nof- 
fa monção ô e de caminho fazer algum "da- 
mno , fe achaíTemos difpofição pêra iííb ; po- 
rém quando elle foube a entrada do Vifo- 
Rey na índia , e o que fizera em Qiiiloa , 
e Mombaça , e as fortalezas , que leixava 
feitas y houve que tanto fundamento fazia- 

mos 



406 ÁSIA de JoÂo de Barros 

mos de conquiítar a terra 5 quanto do com- 
mercio da cfpeciaria. E como quem tinha 
experiência de nolías coufas , todo o feu 
confelho , e induítria converteo em fortale- 
cer feus portos , e acerefeentar numero de 
mais navios dos que tinha feito , acquirindo 
per huma , e outra parte força de gente , e 
artilheria > nao fomente com tenção de fe 
defender , mas ainda de nos lançar da ín- 
dia ante que arreigaííemos as raizes , que já 
começávamos lançar. EIRey de Cochij , po- 
lo que lhe importava , trazia fempre em ca- 
fa do Çamorij peífoas , que lhe davam avi- 
fo de todas eítas coufas ; e tanto que o Vi- 
fo-Rey chegou a Cochij , depois que fe 
com elle vio a primeira vez , Uie deo conta 
deites grandes apparatos do Çamorij , e tam- 
bém como algumas náos das que andavam 
per aquella coita do Cabo Comorij té Chaul , 
-eCambaya, em o maneio dos mantimentos , 
e coufas neceífarias aos povos da coita Ma- 
labar , com achaque de ferem amigos dos 
'Portuguezes , eram roubadas da Armada , 
que o Çamorij trazia per aquella coita. De 
maneira , que citava já mui corrente as náos 
de Couláo , de Cochij , e Cananor , por nof- 
fa eaufa não poderem navegar per aquella 
cofia , fenao com grande rifeo de ferem to- 
mados , e eram havidos os povos deftes três 
Reynos por imigos mortaes do Çamorij. 3 

por- 



Década I. Liv. X. Cap. IV. 407 

porque elle affi os tratava. O Vifo-Rey , 
peró que per ordenança de íeu Regimento 
levava , que como o verão entrafle naquel- 
la cofta té a fim delle , trouxefle fempre grof- 
fa Armada nella , por caufa das náos de 
Meca , e Mouros ? que tiraram a efpeciaria 
do Malabar , e principalmente por caufa dei- 
tes damnos , que noffbs amigos recebiam 
das Armadas do Çamorij , e affi do appara- 
to ? que elle tinha feito pêra fe defender; 
ordenou , tanto que defpachou as náos da car- 
ga y que vieram pêra eíle Reyno , de man- 
dar leu filho D. Lourenço com huma Arma- 
da , em que andava : Aííi pêra guarda , e 
favor das náos de Coulao , de Cochij , e 
Cananor , em quanto hiam fazer fuás com- 
mutações , e commercio de fuás mercado- 
rias , humas por outras , fegundo o coílume 
da terra, per aquelles portos téChaul, que 
era o lugar a que fe ellas mais eílendiam ; 
como também pêra defender, que as náos 
do eftreito de Meca não entraífem , nem fa- 
hiífem nos portos de Calecut : cá efta era 
a mais crua guerra , que lhe podia fazer. Por- 
que os Reynos , cujo principal eílado con- 
íifte em navegação 5 e que tem entradas , e 
fahidas de que vivem , são como o corpo 
animado , que fe lhe tiram a entrada 5 e fa- 
hida das coufas, que ofuftentam, não tem 
mais vida. Apercebida efta Armada, partio 

D. 



408 ÁSIA de JoXo de Barros 

D. Lourenço com eítas velas ; elle em a 
náo , em que andava por Capitão Rodrigo 
Rabelo , Bcrmum Dias em hum navio , e 
Fiiippe Rodrigues em outro. Nuno Vaz Pe- 
reira , Gonçalo de Paiva , Antão Vaz , Lo- 
po Chanoca , Francifco Pereira Coutinho , 
cada hum em fua caravela , e João Serrão 
cm huma galé , porque naquelie tempo ef- 
tes navios pequenos fe haviam por melhores 
pera pelejar. E a tenção de D. Lourenço 
era ir acompanhando as náos dos nollos 
amigos 5 que diíTemos , té chegar a Chaul ? 
fe neceflario foííe ; e em quanto elles fizef- 
íèm fuás mercadorias nos portos onde hiam 
ordenados > daria elle huma viíta a toda a 
coita , e depois os tornaria recolher. Seguin- 
do feu caminho, neíta ordem , como foi na 
paragem de Calecut , porque não achou no- 
va fer fahida a Armada , que fe dizia d'EI- 
Rey de Calecut , leixou naquelia paragem 
em guarda da coita a eítes dous Capitães , 
Bermum Dias ; e a Francifco Pereira , com 
os quaes fe havia ajuntar mais huma galé, 
de que era Capitão Diogo Pires ayo del- 
le D. Lourenço , que ao tempo de rua 
partida de Cochij não eítava de todo preí- 
tes , e por iífo ficou té fe aperceber ; os 
quaes ficavam com regimento , que em quan- 
to não fahiíTe a Armada de Calecut , íè lei- 
xaíTem andar tolhendo a entrada 5 e fahida 

das 



Década I. Liv. X. Cap. IV. 409 

das náos dos mercadores ; e fahindo a Ar- 
mada, que fe foffem ajuntar com elle. Ex- 
pedido D. Lourenço delles , foi dar huma 
vifta a Cananòr , leixando as náos dos mer- 
cadores que foííem fazer feus proveitos , por 
quanto já hiam feguros da Armada do Ça- 
rnorij ; eneftes dias que íe alji deteve, veio 
ter com elle hum Italiano per nome Ludo- 
vico Romano , dizendo , que efcondidamen- 
te fahíra da Cidade Calecut a lhe dar nova 
da grande Armada que eftava preíles pêra 
fahir , e o muito refguardo , que fe tinha 
aos rios, onde fe fazia preftes, que não fe 
foubeíle per os Portuguezes ; e aíli diffe co- 
mo lá andavam dous Levantifcos artilheiros 
oíferecendo-íè aos tirar daquella parte , os 
quaes eram aquelles , de que já atrás fizemos 
menção , fobre que o Çamorij tantas vezes 
fe defavio nos contratos da paz. Contou 
mais efte Ludovico outras coufas a D. Lou- 
renço , que lhe conveio mandalio a feu pai 
em a galé de João Serrão 3 e ouvindo o 
Vifo-Rey o que dizia , o tornou logo ef- 
pedir pêra trabalhar de trazer comíigo os 
dous fundidores. O qual negocio não hou- 
ve efFeito , porque fendo elles fentidos que 
fe queriam vir a nós , foram mortos , e to- 
davia elle Ludovico veio ter a efte Reyno 
na Armada de Trilião da Cunha , e daqui 
íe foi pêra Itália , e lá eícreveo em língua 

vul- 



4io ÁSIA de João de Barros 

vulgar toda íua peregrinação > e eftas couíàs 
que paflbu com D. Lourenço com muitas 
daquellas partes , o qual tratado depois fe 
trasladou em Latim , e anda encorporado em 
hum volume intitulado Novus Orbis. Da 
eícritura do qual , acerca do que elle diz 
da íua ida , e vinda a D. Lourenço , e a feu 
pai , tomámos fomente o que fabemos pelos 
noílos , o mais leixámos na fé do auítor. 
Finalmente , do que elle contou ao Vifo- 
Rey do grande apparato da Armada do Ça- 
morij , depois de o ter já efpedido , e man- 
dado na galé de João Serrão , em que foi , 
a grande prefla mandou aperceber a outra 
galé de Diogo Pires 5 que ainda não era de 
todo provida , e per ella mandou recado 
a D, Lourenço do que via fazer , e do mais 
que tinha fabido per via d'ElRey de Co- 
chij acerca dos apparatos do Çamorij pe- 
las efpias que lá trazia. O qual Diogo Pi- 
res fendo na paragem de Cananor , deo em 
meio de huma grande frota de té duzentas 
e íincoenta velas , a maior parte das quaes 
eram paráos , todas a ponto de guerra , que 
fahíram dos portos de Calecut , onde fe fi- 
zeram preftes j e pofto que elle Diogo Pires 
correo aíTás de rifeo , todavia a vela , e re- 
mo o falvou dos paráos , que o feguíram 
hum bom pedaço. Sahindo defta affronta , 
foi dar com Bermum Dias , e Francifco Pe- 

rei- 



Década I. Liv. X. Cap. IV. 411 

reira , que por lhe falecer agua eram idos 
a Cananor ; e tomada 3 efpedindo-fe de Lou- 
renço de Brito , com o qual houveram con- 
fellio ? a grão preíía foram ter com D. Lou- 
renço , o qual vinha de Anchediva , e tra- 
zia comíigo a Simão Martins em o feu bar- 
gantim , que eftava em ferviço da fortaleza y 
com o qual eram já numero de onze veias. 
D. Lourenço com o recado ? que lhe Dio- 
go Pires deo de feu pai 5 e nova da vifta 
daquella grande Armada , teve logo confe- 
Iho do modo que teriam no commettimcn- 
to delia > e poílo que o cafo ao parecer dos 
mais era coufa mui duvidofa efperar tama- 
nha frota 3 quanto mais illa buicar , toda- 
via pelo recado do Vifo-Rey , que fobre iíTo 
efcrevia a feu filho 5 e aos Capitães 5 aíTen- 
tou-fe que a foíTem buicar , e o medo de 
pelejar com elia , foífe varejar bem da arti- 
lharia fem abalroar nenhuma náo. Porque 
fegundo a eítimação de Diogo Pires , havia 
entre aquelle grão numero de velas té fef- 
fenta náos mui fobranceiras ás noffas , das 
quaes fe não podiam bem ajudar , equebaf* 
tava o damno , que lhe podia fazer a nofía 
artiíheria ; e porem quando o cafo déíTe ou- 
tro confelho , então elle mefmo enlinaria o 
modo. Recolhidos todolos Capitães aos feus 
navios da náo de D. Lourenço , onde fe if- 
to aííentou , começaram de fe aperceber pê- 
ra 



412 ÁSIA de JoXo de Barros 

r<\ aquella fefta de fogo, e langue, em que 
eíperavam de entrar, efeitos á vela., foram 
na volta da terra. D. Lourenço tanto que 
houve viíla delles , trabalhou por fe poer a 
balravento , o que fizeram todos: cá fomen- 
te iíto tinham por regimento , ter olho na 
capitania , e feguilla , porque dalli dependia 
o eoníclho do feito ; do qual lugar tanto 
que foram fenhores , começou a anilheria 
varejar per o grande cardume delles , deíap- 
parelhando huma , e mettendo outros no 
fundo , porque como eram baftos , nenhum 
tiro perdiam , carregando fobre elles de 
maneira , que por fugirem a noíTa artilhe* 
ria , que os tratava mal , hiam-fe cozendo 
com a terra quanto podiam. E como por 
razão da ventage 3 que lhe D. Lourenço ti- 
nha no lugar de balravento , elles fe não 
podiam aproveitar das frechas que levavam , 
e artifícios de fogo pêra o tempo d'abalroar , 
etodo o damno que faziam aos noflbs era 
com fua artilheria 5 a maior parte da qual 
por fer de ferro , era de pouca fúria em 
comparação da noíTa , começaram com o 
grande damno que recebiam de fe poer mais 
em modo de falvaçao , que de peleja. Fi- 
nalmente D. Lourenço vendo como noíTo 
Senhor lhe moftrava vidtoria, toda aquella 
tarde os foi feguindo no modo que levava 
com elles , fem querer abalroar , no qual aí- 

can- 



Década I. Liv. X. Gap, IV. 473 

cance , além dos zambucos , e paráos , que 
foram mettidos no fundo , fez encalhar ao 
longo da coita huma entre outra doze náos , 
porque temendo ellas a artilheria , coziam- 
íe tanto com terra , que davam em fecco , 
e outras de fe não poderem fufter fobre a 
agua de arrombadas. As que tiveram melhor 
vela , vendo que naquelle tempo recebiam 
mais damno do que o faziam , foram-fe to- 
das metter em huma enfeada por afracar a 
viração , e alli fe encadearam todas humas 
nas outras , com efperança que como vieííe 
o terrenho , de fe fazer á vela fobre as nof- 
fas 5 porque ficavam então iguaes no lugar 
do vento. D.Lourenço pelo modo que vio 
de todas feguirem , e ampararem huma das 
náos principaes , entendeo que aquella devia 
fer a capitania , na qual eílava o governo ? 
e principal força da frota ; e poíto que q 
dia d'antes tinha aífentado que não abalroaf- 
fem por o grande numero de velas , e mui- 
tas ferem fobranceiras ás fuás , viíto o mo- 
do da peleja dos imigos , que era lançar 
nuves de fetas , e a fua artilheria fer mui 
fraca , determinou com os Capitães , que ao 
feguinte dia elle, eFilippe Rodrigues abai- 
roaífem eíla capitânia cada hum per feu bor- 
do , e Bermum Dias , e Gonçalo de Paiva 
abalroaffem outra náo grande , que eílava 
junto delia ; e os outros navios , e galés > por 

fe* 



414 ASIÀ de João de Barros 

ferem pequenos , e razos , andaflem de fo- 
ra defendendo a outra frota , que não foo 
correíTe a eftas duas náos , onde parecia ef- 
tar toda a força da Armada, fegundo ellas 
inoftravam nos pelouros da artilJieria , que 
cípedíram de íi , e na multidão de gente lu- 
zida que apparecia. Concertado efte modo 
de commetter as duas náos , tanto que o 
terrenho de noite começou ventar , os Mou- 
ros fem fazer rumor fe fizeram á vela , e 
mandaram aos pardos que fe cozefTem com 
terra por ficarem abalravento das velas. Pê- 
ro como os noífòs Capitães a todalas fuás 
induítrias eítavam cautelados , quando foi 
ao levantar do poufo , tanto fe melhoraram 
em lhes tomar o lugar de balravento , que 
por eíta ventage que lhe houveram , e afli 
porque da ponta de Cananor ao paffar del- 
ia ; onde os da noíla fortaleza puzeram hu- 
ma ferpe, com que os faziam arredar da ter- 
ra , todos fe foram metter na companhia 
dos outros navios grandes , que ao mar an- 
davam em calma na parage de Trama pa- 
tam , que fera duas léguas de Cananor , por 
lhes falecer o terrenho , e a viração vir mais 
tarde. Com a qual , tanto que veio , fe fize- 
ram na volta da terra , como quem a buf- 
cava por abrigo com o temor que já leva- 
vam dos noífos ; e o primeiro final que Dom 
Lourenço teve de lhe Deos dar viétoria > 

foi 



Década L Liv. X. Cap. IV. 415: 

foi acudir hum pouco de Tento Noroefte 
tão vivo na vela , que conveio aos imigos 
íiirgirem com as náos principaes defronte 
da baya de Cananor. D. Lourenço , como 
os vio furgir, mandou tomar a vela gran- 
de , e poer cm ordem de aferrar , como já 
tinha aflentado com os Capitães ; mas ifto 
não lhe foi fácil como elle cuidou, porque 
os Mouros tanto que viram o arpéo den- 
tro , poílo que a fua náo capitania foíle mui- 
to íòbranceira á de D. Lourenço , e em mu- 
nições , artifícios de fogo , e numero de gen- 
te tiveífe muita ventage, trabalharam logo 
de o lançar fora. Com tudo , defta chega* 
da ficaram dentro nella lincoàófa homens dos 
noíTos , peíToas que nefte mifter trabalhavam 
por fer dos primeiros , os quaes eram : Ro- 
drigo Rabelo Capitão defta náo S. Miguel y 
Diogo Aires , e António Mendes , e dos 
outros feus nomes não vieram á noíTa no- 
ticia. D. Lourenço quando fe vio defafer- 
rado , e hum bom pedaço per popa da náo , 
e que Bermum Dias , e Gonçalo de Paiva , 
que também haviam de abalroar , a força 
do vento os empachou no tomar das velas 5 
com que ficaram em vão ; e Filippe Rodri- 
gues , que houvera de fer com elle , também 
fe embarcou no aferrar : começou a bradar 
contra* Nuno Vaz Pereira , que vinha na fua 
efteira , que fe chegaíTe a elle , por ter na- 
vio 



416 ÁSIA de João de Barros 

vio pequeno , que o podia atoar. Nuno Vaz 
como era Cavalleiro , e homem mui dili- 
gente neftes tempos , vendo que dentro da 
náo dos Mouros ficaram os finco homens 
de D. Lourenço , mandou a Vicente Lan- 
deira meftre do feu navio , que em toda ma- 
neira aferraíle a náo. O qual meftre por fer 
homem de cfpirito , e aftuciofo nas coufas 
do mar , ainda que náo foi pela parte que 
elle quizera , todavia a náo foi aferrada , 
e per modo , e lugar tão perigofo , que ha- 
vendo fer ifto defaftre , foi em dita. Porque o 
navio ficou atravcfiádo debaixo da gorja da 
náo , encaminhado per Deos , que deo vida 
aos linco noífos , que eílavam acolhidos aos 
caftellos da proa , onde com muito traba- 
lho , e perigo fe defendiam dos Mouros, 
que eram todos fobre elles. E certo , que 
era coufa mui temerofa de olhar , quanto 
mais pêra commetter , o que Nuno Vaz fez , 
porque a comparação que ha da grandeza, 
e ferocidade de hum bravo touro a hum 
ardido libreo , havia da náo dos Mouros , 
que feria de quinhentos toneis , atulhada dei- 
les , e de artifícios de fogo , á caravela São 
Jorge de Nuno Vaz , que era pouco mais 
de ímcoenta toneis. E ainda a efte feu ani- 
mo não faleceo boa induílria delle Nuno 
Vaz 5 e diligencia do feu meftre , que cor- 
tou com hum machado a amarra da náo , 

com 



Década I. Liv. X. Cap. IV. 417 

com que ella defcahio fobre a de D. Lou- 
renço. O qual i tanto que a inveítio , aífi por 
ajudar aos finco noíTos , queeftavam bemne- 
ceífitados , como por não lhes tornarem ou- 
tra vez lançar o arpéo fora , faltou logo 
dentro com hum golpe dos feus que o fe- 
guiam , entre os quaes eram Fernão Peres 
d' Andrade , Ruy Pereira , Vicente Pereira , 
João Homem , e aífi fe mettêram com os 
imigos , que feriam mais de quatrocentos ho- 
mens de peleja , que defapreífáram os finco , 
e a Nuno Vaz , que com os feus era já na 
proa 5 onde eíles eftavam. Filippe Rodri- 
gues pofto que perdeo aquella primeira che- 
gada pêra aferrar com D. Lourenço , não 
perdeo a forte de outra náo vizinha deita 
capitânia , em que também teve alfas de tra- 
balho , porque duas vezes lhe lançaram o 
arpéo fora , té que na terceira fez melhor 
preza. Bermum Dias , por ter navio grande t 
com Gonçalo de Paiva pela ordenança que 
levavam , ambos cumpriram o precepto de 
feu Capitão , e obrigação de Cavalleiros que 
eiles eram. As galés , e bargantim , por fe- 
rem navios razos , padeceram aífás de tra- 
balho > e perigo , porque com artifícios de 
fogo, e nuves de fetas os cubriam, e hou- 
veram de Simão Martins , e João Serrão 
de maneira , que não fe contentavam de ef- 
capar de hum perigo , fenão metter-fe em 
Tom.L P.iL Dd ou- 



418 ÁSIA de JoXo de Barros 

outro maior , por entreter os navios peque-* 
nos dos imigos , que não foífem impedir a 
obra que fazia D. Lourenço , e os Capitães 
que aferraram. Finalmente aíli eftes navios 
de remo , como as caravelas , cada hum cm 
feu modo fez tanto per li , que difficultofa- 
mente fe poderia julgar qual dos Capitães 
nefta batalha , e conflito teve menos que 
fazer ; baile faber que pelo trabalho que ca- 
da hum poz na parte que lhe coube por for- 
te , aíli deo conta de fi , que os imigos que 
puderam efeapulir fe punham em íalvo quan- 
to podiam. D. Lourenço , porque lcixava 
já a náo enxorada dos Mouros > parte efti- 
rados no lugar onde os tomou a morte , e 
parte que fe acolheram a nado pêra terra , 
ante que as outras velas fe alongaflem mais 5 
começou de as feguir com os navios de fua 
Armada. E em chegando aos imigos , não 
fazia mais que metter huns no fundo , com 
outros dava á cofta , e aíli os foi decepan- 
do poucos y e poucos , té que já no fim do 
dia não os quiz elle mais íeguir , e mandou 
a Nuno Vaz , e a Filippe Rodrigues , e aos 
Capitães das galés , que lhe foífem no al- 
cance. Os quaes ao outro dia tornaram bem 
canfados de íeguir o fim daquella vi&oria, 
que foi a dezoito dias de Março do anno 
de quinhentos e féis , e huma das maiores 
que fenaquellas partes houve , coníiderando 

a def- 



Década I. Liv- X. Caí. IV. 419 

a defigualdade do numero das velas dos imi- 
gos , e gente que nçlla vinha aos noíTòs. E 
lè nelles houvera tanto animo , como vinham 
apercebidos de munições , e artifícios de guer- 
ra 3 mais langue de mortos houvera entre 
os noííos ; mas Deos por moftrar que aquel- 
la obra fora das ílias mãos , ainda que foi 
á cuíta do fangue de muitos , principalmen- 
te em os da náo de D. Lourenço , em todo 
furor daquelle feito houve fomente finco > 
ou féis mortos. E pêra curar os feridos , e 
dar repoufo a todos ,- elle fe recolheo em 
Cananor , onde foi recebido com grande fo- 
lemnidade dos noífos , e do Rey da terra y 
que o veio vifitar. Por memoria do qual 
feito , D- Lourenço primeiro que fe dalli 
foífe 3 mandou fundar huma Ermida da vo~ 
cação de N. Senhora ãa ViRoria na ponta 
apuda da terra, onde a noífa fortaleza eíta- 
va feita , no próprio lugar, em que Lou- 
renço de Brito mandara pôr huma peça con- 
tra os imigos poios aííaítar da terra , co- 
mo diífemos. A efte tempo que D. Lou- 
renço defcançava do trabalho deite feito, 
eílava Manuel Paçanha em a fortaleza de 
Anchediva em grão perigo , cercado de 
Mouros , e Gentios , que o Senhor de Goa 
mandou em huma frota de té fetenta navios 
de remo , parte dos quaes eítavam em o ria 
de Cintácora 3 cuja vizinhança o Vifo-Rey 
Dd ii * fem~ 



420 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fcmpre tcmco , c parte vieram de Goa a íe 
adjuntar com cfles. O qual adjuntamento o 
Sabayo mandou fazer depois que íbube que 
D. Lourenço chegara a dar vifla áquella 
fortaleza de Anchediva , e fe tornara pêra 
baixo contra o Malabar : cá lhe pareceo fer 
eíle o melhor tempo de a commetter per 
confelho de hum arrenegado , que vinha 
por Capitão da frota ; ao qual , fegundo fe 
depois foube , elle tinha promcttida a for- 
taleza de Cintácora , fe déífe modo , com 
que a noíla de Anchediva foífe tomada. E 
efte arrenegado era aquelle degredado per 
nome António Fernandes carpinteiro da ri- 
beira , que da Armada de Pedralvares Ca- 
bral ficou em Quiloa , ( como atrás fica , ) 
o qual fe paffou daqui pêra a índia em náos 
de Mouros , e foi aífentar vivenda com o 
Sabayo , que lhe fez honra , aífi por fer ho- 
mem de fua peífoa 5 como por fe fazer Mou- 
ro , cujo nome era Abedelá ; e depois lhe 
foi muito mais accepto pola induítria , que 
deo de tomar efta fortaleza de Anchediva , 
pola qual razão lhe entregou a capitania mor 
daquella frota. A vinda da qual , por fer 
ante manhã , não houveram os noífos viíta 
delia , fenao depois que deram na povoação 
da gente da terra , que eítava junta da nof- 
fa fortaleza , a qual não tinha mais defen- 
são que cerca baixa 3 e huma torre , tudo 

de 



Década L Liv. X. Cap. IV. 421 

de pedra , e barro. E como os noíTos em 
tão fraca coufa não tinham as vidas mui 
feguras , puzeram toda a efperança da lua 
falvação na ponta da efpada 3 a qual logo 
os Mouros começaram fentir • porque achan- 
do a defembarcação franca , pareceo-lhe que 
outro tanto havia de fer á chegada da for- 
taleza, peró aartilheria, e o ferro dos nof- 
fos es fizeram afíaftar. Com o qual damno y 
que foi mui grande naquelle primeiro ím- 
peto de fua chegada , fe recolheram a hum 
tezo de grande arvoredo , que eílava fober- 
bo fobre a fortaleza , como g^ntt que dalli 
queria fazer a guerra ; e aíTi a fizeram com 
tanto damno dos noííbs , que não podiam 
andar por dentro da fortaleza fem ferem 
feridos de efpingardas , e frechas , por fer 
mui perto delia. Manuel Façanha vendo que 
não tinha amparo , ordenou de pôr certas 
peças de artilheria miúda fobre a torre > e 
dalli varejava o lugar da eítancia delles \ e 
em outra parte poz outras peças groffas , 
com que lhe metteo algumas fuflas , e vaíí- 
lhas , em que vieram no fundo do mar : 
todavia três , ou quatro dias apertaram tan- 
to com a fortaleza , que mettêram os noííbs 
em muito trabalho, porque em todo aquel- 
le tempo não tinha efpaço de comer , nem 
dormir fenao em pé ; e o que lhes dava 
maior paixão > era ouvir de noite as coufas , 

que 



422 ASIÀ DE JOÃO DE BARROS 

que contra clles dizia aquelle arrenegado 
conformes ao eftado , em que cJle eftava. 
Finalmente vendo os Mouros que naquel- 
les primeiros dias não puderam levar a for- 
taleza na mao , e que mais damno tinham 
recebido que feito ; e que ao tempo da lua 
chegada viram partir dous barcos dos noí- 
fos , que andavam no ferviço da fortaleza , 
temeram que foflem dar avifo a D. Louren- 
ço , que fabiam andar naquclla cofta de Ar- 
mada , e vindo elle , ficavam em maior peri- 
go do que os cercados eftavam. Com o qual 
temor , e atalaias , que fobre ifíb traziam 
no mar, tanto que per ellas fouberam que 
os noíTos eram foccorridos com a vinda dos 
navios , que D. Lourenço mandou , com o 
jebate que lhe os barcos deram, começaram 
a grão preza levantar o cerco , e puzeram- 
fe em falvo. Chegados os Capitães que Dom 
Lourenço mandava , e provida a fortaleza 
de algumas munições , mantimentos , e gen- 
te , tornáram-íè a Cananor ; e fabendo clle 
o eftado delia , e que aquelle commettimen- 
to dos Mouros procedera da vizinhança de 
Cintácora , onde fe elles todos acolheram , 
determinou de fe partir pêra Cochij dar ra- 
zão a feu pai do perigo , em que aquella 
fortaleza Anchediva ficava vindo o inverno , 
por quão vizinha eftava de Goa , e longe 
do íòccorro que lhe havia de ir de Ccchij ; 

e per 



Década I. Liv. X. Cap. IV. É V. 423 

e por eítas razoes , c outras importantes ao 
ferviço d'ElRey , foi dahi a pouco tempo 
desfeita. E porque de toda a victoria , que 
D. Lourenço houve da Armada do Çamo- 
rij , não fe achou coufa de preza de maior 
preço ? que quatro náos , que eílavam com 
carga de eípeciaria , eíta fomente levou com- 
igo , que apreíèntou a feu pai em Cochij , 
como infignias de fua viítoria. 

CAPITULO V. 

Como o Vifo-Rey mandou feu filho D. Lou- 
renço defcubrir as Ilhas de Maldiva , 
e Ilha Ceilão : e o que fez nefta via- 
gem té tornar a Cochij. 

VEndo os Mouros , que andavam no 
commercio das efpeciarias , e riquezas 
da índia , que com anoífa entrada nella não 
podiam navegar por caufa deitas Armadas, 
que trazíamos na coita Malabar 5 onde to- 
dos vinham deferir , bufcáram outro novo 
caminho pêra navegarem as efpeciarias , que 
haviam das partes de Malaca , affi como 
cravo , noz , maça , landálo , pimenta , que 
haviam da Illia Camatra em os portos de 
Pedir , e Pacem , e outras muitas coufas 
daquellas partes , o qual caminho faziam 
vindo per fora da Ilha Ceilão , e per entre 
as Ilhas de Maldiva , atraveííando aquelle 

grão 



'424 ÁSIA de JoÁo de Barros 

grão golfão té abocar os dous eítreitos que 
diflemos , por fugir deita coita da índia que 
lhe defendíamos. O Vifo-Rey como foube 
parte deite novo caminho que elles faziam , 
e alfi da Ilha Ceilão , onde elles carrega- 
vam de canella por fe nella haver toda a 
daquellas partes, com fundamento do mui- 
to que importava ao ferviço d'ElRey tolher 
cite caminho', éter defeuberto aquellallha, 
c aíTi as de Maldiva , por razão do cairo 
que fc delias havia , que era o eílencial de 
toda a navegação da índia , pois delle fe 
faz toda a enxareca , determinou mandar 
feu filho D. Lourenço a eíle negocio , por 
ler no tempo de monção daquella paíTagem. 
O qual levou nove velas das que trazia cm 
ília Armada 5 c pela pouca noticia que os 
noíTos Pilotos tinham daquella navegação , 
peró que levaííe alguns da terra ? foram dar 
com as correntes na Ilha Ceilão , a que os 
antigos chamam Tapobrana , da qual fare- 
mos copiofa relação , quando eferevermos 
o que Lopo Soares fez nella ao tempo que 
fundou huma fortaleza em hum dos feus 
portos chamado Columbo , que he quator- 
ze léguas aííima do de Gale , onde D. Lou- 
renço foi ter , que eítá na ponta da Ilha , 
em o qual achou muitas nãos de Mouros , 
que citavam á carga de canella , e Elefan- 
tes pêra Cambaya, os quaes quando fe vi- 
ram 



Década I. Liv. X. Cap. ,V. 42? 

ram cercados da noffa Armada , por fegu- 
rarem fuás peílbas, e fazenda, fingiram que- 
rer comnofeo pazes : e que EIRey de Cei- 
lão lhe tinha encommendado , que quando 
paíTaííem pela coita da índia , noíificaíTem 
ao Vifo-Rey , que mandafle a elle alguma 

Èeífoa pêra aífentar paz , e amizade com 
URey de Portugal pola vizinhança que ti- 
nha com os feus Capitães , e fortalezas , 
que fizeram na índia , e também por caufa 
da canella , que havia naquella fua Ilha , e 
outras mercadorias , que lhe podia dar pê- 
ra a carga de fuás náos per via de commu- 
tacão. D. Lourenço como hia a defeubrir, 
e tomar as náos dos Mouros de Meca , que 
andavam navegando do eftreito pêra Mala- 
ca per aquelle novo caminho , e na carga 
dos Elefantes , que aquelles tinham , com a 
mais informação que teve dos Pilotos da 
terra que levava , foube ferem náos de Cam- 
baya , com que não tínhamos guerra 3 não 
lhe quiz fazer dam no algum : e por tam- 
bém entrar com mão armada naquella par- 
te t onde os Mouros tinham lançado fama 5 
que os Portuguezes eram coflairos do mar , 
mas ante acceptou o que offereciam da par- 
te d'ElRey. E per meio delies fez vir al- 
guma gente da terra , per cujo aprazimento 
metteo hum Padrão de pedra em hum pe- 
nedo j e nelle mandou efeulpir humas letras 

co- 



*\z6 ÁSIA de João de Barros 

como elle chegara alli , e defcubríra aquel- 
la Ilha ; e Gonçalo Gonçalves , que era o 
pedreiro da obra, peró que não fofle Hcr- 
coles pêra fe gloriar dos Padrões de feu de£ 
cubrimcnto , eram cites em parte de tanto 
louvor , que poz o feu nome ao pe delle , 
c aíli fica Gonçalo Gonçalves mais verdadei- 
ramente por pedreiro daquella columna , do 
que Hcrcoles lie auctor de muitas , que lhe 
os Gregos dão em fuás efcrituras. Os Mou- 
ros como viram que D. Lourenço fegurou 
nas palavras , que lhe elles diíferam da par- 
te d'E!Rey , fingiram irem , e virem com 
recados a elle, e per derradeiro trouxeram 
quatrocentos babares de canella da que el- 
les tinham recolhida em terra pêra carrega- 
rem , dizendo , que EIRey cm final da paz i 
e amizade, que defejava ter com EIRey de 
Portugal , em quanto a não afientava per 
feus Embaixadores , lhe offerecia toda aquel- 
la canella pêra carregar os feus navios , fe 
quizeíle. E porque D. Lourenço difle , que 
queria mandar recado a EIRey, elles fe of- 
íerecêram de levar , e trazer as peííòas que 
elle ordenaffe pêra iflb , as quaes foram , 
Payo de Soufa : que hia em lugar de Em- 
baixador , e por feu Efcrivão Gafpar Dias 
filho de Martim Alho morador em Lisboa , 
e Diogo Velho criado de D. Martinho de 
Caílello-branco Veador da fazenda d'ElRey , 

que 



Década í. Liv. X. Cap. V. 427 

que depois foi Conde de Viila Nova , e 
hum Fernão Cotrim , e outras peíToas de 
feu ferviço. Os quaes entregues aos Mou- 
ros , que negociavam efta ida , foram leva- 
dos per tão baffo arvoredo , que quaíi não 
viam o Sol 5 dando tantas voltas 3 que lhe 
parecia mais labyrintho que caminho direito 
pêra alguma parte \ e andando hum dia to- 
do , os mettêram em hum lugar efcampa- 
do j onde efta v a muita gente , e no cabo 
delle havia humas caías de madeira que pa- 
recia coufa nobre , onde lhe diíTeram que 
viera folgar , por aquelle lugar fer huma 
maneira de quinta. No cabo do qual e£ 
campado boa diftancia das cafas , os fizeram 
deter 5 dizendo , que não lhe convinha paf- 
far dalli fem licença d'ElRey ; e começa- 
ram de ir , e vir com recados 9 e perguntas 
a Payo de Soufa, como que vinham d 5 El- 
Pvey , moílrando ter contentamento de fua 
ida. Finalmente Payo de Soufa fomente com 
dous dos feus foi levado áquelle lugar , on- 
de , fegundo diziam os Mouros , eftava a 
peíToa cTElRey ; e tanto que chegaram a 
elle ', logo os efpedio, moílrando ter con- 
tentamento de ver coufas d'ElRey de Por- 
tugal , dando graças a elle Payo de Soufa 
por fua ida 5 e ao Capitão mor que os man- 
dara a elle ; e que fobre a paz 5 e amizade , 
que defejava ter com EiRey de Portugal, 



428 ÁSIA de João de Barros 

elle mandaria a Cochij fcus Embaixadores > 
e que em final delia enviara a canella , e 
lhe mandaria dar o que houvelíe mifter pê- 
ra provisão da Armada , e com ifto o el- 
pedio. O qual modo de Payo de Soufa em 
ir ? e vir per mão daquellcs Mouros , e che- 
gada a efte lugar , e prática que teve com 
cita peflòa , que lhe diziam fer d'ElRey de 
Ceilão , tudo foi artificio delles , e quaíl 
huma reprefentaçao de coufas que não eram , 
parte das quaes Payo de Soufa entendeo , 
e depois fe fouberam cm verdade. Cá efte 
homem com quem elle fallou , ainda que em 
o tratamento de fua peflba , e gente , que 
o reverenciava , parecia fer quem lhe di- 
riam , elle não era EIRcy de Ceilão , mas 
o Senhor do porto de Galé; e outros qui- 
seram dizer que nem elle era , mas qualquer 
outra peífoa nobre , que por feu mandado , 
e artificio dos Mouros fe moftrou aos nof- 
ibs naquelle modo , e lugar , ifto a fim que 
elles por aquella vez feguraífem fuás náos ; 
e em quanto andavam nifto , recolherem a 
fazenda que tinham nellas a terra , como 
fizeram. D. Lourenço quando foube de Payo 
de Soufa o que paíTava y e fentia daquelle 
cafo , dilTimulou com os Mouros ; porque 
como aquella Ilha era de Rey Gentio , (pof- 
to que naquelle tempo não fe fabia verda- 
deiramente de fuás coufas ; ) pareceo-lhe que 

ora 



Década I. Liv. X. Cap. V. 429 

ora clle foífe aquelle 5 com que Payo de 
Soufa fallou , ou não, podia fer tudo or- 
denado per elle , por todolos Reys Gentios 
lerem mui íuperfticioíbs no modo de^ fe com- 
niunicar comnofco , e que per ventura os 
Mouros o teriam aíTombrado que o não íi- 
zeíTe j e fem querer mais examinar efte ca- 
io , porque o tempo lhe não confentio ef* 
tar naquelle porto em que corria nico 9 fez- 
fe na volta de Cochij. E porque Nuno Vaz 
Pereira com o tempo rijo, que os fez ale- 
vantar , quebrou a verga grande do feu na- 
vio , foi neceffario tornar outra vez ao por- 
to , onde achou que o noíTo Padrão eílava 
já chamufcado de fogo , como que lho pu- 
zeram ao pé ; e pedindo razão diíTo aos 
Mouros que alli eftavam , deram a culpa 
nos Gentios da terra , dizendo , que por fer 
gente idólatra fe lhe entolharia alguma cou- 
lâ por onde o fizeflem. Nuno Vaz amoeí- 
tando o cafo em modo de ameaças , fe 11a- 
quillo mais procedeífem, diíllmulou o paf- 
íâdo • e concertada a verga do feu navio, 
tornou-fe a D. Lourenço , o qual achou 
na coita da índia em hum lugar chamado 
Berinião , que he do fenhorio de Coulao. 
E porque alguns Mouros que alli viviam 
foram na morte de António dé Sá , fahio 
D. Lourenço em terra , e queimou o lugar ; 
em que também houve fangue dos naturaes , 

e dos 



430 ÁSIA de João de Barros 

e dos noflbs na rcíiftcncia que fizeram ao 
fahir em terra , e queimar de certas náos , 
que alli eftavam cfperando carga; e toma- 
da efte emenda do damno que aquelles Mou- 
ros tinham feito , partio-fe D. Lourenço pê- 
ra Cochij 5 aonde chegou com fua frota. 

CAPITULO VI. 

Da viagem , que fez Cyde Barbudo com 
Pêro Quarefma : e como por caufa das no- 
vas , que elle levou ao Vifo-Rey , que Pêro 
da Nbaya era falecido em Çofa/a , e divi- 
sões , que havia em Quiloa , por fer mor- 
to EIRey Mahamed , elle Vifo-Rey mandou 
a Nuno Vaz, Pereira a prover neftas cou- 
fas , e a fervir de Capitão em Çofala : e 
das mais coufas , que fuccedêram em Qui- 
loa > tê que de todo a leixãmos. 

CYde Barbudo , e Pêro Quarefma , ( co- 
mo atrás fica , ) partidos defte Reyno , 
cuidando que tinham dobrado o Cabo de 
Boa Efperança , acháram-fe na angra das 
áreas , que he áquem dellc obra de cento 
e íincoenta léguas , e com voltas ao mar , 
e á terra trabalhofamente chegaram á agua- 
da de Saldanha , onde fizeram algum refga- 
te de mantimenros com os Cafres; e aqui 
fe paflbu Cyde Barbudo ao navio de Pêro 
Quarefma , por elle levar o cargo deíle def- 

cu- 



Década I. Liv. X. Cap. VI. 431 

cubrimento , e Pêro Quarefma á íiia. náo. 
Dobrado o cabo , porque os tempos o não 
leixáram dçícubrir á fua vontade , princi- 
palmente no lugar da fufpeita , que era na 
aguada de S. Braz , fendo a efte tempo já 
apartado de Pêro Quareíma , tanto andaram 
com os tempos hum fobre outro , té que 
fe ajuntaram no lugar , onde o Piloto fe 
affirmava ver eílar Pêro de Mendoça enca- 
lhado , vindo elle por Piloto da náo de Lo- 
po d' Abreu. E por efte lugar fer o da Íuf- 
peita 5 onde parecia que a náo podia vir á 
coita , lançou Cyde Barbudo dous degreda- 
dos em terra, os quaes hiam offerecidos a 
eííe trabalho de correrem ao longo da cof- 
ta , e faberem dos Cafres fe havia alguma 
gente branca no fertão , os quaes dahi a fe- 
te dias tornaram áquelle lugar de fufpeita, 
onde os navios não podiam chegar com os 
tempos , e deram por nova acharem parte 
da liaçao da náo queimada 5 como que vie- 
ra ter á cofta, fem os Cafres lhe íaberern 
dar razão da gente. Pelos quaes íinaes hou- 
veram que a náo era perdida , e tiveram 
pêra íi que o fogo fora pofto pelos Cafres , 
por tirarem a pregadura da náo , por entre 
elles o ferro fer eílimadoj e o maior dam- 
no que fizeram a eftes dous degredados y 
foidefpojailos do veftido que levavam. Tor- 
nando Cyde Barbudo á fua náo , e Pêro 

Qua- 



432 ÁSIA de João de Barros 

Quarefma ao navio , nzeranvfe via de Ço- 
fala , onde acharam Pêro da Nhaya morto , 
e muita parte da gente , e a outra tão de- 
bilitada de doença , que a fortaleza eftava 
na cortezia dos Mouros ; pofto que Manuel 
Fernandes , que então fervia de Capitão , 
trabalhaífe muito na vigia delia. Cyde Bar- 
budo leixando-lhe alguma gente , e provi- 
são do que levava , e a Pêro Quarefma cm 
o feu navio pêra melhor guarda da fortale- 
za , partio-íe dalli em Junho do anno de 
quinhentos e íeis ; e paliando per Quiloa , 
achou que em feu modo eftava em tanta 
necellidade , como Çofala ; porque o noífo 
Mahamed Anconij era morto , e fobre a 
fuccefsão doReyno eftava a terra pofta em 
bandos , aíli entre os Mouros , como acer- 
ca do Capitão Pêro Ferreira , e Officiaes ; 
e pofto que Cyde Barbudo em aquelle ne- 
gocio fez pouco por não poder mais , fez 
muito com fua chegada á índia. Cá faben- 
do o Vifo-Rey parte do eftado em que fi- 
cavam çftas duas fortalezas , efpedio logo 
a Nuno Vaz Pereira em o navio , em que 
andava Gonçalo Vaz de Góes 5 pêra vir ef- 
tar por Capitão em Çofala ; e prover em 
as difterenças de Quiloa. E mandou com 
elle hum navio , de que era Capitão Duar- 
te de Mello de Serpa feu fobrinho, e aíli 
yixún Franciíco da Nhaya pêra arrecadar 

a fa- 



Década I. Liv. X. Cap, VI. 433 

a fazenda de feu pai defunto > e o ouro ? 
que lhe Pêro Ferreira tomou em Quiloa ao 
tempo que alli veio ter perdido ; e aíii vi- 
nha com elle pêra fervir de Alcaide mor 
da fortaleza de Çoíaia Ruy de Brito 5 que 
era provido por EIRey na vagante de Ruy 
de Souía , por a efte tempo elle fer já fa- 
lecido 5 e António Rapofo , e Sancho San-* 
ches porEfcrivães da Feitoria. Trazia mais 
Nuno Vaz , e a Luiz Mendes de Vafcon- 
cellos da Ilha da Madeira , e António de 
Soufa , que fora de Çofala com Cyde Bar- 
budo , e Fernão de Magalhães , que de- 
pois fe lançou em Caítella com a empreza 
de Maluco ; e aíii outras peííbas nobres , 
por Nuno Vaz fer homem bem quifto , e 
por razão de fua amizade . folgaram de vir 
com elle , poílo que era ícm cargos. E o 
primeiro porto ? que tomou no fim de No- 
vembro de quinhentos e féis , foi Melinde , 
onde o Rcy da terra os recebeo com muito 
prazer , e á efpedida lhe concedeo Nuno 
Vaz que pudeíTe mandar duas faraçolas , que 
ferao trinta e féis arrates dos noífos de 
contas de Cambaya pêra fe lá refgatarem a 
troco d'ouro ; e aíii lhe deo hum Mouro 
velho , que trazia por efcravo , o qual fo- 
ra tomado em Quiloa por cativo , porque 
ao tempo que coroavam Mahamed Anco- 
nij por Rey 3 eíte Mouro em defprezo de 
Tom, L P. iL Ee fua 



434 ÁSIA de João de Barros 

ília peílba lhe fez hum defacatamcnto , as 
quaes coufas Nuno Vaz lhe concedeo por 
honra de liia pelíoa. Porém pedio-lhe que 
lhe deííe licença que levaíTe o Mouro a 
Çofala , por íer homem que fabia os nego- 
cies delia , e que de lá lho mandaria polo 
Feitor , per quem elle enviava as contas de 
Cambaya ; e depois que Nuno Vaz poz 
cfte Mouro cm íua liberdade , ficou no ef- 
tado que efantes tinha , que era dos prin- 
cipaes da terra : fazemos deile cila menção , 
porque ato diante fjrve iaber eíle fundamen- 
to de fuás couías. E porque Nuno Vaz 
ibube aqui mais particularmente a caufa das 
diífcrenças de Pêro Ferreira com os Officiaes 
da fortaleza , que era a morte d'ElRey Ma- 
hamed , donde procedeo defpovoar-fe Qui- 
loa , o qual negocio elle trazia mui encom- 
mendado do Vilb-Rey 5 fera neceíTario fa- 
bermos o fundamento delia , como atrás ef- 
crevemos. Por razão do Regimento 5 que 
EIRey D. Manuel mandou a Quiloa fobre 
a guarda da coita de Çofala , que ninguém 
traílaíTe com roupa , e fazenda ; perque fe 
havia ouro das rnaos dos Cafres da terra , 
andavam d'Armada hum navio, e hum bar- 
gantiín , que Pêro Ferreira Capitão de Qui- 
loa ordenou pêra efta guarda ; e entre al- 
gumas prezas que fizeram foi tomar huma 
náo ? que vinha das Ilhas de Angoxa , em 

a qual 



Década I. Liv. X. Cap. VI. 43? 

a qual íe achou hum filho cPElRey de Ti- 
rendincunde. O qual, poílo que mui vizi- 
nho era de Quiloa , como eíiava de guer- 
ra comnoíco por fer parente de Habraemo 
Rey que foi delia 9 Pêro Ferreira o houve 
por cativo , e a toda ília família. EIRey 
Mahamed Anconij , como era homem no- 
vo , e íem parentes na terra ., defejando ga- 
nhar os vizinhos com benefícios pêra os ter 
no tempo de fuás neceflídades 3 refgatou ei* 
te filho d'ElRey com toda fua família por 
três mil mitícaes d'ouro , e bem tradtado , 
e veftido , como filho de quem era , o man- 
dou a feu pai. G qual quando o vio livre 
em tão breve tempo 5 primeiro que elle nif* 
fo commettefle alguma coufa , mandou lo- 
go a EIRey Mahamed grandes agradeci- 
mentos daquella tão grande obra cPamiza- 
de ? pedindo-lhe que por quanto ollc eftava 
cm ódio com a noíTa fortaleza , e não po- 
dia ir a elía , vieííe ver-fe com elle 3 pêra 
praticarem em coufas que muito importavam 
ao bem d'ambos , dando-lhe a entender ca- 
famentos d 5 antre filhos ; e que quando fo£ 
fe \ lhe entregaria os mitícaes que dera po* 
lo filho. EIRey Mahamed polo grande de- 
fejo que tinha de comprazer a efte , pofto 
que o Capitão Pêro Ferreira o avifòu que 
não fe fiafíe deíle , cá pois eíláva mal com- 
noíco , também o eftaria com elle por fer 
Ee ii pa- 



436 ÁSIA de João de Barros 

parente de Habraemo , todavia em huns 
zambucos com alguns feus , mais cm acto 
de fefta , e vidas de amizade , que íuípcita 
de traição , le foi ver com o outro , que o 
matou em pagamento do beneficio que lhe 
tinha feito , jazendo EIRey Mahamed dor- 
mindo em o zambuco em que foi. Toman- 
do por defeulpa deita maldade dizer , que 
mais obrigado era ao fatigue , e parentelco 
que tinha com EIRey Habraemo , (por vin- 
gança do qual ellc fazia aquella obra , ) que 
ao beneficio de Mahamed Anconij. Sobre 
a íiicceísao do qual lc armou toda a divi- 
são que diflemos , e citava a Cidade repar- 
tida neítas duas partes : os Officiaes da Fei- 
toria com alguns Mouros por parte de Agi 
Hocem filho deite Mahamed defunto , apre- 
fentavam a Carta do Vifo-Rey D. Francif- 
co , em que relatava os feus méritos acer- 
ca das coufas do ferviço d'E!Rey D. Ma- 
nuel , e as traições , e maldades de Soltão 
Habraemo y polas quaes caufas elle em no- 
me d'E!Rey D. Manuel o fazia Rey da- 
quella Cidade deQuiloa com todalas terras , 
e fenhorios que tinha , e lhe dava o dito 
Reyno de juro , e herdade com as condi- 
ções na doação conteúdas. De outra parte 
o Capitão Pêro Ferreira 3 e alguns Mouros 
principaes da terra , e os Cafres da Ilha 
Songo huma légua de Quiioa , diziam que 

não 



Década I. Liv* X. Cap. VI. 437 

não era ferviço d'ElRey de Portugal reinar 
homem tão baixo , corno o filho de Maha- 
med Anconij ; com as quaes divisões poios 
bandos , e ódios que delias recreícêram J 
muitos moradores da Cidade fe foram vi- 
ver a Melinde , e a Mombaça , e per toda 
aquella coita. Ajuntou- fe também a eftas dif- 
ferenças as tomadias , que os noííos faziam 
por caufa da defeza do regimento , que de- 
fendia que os Mouros não tradlaííem em 
as coufas que tinham valia em Çofala ; e 
porque elles muitas vezes eram comprehen- 
didos nefta defeza j, e os noílbs que anda- 
vam em os navios em guarda da coita , com 
titulo de ferviço d'ElRey , ás vezes exce- 
diam o modo , defpovoava-fe a terra com 
eítes rigores. Nuno Vaz fabendo parte def- 
tas coufas , como defejava que Quiloa tor- 
nafle a feu eftado , perguntando poio remé- 
dio delias j per confelho de hum António 
d'Afonfeca , que já eítivera em Çofala com 
Francifco da Nhaya , e affi parecer delle 
mefmo que alli vinha , e de outras peííoas , 
que entendiam bem o trado da terra, man- 
dou notificar em Melinde , Mombaça , e 
Quiloa y e per toda aquella coíla , que to- 
do o mercador natural de Quiloa iegura- 
mente pudeíle vir a ella a tractar em mer- 
cadorias que tra6lava , adi , e pola maneira 
que fe fazia em tempo d ? ElRey Habraemo , 

fem 



438 ÁSIA de João de Barros 

íèm incorrerem nas penas cm que incor- 
riam pela defeza. Com a qual coufa tanto 
que foi fabida per toda a terra , começa- 
ram os Mouros embarcar com íuas mulhe- 
res 3 e filhos de maneira, que quando Nu- 
no Vaz chegou á Cidade de Quiloa hiam 
já em fua companhia mais de vinte zambu- 
cos , todos carregados de povoadores , que 
levavam muitas mercadorias pêra Quiloa , 
onde chegou meado Dezembro , e alli achou 
Lionel Coutinho Capitão da náo Leitoa , 
que com hum temporal fe perdeo da Ar- 
mada de Triftão da Cunha , (como adiante 
veremos.) E porque todas as divisões da 
terra procediam da eleição do Rey novo , 
tanto que Nuno Vaz rcpoufou de fua che- 
gada , quiz logo entender niiTo , pêra que 
foram chamados todolos principaes Mou- 
ros da terra , e os que com elle vinham de 
Melinde , e aífi as partes que contendiam 
nefte negocio , que era hum Mouro chama- 
do Micante , primo de Habraemo Rey paf- 
fado , e Hocem filho de Mahamed Ancc- 
nij. Os quaes em juizo mandou Nuno Vaz , 
que cada hum per íi allegaíTe de feu direi- 
to , e moítraíTe a acção que tinha em feu 
requerimento ; e dada primeiro a voz a Mi- 
cante 3 como homem favorecido do Capi- 
tão , e de Lionel Coutinho , e de outros 
de fua valia., com boa parte dos principaes 

da 



Década I. Liv. X. Gap. VI. 439 

da terra , diiTe , que a razão que tinha na 
fuccefsão daquelle Reyno , era fer pedido por 
Rey por todos os principacs da terra , por elle 
proceder do real fangue dos Reys , que fun- 
daram , e povoaram aqueiia Cidade , e fer 
conjundto em parentefco com EIRey Ha- 
braemo , o qual não fendo deílerrado ., mas 
em poífe do Reyno , eftando em artigo de 
morte , o denunciara por feu herdeiro 3 po- 
las quaes razões todos o receberam fem con- 
tradicção por Pvey 3 fomente algumas peffoas , 
que alli eram preíentes. E que affi no efta- 
do, em que aqueiie Reyno eftava , que era 
em poder d 5 ElRey de Portugal , a elle por 
ferviço do dito Senhor fe lhe devia dar, po- 
la terra eftar em paz , e concórdia > e não 
fe defpovoar polo defcontentamento que ti- 
nham em eftar debaixo da obediência 5 e go- 
verno de homem , que não era da linha- 
gem dos Reys de Qiiiloa. Hocem filho d'EI- 
Rey Mahamed , quando lhe Nuno Vaz 
mandou que diífeíTe de feu direito \ refpon- 
deo , que elle não tinha mais que dizer , 
que quanto eftava efcrito naquella patente , 
que aprefentava do Vifo-Rey , em que fe 
refumiam os ferviços de feu pai , e os de- 
lidos d'E!Rey Habraemo : que quanto ao 
que Micante dizia , que com elle feria a 
terra mais pacifica , a Cidade não fe gover- 
nava per feu pai , nem menos fe havia de 



440 ÁSIA de JoXo de Barkos 

governar porMicante, fenao pelos Capitães 
d'EIRey de Portugal leu Senhor, que alli 
reíidiflem , por aquella Cidade fer fua , e a 
ter ganhada por juftiça de armas , da qual 
ellc podia diipôr como de couía fua pró- 
pria. Que fe os Capitães da fortaleza favo- 
receííem a qualquer pelfoa em nome d'El- 
Rey leu Senhor , iíto bailava pêra toda a 
Cidade eílar em paz , quanto mais fendo 
peffoa , a quem EIRey de Portugal feu Se- 
nhor tinha concedido a real dignidade : a 
qual quando per elle folie concedida a al- 
guma pcíToa , ainda que defeitos tiveííe , o 
leu querer habilitava a parte ; e aquelles 
que o contradifleíTem , deviam fer fufpeito- 
fos a feu ferviço. Ouvindo Nuno Vaz ef- 
tas , e outras razões , que íobre elle cafo 
per ambas as partes foram allegadas , jul- 
gou que fe cumpriíTe a doação que Hocem 
tinha , e que per cila elle o havia por Rey 
de Quiloa , c logo alli o denunciou com 
folemnidade que lhe foi feita. E porque a 
caufa principal , que fazia dcfpovoar z Ci- 
dade , procedia do modo com que os Offi- 
ciaes queriam executar as penas da defeza 
do Regimento \ e fobre iífo era tomada al- 
guma fazenda a três , ou quatro Mouros 
jprincipaes ; tanto que Nuno Vaz lha man- 
dou tornar com a mais liberdade que con- 
cedeo pêra que traétáffem , (fegundo a no 

ti- 



Década I. Liv. X. Cap. VI. 441 

tificação que mandara , ) ficaram todos tão 
contentes, que não fe tractou mais na fuc- 
cefsao do novo Rey ? e a Cidade ficou pof- 
ta em quietação , com que muitas cafas > 
que eílavam fechadas , foram abertas , e po- 
voadas. AíTentadas eflas , e outras coufas , 
que havia pêra fazer em Quiloa , em que 
Nuno Vaz moftrou ter tanta parte de pru- 
dência , como tinha de cavalleiro, leixan- 
do alli porOfficial a Luiz Mendes de Vaf- 
concellos , que viera em fua companhia, 
partio-fe pêra Çofala. E paliando per Mo- 
çambique achou alli três náos , e hum na- 
vio , de que eram Capitães as peflbas que 
adiante veremos , as quaes velas foram def- 
te Reyno aquelle anno de quinhentos e féis 
com Triftao da Cunha , a viagem do qual 
diremos nefte feguinte Livro , leixando Nu- 
no Vaz, que foi tomar poííe da capitania 
de Çofala , aonde chegou a falvamento a 
tempo que ella tinha bem neceílidade de 
fua chegada. Porém ante que entremos nef- 
ta relação , porque dahi a poucos dias que 
Nuno Vaz aflentou as coufas de Quiloa 5 
ella fe tornou a revolver fomente por a fuc- 
cefsao do Reyno , que caufou desfazer-fe a 
fortaleza que alli tinhamos , por não tornar- 
mos mais a ella, procederemos no que fuc- 
cedeo depois. Agi Hocem novo Rey, co- 
mo nos primeiros dias fe vio com o favor 

de 



44^ ÁSIA de JoÃo de Barros 

de Nuno Vaz , que eftava em Çofala pofto 
naquelle eftado , ordenou logo fazer guer- 
ra ao matador de feu pai : pcra cftedto da 
qual fecretamente mandou a hum Príncipe 
Gentio dos Negros chamado Muiiha Mon- 
ge , homem poderolb em gente , que vieííe 
per terra com todo feu poder fobre Tirenr 
dincunde, e elle iria per mar a hum certo 
dia pêra darem nelle defapercebido , com 
que o deftruiffem a fogo , e a langue. Con- 
certada efta ida a poder de grandes dadi- 
vas , aue Hocem deo a eííe Munha Mon- 
ge , que entre elles quer dizer Senhor do 
Mundo , deram ambos em Tirendincunde , 
e deílruíram toda a terra , levando os Ca- 
fres a maior parte da gente cativa , e o feu 
Rey efeapou. Com a qual viétoria elle fi- 
cou tão gloriofo , que caufou todo o traba- 
lho que depois teve, porque dahi cm dian- 
te começou de fe querer com a noíTa con- 
verfaçao pôr em maior eílado do que era 
a renda , gaitando quafi quanto lhe ficou 
de feu pai , e nefte tempo eferevia aos Pveys 
de Melinde Zemzibar , e de toda aquelía 
coita , como homem que fe tinha em mais 
conta que elles. E como os Mouros tem 
niílo grande vaidade 5 affi ficaram efcandali- 
zados delle , que os ganhou por imigos ., e 
também porque muitos vaífallos delles eram 
mortos na ida que elle Hocem fez ., em que 

hou- 



Década I. Liv. X. Cap. VI. 443 

houve efta viétoria ; os quaes nefte tempo 
que elle partio eítavam em Quiloa fazendo 
mercadorias , e entre rogo , e força os le- 
vou comfigo , por razão dos quaes mortos 
havia muitas lagrimas ? e pragas entre to- 
dolos Mouros ; e o que elles mais abomi- • 
navam era fer elle caufa de os Cafres leva- 
rem tantos Mouros cativos. Finalmente en- 
tre inveja , ódio , e paixões de feu gover- 
no , aííl os que eram contra elle que não 
reinaíTe , como eftes Reys noílos amigos ? 
que nomeámos , que elie ganhou por imi- 
gos com a mageítade de feu eferever, to- 
dos foram em hum animo de o difpôr , o 
fim do qual negocio acabou em cada hum 
deites per íi eferever ao Vifo-Rey á índia , 
que fe queria ter aquella terra em paz 5 e 
que fe não defpovoaífe Quiloa , mandaíle 
tirar do governo a Hocem , e pôr nelle Ha- 
braemo Rey que fora delia ; e quando el- 
le não quizeíle 5 fofíe feu primo Micante, 
que já eítivera eleito pêra iifo. O Vifo-Rey 
vendo tanto requerimento contra Hocem, 
efereveo fobre iífo a Pêro Ferreira ; e por 
Habraemo não fe fiar de nós , não aecep- 
tou o governo da terra , e foi alevantado 
por Rey Micante , e difpofío Flocem : o 
qual vendo-fe com toda a fazenda , que 
herdara de feu pai, gaitada na vingança de 
iua morte , e que eftando em Quiloa corria 

rif- 



444 ÁSIA de JoÃo de Barros 

rifco de o matarem feus imigos 3 pedio a 
Pêro Ferreira que o mandaífe pór em Mom- 
baça , como Fez , onde dahi a pouco tem- 
po acabou íèus dias mais miferamente que 
hum homem do povo. Micantc , que o fuc- 
cedeo ; poíto que nos primeiros dous annos 
moftrou bom governo , damnou-íc depois 
em tanta maneira , que dco maior trabalho 
á terra do que tinha cm tempo deHoccm; 
porque não fomente era aborrecido dos nof- 
ios por fe tomar muito do vinho com que 
fazia grandes males. , mas ainda dos pró- 
prios Mouros , que íblicitáram vir cllc áquel- 
le eílado , porque a huns tomava as mu- 
lheres j a outros matava , fingindo que o 
queriam matar , de maneira que andava en- 
tre elles como hum açoute por parte de 
Hocem, difpofío daquelie eílado. E o que 
damnou mais as couías deite Mouro , foi 
acabar Pêro Ferreira de fervir de Capitão 5 
e fuecedeo-lhe Francifco Pereira Peítana fi- 
lho de João Peftana ; que como era homem 
de condição forte , c achou difpoíição em 
Micante , accendeo-fe o fogo. na matéria , 
que hum fe não fiava do outro. No qual 
tempo efte Micante , fabendo que feu pri- 
mo Habraemo defterrado fentia muito eftar 
eile no governo daquella Cidade , temendo- 
fe delle , ordenou de lhe fazer guerra , a 
qual rompida houve entradas de huma , e 

ou- 



Década L Liv. X. Cap. VI. 445* 

outra parte , em que os noflbs verteram feu 
fangue , e os metteo em grande afronta. 
Porque íuccedeo efta guerra em tempo que 
na fortaleza nao havia mais que quarenta 
homens que tomaflcm armas , todolos ou- 
tros eram enfermos : em huma das quaes 
entradas , que os Mouros da terra firme fi- 
zeram na Ilha com grande número de Ca- 
fres , de que era Capitão Mungo Cayde 
irmão de Habraemo , ( porque eile nunca 
oufou de vir em peífoa , ) Francifco Perei- 
ra lhe cativou hum fobrinho per nome Mu- 
nha Carne , e matou muita gente ao paliar 
do rio , ao qual Francifco Pereira teve mui- 
to tempo prezo. E porque com eíles traba- 
lhos da guerra, e cuidado de fe defender, 
Micante algum tanto andava emendado 
defeus vicios , e pelejava como cavaílciro, 
e pelo ódio que tinha ao primo guardava 
lealdade á fortaleza , Francifco Pereira lhe 
fofria feus defmanchos. Com as quaes re- 
voltas fe damnou tanto o fundamento pê- 
ra que EIRey D. Manuel mandou tomar 
aquella Cidade de Quiloa , que fendo avi- 
fado diífo , principalmente depois que Af- 
fonfo d ? Albuquerque foi Capitão mor da 
índia 5 que não favorecia muito as coufas, 
em que o Vifo-Rey poz algum trabalho, 
polas diíFerenças que ambos tiveram , (como 
fe adiante verá , ) que lhe mandou desfazer 

a for- 



446 ÁSIA de JoÁo de Barros 

a fortaleza de Quiloa , e que Francifco Pe- 
reira fe paífaífe pêra a de Socotorá , que 
clie Affonfo d 5 Albuquerque ajudou a tomar 
em companhia de Triftão da Cunha , ( co- 
mo logo veremos na entrada do primeiro 
Livro da fegunda. Década : ) aíli que vindo 
efte mandado d'EÍRey D. Manuel , defe- 
jando Francifco Pereira , ante que fe foíle 
de Quiloa, diípôr a Micante, e metter cm 
poííe da Cidade a Habraemo , mandou-ihe 
iòbrc iflb alguns recados ; mas elle não con- 
fiava que verdadeiramente Franciíco Perei- 
ra o queria fazer, ante lhe parecia que os 
ódios dentre clie , e Alicante eram artifí- 
cios pêra o haverem ás mãos , por ver que 
no tempo da guerra , que contra elle fe fa- 
zia , eram mui conformes ; e mais manda- 
va-lhe por refpoíla que lhe tinha prezo feu 
fobrinho Munha Carne , como podia efpe- 
rar delle o que lhe mandava offerecer. Fi- 
nalmente eftando Francifco Pereira já em- 
barcado pêra fe partir , foltou Munha Ca- 
rne , e Habraemo fe veio ver com elle no 
mar , e ficou meítido na poífe da Cidade , 
fugindo delia Micante , o qual depois per- 
íeguido defte feu primo , acabou feus dias 
tão miferavelmente como Agrihoccm , e jaz 
enterrado em a Ilha Quirimba , onde fe 
elle acolheo. Partido Francifco Pereira pê- 
ra a índia , ficou Habraemo Rey pacifico 

re- 



Década* I. Liv. X. Cap. VI. 447 

reformando a terra em melhor citado do 
que a tinha ante que per nós lhe fbfíe to- 
mada ; porque os trabalhos que paílbu o 
eníináram a governar , encommendando fem- 
pre a feus filhos que foliem leaes ao fervi- 
ço d'ElRey D. Manuel : affi que o difcur- 
íb da vida deíle Habraemo , pofto que foífe 
Rey , acabou em huma notável comedia 
das voltas do Mundo , e a morte de Ma- 
hamed Anconij , e de íeu filho Micante em 
tragedias, que em feu modo muito fervem 
pêra contemplação das coufas delle. 



Fim da Década I. 










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